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A ideia redutora da diversidade ou a importância de gostares das tuas maminhas

#SaggyBoobsMatter: aceita as tuas maminhas

Cruzei-me, à dias, com um comentário da @madameacidic (Mariana Duarte Silva, Village Underground), em relação a umas imagens publicadas numa das revistas do social que mostrava um conjunto de mulheres (um bocado iguais, diga-se de passagem) apelando à ideia da diversidade: "caras conhecidas provam que a beleza feminina cabe em vários tipos de corpos", desde que sejam todos tamanho 36, pensei. Nada contra mulheres magras ou elegantes mas a diversidade não é isto e, sobretudo, as palavras não podem ser usadas para nos posicionar enquanto defensores de uma causa que não é a nossa.

As revistas do social existem para mostrar o lado B da vida, que é sempre bonito e (um pouco) manipulado, para criar imagens bonitas e um ideal de vida igualmente belo.Não foram criadas com o objectivo de ter uma missão, mensagem interventiva e socialmente relevante, de apelo à mudança de consciências, pelo que não compreendo a razão pela qual a diversidade é chamada ao título de um artigo que começa por referir a tarde, a boa disposição e, principalmente, a marca para a qual estas figuras conhecidas foram fotografadas. É um facto que depois falam sobre maternidade e o corpo mas, isso, não é diversidade. E por falar no tema, a Aerie (#AerieReal) está, de facto, a celebrar a diversidade com uma campanha que inclui modelos com tipos de corpos muito diferentes entre si mas, também, mulheres com doenças específicas, deficiência ou condições invulgares. Senhores: diversidade é a característica do que é diverso e plural, não são cores de cabelo diferentes, maminha maiores ou menores. E, por falar em maminhas, agora que vão estar mais expostas nos biquinis ou fatos de banho, falemos sobre isso: mamas.

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Caídas ou não, com estrias ou redondas como duas laranjas, não há duas mamas iguais. Se a nossa direita e esquerda são diferentes, imaginem a variedade de mamas em todo o mundo. As mamas, esse objecto tão clínico, que se apalpa como se fosse massa de pão, é fonte de vida e, talvez, o maior objecto de desejo sexual. Não é para os nossos olhos que eles olham. É para as mamas. Independentemente do tamanho ou da forma, os homens não conseguem evitar olhar para o colo de uma mulher, naquele V estreito que se forma numa blusa aberta, no decote mais ou menos profundo ou, simplesmente, no volume semi-escondido por baixo de uma camisola. 

Nem todas têm a sorte de as ter redondas e tesudas. Mas todas acham que poderiam ser maiores, melhores, mais pequenas, menos caídas, mais redondas, menos flácidas, mais… E muitas, se pudessem, atiravam-se de cabeça à faca, para uma remodelação. 

O tema das mamas não é novo no urbanista e já confessei que as minhas nunca foram um problema. Talvez porque me concentrasse noutros supostos problemas com o meu corpo e este fosse, na verdade, o menor dos males. E é mesmo menor, em boa verdade (gargalhada mental…) A verdade é que nem toda a roupa me assenta bem (onde é que eu já ouvi isto?...) e se, umas não podem porque as têm demasiado grandes, outras também não podem porque ficam perdidas por baixo de um manto de invisibilidade.  E muito pano. Falamos muitas vezes nas mamas grandes e raramente nas mamas descaídas que a indústria da roupa interior se encarregou de cuidar, com modelos de todos os tipos para as puxar para cima. 

E quando tiramos o soutien? Pior, e quando vamos comprar o soutien?

Há dias cruzei-me com a hashtag #SaggyBoobsMatter e, apesar das minhas não serem completamente saggy, revi-me totalmente na questão porque as mamas - ou a sua quase inexistência - afecta-nos mais do que pensamos. Somos influenciadas pelas maminhas perfeitas das modelos nas revistas e as fotografias que estão nas lojas. São sempre maminhas perfeitas para soutiens que irão ser vestidos por mulheres imperfeitas. Não faz muito sentido mas é neste contexto em que nos movimentamos por isso, o melhor que é aceitar as nossas boobs, no matter what, responder à letra sempre que formos vítimas de comentários que nos fazem sentir mal e perder a vergonha da pessoa para quem nos despimos. É que muito provavelmente essa pessoa está aterrorizada por se despir à nossa frente, mostrando a sua intimidade e fragilidade.

Pensem sempre na insegurança do outro. Ninguém é perfeito, por muito que o possa parecer. Pensem nisso com todas as vossas forças e absorvam a energia que esse pensamento vos dá para serem mais fortes e confiantes!

"és mesmo gay ou é só porque está na moda?"

"és mesmo gay ou é só porque está na moda?"

O que é ser homem ou mulher nos dias de hoje, independentemente do binómio que a biologia define ou da orientação sexual? Os papeis sexuais foram substituídos por identidades de género, independentes do nosso sexo ou orientação sexual, razão pela qual tem crescido o número de pessoas que questiona essa dualidade, afirmando-se sem género, contestando restrições sexuais e, principalmente, o conservadorismo biblíco de alguma ciência.

Vogue Arábia: sem preconceito e com muito bom senso

Se temos 25 lápis de cor para pintar, não vamos usar apenas uma cor

Português com um pé no mundo, foi o segundo homem a ser nomeado para dirigir uma das revistas de moda mais influentes de sempre. Manuel Arnaut, responsável pela Vogue Arábia, apaixonado pela moda e o jornalismo, fala da importância de fazermos o que gostamos, do papel do jornalismo na mudança de mentalidades e da defesa da diversidade nas revistas de moda.

https://en.vogue.me

https://en.vogue.me

Urbanista: Foi o segundo homem, na história da revista Vogue, a nomeado para a direcção de uma das edições internacionais, a Vogue Arábia. Considera-se um privilegiado ou, pelo contrário, para além do desafio, é alvo de pressão, de maior uma maior responsabilização em relação ao desempenho destas funções?

Manuel Arnaut: Hoje em dia já não sou o único diretor das edições da Vogue. Em Itália, Inglaterra, Arábia (no meu caso), Tailândia e Polónia os editores também são do sexo masculino. Na verdade, fazer uma revista de moda é, basicamente, como fazer um jornal, a questão é que o tema é moda. Por isso, quando a pessoa tem curiosidade, característica que considero mais importante para um jornalista, quando está atenta, interessada pelo que está a acontecer e se revê nas pessoas certas, não creio que o facto de ser um homem seja um problema, da mesma forma que não vejo nenhum impedimento numa mulher dirigir uma revista masculina.

U: Concorda que sempre existiu preconceito em relação ao género, posições hierárquicas, áreas e funções. Sempre se considerou que este seria um domínio das mulheres, isto é, no jornalismo as mulheres têm estado mais presentes na cultura, lifestyle, a moda… Vemos, finalmente que essas fronteiras, e supostas limitações, de facto não existem…

M.A.: Sim, não existem. No jornalismo, a moda pode ter um âmbito maioritariamente feminino, mas os mais icónicos designers são todos homens (hoje não tanto). Por isso, sempre houve um flirt entre homens e mulheres no mundo da moda. Se me perguntar, o que é que posso dizer que um homem faz diferente de uma mulher numa revista de moda? Não sei. Não tem a ver com o género, tem a ver com a pessoa, a sua visão, o gosto, as escolhas, e eu acho que essas escolhas não são determinadas pelo género. 

U: Li algures que, na sua juventude, devorava revistas de moda. Eu também, e isso foi um dos aspetos que me levou a fazer este convite para a entrevista. Chegar a esta posição é um sonho tornado realidade ou apenas um business as usual?

