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Por favor, não me chames influencer

Influenciadores somos todos nós e influencers, em português ou inglês, sempre existiram. Mudou apenas o alcance da mensagem, acendendo rastilhos onde antes existia apenas uma faísca.

Há mais ou menos uma semana o Presidente da República decidiu reunir um grupo de influenciadores digitais no Palácio de Belém. Nada contra, especialmente porque ainda estamos para saber a verdadeira razão que motivou o encontro. Alguns órgãos de comunicação social limitaram-se a dar nota do facto, outros optaram, na sua arrogância de suposto eterno quarto poder, por enviar indirectas aos próprios influenciadores, questionando a sua pertinência e, quem sabe, influência. Acontece que tal resulta de um facto simples que os media preferem ignorar: a internet veio democratizar a comunicação, equilibrando o jogo de forças, concretizando o aforismo de McLuhan de que o meio é a mensagem. Os media já não são o quarto poder. Efectivamente, podemos questionar o valor e relevância dos conteúdos publicados por algumas destas personalidades mas é, no entanto, inquestionável a forma como transformaram o meio na própria mensagem, criando um contexto em que são tanto media como pessoas. Se é certo que alguns brincam ao monopólio, transformando-se em catálogos para as marcas, sem produzir nada em nome próprio ou criar algo que prevaleça no dia em que a moda do instagram acabar, também é certo que outros ditam as regras de um jogo que poucos sabem jogar.

Há uns anos - e já lá vão mais de dez - ter um blog era inovador. Alguns não sabiam o que era, outros perceberam que era uma forma livre e independente de partilhar ideias. Depois tornaram-se diários de vida e catapultaram algumas pessoas para a ribalta. Entretanto apareceu o Facebook, o YouTube criou uma nova categoria de famosos e, mais recentemente, os instagramers auto-proclamaram-se influencers de profissão.

Influenciadores somos todos nós e influencers, em português ou inglês, sempre existiram. Mudou apenas o alcance da mensagem, acendendo rastilhos onde antes existia apenas uma faísca.

Na sociedade contemporânea, o número é referência e referencial. Sobrepõe-se ao resto, confundindo valor e relevância mesmo quando levanta o véu da podridão deste esquema ficcional: dois milhões de seguidores não chegam, afinal, para vender 36 t-shirts, como mostrou o caso da influencer desmascarada pela marca à qual se associou. Também sabemos que os bots deixam comentários fofinhos, ou que comprar seguidores é fácil e barato. Marcelo Rebelo de Sousa foi eclético e chamou pessoas com 15 mil e mais de 150 mil seguidores, de áreas muito diferente. Se o podemos criticar? Talvez. Creio, contudo, que a crítica deve ser em primeiramente dirigida a quem efectuou a selecção. Ainda que as escolhas nunca sejam unânimes, para percebermos que temas e preocupações têm os jovens existem pessoas com perfis mais dedicados a uma cidadania activa - e com igual número de seguidores - do que alguns dos que ilustram os seus perfis com a sua própria vida ou uma abordagem consumista e muito materialista. Até podemos achar esse tipo de conteúdo irrelevante mas, o que dizer do número de pessoas que segue os mais populares? Contas feitas, uma rápida comparação entre órgãos de comunicação e influenciadores conclui que é no facebook que a comunicação social é mais popular, o que também significa que estes influenciadores são seguidos, principalmente, por pessoas jovens no instagram. São estes os interesses dos jovens? Também, mas não só, e fenómenos como o de Greta Thunberg estão cá para o provar.

O que faz o número, por consequência a popularidade de cada um? Tudo.

Podemos questionar a relevância do conteúdo mas, na maior parte dos casos, estamos perante uma estratégia de sucesso que a maior parte dos órgãos de comunicação não conseguiu, ainda, entender, muito menos desenvolver. O meio é mesmo a mensagem e nos tempos em que somos todos uma versão 2.0 de nós mesmos, não chega existir, temos de parecer. E mostrar. pena é que a maior parte da spessoas não queira ver o lado mais importante da vida, que nos pensar e sentir vivos. pena é que a maior parte das pessoas prefira viver a sua vida através da vida dos outros, que vai acompanhando através do instagram. Definitivamente, como dizia o outro, quem não aparece, esquece.


Photo by Christian Sterk on Unsplash

previamente publicado na revista Sábado

Greta e Joacine: separadas à nascença?

O que têm em comum Greta Thunberg e Joacine Katar-Moreira? Aparentemente, muito pouco, ou quase nada. Na verdade, é mais do que isso.

O tema das ideologias, política, partidos políticos e políticos há muito que deixou de me interessar: as ideologias repetem-se, outras são vagas ou vazias e algumas bastante extremistas. Os partidos servem muito pouco a massa de filiados em cada um deles e regeneram-se lentamente. A política tem pouco respeito pelas pessoas, sobrevive à custa de politiquices e os políticos, com perdão das generalizações e da ausência de exactidão que lhes é característica, não se dão ao respeito portanto, como os respeitar? Da mesma forma, elites políticas criadas à nascença, sem história para contar são geralmente pouco coerentes e facilmente manipuláveis ou seja, tudo o que não queremos num político. Da mesma forma, ficamos na dúvida em relação ao padre que prega e não pratica ou o professor que nunca praticou o que ensina. Ao contrário de outras profissões que nos definem, também, enquanto pessoas, não se deve ser político mas, antes, estar na política, como se se tratasse de uma missão que nos interrompe - temporariamente - a vida de todos os dias, sem aspirações a cargos em grandes empresas públicas para fechar um ciclo.

Simultaneamente, ficar a conhecer uma candidata às legislativas sem ouvir falar sobre o seu currículo profissional, centrando a mensagem no facto de ser mulher, negra e, pasme-se, gaga, é no mínimo, irrelevante. Começar por apontar-lhe o dedo por usar essas características como trampolim para a causa pública e política é de quem, só quando se sentiu ameaçado, sugeriu que Greta Thunberg se calasse e voltasse à escola.

O que têm, afinal, Greta Thunberg e Joacine Katar-Moreira em comum? Para além de poderem fazer sombra a outros, de se afigurarem como uma espécie de ameaça aos poderes instituídos e quem neles se senta, fizeram o seu caminho sem dar nas vistas, sem precisarem usar as tais características que agora lhes apontam como ferramenta de ascensão ou, simplesmente, chamada de atenção.

Pensei bastante antes de enviar este artigo para publicação. As duas geram ódios e paixões e a incapacidade de muitas pessoas para ver além do preto e do branco vai colocar-me numa discussão da qual não quero fazer parte. Contudo, também não vou calar, perante a irresponsabilidade de quem é responsável por nos dar mais do que a espuma dos dias, o que gera cliques, o que dispensa explicações, o que motiva reacções: a intriga.

A vida moderna tem demasiadas ferramentas e dispositivos que nos dão acesso a um admirável mundo de conhecimento mas que é, também, um perigoso manancial de desinformação e ignorância. Ter acesso não significa que saibamos o que fazer com essas ferramentas, ou interpretar o que estas nos apresentam. O ridículo é quase sempre amplificado por outras vozes e, principalmente, por algoritmos criados para nos apresentar aquilo que, supostamente, são os nossos interesses. Uma câmara de eco perigosa que legitima Greta sem a questionar e que, simultaneamente, a questiona com base nos aspectos mais inapropriados, tal como faz com Joacine. Afinal, o que interessa é anular o efeito e a capacidade de mobilização que palavras apaixonadas podem ter no coração das pessoas, mesmo quando essas palavras, com ou sem agenda, nos recordam umas quantas verdades: seja para vivermos de forma mais consciente na nossa relação com a natureza, seja a dignidade social.

Photo by Rochelle Brown on Unsplash

Casa-trabalho, trabalho-casa: como se atrevem a dizer-nos que isto é vida?

Estamos sempre ocupados e criámos uma cultura na qual “não ter tempo” é sinal de sucesso. Na verdade, ocupamos parte desse tempo com o que não interessa a ninguém, deslocações e outras perversões que nos afastam daquilo que é verdadeiramente importante.

Digam o que disserem sobre Greta Thunberg, há em si algo que poucos têm e no seu mais recente discurso uma eloquência pragmática, emotiva e emocionalmente tão forte que dispensa o que a expressão do seu rosto poderia adicionar. Os detractores encontram-lhe falhas e os incrédulos limitam-se a recorrer ao argumento básico de quem não tem argumentos, usando o seu aspecto físico ou algum traço de personalidade para denegrir a sua imagem. Como recordava, há dias, uma amiga, sobre um dos grandes ensinamentos Jesuítas, se acreditamos na bondade do que fazemos e na bondade dos objectivos do que fazemos, então isso é bom. Gostemos ou não, com uma história pior ou melhor contada, com interesses nas renováveis provados ou por comprovar, nada em Greta é necessariamente mau, até porque, ao apelar à nossa consciência sobre a urgência ambiental, sugere apenas que alteremos comportamentos. Isso é mau?

Tocou-me bastante a parte em que questionava a audiência, perguntando-lhes como se atreviam. Na altura estava no carro, parada num semáforo, a caminho do centro da cidade, num dos piores horários para o fazermos, sem conseguir deixar de pensar que a vida não pode resumir-se a isto de acordar cedo, trabalhar e voltar a casa. Se ocupamos o pouco tempo livre que nos resta nesse prazer de estar no sofá a ver um filme corremos o risco de adormecer tarde, roubar horas de sono e passar o dia seguinte a bocejar. Se por um dia nos apetece fazer outra coisa naquele espaço de tempo (pequeno) que medeia o momento em que chegamos a casa e o que temos de ir dormir, é loiça que se acumula e roupa que fica por lavar, emails por responder e tantas outras coisas divertidas que não se coadunam com o ritmo de vida que definimos para nós quando, na verdade, tudo o que queríamos era trabalhar para poder ganhar dinheiro para o que nos diverte e faz sentir vivos. No entretanto, já não sabemos bem quais são, os hobbies ficam arrumados na gaveta e o desporto, para os que o praticam, assume-se como o único escape para tudo isto.

Na maior parte dos casos, passamos entre 9 a 12 horas fora de casa, aquela que escolhemos para nos acolher e fazer sentir bem. O dia divide-se entre os transportes colectivos com odores duvidosos, ou o carro, olhando outros condutores a falarem ao telefone, olhar perdido no horizonte. O dia é passado entre mil tarefas para uma função que poderia dividir-se entre dois - por vezes três funcionários. Fala-se da baixa produtividade mas não se fala disto.

Estamos sempre ocupados e criámos uma cultura na qual “não ter tempo” é sinal de sucesso. Na verdade, ocupamos parte desse tempo com o que não interessa a ninguém, deslocações e outras perversões que nos afastam daquilo que é verdadeiramente importante. Ocupamos tempo sorrindo, em conversas que não nos interessam, sem coragem para dizer o que pensamos, numa hipocrisia social que nos garante amizades e oportunidades; networking com pessoas que nos querem vender coisas que não queremos - ou precisamos -; momentos que nos obrigam a pensar três vezes no que íamos vestir ou calçar, quem sabe até ocupar ainda mais tempo a comprar mais coisas. Tudo por causa de códigos sociais com os quais pactuamos mas que, na verdade, detestamos.

A nossa vida já não é nossa porque não controlamos o nosso tempo, onde investimos o nosso dinheiro, os lugares onde vamos ou o que fazemos, numa ocupação do calendário contrária ao que desejamos e que, principalmente, demonstra que não vivemos: sobrevivemos. Queremos todos mudar o mundo mas esquecemo-nos de mudar o mais importante: o nosso mundo.

