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Basileia deixa saudades. Missing Basel ♡

Com sol e dias bonitos, como é possível ter saudades de Basileia?

É possível. 

Porque Basileia é das cidades mais acolhedoras e tranquilas que conheci nos últimos tempos.

Para quem, como eu, gosta da agitação das grandes cidades, do turbilhão de coisas e pessoas que caracterizam algumas capitais, Basileia pode ser uma desilusão. Contudo, se pensarmos que aqui encontramos tudo o que há nessas cidades com a serenidade que a distingue, então sim, este é um daqueles raros locais que deixa saudades.

Lá fora está sol e a temperatura convida a usar sandálias. Quando visitei Basileia o calendário definia Primavera, embora esta se apresentasse com ares de Inverno. Um Inverno suave, contudo, a apelar aos casacos quentes. Conheci duas cidades diferentes: a Basileia fria e cinzenta, chuvosa e a apelar a um chocolate quente e outra, com dias iguais ao de hoje, solarenga, demasiado quente para a data, impondo-nos tardes à beira rio. Gostei das duas porque em ambas senti a mesma harmonia que me tranquilizava, mesmo quando pedia agitação (que também tem).

Para muitas pessoas Basileia resume-se em três palavras: design, design e design. Concordo, mas acho que Basileia é daqueles locais quase perfeitos para se viver, encaixada entre países e culturas diferentes, perto de tudo e, no entanto, aparentemente distante, com um ritmo próprio.

Num dos dias, com um sol e um céu em tudo iguais aos de Lisboa, havia pessoas junto ao rio aproveitando o bom tempo. Muitas pessoas que conversavam, namoravam, divertiam-se. Encontrei-os de todas as idades e estilos, à beira de um Reno temperamental que foge para o mar do Norte. Em oposição, com frio e chuva, os cafés e museus encheram-se de pessoas que não se limitam pelos rigores do Inverno.

Aprecio este aparente fazer nada que significa mais do que parece. Apresenta-se como uma valorização do eu e do outro, da comunhão do tempo e do espaço que significa uma relação. Não acho os suíços - estes suíços - particularmente simpáticos ou afáveis, mas sinto-os felizes, de bem com a vida, mesmo que sem o samba brasileiro ou as mornas africanas. São mais individualistas do que estamos habituados o que, para mim, significa menos intrometidos. São organizados e regrados sem a quadrícula alemã que nada permite fora do limite. As ruas são limpas e direitas, os cães (muitos cães, por sinal) andam pela trela e cumprem o padrão civilizado da higiene que se impõe numa cidade. 

Do outro lado da cidade - muito grande e, no entanto, suficientemente pequena para se andar a pé -, encontrei várias crianças da idade da minha filha caminharem sozinhas na rua, mochila às costas, como quem acabou de sair da escola. Outras circulavam de bicicleta juntamente com os adultos e os automóveis. Olhei para o relógio. Às quatro e meia da tarde país e avós, empregadas domésticas e outros predicados que desconheço amontoam-se no hall de entrada da escola. Cá fora não circulam carros, nem os conseguimos estacionar porque quem está lá dentro tem apenas uma prioridade: ir buscar a criança à escola. Concentrei-me e ignorei o dia-a-dia da escola em Lisboa. Cruzei-me com outras meninas. Duas delas, de mão dada, muito cheias de si, caminhando certamente a caminho de casa. Mochilas às costas e a inocência das crianças da escola primária. Pensei que poderia ser, também assim, em Lisboa. O nosso proteccionismo excessivo mima crianças que poderiam percorrer uma rua a pé, num bairro pacato do centro de Lisboa mas não o fazem porque "pode acontecer alguma coisa". Alguma coisa acontece em Paris ou em Bruxelas e em metrópoles infinitas como Nova Iorque. Aqui acontece um par de estalos ou um roubo por esticão. Eu sei. Também tenho medo. E sei o que faria de não tivesse.