M.A.: É um sonho tornado realidade. Se não dissesse que ser diretor de uma revista como a Vogue não é um sonho, acho que nem merecia ter este trabalho! (gargalhada)

As coisas mudam tanto… Eu já estive desempregado, já estive numa revista masculina, já estive a colaborar, já estive na Vogue Portugal. Nós nunca sabemos as voltas que a vida dá por isso, quando se tem uma oportunidade como esta, temos que a agarrar com unhas e dentes e não ficar à sombra da bananeira. É muito fácil a pessoa chegar ao cargo de direção na Vogue e pensar “ah… agora cheguei aqui não preciso fazer mais nada”. Não, é exatamente o contrário, porque a Vogue é “A” revista. Fazer a revista mais famosa do mundo é uma grande responsabilidade, especialmente por se tratar da Vogue na Arábia. Há todo um lado sócio-cultural e que a revista também tem de cobrir. Por outro lado, as pessoas olham para nós - às vezes até comentam no meu Instagram “ah fantástica vida!”, “estás sempre a viajar!”, “amazing” - só estão a ver o nós queremos mostrar. Esquecem-se que também temos de trabalhar até às 3h da manhã porque temos de estar em simultâneo com Nova Iorque e o fuso horário é completamente diferente, não sabem que estamos a correr de um lado para o outro,  que estamos duas horas em Paris e que, oito horas depois, já estamos no Dubai. O trabalho é fantástico mas não é fácil. Se fosse fácil toda a gente o podia fazer.

U: Pensando agora no online e especialmente nos social media: hoje em dia o Instagram e o Youtube têm um papel determinante na representação da mulher. Têm alguma estratégia em particular em relação à necessidade de passar uma mensagem positiva em relação à auto-estima da mulher? Seguem essa grande tendência do “Ama-te como és”, “Love your body”, “Body positivity” e outras hashtags em circulação?

M.A.: Claro! Há um website - Fashion Spot - que todas as pessoas da indústria visitam. Este website coloca as capas das revistas em fóruns, as pessoas comentam e é muito interessante ver o que as pessoas estão a dizer das capas das revistas [consultar]. eE 2017 fizeram um estudo sobre a diversidade nas revistas femininas, analisando mais de 400 capas e a Vogue Arábia foi a revista que, nesse ano, promoveu maior diversidade cultural e racial, comparada com todas as outras capas de revistas femininas e de moda [consultar]. 

U: Fizeram-no estrategicamente ou têm essa preocupação que, por coincidência, vos levou à melhor posição nesta análise?

M.A.: Para mim não é só a questão da raça, é também da idade. Já fiz capas com mulheres de 65 anos por isso, apesar da revista ser muito regional, acredito nesta mistura cultural, de idades, formas e peso, cor da pele. Eu acho esta mistura fantástica. Fizemos a primeira capa com uma modelo a usar o hijab. Se não fosse a Vogue Arábia, quem iria fazer? Faz parte do léxico. E mesmo em Portugal, já nos cruzamos com mulheres que usam véu. Faz parte do mundo. Por isso, porque não? Acredito que, dentro de todos os tipos de corpos, todas as raças, temos que encontrar beleza. Se temos 25 lápis de cor para pintar, porque razão vamos usar apenas um?

U: O Dubai não é o mundo árabe. Como é que vocês conseguem fazer esta ligação entre o Ocidente e o Médio-Oriente, mostrando a diversidade cultural, as diferentes identidades? É óbvio que a Vogue não explora a realidade política e económica…

M.A.: Não, por acaso até exploramos. Há duas questões: o mundo árabe é muito vasto e uma mulher no Líbano veste-se de forma completamente diferente de uma mulher no Golfo. Nós tentamos responder às necessidades das duas. A região é muito diversa, as mulheres são diferentes e têm códigos igualmente diferentes, apesar de haver um DNA que une todas as pessoas. Sabemos que há limites que não devemos ultrapassar e vamos gerindo com tacto e bom senso. Por exemplo, se fazemos a revista com fotografias nas quais as modelos estão muito vestidas, com poucas partes do corpo expostas, recebemos críticas a dizer que estamos a manter o status quo ou a promover um pensamento antiquado. Contudo, prefiro esta crítica a chocar as pessoas mais conservadoras e religiosas. Creio que se formos muito agressivos numa tentativa de mudar tudo, não mudamos nada. Temos de, pouco a pouco, contribuir para o que tem que ser alterado. Ou contribuir para a discussão, fazendo as pessoas pensarem sobre os temas. A Vogue Arábia tem falado sobre a violência contra as mulheres, fizemos, por exemplo, uma reportagem sobre os Honor Killings mas, mais uma vez, temos de usar a regra do bom senso porque se fizermos algo muito escandaloso há sempre o perigo de haver repercussões negativas para a revista. Todas as notícias que se ouvem sobre o mundo árabe são negativas e há muita coisa positiva. Há mulheres verdadeiramente poderosas. O Dubai, por exemplo, tem 13 mulheres ministras, algo que não se verifica em Portugal ou na Europa, facto que é, também, revelador da mudança. Como revista temos a obrigação de apresentar os temas para debate e contribuir para esse debate. Depois, se a pessoa quer usar ou não um véu, isso é uma decisão sua, de acordo com as suas crenças e valores. As pessoas perguntam-me  muitas vezes “qual é a fórmula” e eu digo sempre: bom senso. 

 

Amar é normal. Anormal é não amar

Usei, propositadamente, as palavras normal e anormal no título. Porque sempre achámos normal chamar anormal a alguém que é, apenas, diferente. Durante muito tempo o outro seria atrasado. Um anormal, deficiente, um mongo. Ou monga. Porque eram, dizia-se, mongolóides. Até me dói escrever isto mas era a verdade...

As pessoas com deficiência mental, especialmente Trissomia 21, foram, durante muito tempo, socialmente ostracizadas, maltratadas e, mesmo, desprezadas. Creio que estamos, hoje, mais informados, despertos para a importância de aceitar a diferença, capazes de compreender que isso de ser um mongo tem muito pouco a ver com a anomalia que provoca a deficiência mental e muito mais com a incapacidade que algumas pessoas (ainda) têm de ver para além do seu pequeno umbigo.

A APPACDM teve uma iniciativa maravilhosa: juntou vários jovens com algum tipo de deficiência mental e mostrou-lhes que são tão ou mais bonitos do que as outras pessoas. Essas outras para as quais também estes jovens olham de forma diferente por se sentirem, eles, diferentes. 

Não somos todos diferentes uns dos outros?

Somos.

Eu sei. As características físicas e, por regra, o desenvolvimento mental e intelectual torna-as diferentes do que se definiu como socialmente normal mas, sinceramente, acho-as muito especiais e muito pouco anormais. Foi o que o projecto do livro Um dia igual aos outros provou a cada um deles porque, em boa verdade, com maquilhagem e roupas bem escolhidas, ficamos TODOS sempre muito diferentes daquilo que o espelho mostra no dia-a-dia.

São muitas as pessoas que não se amam. Odeiam-se, e a cada milímetro do seu corpo, numa atitude que corrói a alma e destrói a sua relação com os outros. Não é fácil ser diferente num mundo que apela à uniformidade e que estabeleceu padrões de beleza quase inalcançáveis para o comum dos mortais: aqueles que acordam todos os dias bem cedo, enfrentam o trânsito e os transportes públicos, querem alimentar-se bem sem saberem como, cedem à tentação ou se deixam enganar por rótulos carregados de ilusões, chegando ao final do dia sem tempo, paciência, capacidade física e mental ou, simplesmente, dinheiro no bolso para cuidarem de si. A vida - a vida normal - é assim e só nós podemos mudar isso. Mas (ainda) não podemos, sozinhos, mudar a forma como o outro olha para nós e nos avalia, com impacto na ideia que fazemos de nós próprios. Estes jovens sentem, amam, aprendem como qualquer um de nós. Podem divertir-se, trabalhar e viver de forma autónoma se os incentivarmos. Porque amor é amar e também as pessoas com algum traço físico (ou mental) que as diferencie dos outros merecem sentir-se bem na sua pele não apenas por um dia, para um sessão de fotografias...

Afinal sou bonita, expressão de uma das modelos, foi a que mais me cativou porque as noções de feio e bonito estão de tal forma sugestionadas que perdemos a ideia de respeito e aceitação pelas diferenças que nos unem. Também eu olho ao espelho e, por vezes, me julgo, critico e trato mal. Quem nunca?... O segredo para nos sentirmos bem (ou, pelo menos, melhor) é aprendermos a aceitar que todos temos um #BadHairDay e olhar sempre para os nossos aspectos positivos. Porque todos, à nossa maneira, somos bonitos. Este projeto fotográfico deu a oportunidade de fazer estas pessoas sentirem-se bonitas. Muitas afirmaram que antes deste livro se sentiam feias. A maquilhagem, o cabelo e o trabalho final da fotografia fez com que muitos chorassem perante o resultado final e fê-los perceber que, afinal, são bonitos.