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Manhãs serenas, sem pressa, sem a tirania do relógio não acontecem todos os dias. Mas deveriam. Passo na rua, vejo carros e pessoas e crianças apressadas, sem tempo. Fecham-se os portões da escola. O mundo acalma?... Não. Segue em alta velocidade até o dia terminar. Há dias e coisas e pessoas que, sem sabermos, nos mudam a vida. A nossa vida, não aquela que a vida vive por nós. Durante muito tempo vivi a minha vida em piloto automático, uma vida que só por acaso parecia a minha mas que não era. Continuo a ter pressa, a lutar contra o relógio mas é diferente. Foi o yoga, mas não apenas o yoga, que me permitiu esse tempo apenas para mim e comigo, os meus medos e ansiedades, os meus receios e limitações. Pratiquei muito desporto e chorei muito, por despeito, frustração, prazer da conquista ou da vitória mas nunca, por me ouvir, ou por aquilo que não sabia, tinha para me dizer. É isso que esta prática nos dá. Abrindo-nos o coração, abre espaço à compaixão, empatia e perdão, para nós e para os outros. Nunca mais nada será igual e é por isso que dizem que nos pode mudar a vida. De todas as rotinas, esta é a melhor, mesmo quando não é assim, no exterior, de peito aberto para o mar e coração para amar o mundo 🖤 #openuptoautumn ... #enjoylife😊 #yogajourney #moodcollectors #slowliving #seekinspirecreate #yogavibes #lifeisbeautiful #yogapractice #yogalife #yogilifestyle #mindfulliving

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As notícias de que se fala e aquelas de que ninguém quer saber

  • publicado no Sapo 24

Um artista da música compra uma mansão e cria um bunker para ele e os mais chegados sobreviverem ao apocalipse. No Japão já não há espaço para guardar as águas radioactivas de Fukushima, a Amazónia esteve a arder e as notícias sobre o tema pegaram fogo, chamuscando Bolsonaro. Com ou sem golas inflamáveis, a vida prossegue, indiferente ao significado de tudo isto. Há notícias para todos e para todos os gostos, de acordo com as dicas que damos aos algoritmos para nos criarem uma dieta mediática pessoal e personalizada, que nos mostra o que supostamente queremos ver, deixando de fora tudo aquilo que esse mesmo algoritmo interpreta como irrelevante. Ligamos a TV e as noticias da manhã repetem-se à tarde e à noite, numa reciclagem de temas, protagonistas e assuntos do que, aparentemente, está na ordem do dia.

Amazónia ardeu durante semanas até que alguém desse por isso. Falso alarme, afinal era uma continuação do que já antes acontecia ou a culpa foi do actual presidente? Repetiram-se as intervenções e acusações, ignorando pormenores tão simples quanto o facto do Brasil ser um dos maiores produtores de soja. A soja não cresce nas árvores e, principalmente, não precisa de árvores para crescer. Numa palavra: desmatamento. O Brasil é um dos maiores exportadores de carne de bovino. Bovino não cresce nas árvores. Bovino precisa de pasto. Numa palavra: desmatamento. Não aconteceu tudo agora e há registo anterior de incêndios igualmente graves. O actual presidente tem culpas no cartório mas não agiu isoladamente nem as suas acções podem ser consideradas incendiárias ou o único motivo pelo qual a Amazónia continua em perigo. Já passou, já não há grandes parangonas nos jornais… Não passou e, antes que comecem a afiar o lápis para me acusar de ser defensora de Bolsonaro, façamos esse exercício de pensar: porque é que as notícias são como são, porque razão um determinado facto ou acontecimento se instala repentinamente na agenda pública, que interesses lhe são subjacentes e o que motiva essas notícias. Não. A culpa também não é (só) dos jornalistas. É principalmente nossa, quando não prestamos a devida atenção ao que acontece no mundo e que damos como certo aquilo que os media nos mostram. Há por aí muito trabalho encomendado tal como houve desleixo em deixar passar, ao lado, os factos sobre a Amazónia. Cruzemos fontes para perceber que o desmatamento não é novo, identifiquemos dados para concluir que, afinal, já houve anos piores e que ninguém falou sobre isso. Ou se calhar falou mas não nos lembramos, ou temos memória selectiva. 

O mundo está a arder e isso é o que importa saber. Para além dos incêndios na Amazónia, com reflexo em outros países para além do Brasil, há incêndios dignos de registo na Rússia, na Ásia e em África: como explicou, há dias, um representante da Greenpeace, se um dos lugares mais frios do mundo e um dos lugares mais húmidos do mundo está em chamas, algo de muito errado está a acontecer. A Sibéria registou dos piores incêndios de sempre, com 10 milhões de hectares ardidos. Algo equivalente está a acontecer na Indonésia, no caso não por causa da soja ou da carne, mas por causa desse outro produto que usamos todos os dias e que também ameaça gravemente o meio ambiente: plantações de palma, para produção de óleo, celulose e papel. Agora vamos ver as notícias e perceber quem falou sobre isto, escolheu a vida dos famosos, a polítiquice nacional ou o tão amado futebol. Pois é, talvez o rapper americano que decidiu construir um bunker não seja assim tão parvo.



#2Msemdesperdicio

Como se costuma dizer, cada um dá o que pode ou faz o que sabe e como não sou de grandes confianças em relação ao que supostamente sei fazer, dou-vos esta bonita praia inexplorada no Algarve e as palavras que fazem eco na rádio. É isso que sei fazer e, por isso, partilho o #2Msemdesperdicio, uma missão de 10 mulheres por um mundo melhor. Ou apenas por um mundo. O nosso. 

Também não sou especialista em sustentabilidade, menos ainda em questões ambientais ou lixo zero mas temos de estar muito distraídos para ignorar o que se está passar...

Foi um Agosto sem calor e sem ondas, depois de salpicos de dias quentes e noites abafadas aqui e ali, desde a Páscoa. 

No pasa nada... 

Depois, há vários anos que temos calor quase até ao Natal e é um ai Jesus que ninguém compra as decorações e os centros comerciais só têm movimento a sério quando o calendário aperta.  

No pasa nada...

Há ventos e tempestades repentinas e este clima moderado da Península Ibérica transforma-se num gelo inesperado ou num calor a imitar deserto.

Novamente, no pasa nada... 

Passa. Oh se passa e, para quem me está a ler em inglês, the sh*t is hitting the fan porque, ainda não me cansei de repetir, isto vai dar m*rda. Da grossa. Evitando a tradução esquisita: we’re doomed.

Os erros - grandes e pequenos - estão por todo o lado.

Precisaríamos voltar aos bancos de escola para reaprender a geografia e o clima mas, principalmente, para reaprender a viver em sociedade. Os nossos paizinhos fazem sempre o melhor que podem e sabem. 

Como mãe, revejo-me muito neste dilema de educar, ensinar, evitar repetir padrões, dando sempre o meu melhor, tentando corresponder àquilo que, para ela, será melhor, debatendo-me muitas vezes com o “se posso dar, porque razão não o irei fazer?”. E muitas vezes não faço, tentando evitar este consumo desenfreado a que nos habituámos. Porque não podemos ter tudo o que queremos para dar o devido valor ao que podemos ter. 

Eu não tive tudo o que queria ou quando queria e, creio, poucos da minha geração terão tido essa sorte. Ou azar. Porque muitos dos problemas que hoje conhecemos resultam da abundância que conhecemos a partir dos anos 90, mudando completamente a nossa forma de viver. Embarcámos na euforia do crédito ao consumo, vivemos a bebedeira de quem pode comprar coisas e deixámo-nos deslumbrar. Hoje, muitos de nós tentam explicar aos pais e avós que não... não vamos deitar fora algo que pode ser arranjado, mesmo que esse período, ainda tão recente e tão impactante, tenha mudado o chip para a cultura pastilha elástica do usa-deita-fora porque é mais fácil, rápido e barato substituir do que reparar. Foram também os anos da exaltação dos doutores e engenheiros e a decadência dos trabalhos técnicos que ainda hoje são pagos a peso de ouro. Usamos gravata mas mal sabemos pregar um prego e quando um cabo entope só nos salva o Dr. Cano, o melhor branding que vi nos últimos tempos, numa carrinha de canalizador. 

Estive de férias, sai das redes, deitei-me na rede mas não desliguei por completo do mundo, dos seus sentidos e significados. Sei bem o que aconteceu na Amazónia e que tipo de políticas têm sido adoptadas nas últimas décadas, destruindo um ecossistema com impacto global.
Durante muito tempo fiz parte do grupo que prefere pensar que no pasa nada para continuar a comprar mais um objecto de marca. Também eu me deslumbrei com o verbo ter, ao mesmo tempo que, quanto mais acumulava, mais questionava o que estava a fazer. Desenganem-se os que me tomam por paladina da verdade, aquele tipo que enche a boca para apontar o dedo aos outros, escondendo os erros do passado. Estão lá para nos recordarmos que o caminho se faz caminhando, que aprendemos todos os dias e que estamos sempre a tempo de mudar.

O meu plano para a casa nova incluía compostagem. Ainda não consegui, sequer, acabar de arrumar a garagem e montar todos os móveis em casa, mas já consegui substituir o caixote do lixo (plástico e papel) por um com menos de metade da capacidade para fazer cada vez menos lixo. 

O método é psicológico pois se não tenho onde deitar o lixo, tendencialmente irei produzir menos, ser mais cuidadosa nas compras que faço. Como é mais pequeno enche mais depressa o que significa que terei de o colocar no contentor mais vezes. Novamente, a psicologia a funcionar porque passo a ter a verdadeira noção do número de vezes que me desloco com lixo de plástico e papel nas mãos. Consequentemente, estarei mais atenta antes de produzir lixo. Também optei por não usar saco de plástico para guardar o lixo de plástico e papel. Se com o papel é muito fácil, as embalagens estão a dar luta. Como as lavo mais cuidadosamente antes de colocar no caixote e como quero poupar água, tenho cada vez mais cuidado na escolha das embalagens que trago para casa. Porque, no pasa nada mas também não custa nada abrir a pestana e fazer alguma coisa, mais que não seja, por nós. Por um Verão decente e um inverno condizente. Sejam (ainda mais) egoístas e estabeleçam metas que vos beneficiem, mas façam alguma coisa para travar o estado das coisas.

Sem tempo e espaço, o que sobra para viver?

Setembro é o mês dos regressos, dos planos adiados, da recta final para concretizar as resoluções do novo ano. Quem nunca?

Tenho dado por mim a pensar na razão pela qual nos preocupamos tanto em estar aqui sem estarmos presentes na vida, a simularmos a presença e, por vezes, a vida, sem a vivermos intensamente.

O caso do instagram é gritante, repleto de publicações que são tudo menos a vida real, publicidade que metamorfoseia a noção de criação publicitária, frases feitas transformadas em livro, celebridades instantâneas que baseiam os seus feitos numa virtualização da experiência e um império que de pode destruir carregando num botão. Há, contudo, muito conteúdo interessante, movimentos que se exaltam através da rede e vidas que ganham sentido pelo sentido que a narrativa visual lhes pode dar.

Um admirável mundo novo, qual torre de Babel com strange days reflectidos num black mirror, if you know what I mean…

Secretamente, um dia, quis ser famosa. Nem para mim o admitia e foi um caminho conseguir reconhecê-lo, mais ainda conseguir afirmá-lo e publicá-lo. A fama nunca seria no sentido dos paparazzis, ou da vida escarrapachada nas revistas do social mas, admito, durante algum tempo queria essa ribalta sem nunca a admitir, fugindo-lhe, numa relação estranha entre o que se deseja e o que se faz para concretizar esse desejo. Ou seja, nada. 

Na verdade, entre o sonho de ser um nome que todos reconhecem e um rosto que não identificam, fica uma difícil relação. Talvez por isso nos últimos tempos tenho pensado cada vez na razão pela qual continuo a escrever e a publicar no instagram, contribuindo para essa ânsia de ver e ser visto em que mergulhámos, aceitando a pressão da presença na ausência, convencendo-me de que assim poderei dar o meu melhor para ajudar alguém e mudar o mundo. Ou não.

Agora que me sentei a fazer planos para a próxima temporada urbanista, vejo o caminho que fiz e que, curiosamente, começou quando me mudei para a casa que entretanto abandonei, naquilo a que gosto de chamar o meu regresso a casa. Sei que me afastei de quem sou durante muito tempo e a pessoa que sou hoje está muito distante daquela que se mudou para o centro da cidade, ansiosamente procurando respostas e a fórmula certa da mudança. Queria estalar os dedos mas, raramente a mudança acontece assim.

