olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

a sério, é isto?!

a sério, é isto?!

Se é isto, se é assim, então não quero. Não mais. Não tenho para onde ir mas, isto? Isto não. 

Uns que perdem e se iludem na vitória que não aconteceu. Que fazem birra quando não são escolhidos para jogar à bola. Que chamam os amigos, a que não falavam há anos, para baterem aos outros meninos. Que se envolvem à bulha e, com nódoas negras ou a sangrar, teimam em continuar. No sorteio do um-dó-li-tá a bola calhou aos outros e estes agarraram-se a ela para não largar. Teimosia?

Outros meninos decidiram deixar um deles morrer à fome só porque sim. E, mesmo que os restantes meninos no recreio gritem para o tirarem do buraco, que ameacem ir chamar o director, estes olham com desprezo e dizem não encontrar a chave. 

Do outro lado do recreio, na mesma escola, outros também estão a morrer. São os meninos da infantil, com doenças evitáveis, porque os meninos da secundária gastam em festas o dinheiro que o director entregou para comprar vacinas... Não se pode confiar nos adolescentes.

Numa outra escola, ali perto, são tantos os que não levam almoço para a escola que o tema se tornou notícia. Estão a morrer à fome e nós, os meninos das escolas privadas com almoços gourmet, ficamos a ver. E não partilhamos. Que comam ervas. É o que fazem.

Também há os que fogem da escola, porque têm medo. São escolas a céu aberto, com telhados destruídos por bombas e ameaças diárias das armas que podem, repentinamente, irromper sala dentro. Andam perdidos na Europa, não sabem o caminho de volta porque já não têm casa. E também não têm nada a perder. Andam ao frio e à chuva, vieram com os pais e os irmãos que também decidiram fugir, com medo do que pudesse acontecer. Aqui, vê-mo-los todos os dias - ou quase - na televisão e, depois, usamos os nossos perfis sociais para partilhar imagens, achando que, assim, deixarão de ter fome, frio e medo. Porque, acima de tudo, estamos assustados com o terror espelhado no rosto destes meninos. 

Outros meninos querem brincar às guerras, pelo que ostentam o seu poder marítimo e naval para impor o respeito que nunca tiveram, perante os outros meninos, mais velhos e, por isso, mais altos do que eles. Eles sabem que o valor não se mede aos palmos mas estão fartos de serem olhados de cima e, por isso, construíram uma frota maior e melhor para agora poderem brincar à batalha naval. Quem ri por último ri sempre melhor e eles sabem isso. 

Lá ao pé há um grupo de meninos que pode (quase) tudo e outro que não pode nada. Às vezes os grupos juntam-se. Mas só às vezes, não vá o segundo grupo ter ilusões e querer ser como os outros. Todos sofrem com a tristeza da diferença e da separação. Mas nós não nos preocupamos muito com isso. É assim a vida...

Só assim de repente, são exemplos que me envergonham, preocupam e entristecem. Posso agir. Podemos todos. Na maior parte do tempo só apetece fugir, para não continuar a ver o que está a acontecer. Ou desligar a rádio e a televisão. Olhos que não vêm, coração que não sente. 

Terminei o texto. Log in no Facebook para o publicar. Na entrada, um vídeo. Arranque automático. Impossível não ver. Haja algo de bom nas inovações do Zuckerberg. Vemos os gatinhos mas não podemos desviar o olhar a imagens como esta. Ou esta. Ou aquela... Andamos todos demasiado preocupados com o nosso umbigo, as calças ou os sapatos novos. Envergonho-me com a minha própria superficialidade quando intencionalmente leio sobre uns Adidas dourados, partilhando essas imagens, quando oiço música nova ou me fotografo para brincar com as poses e as cores dessa imagem. Há tanto para fazer e nós aqui, no nosso pequeno recreio onde já ninguém sabe brincar.

#eleições #luatibeirão #angola #refugiados #siria #sudão #china #coreia


we'll always have a cliché

The devil's in the details

The devil's in the details