Seis da tarde, hora de ponta. Eléctricos cruzam-se com bicicletas, os carros abrandam e os peões avançam. Para além do metal nos carris e da campainha dos eléctricos, não há barulho. Há movimento e não há encontrões. Há pressa e ninguém corre. Sinto-me em casa perante a descontração das mulheres de saia, sentadas na bicicleta e não estou em Amsterdão. Não entendo a cultura da "minha lata ser melhor do que a tua", sentados a 20 km/hora numa auto estrada, ou parados numa fila que termina lá longe, num semáforo vermelho. Em Basileia, alguns bairros nos subúrbios já estão em França ou na Alemanha porque a sua área metropolitana se estende para estes países e, no entanto, em redor do centro há bairro de casas baixas, ruas com edifícios onde vivem pessoas. Lisboa está lentamente a trazer as pessoas de volta para viverem no centro. Falta o passo seguinte, como lá, em que muitas pessoas caminham, entram e saem dos eléctricos e pedalam nas suas bicicletas.

Para um cidade com mau tempo, chuva e muita neve, vi mais esplanadas em 300 metros do que em toda a cidade de Lisboa - se excluirmos, naturalmente, a rua pedonal transformada em esplanada que é hoje, a Rua Augusta. As pessoas estão bem dispostas e reúnem-se ao fim do dia com uma cerveja para conversar. Jantam ao ar livre no exacto momento em que nós, Lisboetas, estamos a sair do emprego ou temos a sorte de chegar a casa. Parece-me que, por lá o trabalho acaba mais cedo e sobra tempo para aquilo que falta a muitos de nós - viver. 

English right here

 

 

Écletisme bourjouis

Parece que me mudei e não é verdade. Já estou aqui, em Lisboa e recordo Paris. 

Paris dos amantes. Dos clichés e das baguetes. Entranha-se e não se estranha. Du parfum e du écletisme bourjois. Não há melhor forma para a descrever.

É  também um lugar de liberdade boémia. Da liberdade em si mesma, independentemente de estarmos em Montmartre ou Montparnasse. É uma cidade transgressiva, estimulante, altamente hedonista onde se circula por prazer e se discute filosofia com a mesma energia que se misturam culturas e correntes artísticas. Paris não tem uma só identidade. Tem várias identidades que cruzam sem perturbação em locais icónicos da cidade. Gosto de me sentar no piso 2 da Torre Eiffel a contemplar. A ver passar turistas que, para além do que mostra o guia turístico, nunca serão capazes de absorver Paris, não ultrapassam as margens do Sena para se aventurarem nos bairros que fazem parte de um certo imaginário colectivo, mesmo que nunca lá tenhamos estado. E que passam a ser muito reais, a partir do momento em que lhes dedicamos uns minutos da nossa vida. O melhor de Paris não se vê. Pode apenas sentir-se.

Joséphine sans filtre...

Toujours. Un autre jour. Por enquanto, assim, perdendo-se nas ruas, nos museus e exposições, nos monumentos e nos recantos que só quem conhece Paris sabe que existem. A cidade é monumental, milhares de pessoas diariamente em circulação, outros milhares de turistas. Mais de duzentos quilómetros em linhas de metro, quase o mesmo que percorremos a pé, numa cidade que se presta a isso mesmo: aos percursos com destino aparente e infindáveis caminhadas imprevistas que nos levam onde não tinhamos pensado, para descobrir sempre algo novo. 

Joséphine conhecia Paris suficientemente bem para não se perder e tão mal que estava sempre perdida, encontrando-se entre a multidão, descobrindo a  cidade enquanto se descobria a si mesma, nas esplanadas aquecidas, nos mercados de rua transbordando um certo je ne sais quoi francês e o multiculturalismo que também caracteriza a Europa.

Paris hoje estava diferente. Joséphine acordou e aproximou-se da varanda do quarto. Espreitou a rua. Embrulhou-se num casaco que não era seu e que, pela dimensão, lhe tapava boa parte do corpo. Estava descalça. Abriu a janela, deixou o ar frio da manhã entrar. Ouviu resmungar, ignorou propositadamente porque queria ter a certeza de que o mundo, lá fora, continuava.