O processo que se iniciou lá atrás também não teve dia certo e representa-se por um conjunto de pequenas coisas que, juntas, culminam no dia de hoje. Olhar para o instagram é percorrer essa mudança e vocês estiveram desse lado a acompanhar as fases do processo, quase uma catarse. Parece que foi há muito tempo, um ciclo que agora se fecha para um novo se abrir, cada vez mais segura das opções e da razão pela qual esta pseudo-fama instagramável me diz cada vez menos, como se questionasse o que nos faz exibir tanto para conquistar tão pouco. Sei que não preciso disto mas não sei de que outra forma posso passar a mensagem, numa era dominada por aquilo a que chamam a economia da partilha: do que pensamos e sentimos, do que achamos relevante e mostramos aos amigos. Criámos um contexto que contraria as nossas noções de tempo e espaço, de público e privado que se misturam sem razão e sem propósito quando o maior propósito que podemos seguir é esse, tão simples, de viver.

Sem tempo e espaço, o que sobra para viver?

Green isto, Green aquilo. Em terra de cegos quem é Green é rei?

Não creio que tenhamos, todos, de virar veganos, mas sei que tudo apela ao consumo, algo que sim, precisamos refrear, aproveitando o que já temos e recorrendo a formas diferentes de fazer as coisas, recuperando práticas simples, evitando reciclar. Como assim, evitando reciclar, essa prática que nos venderam nos anos 90 como solução?

São cada vez mais os sinais de mudança em direcção ao futuro. Se é certo que a vida na Terra se gere por períodos, com extinções em massa que permitem a evolução e diversificação dos diferentes grupos de organismos, também é certo que o período que se avizinha nos poderá extinguir a nós ou, na melhor das hipóteses, criar um contexto que torna muito difícil a nossa permanência no planeta. Há evidências que tornam afirmações como esta são demasiado óbvias para serem ignoradas.

Podemos aceitar e agir para atrasar o inevitável - quem sabe até evitar - ou ignorar e esperar que não nos toque a nós - mesmo sabendo que vai acontecer - ou, simplesmente, procurar contribuir para melhorar o estado das coisas. É o que muitas marcas e figuras públicas estão a fazer, num processo claro de adopção de novas práticas ou, quem sabe, num aproveitamento da onda verde para fazer mais uns cobres. A verdade é que não temos como saber onde começa e acaba a verdadeira intenção dos que, publicamente, defendem um novo sentido para a nossa vida, modos de vida e hábitos alimentares, menos ainda como perceber se as grandes marcas não estão a aproveitar-se do medo de um futuro muito negro para lançarem a esperança através da criação de produtos e de uma comunicação que defende o Planeta. Não sabemos. Fala-se cada vez mais abertamente da forma como a reciclagem é apenas uma panaceia para um mal maior enquanto nos alivia a consciência e afasta o lixo da vista. O greenwashing é outro dos temas quentes do momento e, nós por cá, sem saber onde começa e acaba a verdade.

Sabemos, no entanto, que no Árctico os ursos polares fazem cada vez mais quilómetros para procurarem alimentos e que se aproximam de cidades para encontrarem comida; a base militar de Alert registou, em Julho, temperaturas nunca vistas de 21 graus centígrados (temperatura habitual é de 6 graus) e os cientistas, um pouco por todo o mundo, gritam perigo. O gelo no Árctico está a derreter muito mais depressa do que o previsto e tal, associado a outros factores, pode significar, a curto prazo, que, aqui em Portugal, deixamos de ter praias e que o cenário geral se aproximará das características do Norte de África. Agora imaginem-se a viver permanentemente em Marraquexe, essa cidade linda, na qual talvez não estejamos preparados para viver todos os dias.

Kim Kardashian, suposta rainha dos tablóides virtuais, anunciou recentemente a sua decisão de substituir todos os seus casacos de pele, ao mesmo tempo que tem vindo a promover uma alimentação vegan nos media sociais, à semelhança do que outros famosos vêm fazendo: da Baywatch Pamela Anderson ao Terminator Schwarzenneger, passando por Jaden Smith (filho de Will Smith), Jason Momoa, o Aquaman, a recente teen crush Billie Eilish ou a já não tão jovem Miley Cirus, que afirma não ter filhos enquanto não salvarmos o mundo. Os tempos são de mudança, como escreveu Pamela Anderson numa carta endereçada a Kardashian em 2017, apelando à sua consciência a favor dos animais. A Prada anunciou que vai deixar de usar pele de animais e já há algum tempo que a Adidas se vem posicionando como a marca desportiva mais amiga do ambiente, com vários produtos feitos a partir de plástico reciclado, incluindo a sua parceria com a designer activista Stella McCartney.

Até que ponto tudo isto é, também, poder de comunicação? Não sei, mas sei que, apesar de um óbvio aparente apelo ao consumo de algumas marcas e celebridades, numa lógica que substitui o plástico por outros materiais e a carne e os lacticínios por outros ingredientes (a propósito, um vídeo de vacas adultas que pisam relva pela primeira vez, depois de uma vida confinadas ao estábulo para produzirem leite), interessa perceber que há, nestas marcas e celebridades, um ponto em comum: o reconhecimento das alterações climáticas e da necessidade de mudarmos o nosso estilo de vida. Contudo, não creio que tenhamos, todos, de virar veganos, mas sei que tudo apela ao consumo, algo que sim, precisamos refrear, aproveitando o que já temos e recorrendo a formas diferentes de fazer as coisas, recuperando práticas simples, evitando reciclar. Como assim, evitando reciclar, essa prática que nos venderam nos anos 90 como solução?

Como os famosos, é tempo de abraçar a causa, (re)aprender, porque esta coisa de sermos amigos do ambiente passa muito por abandonarmos velhas práticas para adoptarmos as práticas velhas ou seja, formas antigas de fazer as coisas que o consumismo desenfreado das últimas décadas nos fez achar que não valiam nada. Valem. Muito disto começa por dizer 'não': não à necessidade de comprar mais - roupa, móveis e objectos, produtos de beleza e limpeza -, de usar palhinhas para beber sumos ou caipirinhas, de comprar com embalagens e aceitar sempre mais um saco de plástico à saída da loja, de comprar novo e a estrear - porque segunda mão é coisa de pobre -, de deitar fora sem arranjar - porque é mais barato comprar novo. Às vezes é. Outras vezes não há quem arranje ou não há peças de substituição. Precisaremos mesmo daquilo que se estragou?

Pensar como antigamente pode ser um princípio, mesmo quando é mais barato deitar fora e comprar novo, recorrendo a práticas mais conscientes e sustentáveis que são, na verdade, uma forma mais feliz de vivermos a vida, muitas vezes gastando menos, ao contrário do que se apregoa.


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A causa somos todos nós

Escrevo, todas as semanas, um texto de rajada para a newsletter urbanista. Sempre original e fruto do momento ou da semana, é feito sem grande reflexão, sem ponderar as implicações das minhas palavras ou a auto-censura que resulta dos comentários tontos que existem nas redes sociais e, sobretudo, nos sites de notícias nos quais também publico as minhas ideias. Ali, só está quem quer e desses, só abre, para ler, quem tem vontade. E fico sempre muito feliz quando vejo que a maioria carrega no botão para espreitar o que tenho eu para mostrar naquela semana. Já são muitas semanas e muitas partilhas, algumas com respostas maravilhosas de quem subscreve.

Obrigada por isso.

Hoje partilho, aqui os dois últimos textos porque estão relacionados e são uma espécie de continuação, muito embora não os tenha escrito com essa intuição. Na verdade, poderia passar horas a falar-vos sobre motivação e propósito de vida, acrescentar uns quantos jargões bonitos de mindfulness e terminar com o poder da meditação mas a verdade é que, na maior parte dos dias, a maior parte de nós acorda de manhã sem saber muito bem o que aqui anda a fazer. 

Eu também.

Um dia entrei numa espiral de desespero por não saber quem era, o que queria ou o que aqui andava a fazer. Estava tudo certo e eu queria colocar tudo fora do lugar. Talvez não estivesse assim tão certo. Percebi, entretanto, que estava mesmo tudo certo, estava era fora do lugar para eu arrumar. Confuso? 

O propósito de vida, de forma global era aquele, o veículo para lá chegar é que me estava a decepcionar. 
Muda-se o veículo e pronto. 
Novamente, não, porque é mais fácil falar do que fazer. Há muitos veículos, ou seja, muitas formas de lá chegar e a grande questão coloca-se exactamente a esse nível, porque muitos deles também estão certos mas, como no amor, há sempre um que está mais certo do que os outros. Pensamos na maior parte das vezes que temos de fazer uma grande introspecção (check!), de ir ao nosso eu mais profundo (check), de procurar ajuda (check), de experimentar (check) de... enfim, isto para dizer que não faltam opções, mais ou menos espirituais, mais ou menos esotéricas para nos ajudar a encontrar o tal propósito (cena macro da nossa vida) e o veículo para lá chegar (a cena micro, o que fazemos e como fazemos no dia-a-dia) mas at the end of the day (sorry mas esta expressão bate à légua a nossa, no final das contas) tudo se resume a estarmos felizes e, por vezes, procuramos incessante e insistentemente para, depois, percebermos que esteve sempre ali, à frente dos olhos ou que, não tendo estado mesmo à vista, temos de estar disponíveis para ouvir os outros e, através das suas reacções, perceber o nosso caminho.

Oiçam e observem, porque os que nos rodeiam - ou aplaudem nesse palco gigante chamado social media - mostram-nos muito mais do que, por vezes, estamos disponíveis para ver. 
Pensem nisso.

No entretanto, uma reflexão sobre o tema tempo, novamente para a Maria Granel, que leva a cabo uma campanha para promover uma vida mais sustentável e com menos desperdício. Juntei-me à causa, primeiro sobre o poder do não (não, obrigada), depois sobre as compras a granel e hoje, sobre DIY ou seja, fazermos coisas que poderíamos comprar. Escolhi falar do meu shampoo porque notei diferenças reais na cabeleira e porque outros notaram essa diferença mas, sobretudo porque num ano logisticamente desafiador, com viagens constantes entre o centro de Lisboa e a linha de Cascais, o maior desafio foram últimas 4 semanas, com a vida empacotada em malas e caixotes, dividindo-me entre uma casa que não estava pronta e outra que, sendo minha de coração, não é a minha casa. Nestas semanas, obviamente que o DIY shampoo não foi prioridade e sim, a diferença é notória quando uso um shampoo “normal”, de supermercado. Com embalagem. Com parabenos. Com tudo aquilo que nem sabemos o que é e que faz parte da nossa vida. Para o bem. E para o mal. 

Dormi esta noite na minha casa. 

Por isso, o tema é o caminho. Porque para chegarmos a algum lado na vida não temos um Google Maps actualizado ao segundo com a melhor opção de rota. Na vida vamos descobrindo o melhor caminho, o melhor shampoo, a melhor granola que parece difícil mas é tão fácil de fazer.

Por isso hoje, pensem no tempo que ocupam a fazer coisas que não precisam fazer e no tempo que vos pedem para roubar à vossa vida. 

Sempre fui uma pessoa de causas, tantas que nem sabia bem como as abraçar, porque sempre me interessei por muitas coisas, muito eclética e sempre gostei de ver, fazer, conhecer coisas diferentes. Isso, numa era moderna e caótica como a que vivemos, é um problema, porque nunca, como agora, precisámos tanto de nos encaixar para nos definirmos e deixar que nos definam. 
Hoje não chega ser (nunca chegou mas agora piorou) temos de o parecer, mostrando ao mundo quem somos e o que fazemos. 
Sempre assim foi, só mudou a escala dessa apresentação: nas redes não chega sermos aquilo que realmente somos porque na fluidez dos dias modernos sermos uma e muitas coisas cria a cacofonia de que se falava nos tempos da torre de Babel. 
A Maria é da cozinha sem glúten e a Joana é raw, a Francisca prática yoga e a Antónia mostra o seu macramé. O mundo já não tolera a Mónica que usa glúten e faz tudo em crú, pratica yoga e faz macramé nos seus tempos livres. Somos levados a escolher apenas uma coisa para comunicar, caso contrário não conseguimos que ninguém nos ouça. Nunca, como hoje, as tribos foram tão coesas e fechadas, logo agora que o mundo permite, de verdade, abrir portas ao mundo.