Além da imagem que mudaram de si próprios, fizeram amigos e provaram, a cada um de nós, que a beleza vem sempre de dentro e que somos nós que a moldamos do lado de fora. Com ou sem #makeup...


IMAGEM DE CAPA:

a inspiradora Madeline Stuart, a primeira modelo com Síndroma de Down

Já não há histórias de amor

São cada vez mais raras. A questão começa com o desagregar dos laços e do sentimento de pertença mas, também, com essa ausência de identidade num mundo cada vez mais global e homogéneo, que apela à diferença sem a reconhecer. A mudança no amor, no sentimento que é amar, na intimidade reflecte a mudança das relações e da própria ideia de ser, da relação do eu e do outro. Vivemos perante uma multiplicidade de opções identitárias, sexuais e de género, que se traduzem numa espécie de utopia cosmopolita que nos faz quase sempre querer voltar à nossa essência para a descobrir ou, simplesmente, redescobrir.

No tempo dos meus avós e no tempo dos avós deles, era tudo diferente. Por vezes pensamos que antigamente é que era bom mas, era nesse antigamente, que os casamentos eram arranjados e que a violência doméstica, quando existia, era silenciada. O casal ficava junto até à morte numa instituição chamada casamento que definia a vida emocional, amorosa e sexual bem como as pessoas e as suas relações sociais. Hoje não dependemos de nada nem de ninguém, apenas de uma ligação à internet e de uma certa capacidade de escolha entre infinitas possibilidades. Queremos, contudo, o mesmo desde sempre: amar e ser amados.

O que mudou foi a forma de conhecer o amor.

A sociedade sempre nos pressionou para dividirmos a nossa vida com alguém. As solteironas que ficam para tias ou os solteirões que são uns mulherengos representam a pressão que família e amigos exercem sobre cada um de nós para encontrarmos o tal. O romance nunca irá desaparecer, menos ainda a vontade intrínseca de amar alguém mas, hoje, é tão difícil conhecermos uma pessoa com quem consigamos ir além de encontros fugazes que nos fechamos ao amor. Dizem que a culpa é da tecnologia, ainda que esta se apresente como uma ferramenta que pode ampliar o leque de pessoas que podemos conhecer, para além das rotinas do dia-a-dia, dos grupos de pertença ou dos amigos dos amigos. Nos sites de encontros e redes sociais ou nas aplicações que assumem a sua função de engate, o amor está ao virar de um swipe que é como quem diz, podemos escolher mas, efectivamente, é o caçador que se transforma na caça.

Por isso, neste dia do amor e dos enamorados, proponho o contrário do habitual: sejamos egoisticamente felizes a ler um livro, ouvir um podcast, a praticar yoga ou mimando o corpo (e a alma) num banho de imersão (bem sei que nesta altura o banho de imersão é politicamente incorrecto mas façamos uma imersão das pernas na água deixando o resto do corpo por molhar)... Vamos tirar um dia para nós, no conforto da nossa casa ou num hotel espectacular como este que fui conhecer, e que me permitiu fazer estas fotografias...

Porquê um hotel num dia como o de hoje? Porquê o WC Beautique Hotel?

Porque merecemos. Porque eu queria sugerir-vos um banho de imersão. Porque as banheiras do WC Beautique Hotel são lindas. Porque  aceitarem esta ideia de ser fotografada numa banheira. Porque sozinhos ou numa relação, a fuga à rotina deve fazer parte dessa mesma rotina, para nos libertarmos dos preconceitos e da pressão que nos infligem todos os dias. Porque este é, sem dúvida, um exemplo de fuga ao óbvio. Em plena Avenida Almirante Reis, pode assumir-se um refúgio no centro da cidade, seja no terraço do quinto andar, na varanda da suite ou no restaurante, semi escondido na lateral do hotel. O WC Beautique Hotel é um espaço conceptual, decorado por Mini Andrade e Silva que nos remete para a ideia de banho e todas as sensações positivas que lhe estão associadas. Da cor ao aroma, parece que estamos em casa, numa casa limpa, arrumada, repleta de luz e sol. A decoração é irreverente e inesperada. Também, por isso, nos seduz e conforta.

O urbanista agradece ao WC Beautique Hotel

a disponibilidade para a realização desta sessão fotográfica.

 

 

99% natural: assim deveria ser a nossa pele

Dizem que os olhos são o espelho da alma. Tenho para mim que a pele é um espelho da nossa saúde porque a maior parte dos problemas que apresenta resultam, muitas vezes, de défices de água e nutrientes, como vitaminas e sais minerais. Contudo, insistimos em tratar do lado de fora algo cuja saúde e beleza começa por dentro. Eu também sou assim por isso, não atiro pedras. 

A nossa pele é o maior órgão do nosso organismo, o mais exposto e mal tratado. No Verão, sol em excesso, no Inverno, frio na rua e a água demasiado quente. A melhor forma de protegermos a pele durante a estação mais fria resume-se a usar cremes hidratantes à base de glicerina nas mãos, beber água e hidratar os lábios, usar produtos hipoalergénicos no rosto e corpo, e aplicar óleos no corpo. Será?

Tudo começou com um óleo corporal que me apaixonou. Não sou adepta de oléos exatamente porque… são oleosos, mancham a roupa, têm gordura a mais e hidratação a menos… Contudo, ofereceram-me um óleo de Inverno que me deixou seduzida pelo odor, rápida absorção e nível de hidratação. Na mesma altura, experimentei alguns cremes de rosto, um gel de banho e um desodorizante, numa espécie de kit de iniciação à cosmética orgânica, que a Organii me ofereceu a propósito do Organii Eco Market.

E se, no Verão me deslumbrei com os produtos da Granado, tenho de reconhecer que esta oferta mais natural contrariou a ideia que tinha das linhas de cosmética biológicas como sendo… mehhh

Temos sido alvo de uma indústria que se auto-alimenta quando insiste que aquele creme resolve o nosso problema, quando nos oferece uma solução aparentemente milagrosa ou quando provoca dependência na própria pele, especialmente com alguns cremes anti-envelhecimento. Da mesma forma, é também uma indústria que, na maior parte dos casos, recorre a químicos, usa embalagens que em nada contribuem para a preservação do meio ambiente e que não garantem a integridade do produto até ao final da utilização (o creme quando contacta com o ar tende a degradar-se) e químicos (conservantes) para garantir maior durabilidade. Há ainda outro factor: o preço. Por estas razões e por ter percebido que nem sempre a promessa da marca era cumprida, decidi procurar alternativas. Comecei por procurar nos supermercados biológicos e, depois de abrir o tal kit de Cosmética Orgânica, fiquei a conhecer outras marcas com um perfil radicalmente diferente da cosmética de supermercado, farmácia ou perfumaria. É o caso de algumas marcas que a Organii comercializa e que tenho estado a descobrir, como as francesas Absolution e Ekia, a irlandesa Voya (com uma história incrível, de mais de 300 anos na zona costeira da Irlanda, com estâncias para banhos de algas) ou a Mádara da Letónia (muito #girlpower nesta marca, criada, gerida e produzida só por mulheres). 

Comecei por experimentar porque sou curiosa, sem saber muito bem que creme servia para quê. Não correu mal porque as descrições são muito fiéis ao compromisso do produto. No entranto, fiz uma visita à loja (recomendo vivamente porque o atendimento é personalizado, atencioso, conhecedor das características dos produtos) e vim de lá com um saco cheio de coisas boas para a pele. Não é barato mas, isso, já nem os cremes de supermercado. Na verdade, os preços são bastante equivalentes aos da generalidade das marcas pelo que esse argumento não me irá demover de uma abordagem mais próxima do que é natural.