Desta vez escolheu um hotel pelos comentários e a pontuação que outros lhe haviam atribuído. Ignorou a localização, sabendo que estaria perto de tudo. Não se imaginou junto à Place de la République, praticamente com vista para o memorial que espontaneamente surgiu depois dos atentados de 13 de Novembro. Quando sai, opta quase sempre por uma volta maior, pelos Grands Boulevards. Já cruzou diversas vezes a praça, quase sempre à noite, por ser mais fácil fingir ignorar a emoção do local, que também os parisienses, sem ignorar, procuram aceitar. Gerir. Andam na praça de um lado para o outro, evitam a aproximação às flores, às mensagens, a tudo o que se foi amontoando ao longo do tempo e que representa a forma que muitos encontraram de se exprimir, de manter viva a memória dos que se foram, mantendo também viva a memória do que aconteceu. 

Na praça encontramos les roleurs em manobras acrobáticas. Jovens apaixonados, de mão dada. Poucos franceses. Daqueles que se reconhecem pelo estilo e o sotaque. Muitos nascidos em França. O que não será exactamente a mesma coisa, como se percebe por aquilo que vai acontecendo em Inglaterra, com os jovens desenraizados que não são nem de cá, menos ainda de lá, ou em Bruxelas. 

Hoje, a cidade acordou a mesma de sempre, mais cinzenta e cabisbaixa. Fechou a janela, enroscou-se no quente da cama. Ligou a televisão e tirou-lhe o som. Deixou-se ficar. Ficaram. Desceram, já tarde, para um petit déjeuner numa sala vazia, cheia de pequenos detalhes, para serem servidos com a atenção que só um boutique hotel pode dar. Tinham duas opções: ceder ao medo e à curiosidade ou ignorar e sair. Não há como fingir que nada aconteceu. Paris em Novembro, Bruxelas em Março. Outros tantos menos mediáticos como Ankara. Não há coincidências e o mundo está a ferro e fogo. O que terá feito Joséphine em mais um dia em Paris?

continua

 

Joséphine

Joséphine não era inglesa mas parecia. Poderia ser francesa. Sueca, talvez. Misturava-se facilmente entre a multidão, falando a língua e usando os tiques daquela gente que não era a sua. Na verdade, Joséphine não era dali ou de lado nenhum. Muitas vezes caminhava sentindo a calçada, sabendo que pairava. Observava o mundo de forma invisível. Ou pensava que sim. Sentia-se igual nas diferenças que caracterizam as pessoas. Aqui, ou em qualquer parte do mundo.
O Inverno estava instalado na Europa, com noites longas, geladas, poucos dias de sol e muita chuva. Atravessou o canal para se instalar umas semanas em Paris.

Não há como Paris para curar o que quer que seja. Não há como Paris para nos apaixonarmos, para circularmos sem destino e encontrar o que ainda não sabíamos que estávamos à procura, para escrever longas cartas de amor que nunca entregaremos a ninguém, comer croissants pela manhã e beber vinho num copo de pé alto, numa esplanada, ao fim da tarde, mesmo sem sol.
Paris é o lugar da sofisticação e fazemos todos por corresponder ao paradigma, mesmo que nos apeteçam leggins e sweaters confortáveis. Este aprumo obriga a organizar ideias, a limpar armários. A consequência é a nossa própria organização. Por muito que nos custe.
Ao fim de três dias em Paris, muitas fotografias por publicar, notificações no whatsapp que se recusava a ler ou correio por abrir, sentia-se mais de cá do que de lá, esse sítio que estava cada vez mais longe, diametralmente oposto a si.
Ligou o computador, consultou as contas bancárias e soube que não poderia fugir para sempre. Que o fim estava à vista, mesmo que a anos de distância. Que tinha compromissos os quais não poderia ignorar para sempre, embora quisesse. A desculpa esfarrapada da conferência que se transformou num convite para um evento na Fundação Louis Vuitton ou uma aula no Quartier Latin da Sorbonne, seguida de entrevistas à comunicação social, não poderia durar muito mais. Era tempo de voltar. E, mesmo não sabendo exactamente a razão do regresso ou aquilo para que voltaria, sentia que não poderia perder-se para sempre numa cidade que não era a sua. Ou poderia?

continua (talvez)

 

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Partir. Chegar.

Largou tudo e rumou à Europa. Voltamos sempre ao lugar onde fomos felizes e, embora não soubesse exactamente onde pertencia e o que deveria fazer, deixou-se guiar pelas rotas que a levariam a qualquer cidade de europeia, ponto de partida e chegada, aeroporto repleto de gente com destino definido e hora de chegada.