De volta às causas, tantas que gosto de abraçar e que escolhi comunicar, integrando-as numa ideia só: a de vivermos em paz connosco, escutando o mundo lá fora, com o filtro necessário para essa paz e tranquilidade que merecemos. Em consciência e conscientes do que viemos ao mundo fazer e que, tantas vezes, custa tanto a descobrir. 

Não sei se sabes o que aqui vieste fazer, que causas queres abraçar ou se as abraças a todas mas uma coisa é certa: a causa que abraças passam a definir, para o mundo, a pessoa que tu és. As minhas estão todas aqui, numa semana de urbanista na Nitfm que fala de surf e diversidade, de sustentabilidade, feminismo e ecologia, mesmo quando parece que estou a falar de tudo, menos a causa que abraço.

Os episódios das coisas, pessoas e músicas maravilhosas estão na NiTfm, todos os dias e os desta semana ficam, também aqui:


nitfm.pt/noticias/aruanas/

nitfm.pt/noticias/daracara/

nitfm.pt/noticias/casapaubrasil/

nitfm.pt/noticias/boundisurfsessions/

Querida fast fashion e fast tudo: cansei...


Na moda, cansei dos padrões que se reconhecem à distância,

dos cortes iguais em todas as marcas,

dos tecidos pingões e costuras mal acabadas,

das fibras e tecidos que não servem para o frio ou calor.

Cansei dos modelos tingidos de sangue suor e lágrimas de alguém sem outras opção para ganhar a vida,

dos vestidinhos que são todos camiseiros com cinto,

das tendências sempre iguais que se renovam entre estações e a cada estação,

de andar igual e mal vestida,

da moda que é andar de igual.

Cansei, não sem antes questionar o que fará uma pessoa trabalhar numa loja por uma média de 700€ brutos, com horários rotativos que podem começar às seis da manhã e acabar às onze da noite - que nunca são mesmo à hora certa porque sabemos que há sempre um cliente de última hora - e, todos os dias, aturar clientes chatos e tarefas rotineiras, chefes que não compreendem o significado da palavra e perspectivas futuras que não ultrapassam o valor das contas a pagar ao fim do mês?

As contas a pagar.

Essas que nos limitam o raio de acção, que nos conformam perante um cenário que é injusto e que, ideologias políticas à parte, está à vista que consolida desigualdades.

Para o caso não interessa a loja - ou a marca - porque todos sabemos que o retalho é um negócio esmagador: esmaga fornecedores tornando-os dependentes, esmaga preços para monopolizar o sector, esmaga pessoas que trabalham por um valor muito abaixo do valor de mercado. A rotatividade, nestas lojas, é enorme, fruto de condições de trabalho precárias, um enorme desequilíbrio naquilo que se entende por equilíbrio trabalho-família, pouco reconhecimento e baixos níveis salariais. Acresce que, na maior parte dos casos, as funções levam à estagnação intelectual, atentam contra a ergonomia no trabalho e o bem estar individual.

Pensaremos nisso, quando estamos de cartão na mão, prontos para pagar? Não. Comprar faz-nos sentir bem, liberta endorfinas, contribui para a sensação de pertença e ajuda ao processo de validação social do qual estamos todos muito dependentes. Sem crítica ou julgamento porque o fenómeno ataca a todos, contudo, a informação está disponível, os modelos industriais de produção que nos garantem este preço tão simpático têm custos enormes para o nosso modo de vida global - a poluição que produzem e o desperdício que estimulam - e bem estar individual, seja que quem faz parte desta espiral empregadora, seja de quem abdica daquilo a que chamamos consciência e continua a comprar. Note-se que comprar todos compramos. Há uns que compram mais, compram a mais e compram sem propósito. É isso que podemos mudar.

A culpa é das empresas?

Também, mas não só. A culpa também é nossa, porque procuramos a melhor relação qualidade preço sem nos preocuparmos com a forma como o produto foi produzido, como chegou até nós, que impacto social e ambiental pode ter, com o atendimento ao cliente, bem como que condições profissionais e de vida têm aqueles que nos servem. Numa loja com funcionárias que dobram roupa num processo infindável e clientes que desarrumam sem respeitar o trabalho dos outros, à caixa do supermercado e ao seu bip incessante, há gigantes da moda, construção, mobiliário, electrodomésticos e electrónica, empresas e marcas para as quais deveríamos olhar de outra forma, tentando perceber várias coisas, a primeira das quais se precisamos mesmo comprar aquilo e fazê-lo naquela loja, se podemos abdicar ou escolher o equivalente nacional, de preferência local que, tantas vezes, está a uma distância que podemos fazer a pé, perto de casa e longe dessas áreas a que chamam zonas comerciais e que, numa lógica liberal, dão emprego a muita gente mas que, bem vistas as coisas, só estimulam uma sociedade de consumo que tende a desmoronar, perpetuando um modelo social que é tudo menos fixe.

Por isso, cansei.

Desamor: o tempo para ter tempo acabou e a nossa relação com o mundo está por um fio

Há muito que venho defendendo a  ideia de retrocesso, muitas vezes associada à alimentação e a necessidade de uma vida (mais) saudável.

As nossas avós não conheciam panrico ou panike, coca-cola ou ice tea. Também não tiravam selfies nem perdiam horas nesse desporto chamado scroll down que simula o real e nos atira para um mundo de fantasia. Nesse tempo vida não era melhor mas era diferente, em sintonia com aquilo que, ainda hoje, entendemos como vida. Realmente, havia privação e fome no tempo da Guerra e durante o Estado Novo, realmente havia censura e muita ignorância científica mas a ideia de adoptar uma despensa parecida com a das nossas avós não quer reproduzir o que a técnica veio melhorar mas, apenas, recuperar práticas antigas, dos ingredientes sem embalagens e dos produtos não processados. Procura, igualmente, dar resposta à crescente necessidade de adoptarmos um estilo de vida mais simples porque, mesmo que teimemos em ignorar, tudo à nossa volta nos diz para parar, escutar e olhar, como antigamente, nas passagens de nível. Quem é que ainda se lembra das passagens de nível e do tempo que perdíamos sempre que a passagem fechava para o comboio passar? Será que perdíamos tempo ou estávamos apenas a respeitar o tempo das coisas? Estaremos melhor, agora, com estradas sobrepostas, pontes e viadutos que desviam o trânsito para o comboio passar, fazendo-nos ganhar tempo para depois os ocuparmos com banalidades ou, pior, a trabalhar, porque sim, cada minuto conta?

O nosso estilo de vida está a matar-nos, a vida desenfreada nas grandes cidades esgota-nos e os dispositivos electrónicos que nos acompanham, definindo o nosso dia-a-dia, contribuem para esse estado de permanente ocupação, como se estarmos assoberbados em tarefas nos tornasse mais eficiente sou fosse sinónimo de sucesso. Lamento: não é.

Volto ao início e ao tempo das nossas avós porque, nesse tempo, havia algo que desapareceu e que condiciona totalmente as nossas escolhas: o tempo.

O tempo - e a falta dele - limita as escolhas:

  • Comemos mal porque não temos tempo para preparar refeições equilibradas

  • Compramos mal porque vamos apressadamente ao supermercado que está aberto até à meia-noite, facilita a vida de quem trabalha até tarde obrigando outros a trabalhar em turnos rotativos com poucas folgas, alguns dos quais sentados na mesma

    posição durante horas para que, nós, os que trabalhamos muitas horas possamos comprar os essenciais a desoras. Faz sentido? 

  • Escolhemos mal porque não temos disponibilidade para procurar marcas amigas do ambiente e embarcamos naquela postura apressada perante a vida em geral e a nossa em particular, evitando pensar.

  • Reutilizamos pouco porque não sabemos como dar uma nova vida às nossas roupas e objectos que fazem parte da nossa vida, porque se tornou mais fácil substituir do que arranjar ou recuperar. Principalmente, mais barato, o que diz muito sobre métodos de produção e um sistema profissional baseado em baixas remunerações.

  • Circulamos de carro porque é mais rápido do que a pé ou transportes públicos (90% das vezes é mesmo) em cidades sobrelotadas e pouco pensadas para receber pessoas.

A lista continua e tudo se resume a algo sobre o qual perdemos, totalmente, o controle: a noção de tempo. De pouco adianta dissertar sobre o estafado “arranjarmos tempo”, “fazer disto uma prioridade”, “tornar um elemento da agenda”... Bullshit. Também já sabem e sabem melhor do que eu que, no dia em que quiserem mesmo ter tempo, arranjam-no. Até lá andam apenas a arranjar desculpas.

O tempo é finito e nós andamos a brincar com essa finitude, enquanto encavalitamos mais uma coisa na agenda e enquanto vamos placidamente aceitando mais uma reunião que poderia ser um e-mail. A frase não serve apenas para imprimir em bases de rato ou canecas com as quais passeamos chá ou café lá no escritório. Que seja um mantra e que nos faça voltar ao tempo das passagens de nível, e ao clássico:

pare

escute

e

olhe

Queridas marcas, isto é tudo uma questão de saber contar uma história.

Queridas marcas: é assim que se faz: curiosidade,  sentido de oportunidade, cuidado no estabelecimento da relação e... sorte. Muita sorte. Ou, como se costuma dizer, não é sorte, é trabalho.

Hoje vou falar-vos de uma marca que não precisa de mim para nada mas que percebeu que, mais importante do que aquilo que se diz, é a forma como se diz e eu gosto de boas histórias e de dizer o que penso. Digo sobretudo que chega deste jogo do gato e do rato, da insinuação de engate e do jogo em que fazemos todos de conta que as marcas aparecem no feed do instagram, no blog ou em qualquer outro formato por mero acaso. A hipocrisia instalada começa por colocar marcas no feed para que as marcas percebam que estamos disponíveis para que essas mesmas marcas nos abordem. Afinal, é tudo tão autêntico e genuíno, mal não fará ser pago para comunicar um produto ou serviço que efectivamente faz parte da minha vida ou, no mínimo, receber produto para isso. Mas as marcas raramente pagam. Porque pagar envolve todo um outro nível de relação e investimento mais complexo.

As marcas estão atentas e entre os milhões de pessoas que o fazem, começaram, lenta e gradualmente, a juntar à sua lista pessoas cujo perfil faz match com a a identidade, o posicionamento e a missão da marca. O jogo continua com sorrisos e piscadelas de olho, numa nova hipocrisia que nos faz sorrir à marca quando esta nos envia amostras ou convida para um evento. A marca sorri de volta e considera-nos no orçamento de marketing: experimentação. Da mesma forma que há promotoras no supermercado que nos dão a provar um novo queijo, na era digital, as marcas enviam produto para que algumas pessoas possam experimentar e, se tudo correr bem, dizer maravilhas da marca. E as pessoas dizem, porque sabem que as relações dependem de confiança que demora a construir, e que, depois da amostra, virá a embalagem e, quem sabe, depois disso algum acordo financeiro. O que todas estas pessoas envolvidas se esqueceram é que a publicidade é uma técnica de comunicação paga da qual se conhece o emissor. Tudo o resto entra nesse domínio nublado e cinzento da promoção, em que as partes cinicamente coçam as costas uma à outra numa relação que vai crescendo ao longo do tempo mas sem nunca dar em nada. É como aquele gajo que telefona sempre às quatro da manhã a pedir colo. Ou outra coisa.

