olá.

bem vindos ao urbanista, um magazine de estilo que assume opiniões sobre temas da vida.

Avózinha? Old is the new new!

Avózinha? Old is the new new!

Não me lembro muito bem dos meus avós. Não tive uma infância acarinhada por avós, com o mimo que só as avós sabem dar. Conheci uma bisavó que morreu ali pelos meus cinco ou seis anos, uma outra avó que conheci de passagem e um avô genial, divertido e engraçado mas pouco presente. 

Talvez por isso tenha sido a minha mãe a mimar-me e a tentar ensinar-me os lavores típicos que uma menina deve conhecer sem, contudo, alguma vez ter tido grande sucesso. Na verdade também não se esforçava muito por ensinar, ciente de que o mundo já tinha mudado, estava a mudar e que eu faria parte de uma geração que não renuncia ao passado amas que, simplesmente, vive de forma diferente. Estimulava-me a estudar e a ter uma profissão para nunca depender de  ninguém. À distância, antes isso que ponto cruz ou cruzes para coser botões. Se não tenho jeito para a coisa a ela o devo. Se não aprendi, dedicando-me a outras actividades igualmente manuais, igualmente criativas mas notoriamente mais modernas, também à minha mãe o devo. A escola tentou. Os teares para produzir pequenos tapetes ou os tapetes em tela de esmirna; as almofadas cosidas à mão; o barro e tantas outras peças que os meus pais guardavam carinhosamente. Carinhosamente é ironia porque provavelmente era por piedade, com receio de me provocarem algum tipo de trauma. Não era necessário porque o próprio conceito das aulas de trabalhos manuais já era suficientemente traumático. Escapou uma espécie de Moleskine que durou anos e que orgulhosamente me fazia afirmar que tinha sido feito por mim. Nasci para o papel, claramente.

A Avó Veio Trabalhar (lançamento da Colecção SIX)

A Avó Veio Trabalhar (lançamento da Colecção SIX)

Não apenas por isto mas muito por isto não resisto ao conceito do projecto A Avó Veio Trabalhar. Conheci-o algures lá atrás no tempo e chamou-me à atenção este ano quando perderam as instalações. Fiquei genuinamente feliz quando as avós se reinstalaram e continuaram o seu percurso. Gosto da ideia de que a sociedade, como a minha mãe previra, está diferente - para melhor -: menos preconceituosa, mais diversa, menos dogmática, mais tolerante.

A ideia de que as pessoas mais velhas podem manter-se activas não é nova mas ganha, com a ideia de Susana António e Ângelo Compota, uma nova versão. Há muitos anos os velhos mantinham-se activos porque era mesmo assim. Trabalhavam quase até ao fim da vida, eram cuidadores e o alicerce da família. Os tempos mudaram, todos nós mudámos e os velhos - os mais velhos - passaram a ser o excedente do qual nos queremos descartar. Por outro lado, também muitos deles se descartaram de nós por perceberem que o seu lugar já não era ali e que ainda tinham muito para dar ao mundo. Sobretudo, para viver. Era chegado o momento da sociedade começar a olhar para eles - que crescem em número e qualidade de vida - de outra forma. Assim fez esta dupla, criando o projecto A Avó Veio Trabalhar para quebrar barreias sociais e individuais. Na verdade, para além do que a sociedade nos diz que devemos fazer há também aquele motor de arranque individual que tantas vezes se recusa a trabalhar. Este projecto ajuda os mais velhos a acreditarem nas suas capacidades - supostamente - perdidas, motivando-os a aceitar que, para além de algumas limitações físicas da idade, há um mundo por descobrir - e produzir.

Na verdade, o que hoje encontrei no lançamento da colecção SIX - os amigos imaginários da avó - foi um conjunto de pessoas bem dispostas, cheias de energia, capazes de muito mais que muitos novos que se arrastam pelos cantos. São monstros e bichos feitos à mão. Explicaram-me tudo enquanto me imaginava a tentar - note-se bem, tentar - cortar os moldes, encontrar as partes de tecido adequadas, coser à máquina, encher os bonecos (com enchimento profissional, igual ao das almofadas das marcas mais conhecidas) e fazer os acabamentos à mão. Ufa!

Podem lavar-se que retomam a forma original, secam facilmente e são muito, muito originais.

Barbie doll

Barbie doll

Madonna

Madonna