Estou a usar um tónico (eu detesto tónicos e aquela sensação de molhado que deixam na pele) em spray (vantagem de sentirmos uma espécie de névoa a caír-nos em cima e de não usarmos algodão) que, sozinho, hidrata a pele. Em três dias fiquei rendida. É maravilhoso! Há dias fiquei a meio do meu processo de beleze e só mais de uma hora depois percebi que não tinha colocado nenhum creme na pele, que tinha interrompido depois de aplicar o tónico e, tchanram… a pele estava perfeitamente normal, sem qualquer sensação de repuxar!

Em seguida aplico um sérum que promete desintoxicar a pele em relação aos vários elementos de stress e agressões, feito a partir da seiva do dragoeiro, uma seiva avermelhada que se funde na pele como quando bebemos um copo de água… Depois, nos olhos, num gel em creme à base de algas da Voya sobre o qual, confesso, tinha muitas dúvidas mas que me convenceu à segunda utilização. Sabem quando aceitamos o produto porque a senhora da loja diz que faz maravilhas e ficamos a pensar yeah, right?… Pois. Mão à palmatória porque não tenho olheiras nem rídulas. Já as rugas… Não há creme que nos valha, muito embora, nesta zona, a pele esteja com um aspecto resplandecente.

Finalmente, antioxidantes para regenerar e hidratar ou um rehidratante contra a pele danificada. Ambos da Mádara. Ambos espectaculares. Ainda tenho o Crème du Teint feito à base de chá verde que é 99% de origem natural e 48% de origem biológica. Não consigo deixar de pensar a que corresponderá aquele 1% mas, aqui entre nós, não será essa a percentagem que me vai matar…

Há gays no cais. No YouTube também.

No início de cada novo texto há (quase) sempre dois sentimentos que se misturam: a alegria na partilha de novas ideias e a auto-censura que nos inflige cada vez mais, fruto de um intenso (e por vezes despropositado) escrutínio, associado a uma vigilância ao estilo vigilant, aquela palavra em inglês que remete para vigília de bairro. É também nesta nova cultura de vigília e crítica constante sob a forma de anonimato, da persona digital, dos avatares ou, na sua versão mais simplista, da alcunha impenetrável, que se processam as guerras virtuais, das que atiram pedras em todas as direcções. O mundo está cheio de temas para discutirmos e nunca, como agora, tivemos tanta liberdade e oportunidade para o fazer. Talvez por isso estejamos, para já, numa fase de deslumbramento que se revela numa espécie de caça às bruxas nos social mediae de um politicamente correcto exagerado, do moralismo e da indigação inconsequente.

Não sabem do que falo? Da polarização em torno do feminismo e do assédio moral e sexual, como se os temas se confundissem, da hipocrisia de tantos comentários sobre a H&M mas, também, de contextos que merecem debates profundos e que se limitam a ser alvo de notícia: a nanny da SIC e os youtubers que mais parecem youtúbaros. São aspectos mais profundos da nossa vida em sociedade que estão a ser colocados em causa, queiramos, ou não, ver isso.

Como em todos os domínios da vida, neste mundo infindável que é a World Wide Web há um pouco de tudo. Arrisco a afirmar que há YouTubers, pessoas que criam conteúdo visual com algum tipo de interesse e relevância e os outros, que atiram disparates e alarvidades, como se mandar a mãe àquele sítio fosse, ou tivesse alguma vez sido, motivo de orgulho. Putos, get a life.

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© Emma Saints

Mas é também no YouTube que nascem pequenas pérolas que a RTP - exacto, esse operador de media tão conservador e supostamente tradicional - resgatou para criar algo verdadeiramente inovador. Ao abrir portas à criatividade, a RTP consegue cumprir vários pontos da sua missão e do contrato de serviço público, quer ao nível da inovação, quer no que respeita às minorias, criatividade e produção independente. Touché porque a Casa do Cais é tudo isto é muito mais. Não vou cingir-me a critérios de objectividade porque admito gostar da capacidade de transgressão e rebeldia que uma série como esta representa. Posso fazer parte de uma geração que olha para isto de lado, imaginado que “os meus filhos não vão ser assim”, sem comentar negativamente porque parece mal - o tal moralismo ou o politicamente correcto - mantendo o silêncio ou optando por afirmar “não vi/ não sei” porque a sua opinião é de horror, esquecendo que é na adolescência e início da idade adulta que podemos ser parvos ou irresponsáveis. Há, contudo, alguns empertigados que preferem fazer de conta que nunca beberam um shot de uma vez para aumentar a confiança, disseram disparates para provar a sua coolness ou qualquer outra coisa igualmente idiota para garantir a pertença ao grupo. Há, talvez, quem tenha sido sempre uma versão polida  se próprio, que nunca mandou uns canecos abaixo ou que, na P… da loucura, rodou a Baiana em festas que não se percebe como começaram ou onde acabaram. 

Crescer sem experimentar o lado mais radical, rebelde ou destrutivo da juventude poderá resultar em pais que não fazem ideia de que falam os filhos e, dessa ignorância, cresce o fosso entre gerações que resulta, tantas vezes, em famílias que se limitam a dividir uma casa. Não defendo os pais muit’a malucos que vivem on the edge, aquele limite impróprio em qualquer idade e que raramente traz alguma coisa de bom, mas defendo que sejamos pessoas informadas, que conheçamos a evolução dos dialectos e das referências, dos hábitos e das práticas para estarmos cientes de que as nossas crianças podem estar a assistir a um YouTúbaro ou para aceitarmos, compreendermos e sermos dignos de confiança sobre as indiossincracias da adolescência e início da idade adulta. 

 

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© Emma Saints

Não interessa se eu fui assim ou se tinha amigos que eram assim. Interessa percebermos que a Casa do Cais não é uma mera representação mas, antes, uma nota autobiográfica de uma juventude perdida. Fica mesmo bem acabar a frase assim não é?... Perdida. A questão é essa mesmo: nenhuma geração está perdida e se, no meu tempo houve quem mostrasse o traseiro para a televisão e os jornais, manifestando-se contra as políticas da educação no ensino superior, as causas de hoje são igualmente válidas e apresentam-se de outra forma. Gostem ou não, a Casa do Cais é um marco em 2018, pela forma como está a chegar ao público com uma história tão simples e tão real, personagens que tocam alguns dos temas relevantes do mundo contemporâneo, uma fotografia e realização que está taco-a-taco com o melhor que se faz internacionalmente. Sexualidade, opções e identidade(s) sexuais, amor-próprio e imagem corporal, ingenuidade, dinheiro, trabalho e família... está tudo lá, na emancipação de Ema a chegar a Lisboa e na forma como os seus amigos contribuem para esse processo. O momento do corte de cabelo é único (como assim, aqueles caracóis, Peperan?...) o pormenor da porno-chachada incluindo o ícone Bambi (quem nunca?!) é brilhante e mesmo a referência cultural da garganta funda ganha o significado politicamente incorrecto que sempre lhe demos em sussurra… Afinal, não é apenas a história de um filme, pois não?... Na Casa do Cais as coisas têm nome e não há medo de o dizer ou mostrar. Só por isso, #respect enquanto aguardamos pelo próximo episódio. Voltando ao início deste artigo, “comentários maus há em todo o lado também, não é?”

É.

Obrigada por isso, Jay.

Imagem de capa: © Emma Saints

Eu: uma relação nem sempre fácil

Kind of a @nolatrees #copycat to raise awareness of #bodylove and at the same time to repeat that I wouldn’t care less about what others think. I never had weight issues but I always had my own issues, as probably anyone has. I understand the freedom she talks about because I also set myself free not long ago. It’s the most a amazing feeling one can have and I strongly recommend you to do the same. The worst hater and the biggest troll is within ourselves, so just let it go. Peace!

Na maior parte das vezes pensamos que temos o direito a comentar. Não temos. Pelo menos, a verbalizar em voz alta, porque os pensamentos são nossos e é com eles - bons ou maus - que temos de viver. Os outros, ao contrário do que pensamos, dispensam essa informação. Mesmo. Todos temos espelhos em casa, mesmo quando pensamos que não. Excepção feita para alguns excesso de confiança ou falta de noção, no geral, todos sabemos o que temos a menos ou a mais, o que temos de melhor, de pior e de assim-assim. Se não sabemos, deixem-nos estar porque, muitas vezes, a ignorância é uma benção.