Hipocrisia da grande porque o que as marcas querem é fazer parte da nossa vida e nós, deste lado, com blogs e vlogs e podcasts e instagram queremos mesmo é receber alguma coisa pelo tempo que dedicamos à causa, sempre que cedemos tempo e espaço para colocar uma marca na nossa história. Do lado de lá, querem ser falados, revistos e comentados com o menor investimento possível, caindo no ridículo de enviar produto a uns e pagar pela comunicação desse produto a outros, convites para a festa e envio de imagens dessa festa a quem não recebeu o convite, num circuito em que todos se conhecem e falam uns com os outros, trocam impressões e continuam, cinicamente, à espera do seu lugar ao sol. Restam alguns que nada temem porque não fazem disto modo de vida e que escancaram as portas para deixar a luz entrar num sistema que começa, devagar, a tornar-se mais justo, coerente e profissional. Porque sim, dos dois lados já se percebeu o ridículo da coisa.

Então porquê a Siggis?

Mesmo (agora) fazendo parte da liga dos grandes, a Siggis continua a ser uma marca com uma história para contar. Continua a ser inspiradora e a ter cuidado na forma como chega a cada um de nós. Para vocês será sempre mais uma marca no linear do supermercado mas, para mim, vai ser sempre a marca que um gajo teimoso decidiu criar, que levou ao colo até ao momento em que percebeu que poderia chegar mais longe, que me fez acreditar que iria dar muito trabalho mas que poderia fazer sentido criar a minha própria marca de granola se eu assim o quiser. Mas tenho de querer muito e com todas as minhas forças, dedicando-me de corpo e alma a essa granola, como ele fez para criar este skyr, um produto parecido com o iogurte mas que não é iogurte, é leite fermentado quase sem açúcar e usando ingredientes naturais. Na apresentação da marca, Siggi demonstrou, com factos, o que faz o seu skyr ser diferente e convenceu-me. Depois experimentei e o sabor é realmente diferente, para melhor. Por isso sim, não só o produto é bom como a história é relatable. Siggis poderia ter continuado sozinho mas percebeu que, para levar este produto a mais pessoas, não teria de ceder no princípio mas, apenas, encontrar uma forma de acelerar os processos.  Encontrou uma rampa de lançamento para se atirar à Europa e cá está, com o seu icelandic inspired skyr que continua a saber melhor e mais natural do que os outros que já provei. Por isso mas, também, porque ele me inspirou, dou-lhes espaço e talvez por isso, também me tenham escolhido para os ajudar a passar a mensagem. Pode ser apenas mais um skyr mas eu, que evito ao máximo produtos lácteos, abro uma excepção para este, porque é do Siggi, aquele fulano desbocado, com o coração na boca e a boca na verdade, que conheci quando a marca veio apresentar-se a Portugal. 

eco fashion que é só assim-assim eco

No dia mundial do ambiente, o que fazemos nós para melhorar o ambiente em que vivemos?

Na maior parte dos casos, nada.

O alerta está amplamente divulgado, nas notícias, nas imagens que circulam na rede, no facebook e restantes sites de redes sociais. Contudo, alguns de nós continuam a ignorar a mensagem. Porquê?

Na verdade não tenho resposta a esta questão e imagino que serão mais os que acreditam verdadeiramente nada poderem fazer, como se o fim estivesse determinado e dele não pudéssemos escapar. Talvez não possamos mas, qual colibri na floresta que arde, mais do que aliviar a nossa consciência individual, serão muitas pequenas acções que poderão fazer a grande diferença.

O mundo está a arder e o fogo alastra rapidamente. Os estudos sobre o efeito das alterações climáticas (Climate Code Red) multiplicam-se, na proporção das notícias sobre o tema, numa espécie de alerta global sobre o que está a passar-se nesse imenso ecossistema natural chamado planeta terra. Tal como uma compulsão alimentar, não conseguimos parar porque já não sabemos viver de outra forma: sem o conforto do automóvel para as grandes e pequenas deslocações diárias, sem o ar condicionado para nos aquecer ou refrescar, sem uma enorme variedade de produtos que contribuem para o nosso bem estar mas são altamente perigosos para o meio ambiente, alimentando, também compulsivamente, um conjunto de indústrias que consomem recursos que, em muito pouco tempo, nos farão muita falta. O mesmo não podemos dizer da maior parte dos produtos que estas indústrias vendem os quais, na maior parte dos casos, não fazem falta nenhuma:

Precisamos mesmo de mais uma Tshirt que custa menos de 5€ e que não dura, sequer, uma estação?

Provavelmente não, mesmo quando contamos tostões até ao fim do mês, porque o princípio é sempre o mesmo: o barato sai sempre mais caro porque tem, por regra, menor qualidade e, consequentemente, resiste menos à passagem do tempo, ao excesso de lavagens e aos químicos usados nesse processo. No reino da fast fashion, a.k.a. Grupo Inditex, que é como quem diz, Zaras e suas congéneres, as diferentes marcas assumem uma postura cada vez mais verde mas que, continua a apelar ao consumo. O processo de mudança e defesa do meio ambiente não depende da compra de produtos feitos com materiais reciclados mas de uma atitude mais consciente que compra menos e melhor, ou seja, que compra produtos feitos a partir de materiais naturais e duráveis. Cientes de que o consumidor conhece cada vez melhor os seus métodos de produção e modelos de negócio altamente questionáveis, multiplicam os seus esforços para atrair os consumidores, incluindo os que as foram abandonando em busca de soluções mais eco friendly, impactando, simultaneamente, os que não abdicam da visita semanal à loja para ver (e comprar) novidades. As campanhas conscious, com roupas produzidas em massa, a baixo custo, invadiram as montras mas será que são assim tão conscientes do seu impacto ambiental?

As notícias sobre o tema são muito idênticas: começam por explicar que a indústria da moda, a seguir à do petróleo, é a que mais contribui para a poluição [mais] para depois apresentarem a nova colecção da H&M, feita com materiais sustentáveis e amigos do ambiente, os brilhos ecológicos de Verão da Primark ou a maquilhagem com embalagens de plástico reciclado, bem como a tentativa da Benetton para usar algodão 100% sustentável.

O gigante sueco da moda, a par com as restantes marcas, anda nisto há tempo suficiente para saber o que fazer e há muito que começou a trabalhar a sua mensagem para parecer melhor e mais amigo do ambiente aos olhos do consumidor. Há uns anos o The Guardian [ler] falou sobre uma medida da empresa, para recolher uma tonelada de roupa para reciclar. A questão é que se a marca produz uma tonelada de roupa em 48 horas, então a tonelada de lixo que se propunha a reciclar iria demorar muito mais do que 48 horas a ser usada. Seriam necessários 12 anos. Visto assim, parece muito diferente.

A questão da roupa resolve-se facilmente se nós, consumidores, quisermos: basta deixar de comprar ou, para começar, comprar menos. Muito menos. Trocar, comprar em segunda mão, recuperar (onde estão as máquinas que apanhavam malhas nas meias de vidro?...). Depois, comprar de forma mais consciente e pensar no que estará a ganhar quem produziu o algodão, quem cortou o molde e quem fabricou a Tshirt que nos custou 1,99€. Quanto vale uma hora de trabalho na indústria de produção das marcas de roupa no Bangladesh?

Como afirma uma das mais famosas criadoras de moda, Vivienne Westwood, buy less, choose welll, and make it last (compra menos, escolhe e fá-lo durar), para o bem de todos nós.


Private Rooftop Garage Sale

Vens?

Quero convidar-te para algo muito especial: partilhares comigo um processo de mudança, de novas formas de viver e ver a vida. Alinhas?

Inspirei-me na Bea Johnson, na Marie Kondo e outras especialistas em sustentabilidade, arrumação e felicidade, para perceber que tenho muito mais do que preciso e, por isso, é tempo de dar uma nova vida - ou morada - a roupas, sapatos, malas e acessórios, móveis, discos e livros, litografias e acessórios para a casa.

Acredito na mudança como um processo e o meu está em curso há já algum tempo, culminando nesta espécie de regresso a casa: ao original e tradicional, aos tecidos e formas, aos conceitos e locais onde já fui feliz e não sabia, recuperando hábitos, práticas, ideias e conceitos que fui abandonando e que são, de facto, aquilo que tão bem me caracteriza: a praia e o mar, a bicicleta para me deslocar, o cão para afagar, a rádio para comunicar, a família ali tão perto, a outra família, do coração, mesmo ao lado, novas paixões que abraço com todas as minhas forças: a alimentação saudável e natural, recuperando uma difícil relação que é hoje a melhor de sempre, por ser mais consciente, criativa e informada; a fotografia, uma paixão latente à qual nunca dei a devida atenção e o yoga, essa prática mágica que mudou a minha vida para melhor.

Quero, por isso, convidar-te a fazeres parte desta mudança: vou fazer uma private rooftop garage sale e conto contigo para escolheres algumas coisas para ti.

Os preços começam nos 0€ e, para cada peça ou objecto comprado, ofereço um Cd de música. Para qualquer compra acima dos 10€ ofereço um Cd e um livro.

Passa a palavra e aparece com um amigo porque se juntaram a mim outras pessoas nesta venda de garagem num último andar:

Alguém que tem roupas lindas compradas um pouco por todo o mundo (especialmente no Oriente), uma marca de acessórios de cabelo e outra de pratos artesanais, por isso tem tudo para ser espectacular.

Vou ter música boa a tocar, uma vista excelente para fotos instagramáveis e sorrisos para distribuir!

Domingo, das 13:00 às 19:00 num lugar secreto no centro de Lisboa.

Vens?

Beijos urbanistas, Paula

10k. Now what?

Gosto muito da ideia de viver e aprender e, sobre este número, há muito a dizer…

10k é muito mais do que 10 mil seguidores, é um ponto de chegada e partida, um objectivo que se cumpre e o desafio de continuar um caminho que se renova a cada dia. Cada dia é diferente e também eu vou mudando com o tempo.

O urbanista começou de forma interessada e interesseira, para explorar um nicho que estava, na verdade, saturado, e desenvolver um caminho que não era o meu mas que, na altura, eu queria que fosse:

Paula Cordeiro, versão (lifestyle) blogger.

A história recua a 2014, quando comecei a pensar nisto e decidi que aquele seria o primeiro dia do resto da minha vida. Na verdade, olhando as imagens, começa mais cedo, com uma fotografia de um cruzamento de linhas de eléctrico, esse ícone da cidade de Lisboa que me despertou para a necessidade de percebermos a linha que queremos seguir. Aquela imagem perseguiu-me durante semanas. Depois, cortei o cabelo, um corte assim-assim radical, bastante curto.

Todos sabemos o que significa uma mulher cortar o cabelo. Meses mais tarde decidi passar a deslocar-me de scooter porque Lisboa começava a tornar-se caótica, sempre quis andar de mota e porque sim. Tinha três funções diferentes, e muito exigentes, em três organizações e locais diferentes, que me obrigavam a, no mesmo dia, estar em três pontos diametralmente opostos da cidade. Era quase esquizofrénico e eu não o percebia, nem quando, apressadamente, ia dar um medicamento à minha filha e ela me pedia para tirar uma fotografia. Foi também nessa altura que assumidamente me re-apaixonei pela rádio e decidi que o mundo inteiro deveria sabê-lo. Vivi durante anos emprestada a um outro universo e a rádio chamava por mim. Era tempo de voltar. Em 2014, quando o urbanista começou, estava em força na Europa, qual embaixadora da rádio portuguesa, participando em grupos de trabalho e conferências, tornando-me importante quando cá dentro poucos sabiam quem eu era.