Aterrou em Londres. Estava demasiado cansada para pensar, usou uma aplicação útil para qualquer viajante sem destino, e escolheu um hotel. Outro botão levou-a até à porta. Entrou. Pousou uma mala. Largou o casaco. Pediu um quarto.

Último andar, por favor.

Tinha medo de alturas mas gostava dos andares mais altos dos hotéis. Todos temos pormenores. Dormiu mais de doze horas. Acordou. esticou-se. Tomou um banho, vestiu-se no mais óbvio street style londrino, despreocupada e sem regras - ou sem a regra da crítica no olhar - e saiu. Queria respirar o ar frio, a humidade no rosto junto ao Tamisa, a cacofonia de uma cidade tão impregnada de cheiros, gentes e cores que torna impossível a aparente solidão. Olhou para a palma da mão. Spotify. Carregou no botão play e colocou os auscultadores. O James Brown gritava "I got you"... Não era sua nem de ninguém. Caminhou. Enviou umas mensagens e acabou a pernoitar em casa de uma amiga que já não via há uma década. Falaram horas a fio sem lhe contar o seu plano. Simplesmente não tinha nenhum.

Uma notificação. E outra. Uma fotografia no Instagram ganha vida própria, expande-se e circula como o ar. Em Glasgow, Eric e Mary gritavam. Ela estava na Europa, havia aterrado em Londres e estava disponível para sugestões de destino. Na manhã seguinte apanhou um comboio. Parou em Sunderland para uma visita breve a um amigo de sempre e para sempre. Seguiu para o norte, onde a esperavam dois abraços tão loucos quanto a loucura em si mesma, noites intermináveis, conversas de fazer rir o mais inerte e uma amizade que se revela nos pormenores que só a presença física desperta. Adora-os mas esta intensidade é demais. Pelo menos agora. Por agora.

Estar numa cidade não é o mesmo que lá viver, por muito que queiramos estar como "estão" os locais. Nunca será a mesma coisa simplesmente porque abdicamos do nosso quotidiano para criarmos outro, temporário, uma espécie de evasão tornada realidade sem nunca o ser. Não estamos em casa nem dormimos na nossa cama, abdicamos de pertences para recebermos o intangível que a viagem nos dá. Mesmo em trabalho, com horas e obrigações, o acolhimento de um hotel é sempre temporário, com odores que não são os nossos, aos quais não queremos pertencer. Ou queremos?

 

continua

 

I amsterdam

Amsterdão é isto e muito mais. É daquelas cidades onde facilmente poderia viver. Tem projectos fantásticos de rádio, é um local onde a diversidade é aceite e respeitada, onde a língua inglesa integra os hábitos como uma segunda língua, facilitando quem não entende holandês. O meu caso, portanto. Gosto de me sentir incapaz de dialogar e me fazer entender. Embora saiba que todos falam inglês, há um certo sentimento de insegurança que nos invade quando olhamos para qualquer sinaléctica e pensamos... WTF?!

Não é exactamente assim porque dividindo as palavras, por vezes - só mesmo às vezes - até se entende o que que aquilo quer dizer. Mas esqueçam o truque quando alguém se dirige a nós. A nossa expressão, no entanto, diz tudo e rapidamente nos repetem a frase em inglês.

Não tenho más experiências fora daqui. Na verdade, há gente chata, mal educada, mal encarada ou sem maneiras em todos os países. Talvez em alguns mais do que outros mas, com isso, podemos nós bem. 

Amsterdão é uma cidade pequena, embora enorme. Não tem aquela sensação de concha porque a bicicleta nos dá mobilidade, velocidade e rapidez. Não nos atordoamos nos corredores labirínticos do metro nem somos abalroados por atravessar a rua mais devagar. Talvez sejamos atropelados por uma bicicleta porque estas têm prioridade sobre tudo e todos. Ou acham que têm. E, como têm uma faixa, entre a estrada e o passeio, exclusiva para a circulação de bicicletas é melhor não arriscar. Na bicicleta transporta-se tudo. Pequenos móveis, nitidamente desporprocionados em relação ao meio de transporte, crianças penduradas no banco de trás a comer um gelado. As mães e os pais levam os seus filhos nas bicicletas. Os mais pequenos em pequenos bancos apoiados no guiador da bicicleta. Aqui, seria um atentado à integridade física da criança. Ali é normal.