Por princípio não gosto de me expor, por muito que pareça o contrário. Mas também sei que a divulgação da mensagem precisa de um rosto e que sou tanto o rosto como a voz deste projecto, ao qual estou muito grata, por me ter feito crescer interiormente como nunca antes aconteceu. Também o devo a todos os que, mesmo sem deixar likes ou comentários, passam por aqui para ler o que vou escrevendo, aos que comentam o que publiquei há semanas (das quais às vezes já não me lembro) ou que enviam mensagens a propósito do Friday Digest, a newsletter do urbanista.

O urbanista não sou eu, embora seja um pouco eu: a lot a bout me, mostly about you (muito sobre mim, essencialmente sobre vocês). Desculpem, soa-me melhor em inglês. Por isso, apareço tantas vezes a ilustrar aquilo que são as opiniões que expresso.

Hoje imitei a fotografia da Dana Falsetti porque também reproduzi as suas ideias sobre o corpo e amor próprio. Na maior parte das vezes estamos todos inseguros em relação à nossa aparência, mesmo quando os outros acham que não. Há, acima de tudo, uma tendência para pensarmos que este é um problema delas, quando, na verdade, é, também, um problema deles. Cada vez mais eles assumem isso mesmo, destruindo aquele estereótipo do menino não chora. Porque chora. As pessoas choram quando têm necessidade e essa, não é uma questão de género. O sexo forte não tem a ver com o género, apenas com a força física que diferencia alguns homens de algumas mulheres. A compleição física masculina foi criada para ser mais forte do que a da mulher e, quanto a isso, nada a fazer. Da mesma forma que nós fomos feitas para armazenar mais gordura para produzir leite e, pasmem-se, alimentar a prole nos momentos em que não havia alimentos. Vivemos uma era da abundância mas não podemos anular por completo a nossa evolução. Mesmo que retiremos os dentes do ciso, que hoje não fazem falta nenhuma, ainda somos resultado de um processo evolutivo que não tem assim tantos milhares de anos.

Por isso, porque o homem tem sido continuamente educado para uma masculinidade perfeita, os traços emotivos, sensíveis ou relativos à beleza tendem a ser anulados, porque elas gostam do macho a cheirar a cavalo. Não gostam. Outro estereótipo. Da mesma forma que, lentamente, alguns homens foram saindo do armário e hoje, para alguns, a ideia de esconderem as suas preferências sexuais não faz qualquer sentido - fará sentido a ideia de catalogarmos a sexualidade? - também os outros homens foram aprendendo a cuidarem-se sem terem disso vergonha, ou sem receio de serem considerados gay. Novamente, o estereótipo, a palavra com conotações depreciativas quando, efectivamente, serve apenas para definir uma opção sexual. Tudo o resto são conversas. Especialmente aquelas nas costas dos outros, os olhares que sabemos bem o que querem dizer ou os comentários que mereciam daquelas respostas... que, por educação, não damos!

Live and let live. By the way, mind your own business...

Entre a praia e a cidade

Há uma distância maior do que a dos quilómetros que as separam.

Fui de férias e voltei, verificando que pouco ou nada mudou: o país ardeu (já estava em fogo lento e parece-me, tão depressa não estará em rescaldo), a corrida à casa branca continua ao rubro e na CGD, os amigos de sempre. Nada de novo, portanto. No entanto, nunca regresso igual. De ano para ano as mudanças são visíveis, tornando-me cada vez mais incompatível com a exiguidade do espaço e das mentalidades, a inoperância de uns e outros, os conluios e favores que nos fizeram chegar aqui, a um país que arde mais num mês do que a Europa num ano inteiro.

Cheguei há poucos dias. O espelho da casa de banho não mente. A pele está bronzeada mas as sobrancelhas estão enormes. As unhas das mãos estão mais compridas do que é habitual e as dos pés, não tendo falhas, precisam renovar a pintura. Preciso? Precisamos? Manicure, pedicura, sobrancelhas. A tríade habitual. Tempo e paciência para isso? Não sei onde ficou. Começo pelo óbvio que ocupa menos tempo: as sobrancelhas para uma nova moldura do rosto.

Tenho para mim que há uma vaidade exacerbada na Lisboa dos cabelos ombré, californianos ou com sunlights. Já me disseram que estou mais loura, com aquele ar de quem insinua que o pintei. Chama-se sol e sal. Resulta numa espécie de californianas que se vendem no cabeleireiro. Verdadeiras. Para quê pintar se não temos brancos a ocultar?

Parece-me que muitas vezes generalizo um certo pedantismo para o país que, sendo vaidoso por natureza, o demonstra de formas muito diferentes. Há uma certa pressão para uniformizar estilos e comportamentos, roupas, cabelos e unhas, separando ambientes como se a vida não fosse resultado de uma saudável mistura de contextos. À praia o que é da praia. Os calções que na praia fazem sentido parecem ridículos numa rua de Lisboa, mesmo quando saímos pela manhã apenas para comprar pão. Como as sobrancelhas que na praia eram apenas rebeldes e densas. Aqui precisam de ser domadas e desbastadas para corresponderem ao olhar das revistas. As que também lemos deitados na praia, com as sobrancelhas que temos, escondidas pelos óculos de sol tamanho XXL. Não as que transformamos para parecermos melhor. Nada contra arranjar, cuidar, melhorar a aparência. Nada mesmo, desde que seja para nos sentirmos melhor, para olharmos ao espelho e encontrarmos o eu de que mais gostamos. Tudo contra olharmos ao espelho para melhorar o que os outros nos dizem que deve ser de forma diferente. Só isso.

As coisas que nos dizem

Eles (alguns) avançam com os comentários sobre feminismo e feministas e mulheres de pelo na venta, como se diz em Portugal.  Elas defendem-se chamando-lhes à atenção, apelando ao bom senso e perdendo a razão quando os apelidam de inergúmenos. De facto, pode até parecer que não há razão para drama, pode até parecer que a Jodie Fox está a ser uma drama queen. Não está. Primeiro ponto do desconforto, a reunião ter tido lugar num bar. Cedeu e deu-lhe (aparentemente) permissão para a julgar. Desculpem. Cumprimentar...

Para quem não acompanhou o vídeo em Inglês, explico:  A Jodie Fox aceitou reunir-se com um potencial investidor num bar. A primeira coisa que este lhe disse à chegada foi que ela estava espantosa, olhando-a de cima abaixo. A Jodie tem por hábito partilhar aquilo que acontece às mulheres em contexto profissional, admitindo que estes comentários aparentemente inofensivos contribuem para limitar as oportunidades profissionais para as mulheres. E, por isso, perguntou à internet: é aceitável este comentário, assim, do nada, ou estará a Jodie a exagerar?

Não serão poucas as vezes que mulheres aceitam situações, observações ou comentários que as deixam desconfortáveis porque:

 - acham que estão a ser exageradas

- dizem-lhes que "não se lhes pode dizer nada"

- argumentam que foi apenas "um comentário sem maldade"

Na verdade, comentários aparentemente "sem maldade" são pouco profissionais . Muitas mulheres aceitam-nos também porque:

- o sexismo existe e está presente em comentários e atitudes em contexto laboral

- a culpa é sempre da mulher por usar maquilhagem e roupas bonitas ou por ter um aspecto, digamos, agradável

O respeito profissional não pode estar associado ao que vestimos. Da mesma forma que para muitas mulheres a questão coloca-se ao nível do tipo de roupa que vestem, para muitos homens também. Em determinados contextos, qualquer coisa que não corresponda ao paradigma do fato e da gravata é olhado de lado, como se jeans e t-shirt correspondessem, de imediato, a falta de profissionalismo.

Como um homem comentou, este é um bom exemplo sobre o ponto de partida de muitos homens em relação a qualquer situação profissional com uma mulher. Ou, como outro reconheceu, se fosse ao contrário, não saberia o que fazer ou como reagir.