Depois de ter sido a primeira mulher e a mais jovem no cargo de provedora do ouvinte, fui também a primeira a ser reconduzida no cargo, o que me fez explodir de orgulho, adiando, uma vez mais, o meu projecto urbanista. Fui a Marrocos, vi cores que nunca tinha imaginado e percebi o que queria para mim, encontrei a imagem do sítio onde queremos estar, mas não sabia como lá chegar. Fiz quarenta anos e percebi que a vida me estava a dar uma segunda oportunidade para ser (verdadeiramente) feliz, para não me limitar ao que parece e me focar naquilo que realmente importa: o ser em vez de parecer. Sorri. Muito, como se fosse uma despedida e nunca pensei que o caminho fosse tão duro. Queria estalar os dedos mas o som não se ouvia. Viajei demasiado, quase sempre sozinha, para depois ser capaz de voltar a casa. Foram momentos determinantes, de introspecção e percepção que aqui, no nosso dia-a-dia é impossível conseguir. Há quem vá para Índia encontrar-se. Eu andei pelos céus da Europa durante vários anos, mais intensamente neste período, transformei-me numa viajante irritantemente metódica, que analisa a fila na segurança antes de escolher onde vai depositar as suas cangalhadas, tirar o cinto, os sapatos e o casaco para depois seguir viagem. Trabalhei muito (demais) e percebi, à força, o significado da palavra limite. Era provedora e outras coisas, tiraram-me fotografias lindas e aconteceram coisas maravilhosas mas não era eu.

Também era mas, não.

O que mais desejava resumia-se a uma imagem entre tantas, na qual me fixava sempre que me sentia a perder o rumo. Perdi-o, muitas vezes. Editei mais um livro e senti que precisava saber quem era. Procurava-me, abusando do meu corpo, experimentava muitas coisas e acabava sempre por voltar onde já tinha sido feliz sem perceber o caminho. Fiquei doente muitas vezes, recuperei outras tantas, li livros e falei com pessoas. Continuava sem saber dizer não, mesmo quando já sabia o que não queria. Quase me deixei convencer por uma certa burguesia empedernida, aquela com a qual gozava na adolescência e para a qual olhava de lado na idade adulta. Poderia transformar-me naquilo que criticava? Olhava para algumas fotografias que ia tirando e não me reconhecia, num misto entre a pessoa que já não era e a que não queria ser, rodeava-me de palavras, ideias e imagens, para me inspirar. Tornei-me peça de museu e via constantemente onde queria estar sem saber como lá chegar.

Mudei radicalmente a minha alimentação e foi então que mudei tudo. Pelo meio conheci os Açores e foi ali, numa sala velha de janela aberta para o mundo que percebi o meu caminho.

Há sempre um momento e o meu foi onde tudo começou: um estúdio de rádio à moda antiga, mais analógico do que digital que me permitiria comunicar de forma orgânica e autêntica, sem os subterfúgios que o digital permite, ou a superficialidade da sofisticação.

Em Junho de 2016 ensaiei a primeira postura de yoga, sem a consciência que tal exige. Novo caminho. Procurei tudo o que era orgânico e natural, cortei novamente o cabelo, fotografei-me de jeans e all star. Esta sou eu e esta é a profissional que vão ter. Comecei a ser mais eu e a não pedir desculpa por isso.

Dediquei-me ao pilates de corpo e alma, estava em forma mas não estava feliz e adiava o urbanista porque… RTP e a ideia de que a provedora - professora não pode ser blogger.

Na verdade, eu não queria.

Nesse Verão passei 4 horas num supermercado. Li todos os rótulos, escolhi ao pormenor, depois agarrei-me a uma prancha e fiz-me às ondas. Estes foram mesmo os primeiros dias do resto da minha vida. Agosto de 2016.

Cansada de estilo e estilo de vida, percebi que era, outra vez, tempo de mudar. Foi a primeira vez que juntei fruta e pão, que transformei legumes num smoothie, comecei a minha re-educação alimentar.

Queria paz. O treino que fazia já não me completava. Ensaiava, novamente, posturas de yoga, sem sucesso. Nada mais fazia sentido, só fazer o que me dava prazer. Precisei ir a Amsterdão para o perceber.

Voltei a Lisboa e fiquei doente. O corpo sabe sempre enviar-nos sinais, se estivermos disponíveis para os receber. Andei mais uns meses a deixar andar, a pensar no que me apetecia mesmo fazer, e a fazer o que me diziam para ser. Deixei de ser provedora, já não era nem pró-reitora nem coordenadora. Lentamente abandonava a consultoria internacional.

Agora é ia ser, porque não queria ser blogger mas sim podcaster, continuar a ensinar tudo o que aprendi da melhor forma que sei, inspirar e ser inspirada.

Todos os dias.

Conheci pessoas maravilhosas, razão pela qual o urbanista se transformou num programa de rádio sobre pessoas, coisas e músicas maravilhosas, numa rádio que pode tudo, até ser maravilhosa.

Depois de uma vida num contexto profissional masculino e masculinizado, aprendi que as mulheres podem (mesmo) ser as nossas melhores amigas: juntei-me a chicas #mara, conheci abraços únicos, outros grupos e tribos, juntou-nos a voz do coração. São muitas, hoje, provando que somos nós que vamos mudar o mundo. São amigas para a vida e outras que não fotografei, mais as de sempre que nunca me abandonam. Tornei-me mais segura e confiante, tolerante e paciente. Passei por todas as fases, incluindo a que não aceita m*rdas e a que manda o mundo dar uma volta. Fiz t-shirts e tive ideias improváveis, voltei a deixar crescer o cabelo para o cortar no meio termo. Abracei o yoga e um estilo de vida minimal, descobri cabelos brancos e fui a Cuba perceber que há muito de Hemingway em mim (contudo, com o mesmo homem ao meu lado para todos os livros que escrever) e foi ali, em isolamento total do mundo, rodeada de amor e da família, que o yoga mudou a minha vida. Abandonei preconceitos que me limitavam e abracei as minhas convicções, certa de que, se soubermos onde queremos chegar, encontraremos o caminho.

O resto já sabem, foi mesmo rumo aos 10k, com técnica, método e paciência.

Estou grata, não apenas pelo número e o que isso representa no instagram, para validação e notoriedade mas, principalmente, pelas muitas pessoas bonitas, e sem filtro que este percurso me trouxe, provando que, afinal, aquilo que supostamente sempre esteve errado e, diziam, me impedia de atingir os meus objectivos - a minha timidez e dissimulada introversão - era o caminho certo para lá chegar porque, se assim não fosse, eu não faria um podcast, não me esconderia atrás do microfone para me descobrir, descobrindo outras pessoas, nem usaria o mesmo microfone como ferramenta de auto-ajuda e crescimento pessoal que serve, também, para ajudar os outros. Obrigada.

 

O que tem o fim do mundo a ver com o estado da nossa pele? Tudo.

Todos sabemos mas custa acreditar: o mundo está (mesmo) a atingir o limite da sua capacidade de auto-preservação e regeneração. Por vezes sinto-me uma espécie de paladino da desgraça em relação ao tema mas a verdade é que chega de empurrar com a barriga.

São muitas as notícias  dedicadas ao relatório da ONU sobre biodiversidade, baseado na pesquisa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que refere as espécies de animais e plantas em perigo de extinção. É um novo cartão vermelho ao nosso estilo de vida. A próxima espécie a extingir-se pode ser a nossa e levar garrafas para o vidrão já não chega.

Creio que a mensagem da sustentabilidade não passa, ou passa de forma deficiente, por uma razão muito simples: comunicamos quase sempre de forma abstracta, generalizando as consequências e o que, no futuro pode acontecer. Se pensamos numa perspectiva individual, o que tem o fim do mundo a ver com o estado da nossa pele? Tudo.

A pele é o orgão mais extenso do corpo humano, a nossa primeira barreira contra as agressões externas e o que, indirectamente, também contribui para manter o  equilíbrio do nosso organismo. Borbulhas, vermelhidão, pigmentação, pontos negros, pontos brancos, pele seca ou demasiado oleosa… os problemas não terminam. Ontem estive num evento em que se falava de alergias e da nossa pele e percebi que, apesar de existirem múltiplas afecções da pele relacionadas com questões hereditárias ou genéticas, o maior problema é o nosso estilo de vida.

À nossa alimentação, apressada e descuidada, junta-se a uma outra correria que nos leva de casa ao trabalho sem respirar no percurso, mas inspirando muita poluição e contraíndo grupos musculares que deveriam começar o dia relaxados. Depois, entramos num ambiente pseudo-asséptico, controlado por máquinas que não filtram ou renovam o ar. Absorvem-no, secam-no e podem colocar alergéneos em circulação.

Na maior parte das empresas, as janelas estão continuamente fechadas o que quer dizer que nem o ar do ar condicionado pode sair nem o ar exterior, que não sendo puro, pode entrar, traduzindo-se em elevados níveis de dióxido de carbono e um ar pouco saudável. Da mesma forma, a exposição diária da nossa pele e sistema respiratório a este tipo de ambiente provoca bloqueios no sistema de defesa natural do trato respiratório e das pestanas, deixando estas mucosas de actuar como filtro dos microorganismos. Acresce que a falta de manutenção dos sistemas de ar condicionado pode acrescentar a existência de pólen, ácaros, fungos e bactérias que entram em contacto com a nossa pele. Quando ontem  pessoas diferentes referiam problemas diferentes e demonstraram estar em ambientes semelhantes, a minha resposta mental foi apenas uma: sai daí, nem que tenhas de mudar de empregou ou profissão.

Contudo, não mudamos, seja por impossibilidade, falta de vontade ou necessidade do rendimento. Gostaria mas não tenho solução para quem gostaria de mudar de vida e menos ainda para os problemas do mundo mas sei que as radiações solares e a poluição afectam gravemente o estado em que se encontra a nossa pele e, consequentemente, o nosso organismo. Nós, mulheres, fazemos de tudo contra as borbulhas e imperfeições e, principalmente, maquilhamos o problema com as mais recentes inovações. Somos também nós quem tem maior capacidade para  mudar o mundo, sabiam?

Ao longo da história, o papel da social da mulher tem sido definido num segundo plano. Somos  biologicamente mais fortes e resilientes. Os números não mentem: estamos em maior número nas Universidades, vamos ganhando terreno no mercado de trabalho e em cargos de decisão. Em casa, continuamos a trabalhar mais do que eles mas também somos nós a tomar as principais decisões de consumo e a influenciar todas as outras.

Fala-se de uma revolução silenciosa e do poder da energia feminina para recuperar o equilíbrio no mundo... Pensemos nas mais recentes protagonistas: são jovens mulheres prontas para assumir o seu papel no processo de transformação social, por força de uma mudança na orientação das nossas vidas e da forma como as vivemos, procurando um propósito relevante, a razão pela qual cá estamos e o que aqui andamos a fazer. Por isso, mulheres e raparigas, o tempo é nosso e seremos nós a implementar a mudança. Começando lá em casa, começando pelas decisões mais básicas. Cuidar melhor do mundo, para que não seja necessário cuidar da pele. São produzidas mais de 120 mil milhões de embalagens por ano para produtos de cosmética. Estamos a falar de embalagens de plástico que incluem muitas vezes uma caixa de papel e celofane para embrulhar, numa diversidade de plástico que não chega a ser reciclado por desconhecimento ou preguiça. No Wc temos muitas vezes um pequeno caixote no qual despejamos de tudo um pouco, lixo que acaba no aterro sem ser reciclado. Ring a bell?...

O que vamos fazer?

  1. se é a mulher a tomar as principais decisões de compra, pode decidir comprar menos e melhor, fazer escolhas de compra sustentáveis e estar atenta ao pormenor - e nós, mulheres, temos essa capacidade única de analisar os detalhes: local e métodos de produção, comunicação da marca e relações laborais, publicidade e o que esta pretende transmitir. Nada nos pode (continuar a) escapar.

  2. gerir melhor o tempo e colaborar - e nós, mulheres, somos verdadeiras malabaristas da gestão: do tempo, das responsabilidades e da vida, no geral. Deixemos para depois o que pode ser adiado e deleguemos para nos envolvermos mais e melhor em causas maiores, dando o nosso contributo para dar voz ao que precisa de ser alterado. Falemos. Alto, para que possamos ser ouvidas.

