olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Até depois do fim

Pensei uma, duas, várias vezes antes de publicar este texto. Não tem imagem. Infografia, elementos multimédia. Tem apenas as palavras que escrevi naquele momento. Porque em momentos assim, não consigo falar. Articular uma palavra. Remeto-me ao silêncio. Escrevo. 

Publico porque esta será a única forma de poder fazer duas coisas: homenagear um amigo; dizer-vos que a vida é para ser vivida, que todos os momentos contam, que temos de encontrar o nosso propósito, vivê-lo intensamente e não aceitar não sermos felizes. 

O que hoje publico não tem qualquer revisão ou edição. Porque não se podem editar sentimentos ou escolher palavras quando os queremos exprimir.

 ao meu amigo que morreu

 num momento, tudo muda. A frase está esgotada, por ser verdade. Num instante estamos a rir e a discutir o futuro. No outro...

Toca o telefone. Vindo de quem vem, esperamos coisas boas. Perguntam-nos se estamos sentados. É algo em grande e estão a fazer suspense. Não era. Era grande, a má notícia. Não há forma correcta de dizer que um amigo morreu. Que teve um acidente vascular cerebral fulminante. Não há reacção. Palavras. Nada. Nada serve para responder. Não há resposta. Não há reacção. Não há forma de descrever, por gestos, palavras ou expressão o que sentimos nesse momento. É o chão que nos sai dos pés quando estamos com os pés no chão. É o mundo que pára enquanto, à nossa volta, tudo continua a acontecer. É um sinal com uma mão, olhos no chão e voz descompassada que faz com que quem está ao nosso redor perceba que algo aconteceu. É não acreditarmos porque não se acredita numa coisa assim. É não conseguirmos processar o significado técnico do que nos dizem, porque sabemos o que significa a morte. Quando morre um grande amigo, morre um pedaço de nós. Todos temos amigos mas uns, são mais amigos do que outros. Não precisamos falar todos os dias porque não deixamos de ser amigos. Neste momento em que só quero o meu amigo de volta, estou a imaginá-lo deitado, inanimado, corpulento mas sem forças, o rosto alegre sem expressão, com tubos que o ligam à vida, adesivos e agulhas que o tornam ainda mais humano do que alguma vez foi.

Todos os filhos da P*** são fantásticos quando morrem, mas este não só não encaixava na definição como era mesmo fantástico. Filho da P*** só por morrer sem pedir autorização, mais nada. Tinha defeitos. Todos do mundo. Mas era uma pessoa muito especial para mim. Mesmo que estivéssemos no registo do "depois falamos", "liga-me", "temos de combinar", eu sei que estávamos à distância de um telefonema e que um "preciso de ajuda" jamais ficaria para depois. Fomos tão próximos que parecíamos namorados mas éramos, na verdade, dois irmãos. Daqueles que se esgadanham e chamam nomes um ao outro, porque gostam e se respeitam genuinamente. Mesmo quando parece que não. Lidámos como soubemos com as ciumeiras dos namorados e namoradas que não entendiam que poderíamos ser bonitos e não nos sentirmos atraídos um pelo outro. Fomos a prova de que um homem e uma mulher podem ser só amigos. Foi isso que formos desde o dia em que nos conhecemos e, por isso, foi tão bom. Foram anos e anos de aventuras, cumplicidades e segredos. Como eu ficava lixada quando não tinhas tempo para ouvir os meus lamentos sobre os gajos que me atormentavam. Valeu-me a tua mãe, fiel conselheira, que me ouvia sempre que não estavas em casa. Quantas vezes nos deixávamos ficar, entre apontamentos e trabalhos a comer os crepes da minha mãe ou o pão com chouriço do meu pai. Não fosses tu, nunca tinha ido à rádio. Àquela rádio, naquele dia. Não fosses tu empurrar-me porta dentro, mentindo com quantos dentes tinha, afirmando que estavam à minha espera e que queriam conhecer-me... Nunca teria lá ido e, provavelmente, não seria quem sou. Como não estar grata por isso? E por tudo o resto que me deste, as gargalhadas e parvoíces. A paciência para aturar as tuas vaidades e manias. Coisas que só os amigos entendem ou toleram. Mesmo que nos tenhamos afastado sob o argumento de que a vida é assim, andámos sempre perto, debaixo de olho para sabermos se o outro estaria bem. Porque sempre foi isso que quisemos um para o outro, independentemente dos nossos caminhos profissionais não se cruzarem. E agora? És mesmo estúpido. E desta vez não consegues fazer-me rir.

Até já. Adeus é demais.

Entre (II)

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