Mesmo que algumas mulheres usem o seu aspecto, aceitem um certo flirt para alcançar os seus objectivos, isso não é profissional e não pode estender-se ao género. A pergunta impõe-se: deve uma mulher deixar de se arranjar, isto é, de ter cuidados com a sua estética e beleza para aparecer absolutamente au naturel? Deverá escolher a roupa que não a torne mais atraente para não se expor? No fundo, deverá uma mulher bonita esconder-se para não ser alvo de  comentários aparentemente inofensivos? Não se trata de usar saias curtas, decotes pronunciados ou qualquer outro elemento visual provocante,  que ultrapasse os limites do bom senso. Deve uma mulher esconder-se atrás da roupa para ser aceite e respeitada profissionalmente? Eu faço-o frequentemente. E vocês?

#CanHeSayThat

#CanHeSayThat

I'm not sure he should. He definitely can, but he shouldn't. I've been in many different professional contexts which allow me to say that more than what you say it is your tone that makes the difference. Besides, it's obvious that a polite compliment is acceptable and that a compliment regarding your looks is quite unusual. Do man compliment themselves regarding their looks and outfits? I don't think they do. Why should man do that about some women's dress?

Do biquíni perfeito à marca ideal...

Há tempos escrevi sobre a valente seca que dei aos lá de casa, procurando o biquíni, triquíni ou, preferencialmente, o fato de banho perfeito. A peça de banho perfeita não existe e todas(os) sabemos isso. Eu também mas, mesmo assim, tentei. Defini o modelo (ou tipo de) e um preço máximo. Não queria folhos, folhinhos, frizados, fitas ou complicações. O que queria, mesmo, era o bom e velho modelo de fato de banho simples, direito, com duas alças ou alças cruzadas. Parecia impossível mas encontrei um modelo muito feminino e simultaneamente bastante desportivo. O sporty posh triquíni como o defini, da Type.

Type of Grace V2 (www.type.pt) 

Type of Grace V2 (www.type.pt) 

Não sou de divulgar marcas, excepto quando me agradam ou merecem. E a Type merece. Sabem porquê? Algo tão simples quando isto: um pequeno defeito, reclamação, substituição. Sem perguntas, sem complicações. Com atenção às necessidades e expectativas do cliente. Porque não há nada que pague um cliente satisfeito e, acreditem, é assim que se constrói a reputação de uma marca.

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Sabem outra coisa?... O improvável é altamente provável. Dias depois de ter comprado o triquíni Type encontrei o fato de banho que tanto queria por um valor irrecusável. Ontem, depois da Type me entregar o novo triquíni, comprei um biquíni cujo modelo é, também, o que queria. Se gastei muito? Menos do que possam imaginar! Vivam os saldos  ツ

 

Bronze no escritório? Segredos sem mãos cor-de-laranja | making the fake than (at) work

Chegámos àquela época do ano em que um tom de pele demasiado claro é questionado. Parece-me que essas pessoas não se questionam quanto à opção de não querer bronzear ou outra, sem opção, que é de não conseguir bronzear. 

Actualmente oscilo entre as duas, depois de ter retirado três sinais nas costas e a consciência de que algumas rugas vieram para ficar. O sol é bom e eu gosto mas não me adianta deitar e esperar que a magia aconteça. Não há magia. A tez clara, os cabelos entre o castanho claro e o ruivo não deixam dúvidas, muito embora durante demasiado tempo eu tenha achado que conseguiria contrariar a minha natureza. Rodeada de morenas, aquelas que passam uma tarde na praia parecendo que estiveram 15 dias de férias, fui sempre a do branco leitoso que não vestia biquínis brancos por não fazerem contraste. Até ao dia em que me aceitei. Que passei a valorizar o meu tom de pele porque é este que tenho e não há tarde de sol que o possa mudar. Também há muitos anos tentava de tudo para parecer bronzeada sem ter de apanhar sol. Porque para a maior parte das pessoas com a pele clara e sensível, o sol queima. Aquela sensação de estarmos a fritar, sentados na areia da praia, é tudo menos agradável. Mesmo com protector 50. Mesmo nas horas boas. Mesmo em movimento ou à beira da água... Nessas tentativas conheci de tudo e tive a sorte de nunca acabar com as mãos cor-de-laranja, mas lembro-me de estragar roupa, do cheiro que oscilava entre o caramelo e sérum de vitamina C. Das pernas manchadas porque usava hidratante com cor, esquecendo-me de que teria de passar horas sem me vestir ou sentar no sofá... Um não acabar de disparates até acabar por perceber que não me interessam os olhares dos bronzeados que já circulam por aí. Vou usar os meus vestidos com as pernas brancas, anyway. Caso contrário visto-os quando? Em Outubro, depois de alguns meses a apanhar sol?...

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While in London I feel happy not to have that awakward attitude towards my pale skin. Have you been to the beach lately? You definetly need to get some sunbathing...  

These are common approaches to my non-existent glowing tan. Although a bit annoying, I've been able to move from a "I need to get a tan no matter what" to "I love to be fair skinned and I won't make a single effort to have a bronzed skin". 

Some years ago I was acting a bit crazy about it. I'm the palest among my girlfriends and I wanted to look like them: bronzed skin of well-holidayed young women who have got their act together. Even if all of them were spending an afternoon at the beach to look like it. Even if I'd stayed a whole month at the beach with a pretty lax attitude towards sun cream application, nothing would work. And I didn't had the time, neither the patience to do it. So I used all sorts of fake tan products with the most disappointing results. Fortunately never made that orange hands' mistake but still, fake tan always looked preposterous on me and all I ever wanted was that sunkissed glow that make us look healthier and happier... Yesterday I read this amazing review about Pre-Shower Tan (NDK SKN) which promises to work in ten minutes and continues to develop for the next six hours, meaning you can apply it, take 10 minutes to prepare dinner, shower and go to bed to look (almost) naturally tanned in the morning. A must try, definitely, specially if you spend your days inside with 30° on the outside...

#nomakeup means sem maquilhagem, ok?

Há duas coisas de que gosto no Verão: as sandálias e o tom dourado na pele para usar apenas hidratante no rosto.

Na verdade, há outras que também me agradam. No entanto, o frio não me assusta e ajuda-me a respirar. Só por isso gosto dos dias frios e secos. Com neve e aquele vento gelado que corta a pela. Adiante, que os dias estão bonitos... 

Gosto muito da Alicia. Oiço-a desde o primeiro disco e mesmo não sendo uma produção culturalmente elevada - seja lá o que isso for - é um R&B sedoso com uns toques de Pop sofisticada, um sentido Funk que quase não se nota e um espirito Soul que se pode confundir com qualquer outra coisa. Não se define porque é Alicia. É tudo isto e nada mais.

Não foi só agora que soltou a língua mas, desta vez, acertou: You nailed it girl.

Alicia fala sobre a perfeição e a pressão em torno da palavra. Do que nos impele para sermos perfeitas e o que nos pressiona para parecermos assim. Os padrões estão de tal forma definidos que se torna quase impossível contrariá-los, como se isso contrariasse, também, quem somos e o que parecemos. Ou o que desejamos parecer. Começa - e não acaba, explica Alicia - na escola, acompanha-nos e refina-se ao longo dos graus de ensino, como se estes correspondessem a degraus de exigência com a nossa aparência, vítimas do julgamento das outras raparigas que, supostamente, nos acompanham ao longo dessa escadaria rumo à eventual perfeição. Porque, como explica Alicia, o normal não é o tamanho normal e mal de quem não corresponde a esse tamanho. O plus size, ou o nosso XL, é o equivalente ao degredo social. Não vamos assobiar para o lado porque, efectivamente, é assim...

E o caminho continua, até àquele momento que pode nunca ter acontecido mas que nos assombraria a todas, tivéssemos nós paparazzi à espreita: ela é linda sem make up, canta o Agir porque sabe, como nós sabemos, que a ideia que nos vendem é a da mulher perfeita, com uma pele lisa e a tez ideal, olhos de gata e lábios carnudos. Alicia encontrou apoio na meditação, eu optei pelo I don't give a F*ck e, se estiver maquilhada, é porque me apetece, não porque vos apetece a vocês. Got it? Obrigada.

