olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Paris

Muito sobre Paris. Muito pouco sobre o que aconteceu, cada vez mais convencida de que nada sabemos, para além dos tiros, vítimas e explosões. 

Deixei-me ir na onda e, naquele momento que considero de introspecção, cedi à tentação de me manifestar, juntar a minha voz à da maioria, gastar a hashtag que circula sem cessar e sem grande significado. Ou com grande significado, virtual. O nosso pensamento está sempre com o das vítimas, contra quem perdeu a humanidade em prol de um suposto bem maior. Mas está sempre mais com umas vítimas do que outras. Pela proximidade. Geográfica, mas não só. Pela identificação. Semelhanças do modo de vida, de pensar e ver o mundo. Pelo inesperado contra o habitual. Não me choca que assim seja. Mas choca-me a dimensão online da comoção em modo rebanho, atrás da espiral do silêncio que, nestes casos, ganha voz nas redes. Não podem existir mortes inocentes mais relevantes do que outras.

Eles, os que fazem estas coisas, estão-se nas tintas para o Facebook pintado de azul, vermelho e branco; o Twitter repleto de hashtags que terminam em Paris ou fotografias da torre Eiffel no Instagram, para lembrar as vítimas deste atentado.  Ou o que quer que tenha sido. Pode muito bem ser outra batalha de uma guerra que há muito começou, e ninguém anunciou.

Não percebo, principalmente porque não quero entender, geometrias e geografias da politica internacional, mas sei uma coisa: não atacaram com cocktails molotov ou armas artesanais. Se as compraram, alguém as vendeu. Quem lucra com estes negócios tem visto, ao longo da história, a mão que alimenta ser mordida por aqueles que a alimentam. Porque podem. Porque a verdade de hoje é a mentira de amanhã e os jogos de tabuleiro ganham uma dimensão incomensurável com vários bispos e reis no mesmo xadrez. 

Sabemos tanto quanto nos contam os filmes de hollywood ou os comentadores dos jornais que tentam recordar a origem do problema. O que é manifestamente pouco. Se mal desvendamos os bastidores da política nacional, o que dizer dos bastidores de uma manipulação mediática que inter-relaciona a política, economia, cultura e religião? Antes fosse a anunciada torre de Babel em que se transformaria o mundo da aldeia global. As ligações, presunções e justificações são demasiado complexas e tenho para mim que tudo se resume a essa característica humana impossível de controlar, a inveja, controlada por uma outra manifestação tão nossa, a intolerância. 

A história do mundo é a história da inveja e, sobretudo, da nossa incapacidade para aceitar o outro como ele é, respeitando-o, aceitando-o e integrando essa diferença. A nossa história é a da anulação da diferença, da parametrização do homogéneo, que é mais fácil de entender. Dos bárbaros às barbaridades do Império Romano, a febre do ouro sob a bandeira do Islão. As cruzadas e os Cristãos nas Américas. O sanguinário Genghis Khan. As trevas da inquisição, a caça às bruxas em Salem e o renascimento que pouco ou nada fez renascer, cabeças que rolaram nas revoluções. Atentados, lutas pelos direitos que, durante décadas, dependeram da cor da pele. Guerras civis, guerras mundiais e Hiroshima para sempre na nossa memória. A guerra fria e a dívisa da liberdade, da lei do mais forte num eterno confronto que se concretizou em Nova Iorque, Madrid, Londres ou Paris, mas também em vôos que cruzam os céus do Meio Oriente a caminho da Europa, abatidos como aviões de papel.

Dentadas na mão que alimenta e simultaneamente se alimenta. Não se pode alimentar e comer no mesmo prato. Como não se pode contribuir para a manutenção de um regime enquanto se ajuda a destruí-lo. A hipocrisia de jogar em duas equipas que se opõem é demasiado perigosa e trouxe-nos aqui, com fronteiras diluídas a ponto de se terem tornado irreconhecíveis e, por isso, impossíveis de respeitar. Circulação e migração de pessoas sem igual em toda a história, no pressuposto igualitário de uma Europa exemplar na abertura ao mundo, de miscegenação de referências e culturas para criar um novo contexto que nunca entendi verdadeiramente.

O resultado é sermos cada vez mais iguais sem abandonarmos as nossas diferenças, olhando de soslaio para tudo e para todos, sob a ameaça em cada esquina ou grande evento. Hitler um dia convenceu milhares de que seriam os melhores do mundo e os que os outros, diferentes deles, seriam a raíz de todos os males, por isso, imperioso eliminar. Qual a grande diferença, agora? O alvo somos todos nós. Porque quando não estão comigo, estão contra mim. Porque perante Deus e o mundo, o mais forte tem o direito de fazer prevalecer a sua vontade.

Onde é que eu já ouvi isto?

A Europa extremizou-se e perdeu o rumo. Quem, são, então, os que nos aterrorizam?

Já não é Paris. Mas continua a ser

Já não é Paris. Mas continua a ser

Londoner

Londoner