olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida urbana.

Faz o que eu digo. Não faças o que eu faço.

Faz o que eu digo. Não faças o que eu faço.

Fazer um filho é fácil. Ter um filho, às vezes também. Criar um filho? Muito difícil. 

É tudo tão maravilhoso quanto perigoso e terrível. Não faltam crónicas de mães e pais que (ainda bem) desistiram do politicamente correcto que quase nos obriga a dizer que é uma benção ter um filho. É. Não tenho dúvidas. Mas também é difícil e desgastante. Gosto de ler os depoimentos mais ou menos inflamados sobre parentalidade verdadeira. Crua. Porque esta, também é feita de fraldas que cheiram muito (mesmo muito) mal, de pés que depois de lavados continuam a ter aquele cheiro a sapato, de feitios que não se cruzam e nos testam ao limite, de refeições infindáveis repletas de afirmações mais ou menos inflamadas, e dos dias em que o mundo - o nosso mundo - se pinta de cor-de-rosa com um sorriso deles.

Admiro as mulheres que se dedicam exclusivamente aos filhos. Não as invejo, de todo. Acho interessante que isso aconteça, numa época em que a mulher conquista cada vez mais poder. Uma espécie de contra-poder, regresso às origens e ao tempo das mulheres que eram mulher de alguém e mães de família. Acho bonito e romântico, mas não me revejo, como também não defendo a super-mulher (que quase todas somos) equilibrando estoicamente três - ou mais - vidas em paralelo: a sua, a deles e a nossa, representando-se a si e à família, gerindo os diferentes contextos com igual responsabilidade e dedicação. A essas, tiro-lhes o chapéu. Tiro-me o chapéu porque muitas vezes - tantas vezes - é muito difícil. Depois, só queremos uma cama com lençóis lavados, olhamos durante os segundos a vida a acontecer lá fora e adormecemos. Independentemente de tudo. Ou do mundo acabar no minuto seguinte. Chama-se cansaço. 

Não gosto de viver assim e, por isso, fiz opções. Opções que nem todas as mulheres podem fazer, porque não acumulam cargos mas sim diferentes trabalhos para, no final do dia - longo, quase interminável - poderem garantir que o mundo - aquele pedacinho que têm na sua casa - continua a girar.

As crianças aprendem mais por imitação do que através do que lhes dizemos. Foi duro ver a minha filha imitar-me. Não com os apetrechos da cozinha para preparar uma refeição ou qualquer outro acessório verdadeiramente doméstico, mas com um telefone na mão e um computador portátil debaixo do braço, planeando e discutindo temas que desconheço, numa atitude tão ou mais adulta do que a minha. Achei graça mas foi o momento em que me vi ao espelho. E que coloquei travões a fundo para transformar aqueles momentos em que estamos juntas em tempo de qualidade, interrompendo-o apenas para tarefas domésticas (porque tem de ser a mãe a fazer,  muitas vezes com a sua ajuda ou, simplesmente, companhia) ou para conversar ao telefone com as tias e os tios, com quem também ela aproveita para falar ou enviar "muitos beijinhos".

Os anos passam demasiado depressa e nada justifica este tempo que perdemos sem eles. As crianças que escolhemos ter. Es co lhe mos, notem bem. As cenas horríveis que fazem são, invariavelmente, culpa nossa. Nem sempre por falta de atenção. Muitos resultam de pura imitação. Muitas vezes temos comportamentos altamente criticáveis que eles - os miúdos - aprendem rápida e facilmente. E, depois, sobra para nós, que os queremos certinhos e direitinhos sem partir um prato. Porque dá mais jeito. Mas essas, não são crianças, são autómatos.

A minha Rita fala muito. Tanto que às vezes ligo o piloto automático, ouvindo uma palavra aqui e outra ali, para não perder o rumo da sua conversa (estória seria mais adequado). Nestas estórias que inventa para si reside o segredo da coisa: às vezes deixo-me estar atenta (escondida no corredor) à sua conversa. No quarto, parece que desenvolve uma estória entre bonecos quando, na realidade, recria a realidade que conhece, imitando-me na perfeição ou trazendo, para o seu quarto, o que acontece na escola. Nestes curtos momentos consigo saber mais sobre o seu dia-a-dia do que em qualquer conversa que tenhamos sobre o tema, e muito mais do que quando os bombardeamos com perguntas traiçoeiras sobre esse reduto impenetrável que é a escola. 

Eu sei que deveria ser melhor - podemos sempre ser melhores, na verdade - mas este auto retrato é fantástico para nos posicionar. Para sermos capazes de olhar, fora de nós, e percebemos quem somos. Ou, pelo menos, que imagem passamos para os nossos filhos. É um exercício que recomendo porque, com a pressa com que passámos a viver, na maior parte do tempo esquecemo-nos das coisas mais simples. Uma delas, é dar o exemplo.

The devil's in the details

The devil's in the details

Com meias ou sem meias

Com meias ou sem meias