olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Comer. (ad)orar. chorar...

Quando foi que nos tornámos todos parvos? Quando foi que deixamos de conseguir raciocinar, relacionar, interpretar? Quando foi que esquecemos tudo o que já sabíamos - ou deveríamos saber - para absorver notícias sem as questionar, melhor, sem questionar os elementos do seu conteúdo? Ficámos ensalsichados entre palavras sem saber o que significam? Ou simplesmente assustados com as palavras, sem discernir sobre o seu sentido? Que amibas são estas que transformam simples factos em discussões estéreis sobre aquilo que sempre soubemos, mas estávamos alegremente esquecidos?

Cancro. CAN CRO.

Assusta. Muito. Porque nos pode destruir a vida e despedaçar a dos que nos são mais próximos. Cruel e quase aleatória, a doença integrou o nosso léxico instalando-se da mesma forma que passou a fazer parte das nossas vidas. Mesmo com os avanços na medicina, sabemos todos que, para quem escapa, nunca nada volta a ser como antes. Transformada, em casos felizes, numa doença crónica, razoavelmente controlada e, nos casos muito felizes, erradicada, não deixa, contudo, de matar. Destroçar. Aterrorizar. É das piores sentenças que alguém pode receber. E alguém que goste desse alguém. Soa sempre a impossível. A uma mentira tornada instantaneamente verdade. Ninguém quer ouvir e todos queremos ignorar, como optamos por não querer saber sobre os comportamentos de risco que nos podem empurrar para este diagnóstico.

As páginas dos jornais, as notícias na rádio e na TV são apenas o reflexo do nosso medo, da desinformação deliberada, da ignorância que preferimos manter, mesmo quando sabemos tudo. Vamos aos factos: É novidade que alimentos processados podem contribuir para a incidência de cancro? É novidade que as carnes vermelhas contribuem para aumentar o risco de doenças várias e, mesmo, o cancro, fruto da sobrecarga do organismo? Não sabíamos que alimentos processados, carne ou qualquer outro, são ricos em químicos e conservantes e que estes são prejudiciais ao corpo humano, consequentemente podem contribuir para o desenvolvimento de várias doenças e, mesmo, cancro? Também não sabíamos que as técnicas modernas de produção animal pouco ou nada têm a ver com a criação ao ar livre, portanto, eventualmente nocivas para cada um de nós ?

Nenhuma destas questões é nova. Mas noticiarem-no assim, sem aviso, isso não. É atentar contra a nossa paz de espírito e deliberada ignorância, enquanto barramos as torradas com manteiga e colocamos mais uma fatia de fiambre em cima do pão. Se sabe bem, não deveria fazer mal. Mas faz. Como tudo o que é excessivo nos prejudica. Mesmo que seja o melhor para a nossa saúde, qualquer insistência, repetição ou excesso acaba por nos fazer mal. O corpo humano depende de um equilíbrio único para funcionar na perfeição e a nossa principal tarefa é quebrar esse equilíbrio. Fomos talhados para isso, para desafiar os limites e esperar que corra bem. Nem sempre corre e, por sabermos isso, não queremos ouvir os avisos que o corpo emite ou os que a comunicação social apresenta. Porque é mais fácil assim.

A notícia confirma, entre outras coisas, os resultados do relatório da OMS (organização mundial de saúde) relativamente ao consumo de carnes processadas e a incidência de cancro. Inclui também as carnes vermelhas, recomendando a sua substituição por carnes brancas e peixe. Em lado nenhum se diz para eliminar, recomendando-se a diminuição do consumo. Quoi de neuf?...

Quando vou às compras, não sei o que colocar no cesto. Dos alimentos processados à fruta que foi congelada e que, quando chega a casa não amadurece com o ar e a temperatura ambiente, apodrecendo lentamente, aos pacotes de alimentos prontos a cozinhar, carregados de conservantes, limito-me ao que é, aparentemente, natural, não preparado e provavelmente não processado. Escolho a variedade e a cor em detrimento da facilidade, mas também me deixo seduzir pelo vermelho de um bife ou um fumado tradicional. E se fumar um cigarro ou beber um copo de vinho quando me apetece, o mundo não pára de girar. Não podemos é fazê-lo a ponto de perder o equilíbrio, ficando a girar enquanto o mundo, o nosso mundo, de alguma forma pára.

#caarnevermelha #alimentação #foodieteller

body cocooning

we'll always have a cliché