More about it at Lenny newsletter

 

 

Skinny and Curvy bitches: unite!

"Está gorda". "É gorda". "Estou gorda"

Oiço tantas vezes qualquer uma destas frases que decidi recuperar este artigo do Huffington Post (Women) publicado no início do ano. Depois dos excesso das festas, chegou a Páscoa com as amêndoas e, só a seguir, já no fim do mês, gritamos ao espelho: 

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

É o momento em que o pânico se instala para recuperar o corpo do Verão passado ou, pelo menos, minimizar o estrago... 

Para quem não gosta de dietas e menos ainda de ginásio, ainda menos da palavra exercício físico, é tempo de assumir os erros alimentares e, mesmo sem objectivos concretos para perder peso, reequilibrar o corpo. Pois e tal, conversa. Na verdade, dieta em si, não resulta. O que resulta é aquilo que chamo a Lei das Compensações. E exercício. Porque uma mulher em abstinência parece que tem TPM. O dia todo. Todos os dias. Tão bom que nem a própria se aguenta...

No início do ano, a Molly Galbraith foi alvo dos mais diversos comentários e críticas. Por isso, decidiu ir contra a corrente: publicou uma fotografia em biquíni assumindo uma postura anti resoluções de novo ano. Que nunca cumprimos à risca, em boa verdade. E que se arrastam até meio do ano. Na verdade, arrastam-se. PONTO.

A Molly é bodybuilder e personal trainer, trabalhando essencialmente ao nível da força e condicionamento físico. Não é bem o que eu faço - ou gosto de fazer - mas admiro que defende uma ideia e se auto-define através de uma missão: ad descoberta e aceitação  do corpo sem que as mulhjeres tenham de se matar para conseguirem um corpo de sonho.

Estamos a semanas de começar a mostrar os pés e as pernas, e a outras tantas para nos despirmos de preconceitos e assumirmos curvas e contracurvas na praia. Porque razão temos tanta dificuldade em assumirmo-nos como somos, deixando estereótipos de lado para procurar apenas o estar bem, o bem estar e a saúde? Seremos assim tão permeáveis às ideias que nos vendem as revistas, a web e a televisão?

Se nos sentimos bem comendo papas de aveia e bebendo sumos detox, ou com um copo de vinho ao fim do dia e um bife com batatas fritas, assim seja. Sou pelo respeito, desde que respeitem as minhas opções. E parece-me bem que estamos num caminho sem retrocesso, em que saudáveis e menos saudáveis se degladiam nos sites de redes sociais sem que isso traga quaisquer benefícios para qualquer uma destas opções. 

Torna-se um pouco mais esquizofrénico e ambíguo quando nos sentamos literalmente no meio, tratando de um hambúrguer com batatas fritas como se não houvesse amanhã, uma mousse de chocolate que sabe a pouco ou um copo de vinho branco que se transforma em dois ou três, compensando estes eventuais excessos com actividade física e uma alimentação regularmente saudável. Isso torna-nos o quê? Os arrojados que se definem na ausência de definição, posicionando-se numa linha que separa o bem do mal, ou os puritanos que se exigem a purificação depois da luxúria?

This is my body. This not a before picture. This is not an after picture.This just happens to be what my body looks...

Posted by Molly Galbraith on Friday, 1 January 2016

She's nothing but a freaking fat bitch. Some people think and some actually verbalize the thought, forgetting how hurtful it can be to know what people talk in our back while smiling at us.

It's true. Don't whistle because we've all been there. Somehow, somewhere...

Molly Galbraith is a bodybuilder and a personal trainer who devotes her time and effort to total conditioning and bofy strength increase. It's definitely not my thing but I respect her option. Above all, we all should respect each other's decisions and lifestyle, specially if that lifestyle aims to empower women to be more accepting and to love themselves for what they are, how they look like without killing themselves in order to reach some beauty ideal. Praise to that! 

On January 1, Molly decided to kick-start the year by making a kind of anti-New Year's Resolution. She shared a photo of herself in a bikini, along with a super empowering caption on Facebook. 

It's been four months and I bet your New Year's resolutions aren't t still completed or anywhere near to make a real change in your life. In a few weeks our legs and feet will be on the loose and sooner than you think so will our bodies, in bikinis and shorts. So I wonder, why are some of us so judgmental, with this body shaming attitude towards others? On the other hand, why do those being bullied give a F*** about this shameless behavior?

Issues emerge from skinny bitches having all kinds of seeds and oatmeal, combined with detox juices, while fat bitches are having a glass of wine, pizza and burgers everyday. If I don't ask you to share my oatmeal, why should you criticise me for having it my way? Furthermore, why do we have so much difficulty in being more accepting about who we really are, gnoring stereotypes, neglecting beauty standarts to focus on our well-being?

I feel like we lost control and forgot how to coexist. It's true and it happens more than we can imagine: one day I'm having white wine and chips and the next, fruit and oatmeal as it pleases me. Is our apparent schizophrenic ambiguity bothering others? I agree with the #guiltypleasures option combined with regular healthy food, conscientious choices and exercise to get rid of all excessive options one might have had. What does that make us? Undefined bold people over the thin line that separates good from evil? Or puritans demanding for purification after the lust?

I'm with Molly:

"This is my body (...) This is not a before picture. This is not an after picture."

Enjoy yourself. Enjoy life.

dos dias em que ser mulher não chega

Em Março há um dia só nosso. Não chega. Nossos, são todos os dias, mesmo que o tentem ignorar.

Não é discurso feminista porque, como dizemos aqui, a palavra tem inúmeras conotações. Poucas boas. O feminismo não é um rótulo mas sim uma atitude. Um estado de alma. Felizmente, há muitos homens que também a assumem. Deveres iguais? Direitos iguais. Não somos iguais nem teremos de o ser, porque é essa a riqueza da humanidade. Há, contudo, muitas situações, contextos e desigualdades que devem acabar. Entre homens e mulheres. Entre mulheres. Entre homens.

O problema não é exclusivo das mulheres porque vivemos numa sociedade que, por um lado, resiste à luta pela igualdade de direitos e oportunidades e, por outro, nos limita em relação a todas as oportunidades que o mundo nos oferece. Na maior parte das vezes somos nós que nos auto-censuramos, limitamos e rejeitamos a ideia de mudança. Porquê?

A sociedade tem um peso demasiado naquilo que somos e como somos. Nem todos podemos ser Beyoncé's ou JLo's estratosféricas que sussurram e se fazem ouvir. Mas podemos tentar...

A JLo from the block tem a lot e a Beyoncé runs the world com as suas girls. Nós podemos ver, de longe, aplaudir e partilhar, ou arregaçar as mangas, adoptar uma postura mais proactiva e perseguir os nossos sonhos. Na maior parte das vezes refugiamo-nos na desigualdade e na falta de oportunidades, esquecendo-nos de as criar. Cruzei-me, há dias, com este artigo no Observador do qual retiro a melhor parte:

Zero F*ck Given

A receita é simples e pode significar a diferença entre ser feliz. Ou não.

A palavra não é bonita mas, em inglês, não soa tão mal quanto o seu significado. Na verdade, se não nos preocuparmos com o que os outros pensam - excepção feita para aqueles que importam, os que respeitamos e os que nos sabem fazer críticas construtivas - seremos incomensuravelmente mais felizes, simplesmente porque eliminamos da equação, seja ela qual for, o peso do olhar alheio. Isso liberta-nos. O escrutínio nas redes sociais torna-se irrelevante e o padrão transforma-se naquilo que entendemos ser o nosso padrão. Não é fácil, obriga a uma grande disciplina interior, um crescimento em relação a tudo o que durante demasiado tempo demos importância, rejeitando boa parte das ideias que nos serviram, até ao momento em que, simplesmente se tornam incómodas.