São descontraídos e descomplexados. Easy going, como se diz em inglês. A mim, já me conquistaram. Mais os jardins, os canais com as suas pequenas pontes, os mercados, os museus e uma vibrante dinâmica cultural igual à de tantos outros locais, mas com um twist que lhe dá uma pedalada diferente. Talvez porque o que é normal ali é tão complicado, aqui.

Amor? Espaço.

Mais um exemplo de dois que decidiram "come clean" que é como quem diz, dizer a verdade. Amar não é fácil. Amar, com a rede a interferir, mais difícil. De malas aviadas e sempre em trânsito? Muito difícil.

O casal de bloggers Jarryd Salem e Alesha Bradford entraram numa espécie de burnout virtual. Cansados das fotografias perfeitas, cansaram-se, também, um do outro. Para além da questão principal - a aparente perfeição do que publicamos na rede - há outra, subjectiva: pode e deve um casal estar junto 24 horas?

Acho que não. Ou, pelo menos, não sempre. O espaço para o outro depende do nosso próprio espaço, da capacidade que temos de abdicar de nós pelo outro. Até onde abdicamos? 

Dias a fio, mala ao ombro, maquina fotografia na mão. A foto perfeita por encomenda. Ele e ela. Juntos nesta missão. Até quando? Seremos felizes nesta realidade que se ausenta dela própria? 

Travel troubles: Jarryd Salem e Alesha Bradford

Travel troubles: Jarryd Salem e Alesha Bradford

d'être

Adoro Bruxelas, mas não posso dizer que seja dos primeiros locais nos quais penso quando decido viajar. Passou a ser.

#bff rule.

Mais os outros quase quase #bff que lá estão. E tudo o resto. 

Quem me conhece sabe que já viajei inúmeras vezes para esta cidade, sempre por motivos profissionais. A sua centralidade facilita o encontro e reunião de pessoas de diferentes pontos da Europa. Por isso, fui conhecendo, ponto a ponto, sem verdadeiramente ter descoberto a cidade. Foi-se revelando à medida que o encontro obrigatório mudava de localização. É, contudo, daqueles locais que não importa repetir porque é uma cidade bonita, cativante, simples e sedutora, mesmo que não nos arrebate como alguns destinos o fazem. Não será uma paixoneta, sequer amor à primeira vista - até porque as primeiras visitas foram tudo menos fáceis ou apaixonantes - mas daquelas relações que o tempo prova que valem a pena, que tem tudo a ver connosco, que não defrauda mas que vai sempre surpreendendo e fazendo apaixonar cada vez mais. Dizem que é assim o amor e tenho, agora, boas razões para voltar. Sempre.

Dos parques para correr às ruas para caminhar sem perder o fôlego, os museus com exposições que não encontramos por aqui, as livrarias - qual a livraria que não nos apaixona? - as esquinas com waffles, as lojas com chocolates estonteantes ou bolachas tão boas que preferimos não perguntar qual a composição. Há ainda as frites - que agora querem transformar em património mundial - e uma diversidade gastronómica que não nos permite o tédio. Há também as moules. Mas isso já todos sabemos. Como o Tintin. Que gostamos mais quando não estamos em sua casa. O que é demais não valorizamos. Como o sol, que temos a mais em Lisboa e que, por isso, só aproveitamos verdadeiramente depois de uma semana inteira de chuva e céu cinzento.

Já tinha sentido frio em Bruxelas mas, desta vez, estava mais do que o que conhecia. Gosto deste frio que nos obriga a tapar. Cobrir o corpo, escondendo mãos e cabeça com luvas e gorros. Este frio não entra nos ossos, como por vezes referimos em Lisboa, mas corta a pele do rosto e, sobretudo, gela os dedos para fotografar. O próprio aparelho recusa-se a focar como habitualmente, porque os dedos estão de tal forma inertes que o toque perde sensibilidade. Ponto negativo. O único que me incomoda porque honestamente, há mais frio mas sofremos menos. Obriga a calçado que isole a humidade e frio, um casaco adequado, mãos e cabeça protegidas. Não é à toa que muitos andam de t-shirt, vá... sweat-shirt, por baixo do casaco (casacão). Todos os locais estão aquecidos e os apartamentos têm um aquecimento central, no edifício, que nos permite estar muito confortáveis em casa. Não podemos dizer o mesmo da luminosa Lisboa, pois não?