  3. Ter voz é adoptar uma posição - e nós, mulheres, somos peritas nisso. Chega de nos mantermos em silêncio e em segundo plano, vamos ser activistas, mesmo que no sofá, e passar a mensagem a quem nos rodeia, mais informadas sobre o que verdadeiramente importa porque informação é poder e, da mesma forma que conseguimos descobrir tudo sobre o mais recente thread de sobrancelhas, também podemos dedicar a nossa atenção ao que podemos fazer para tomarmos decisões mais  informadas, participar em grupos de voluntariado ou contribuir, directa, ou indirectamente, para a causa de protecção do ambiente.


Como o vamos fazer?

É de beleza que hoje se fala por isso, pensemos nas pequenas mudanças que podemos introduzir no nosso quotidiano, alterando, por exemplo, o sabonete líquido por um vegetal, como o castile soap, que é multifunções, ou optar por um sabonete em barra. O mesmo para o shampoo que podemos fazer em casa,  recorrer ao shampoo sólido e sem embalagem [um exemplo | outro exemplo], e escolher marcas que já usam uma embalagem que substitui apenas a parte que contém o produto (Rituals, Lush e Kiehls’ por exemplo), aplicando o princípio a outros produtos que podem ter embalagem de vidro ou alumínio (pode ser reciclado e reconvertido indefinidamente). Na impossibilidade, colocar as embalagens no caixote correcto e trocar o nosso caixote por um que nos permita separar o lixo no Wc. Para a higiene diária dos dentes existem opções biodegradáveis de fio dentário e escovas de dentes que podem transformar-se num outro objecto, como é o caso das que a The Bam and the Boo produz. Também não precisamos limpar diariamente os ouvidos e, quando o fazemos, podemos usar a ponta da toalha depois do duche, da mesma forma que podemos substituir as cotonetes para os pormenores da maquilhagem por outras, de papel ou bamboo, simplesmente, enrolar um pequeno tecido de algodão numa pequena peça de madeira ou bamboo (ou usar canto do dedo e da unha…). Para limpar o rosto há opções que dispensam discos de algodão. Para quem não os dispensa, há uma opção maravilhosa de algodão que podemos usar muitas vezes. São extremamente suaves, podem ser usadas dos dois lados e lavadas na máquina: os discos desmaquilhantes em algodão bio. Finalmente: olhar os rótulos e conhecer as marcas, dando prioridade às que têm políticas de produção sustentável, as que usam ingredientes de produção sustentável, as que sabem como poupar água e as que são quase 100% naturais, eliminando os químicos da sua composição. Como na roupa, está completamente nas nossas mãos, na informação que procuramos e nas escolhas que fazemos. O preço não pode ser tudo, até porque, em última análise, quem sofre é a nossa pele…

Breve história do colibri hipócrita que teimava em tentar mudar o mundo: 5 verbos que fazem a diferença na nossa vida

Escrever é sempre uma catarse e, por muito que qualquer escritor afirme que nada daquilo é sobre a si, quem escreve tem sempre a mesma história nas suas infinitas abordagens, ângulos e pormenores. Mesmo quando pensa que não. 

Escrever também é um acto de coragem, a dos introvertidos que usam a palavra escrita para fazer passar a sua mensagem. Vocês não sabem mas há muito de Brené Brown em mim, que estudei a rádio e a este meio me dediquei, da mesma forma que a Brené se dedicou a estudar e trabalhar a vulnerabilidade: pela sua própria fragilidade e timidez.

Talvez por isso estou sempre a escrever, mesmo quando não estou. Faço longos romances e artigos que nunca chegam a ver a luz do dia porque ainda não inventaram forma de registar o nosso pensamento de forma automática. E é por isso que vos escrevo, porque nesta jornada de tomada de consciência em relação a uma vida mais natural, livre de plástico e de químicos, há muitos momentos em que estou a escrever apenas na minha cabeça, quando me sinto hipócrita por defender uma coisa e acabar trazendo mais uma embalagem para casa. Há dias, no supermercado, não consegui ignorar este diálogo interior, fruto desta tentativa de viver melhor, deixando uma marca menor da minha presença que, depois, se traduz em muito pouco.

- a sério?!... vais mesmo levar isso?... 

Tanta coisa com a alimentação e a pegada ecológica e agora vais comprar uma papaia que veio do Brasil por via aérea?...  Não sabes que se deixarmos de comprar deixam de exportar?... não te preocupas com o ambiente?... Estás a ser egoísta, a ceder a um impulso...  Estás a esquecer-te que isso deve estar cheio de antibióticos?...


- eu sei. É só hoje...

- isso diz quem usa palhinhas... 

 

- Tenho tantas saudades... Já não compro uma papaia desde Agosto, isso deve significar alguma coisa, não? 

 

- não. 

 

A consciência é f*dida.

Sai da loja com uma papaia que demorei a comer. O objectivo era retirar-lhe parte do interior, rechear com iogurte e beterraba, granola e kiwi. Porque sim.

A cada vez que abria a porta do frigorífico, olhava para a papaia, lembrava-me disto tudo ao mesmo tempo que tentava repetir em silêncio que, mais do que ter uma pessoa a fazer uma vida perfeita sem lixo é preferível ter mil pessoas a dar o seu melhor para produzir menos lixo. Será?

Tento todos os dias e falho muitas vezes, mesmo comprando de forma mais consciente, pegando em roupa nas lojas que não chega a sair do saco para ser devolvida porque é fast fashion, pedindo ajuda a quem sabe, experimentando novo produtos ou receitas, mudando hábitos e esperando que um dia o mundo acorde para a calamidade em que nos encontramos, mascarada de mudança climática. Da chuva gelada ao sol de trinta graus vão dois dias e isso deveria ser suficiente para percebermos que algo está errado. Na Antártida uma comunidade de Pinguim Imperador desapareceu. Nos Pirinéus o aparente granizo é plástico e contamina o ar e a água. A deflorestação na Amazónia cresceu 54% desde que Bolsonaro chegou ao poder e em Moçambique as chuvas estão a abrandar mas não há precedentes para o impacto do ciclone da mesma forma que Montreal, no Canadá, está em estado de emergência devido a inundações. Continuamos a confiar na sorte porque só acontece aos outros, até ao dia em que nos vai bater à porta.

Porque o mundo está (mesmo) a mudar e muito depressa, quero poder passar a comprar morangos a granel sem ouvir o comentário de que são muito frágeis ou sem ter de ir a um mercado de produtores bem longe do sítio onde moro. Poupo no plástico mas gasto combustível e aumento as emissões de dióxido de carbono e azoto. Nunca estamos bem, não há a opção certa e voltar à idade da pedra na verdadeira acepção da palavra é apenas uma ideia parva. Pensar que as grandes cadeias e marcas podem ser mais honestas e menos gananciosas para que, com o seu poder económico, em vez de esmagarem pequenos produtores e os tornarem dependentes para escoar a produção, obriguem outras marcas a eliminar as embalagens de plástico, da mesma forma podem contratar mais recursos humanos para garantir que frutos e legumes são cuidadosamente manuseados para serem entregues ao cliente, em vez de os protegerem, garantindo que o cliente se serve a si próprio sem interferência de um funcionário. Também gostava que a mercearia ao fundo da rua fizesse a diferença, que não fosse propriedade de uma dessa grandes cadeias de supermercados... Gostava, principalmente, que estivéssemos todos mais conscientes dos factos, para acreditarmos que, rejeitando algumas práticas comuns que nos prejudicam a todos e adoptando outras, podemos contribuir para a mudança. Porque sim, na sua hipocrisia, um colibri pode contribuir para a mudança.

Eis algumas medidas simples que podemos adoptar no nosso dia-a-dia, que servem tanto - verdade seja dita - para nos aliviar a consciência, como para dar um contributo para a mudança e a protecção do meio ambiente. 

Circular | Comprar | Aprender | Experimentar | Partilhar 

Circular: menos de automóvel, partilhar as viagens mais vezes e, sempre que tenhamos mesmo de conduzir, circular mais devagar, fazer menos acelerações à campeão. Todos somos campeões, não precisamos de o mostrar na estrada. 

Comprar: menos, procurar alternativas com o que já temos, tentar trocar coisas com os amigos e, nós adultos, podemos muito bem evitar o fast fashion. Para quem tem miúdos a crescer ao ritmo das ervas daninhas será difícil porque o ritmo de substituição das peças de roupa é muito intenso e o custo das mesmas elevado. Tentar trocar e doar a roupa, passar aos irmãos e aos amigos pode ser uma forma de amenizar o problema. 

Aprender: coisas novas porque na maior parte das vezes as nossas atitudes e comportamentos resultam de pura ignorância. Eu não sabia que o vinagre de cidra de maçã era um excelente amaciador de cabelo. Aprendi. Experimentei. Apaixonei. Também fui aprender a fazer shampoo em casa. Uma busca simples na web resolveu-me o problema e mostrou-me um admirável mundo novo de opções com o que já tinha na despensa. 

Experimentar: sem medo de falhar porque estamos juntos no processo. Aprender uma coisa nova supõe que a consigamos implementar no nosso dia-a-dia e só lá chegámos experimentando. O que é o pior que pode acontecer se o vosso shampoo caseiro não ficar perfeito? Deixar o cabelo mal lavado e terem de voltar ao shampoo normal. E o melhor? Nunca mais terem de comprar shampoo. Já pensaram na poupança, nas vantagens e no benefício? 

Poupamos dinheiro porque o shampoo não é barato. O investimento nos ingredientes  para fazer um shampoo é maior mas estes duram muito tempo. Poupamos o meio ambiente porque produzem menos espuma e a maior parte dos ingredientes usados é livre de químicos que poluem os oceanos. Deixamos de estar dependentes de grandes corporações cujo fim único é o lucro. Controlamos os ingredientes, alterando percentagens em função das características do nosso cabelo e temos o prazer de fazer algo por nós e para nós. Há lá melhor satisfação do que essa? 

Partilhar: o que fazemos e as dúvidas que temos porque do outro lado há respostas e ideias. Acreditem: senti-me parva ao perguntar onde poderia encontrar morangos e frutos vermelhos a granel, mas recebi várias dicas muito úteis. Da mesma forma sinto-me insegura ao escrever este texto e senti-me muito estúpida ao partilhar os vídeos sobre o shampoo que fiz, ao estilo “ninguém quer saber”, “ninguém te perguntou nada” e, pior, “deves achar-te muito por isso, quando há milhares de pessoas que o fazem há imenso tempo”. Enchi-me de Brenée Brown e c*guei no que os outros pensam porque eu comecei agora, posso ir atrasada mas não vou tarde porque ainda há esperança. Do outro lado do ecrã, pediram-me a receita.

Afinal, vale ou não a pena partilhar?

Agora critiquem-me à vontade por causa de uma papaia mas ficam a saber que não estou de consciência tranquila…

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O tempo não volta atrás e nós vamos perder o comboio...


Há muito que venho defendendo a ideia de retrocesso, muitas vezes associada à alimentação e à necessidade de uma vida (mais) saudável. As nossas avós não conheciam panrico ou panike, coca-cola ou ice tea. Tirando o facto de que havia privação e fome no tempo da Guerra e durante o Estado Novo, a ideia de adoptar uma despensa parecida com a das nossas avós procura recuperar práticas antigas, dos ingredientes sem embalagens e dos produtos não processados. Procura, igualmente, dar resposta à crescente necessidade de adoptarmos um estilo de vida mais simples porque, mesmo que teimemos em ignorar, tudo à nossa volta nos diz para parar, escutar e olhar, como fazíamos antigamente nas passagens de nível.

O nosso estilo de vida está a matar-nos, a vida desenfreada nas grandes cidades esgota-nos e os dispositivos electrónicos que nos acompanham, definindo o nosso dia-a-dia, contribuem para esse estado de permanente ocupação, como se estarmos assoberbados em tarefas nos tornasse mais eficientes ou fosse sinónimo de sucesso. Lamento: não é.