O Observador seleccionou oito coisas que nos preocupam e prendem os movimentos. Uma lista da qual devemos riscar a totalidade dos elementos, para sermos mais felizes: preocuparmo-nos demasiado com o que é adequado para "a idade"... Parece-me bem que importa apenas o bom senso e os limites (ou limitações físicas) que a idade possa acarretar. Limitarmo-nos em função do que os outros poderão pensar.  É, sem dúvida, o melhor exemplo para "I don't give a F*". O emprego.... Mesmo que nem o trabalho abunde, ser infeliz uma vida inteira para manter o estatuto social não pode ser uma opção. O medo. Todos temos. Há uns bonecos bons para isto. Chamam-se papa monstros e entregam-se às crianças pequenas para lá colocarem os seus medos. Querem um? Libertarmo-nos do passado, da atitude derrotista do "é a vida" e não pensarmos demasiado no futuro para sermos capazes de gerir expectativas, enquanto abandonamos a atitude interesseira de tantas pessoas, para aprendemos a dar sem esperar nada em troca. Acreditem que recebemos em dobro do que damos. Finalmente, os padrões. Definir quem somos e escolher quem queremos ser. Sem medos.

Aceitação social pode ser importante e valida-nos enquanto pessoas. Todos queremos essa aceitação.

 A que preço?

bonitinha

Não é bonitinha não?...

Ah... cara, é pena, não vai dar.

Ser mulher não é fácil. Por nós e pelos outros. Ser mulher e bonita, por vezes atrapalha. Mas ser mulher e não ser bonitinha, também. Então, que raio, em que ficamos?

Gosto da Silvana, surfa pr'a cara... e faz pela vida. Não se encosta, não se deixa esmagar e vai à luta. Adoro surf e, como em outras áreas, desportos e indústrias, o aspecto físico ajuda muito. Mas há surfistas, homens, que nem bonitinhos são. E têm patrocínios. Afinal, estamos a patrocinar um atleta pelo seu desempenho ou porque representa um estilo de vida que faz inveja a muitos potenciais consumidores que não sabem, sequer, como segurar a prancha?

Parece-me bem que estamos no contexto da segunda, quando a melhor surfista brasileira não consegue patrocínio para entrar no circuito mundial. Só me apetece dizer, bem alto e com sotaque brasileiro: 'tá falando sério, cara?!

Curly

Os cabelos encaracolados podem ser um problema. Podem. Os lisos também.

Os caracóis acordam, muitas vezes, rebeldes.  Aparentemente no ar, impossíveis de domar. Somos nós que os vemos assim.

Na maior parte das vezes o cabelo está apenas a precisar de uns toques com as mãos e um produto adequado para lhe dar aquele ar sexy de bed looks

É certo que poderão existir uns quantos verdadeiramente indomáveis que fazem ninhos de rato quando dormimos e, de manhã, quando acordamos, parece que o rato se enrolou em todos os fios de cabelo. Difícil. Não pensem que não sei do que falo porque sei. Nunca vivi tal experiência mas, ao meu lado, diariamente, a luta para manter praticamente liso um cabelo que não é liso. Dar-lhe um toque com o secador e a escova para simular as ondas que resultam de uma hora no cabeleireiro. A fuga da humidade para que o cabelo não encolhesse. Ou, em boa verdade, voltasse à sua forma natural. Não pensem, também, que um cabelo liso é melhor do que os caracóis. Não é. Não tem volume e, se tiver um remoinho, acordamos sempre com uma divisão no cabelo impossível de gerir com uma escova. Deitar com um cabelo fantástico e acordar com ele colado à cabeça como se o tivéssemos envolvido num saco de plástico. Na maior parte das vezes tem uma aparentemente vantagem: podemos acordar e sair sem usar pente ou escova. Tão liso, não se nota. Mas também podemos descer as escadas a ajeitar os caracóis e sair com um ar vitorioso, o statement da powerful woman que pode dar um cabelo encaracolado. Não fosse a mensagem que durante anos a indústria da moda enviou, perpetuada pela comunicação social, e todos olharíamos para os caracóis de uma forma muito diferente.

Dana Oliver : Executive Fashion And Beauty Editor, The Huffington Post

Dana Oliver: Executive Fashion And Beauty Editor, The Huffington Post

Não é o...

... que se diz. É como se diz. Tivessem os argumento sido outros e ninguém falaria nisto. Porque não haveria nada a dizer, para além do cinismo atrás das palavras e das acções. O típico cinismo social que nos impede de dizer bem alto, num comboio, "chega-te para lá" porque és enorme e te sentaste literalmente em cima de mim. Os olhares de que somos alvo que representam os comentários que não se fazem. Porque nos ensinaram assim.  

Se tivessem argumentado que não tinha pedido autorização para usar as roupas da loja e publicar as fotografias no Instagram. Se a tivessem informado que não queriam a utilização de selfies para promover a loja e os seus produtos, se lhe tivessem dito que o estava a fazer sem conhecimento da proprietária e que a mesma deveria aprovar as imagens a publicar por uma questão da identidade da marca... Estaria correcto. Seria de alguém de bom senso que não estaria a encontrar qualquer problema na modelo, apenas na forma como a mesma estava a dar uso aos produtos da loja. Mas o problema não era este. Ficou claro que há um padrão naquela pessoa e que a funcionária da loja não corresponde ao padrão. Que padrão?

O que nos promoveram - e promovem - durante décadas e que corresponde a um grupo específico de mulheres que não somos nós. Curiosamente, a loja vende diversos tamanhos da mesma peça de roupa caso contrário, como teria a funcionária envergado as peças para se fotografar? Se vende diversos tamanhos é porque o seu público alvo não se compõe apenas de mulheres XS, então, porque não usar uma mulher real para se auto-promover? Eu só faria uma alteração e não era na modelo. Era na produção das imagens, mantendo o cenário da loja e dando-lhes um cunho profissional. Mas isso, seria demais para o preconceito XL de quem lhe apontou o dedo... 

Há, de facto, uma razão para a loja se chamar Dainty Hooligan. 

As redes não perdoam.... 

As redes não perdoam.... 

I'm (not) a Barbie girl....

A Barbie nunca foi perfeita. Ou bonita. E a Barbie nunca foi, simplesmente, uma boneca. É uma representação e, como representação simbólica que é, assume-se como um ícone cultural de um certo pós-guerra capitalista e conservador.

Gosto de uma frase que já ouvi e li por aí, cujo autor desconheço, que afirma que passamos 10 anos da nossa vida a brincar com Barbies e outros 20 a querer ser como ela. Talvez por não ter brincado com Barbies, ainda que tenham sido um sucesso entre as meninas da minha idade, nunca me ocorreu que aquele fosse um exemplo de perfeição. Sempre a achei inexpressiva e com um corpo esquisito. Tinha uma Tucha de longos cabelos castanhos escuros a quem determinei um Bob para o resto da vida e uma Nancy desarticulada a quem poderia cair a cabeça, um braço ou uma perna num movimento mais radical. Na verdade, a Nancy era uma boneca articulada, que podia sentar, dobrar os braços e virar a cabeça. Mas os tempos não eram os da nanotecnologia. Era, por isso, uma Nancy desarticulada. Comprada em Badajoz. Cortei, muitas vezes, o cabelo aos Nenucos que se amontoavam aos pés da cama e a quem teimava em tapar, cuidadosamente, todas as noites antes de adormecer. Mas entendiavam-me porque não cabiam nas minhas casas de Lego nem os podia sentar nos carros que construía para circularem nas cidades de blocos coloridos.

A Barbie precisava reinventar-se como a Lego o fez há um par de anos. O mundo mudou, as crianças são diferentes e nós acompanhamos (ou tentamos) essa mudança. Uma boneca que representa a superficialidade da mulher, a sua objectificação, uma imagem corporal distorcida e sexualizada - ninguém tem aquela cintura - não consegue impor-se num contexto em que se criticam esses padrões e em que os padrões, em si, se alteram.

Mudamos devagar e nesse processo emergem movimentos que nos tornam mais conscientes dessa mudança, deitando por terra conceitos e preconceitos que nos tentaram definir como Mulheres. Já era tempo de a Barbie ser mais do aquilo que é. De ver o mundo a cores e diferentes dimensões. Se imita a mulher pois que tenha diferentes formas. Se reproduz o nosso make believe, que o faça como o believe realmente é. Se quer ser, de facto, uma representação social, pois que seja como a sociedade é: heterogenea e real. Só assim poderão ser estética e socialmente interessante. Talvez relevante.