olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

body cocooning

Descobri há dias uma iniciativa do portal feminino MdeMulher: conversas em formato vídeo entre um gay e uma gorda. Assim mesmo. Gay. Gorda. A primeira a palavra é comum, aceite e não incomoda ninguém. Acho. Mas se uma gorda incomoda muita gente, a palavra, expressa com todas as letras, incomoda muito mais. Suponho que nenhuma gorda goste de ouvir. Como o careca, o baixinho ou o quatro-olhos. Mesmo que se habituem. Por mais que queiramos encontrar formas carinhosas para designar uma mulher gorda, ela não deixa de ser gorda. Pessoalmente, gosto de gordas, roliças ou volumosas de bem com a vida, que aceitam o seu corpo e aprendem a viver com ele, barafustando contra pregas e refegos que por vezes impedem a roupa de aceitar tão bem como aos cabides - as magras - para quem a roupa é pensada. E também não gosto de aturar as magricelas a choramingar porque comem e não engordam. Get over it.

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A maior parte das mulheres não está de bem com a vida. Porque não está de bem com o seu corpo. Com as suas formas ou a ausência delas. O seu tom de pele ou a cor do cabelo. Os trejeitos, que são seus e as caracterizam. Esquecem-se que são estes aparentes detalhes que nos diferenciam, que criam uma identidade única, mesmo que sejamos um overbooked 38 ou que tenhamos tudo em comum com outras mulheres. Não temos. E vejo isso quando danço, quando caminho na rua, quando olho para mulheres que se escondem delas próprias e do mundo em geral. Não sou de mostrar o que pode esconder-se. A apologia "do que é bom é para se ver" tem muito (mesmo muito) pouco a ver comigo que prefiro esconder a mostrar. Contudo, esconder umas pernas com calças ou collants pretas  opacas não é o mesmo que estar escondida. Também não sou de exibicionismos ou de exacerbar movimentos, tiques e poses. Acredito na naturalidade dos actos e das pessoas, porque é essa naturalidade que torna tudo (ainda mais) interessante. Quando fazemos exercício, também devemos deixar que vença a naturalidade. Especialmente quando somos desafiadas a fazer aquilo que pensamos não saber. Ou conseguir. Nas aulas da Mafalda Sá da Bandeira o desafio é constante: para darmos mais de nós próprias, para esquecermos que há um limite, para sairmos da casca e deixarmos o corpo fluir. E flui, se o deixarmos, o corpo flui. Mais do que possamos imaginar. A libertação nesses momentos é única, mesmo sem sairmos de uma sala com chão de madeira, espelhos e paredes feitas de janelas, abertas para o interior do edifício. Durante alguns momentos esquecemos quem somos e o que ali fomos fazer. Extraímos desse instante o melhor que a dança e o movimento nos pode dar: um despertar do corpo e de quem somos, independentemente de como somos. Seja por conseguirmos deitar a barriga no chão, por esticarmos o braço mais um milímetro ou, simplesmente, por dançarmos até à exaustão... 

Pensar. Falar. Publicar.

Comer. (ad)orar. chorar...