A palavra mudança está na ordem do dia, seja numa perspectiva individual, em busca de um propósito de vida, ou de grupo, relativa aos nossos comportamentos. Há uma certa urgência na mudança para evitar que sejamos consumidos pelo aparente idílio social que projectamos assente em estacas de madeira que estão, rapidamente a apodrecer: individualmente, nunca se venderam tantos ansiolíticos e anti-depressivos como agora [ler], o stress é a doença crónica do século. A combinação dos dois factores provoca apatia, uma falta de sentimento que nos torna indiferentes a tudo o que acontece à nossa volta. Vivemos mas é como se não estivéssemos lá, sem energia e vontade, prisioneiros de algo que não sabemos identificar. Talvez esta apatia, que o uso intensivo da tecnologia tem feito crescer, explique o nosso desinteresse por aquilo que está a acontecer no planeta, num aparente descrédito pelos factos que estão à vista de todos.

“Se for só eu a fazer, não adianta” é a maior mentira que dizemos e Greta Thunberg está aí para o provar.

O mundo está triste, falta paixão, falta (re)apaixonarmo-nos pela vida para quereremos fazer mais. Estamos defraudados, desiludidos, de coração partido, razão pela qual mantemos o foco na negatividade, desvalorizamos o nosso potencial e ignoramos, como diz a miúda de quem o mundo fala, que nunca somos demasiado pequenos para fazer a diferença. Greta tem discursado em diferentes assembleias e parlamentos, apresentando estimativas que prevêem o fim da nossa civilização. Baseia-se sempre em factos científicos, difíceis de refutar, a não ser pela apatia que invadiu muitos de nós.

Ingénuos como só na adolescência conseguimos ser, os jovens sairam à rua e ficou tudo na mesma, afirmou recentemente Greta Thunberg, a miúda sueca que está a inspirar o mundo a mudar. A sua presença impactante, palavras directas e mensagem simples deixam qualquer um sem resposta e os jovens continuam a fazer greves estudantis por todo o mundo para que os governantes percebam a dimensão do problema.

Resta agora actuar.

Em Portugal, os jovens vão voltar a sair à rua no dia 24 de Maio, juntando-se ao movimento internacional #SchoolStrikeForClimate, iniciado por Greta. Se vão mudar o estado das coisas? Não sei. Mas sei que também eu quero fazer a diferença, à minha maneira e à minha medida, comprando menos ou não comprando fast fashion, escolhendo produtos a granel, fazendo o meu próprio champô - porque afinal é mais simples do que parece [exemplos] -, recorrer ao vinagre de sidra para substituir o amaciador de cabelo (e resulta!), usando vinagre para limpar a bancada da cozinha evitando que a espuma e os químicos dos detergentes cheguem ao mar, mudando para uma casa energicamente mais eficiente, porque é mais pequena e com mais luz solar, mais perto dos transportes públicos que me permitem deixar o carro à porta ou implementando medidas (ainda) tão pouco habituais como a compostagem.

Se cada um de nós adoptar, pelo menos, uma destas medidas, não me digam que não vale a pena…


Imagem de capa:  Markus Spiske 

Comer pelo prazer, chorar porque comemos. A montanha russa de emoções que a comida nos dá

Novamente, tudo começa assim, sem esforço, com a naturalidade mais natural que se possa imaginar. Conhecemo-nos no instagram e percebi imediatamente que tínhamos algo em comum: denunciava-nos o boné americano, pouco usual entre as mulheres como acessório statement, mas que define parte da nossa personalidade. Isso e a alimentação saudável. Não precisámos de mais para perceber que poderíamos juntar esforços, ideias e receitas. Temos ambas a abordagem keep it simple à vida e à alimentação. Mais para quê?

A Filipa é açoreana e vive na Noroega. Eu sou lisboeta com espírito escandinavo. Ela dá no ferro e levanta pesos, eu dedico-me à leveza de corpo e mente que o yoga nos dá. Ela é chef e health coach, eu tenho apenas ideias para comer bem sem ter muito trabalho. Por isso, juntámos as nossas vozes e ideias neste episódio do urbanista na NiTfm no qual partilhamos as nossas experiências, cruzamos opiniões e aproveitamos para falar sobre esse segredo bem guardado: a forma como as emoções dominam a nossa relação com os alimentos, as razões que nos levam a comer sem parar ou o que nos faz sentir parte do #team batatas fritas ou do #team chocolate e doces... tudo neste episódio com a Filipa Semião!

O trabalho: a maior das ironias da vida moderna e um exemplo contra a corrente

Ironia das ironias, a ironia maior do episódio urbanista desta semana está a passar ao lado da maior parte das pessoas que me escrevem, reconhecendo-o como um episódio cheio de graça porque, realmente, a Madalena Abecasis tem uma forma única de nos mostrar o mundo.

A ironia de que hoje vos falo também a mim passou despercebida até reparar num aparente pormenor deste episódio, sem o qual não haveria episódio: este é, afinal, sobre a ironia do trabalho moderno.  

Ficando em casa de baixa de maternidade e com pouco para se ocupar, deu largas à imaginação e em menos de nada estava na mira de Cristina Ferreira, que a levou para a sua nova casa, nas manhãs da SIC. No entretanto, já a pequena Júlia tinha nascido, já Madalena tinha voltado ao trabalho numa grande empresa e já o tinha abandonado em prol de uma causa maior: a sua paixão pela moda. Este é o primeiro aspecto que interessa, porque trocou aquilo que tantos ambicionam, um lugar estável numa grande empresa, por um trabalho multi-funções na sua área de experiência numa pequena empresa. Foi então que largou tudo isso para abraçar a sua outra paixão, dedicando-se à família e à sua capacidade única de comentar o quotidiano com um sarcasmo absolutamente maravilhoso. 

O que quer isto dizer?

De forma muito simples, quer dizer que somos, a maior parte de nós, umas grandes bestas quadradas, agarradas ao pouco que temos, sem coragem para dizer não e seguir um sonho.

Eu sei. 

Onde está o balão de oxigénio que paga as contas? 

Não está e não tem de estar, sabem porquê?

Porque enquanto pingar, por pouco que seja, por pior que possa ser, não temos disponibilidade (sobretudo mental) para darmos tudo pelo nosso sonhos. E sabem como e quando percebi isso? 

Quando o Fernando Esteves, que já esteve no urbanista, me contou que largou tudo, que tinha poupanças para viver durante 1 ano e que, depois disso, ou o seu projecto ganhava asas ou o pior dos cenários transformar-se-ia em realidade. Foi também isso que lhe deu a disponibilidade, a vontade e a tenacidade para dar tudo para o Polígrafo acontecer. Hoje, muito pouco tempo depois da nossa conversa, o Polígrafo já está, também, na SIC.  

O que aprendemos com o Fernando e a Madalena?

Fácil: os sonhos não podem ficar por realizar porque viver uma vida a trabalhar para (apenas) pagar contas deixa-nos infelizes e todos queremos sentir esse prazer que se chama satisfação pessoal. Para além disto, o ritmo da vida moderna está lentamente a matar-nos, seja pelo excesso de poluição à nossa volta e das suas consequências para a nossa saúde e bem estar, seja pelo facto do sistema social em que nos encontramos, que privilegia o sucesso material em detrimento da satisfação real.

O que quero dizer é que nada do que sentimos que resulte da relação que estabelecemos com bens materiais é real porque não se traduz num sentimento efectivamente forte e duradouro. A obsessão - que começou há muito tempo e hoje atinge proporções que nos prejudicam a saúde mental - por uma definição de sucesso medida em bens materiais tem vindo a destruir a nossa capacidade de abstracção. Nesta cultura do Eu, anónima e solitária, estamos demasiado preocupados com a forma como os outros nos percebem. Focamo-nos no irreal, definimos expectativas e metas inalcançáveis, ignorando o verdadeiro valor daquilo que se tornaram os pormenores da vida e que são, na verdade, aquilo que a vida tem de melhor. Essas abstracções filosóficas baseadas no sentir são a base da nossa noção de ser que o objectivo em ser o melhor, o mais famoso ou o mais rico tem destruído. Uma vez suprimidas as necessidades básicas, as necessidades de realização pessoal passam a assumir maior importância e como hoje não pensamos muito sobre o que de mais básico existe, concentramo-nos - erradamente - nessa realização pessoal sem antes percebermos o conceito de pessoa, ou seja, quem somos. Na ausência de definição de um propósito de vida, mantemos as aparências recorrendo ao que o dinheiro pode comprar para, novamente, sermos os melhores ou termos algo diferente dos outros. Ficamos esgotados. Simultaneamente, nas empresas, pouco importa se estamos bem ou mal, desde que estejamos, numa cultura desumana em que o bem estar financeiro das organizações se sobrepõe ao dos seus funcionários. A insegurança económica e laboral contribui para que estes funcionários aceitem ambientes tóxicos, más condições de trabalho e relações contratuais injustas, condicionados por uma oferta e procura de emprego muito desajustada, que deixa os profissionais das várias áreas numa situação submissa muito pouco digna. É aceitar. Ou aceitar, dar tudo sem questionar para, muitas vezes, acabar por perder tudo.

Como mudar?

Dizer não pode não ser solução pela tal necessidade económica de sobrevivência mas há muito que podemos fazer: dizer talvez, renegociar, renunciar, praticar o desapego para precisar de menos, organizar e gerir bem o tempo, definir prioridades e, se preciso, reinventar-se, como fez o Fernando e a Madalena.

Temos, principalmente, de reaprender a viver, abandonando essa necessidade de poder, fama, dinheiro ou reconhecimento para dar o salto, apesar da insegurança. O facto é que somos ensinados a sustentar a casa e a família, a termos independência financeira mas e quando para além de pagarmos contas, não há mais nada?

 

Terapêutico: muito mais que saudável é poder curar

Sabemos que alimentação é a base da nossa saúde mas não pensamos nisso vezes suficientes e lá vamos entupindo as veias, o fígado, o baço e outros órgãos com uma alimentação descuidada, apressada, pobre em nutrientes e rica em ingredientes negativos. A isso juntamos as muitas horas que passamos sentados, outras tantas inactivos, um scroll permanente nos social media e elevados níveis de stress porque o trabalho isto e a vida aquilo…

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É o que acontece a muitos de nós e quase me aconteceu mim. Aconteceu o quase, que é um enorme sinal de STOP antes das consequências graves aparecerem. Não contente com a primeira red fala ainda foi à segunda e depois parei para pensar no que andava a fazer, não sem antes o médico que conheço há mais anos me entregar uma prescrição cuja descrição se absteve de explicar dizendo para tomar sem questionar e acrescentando que, para além daquilo eu deveria simplesmente pensar no que andava a fazer. E pensei.

Já a Joana Teixeira, proprietária, mentora e tudo mais no Therapist, conta uma história diferente porque foi quando as consequências de um estilo e vida altamente apressado e desequilibrado se manifestaram que percebeu que tinha um problema. E resolveu-o. À sua maneira: pragmática, objectiva mas muito apaixonada.

Encontrou na medicina alternativa o que a medicina tradicional não tinha para oferecer e na alimentação a solução que muitos procuram e não encontram. Depois fez o que eu nunca (ou ainda) não tive coragem de fazer e criou aquilo que hoje conhecemos por Therapist, que começou por ser um plano para um Lx Factory da saúde e é hoje um espaço de alimentação saudável, terapias alternativas e partilha de conhecimento.

Gosto dela, falamos a mesma linguagem, somos sonhadoramente ambiciosas e pragmaticamente apaixonadas pela ideia de divulgar os benefícios de uma vida e alimentação saudável a todos com quem nos cruzamos. Eu, pela palavra, ela, sentando as pessoas à mesa e dando-lhes a provar combinações improváveis que resultam em pratos altamente deliciosos e extraordinariamente saudáveis. Tanto que podem curar. Ou contribuir para tal. Foi pela alimentação que a Joana curou um problema de saúde e foi, também pela alimentação, que eu me livrei do meu. Se isto não é o poder da comida, não sei o que será. Escutem a história toda e conheçam o Therapist, o projecto mais saudavelmente cool de que há memória!