Paradoxalmente, não é quando neva que se sente mais frio, mas é quando a cidade fica branca que acreditamos em magia. Na rua ou num bosque, o manto branco remete sempre para o nosso imaginário e deixa a imaginação fluir, com estórias de encantar que sussurramos aos mais pequenos, deitados numa cama quente, no centro da cidade.



Late night post

It's Dade, dude!

A Europa é muito diferente dos Estados Unidos. Em todos os sentidos. Mesmo que boa parte dosestados tenham sido povoados por europeus, é tudo diferente. Começa por ser maior. Em todos os sentidos. Estradas amplas, com tantas faixas para cada um dos sentidos, vias de saída e entrada, que cada uma parecem duas. Ou três. São rectas. Longas. Intermináveis. Ligam cidades mas também ligam mundos diferentes. Na Flórida, o ritmo é diferente. A luz solar tem impacto na nossa (boa) disposição e tudo parece melhor de frente para um mar muito verde com aquela temperatura que, não sendo quente, convida a mergulhar. Como se costuma dizer "está boa, não custa a entrar". Não custa mesmo.  Os mergulhos sucedem-se a qualquer hora do dia enquanto o vento leste mantém a temperatura amena. Quando aquece, o sol escalda.

Em Miami Beach tudo é pensado em função do mar e da praia, com uma Ocean Drive que coordena parte das actividades, um Boardwalk à americana, com gente a caminhar, correr ou a puxar pelos bíceps. Há outros em patins. Em linha e dos outros. E turistas. Tantos. De todas as nacionalidades. Muitos selfie sticks. Muitos sorrisos.

Fui recebida em espanhol e respondi em inglês. Miami ainda é parte dos E.U.A. embora pareça ter sido anexado por falantes da língua espanhola, provenientes das mais variadas origens. Já há brasileiros e, como em qualquer outro local nos Estados Unidos, há emigrantes provenientes de todos os lugares do mundo. Mas, latinos, dominam. O que dá a Miami uma característica especial, de ser a América, sem verdadeiramente o ser. E o que se pode dizer daquilo que é, mas não é? Pouco. Se gostei? Naturalmente que sim. Um sol fantástico, um mar sem fim no qual só apetecia mergulhar e nadar, uma localização em frente à praia para sair já de fato de banho, enrolada na toalha, correr no paredão ao fim do dia, uma tribo local muito eclética. Tempo livre para estar, sem me preocupar? Restaurantes que contrariam o fast food e revelam misturas interessantes entre a cultura e a comida? Uma inacabável vontade de sentar-me a ver quem passa, com uma diversidade intensamente diversa e divertida? Lojas com promoções às quais podemos chamar promoções, e marcas que não encontramos na Europa? Ou que encontramos mas que têm preços consideravelmente mais baixos do outro lado do Oceano? Obviamente que gostei. Não vi museus, espectáculos ou galerias de arte. Porque o corpo às vezes pede apenas mar e sol. Mas cruzei-me com a art dèco que em Miami Beach está em todo o lado. Sol, mar e compras? Miami.

O mar

Down there, the Atlantic

Down there, the Atlantic

Este artigo nada tem a ver com o mar, mas nada mais me ocorre quando estou há várias horas a sobrevoá-lo.
Ia escrever uma nova frase quando reflecti melhor porque, de facto, não viajo muito. Desloco-me muito, quase sempre para os mesmos locais, durações curtas e incisivas, bagagem de cabine, rapidez e leveza nas pernas. Não é isto, viajar. E, porque raramente viajo, feita turista, carregada de bagagem e tempo a perder, contamino todos à minha volta com estes hábitos eficientes, embora terríveis para quem não os tem. Ou quem não precisa deles. Sobram para mim as escolhas, os detalhes dos produtos de higiene, as dobras na manga  da camisola, a separação entre o essencial, o acessório e aquilo que gostávamos mas abdicamos.
Viajar é abdicar para conquistar. Abdicar dos que ficam para nos concentrarmos nos que vão, do que temos ou gostamos para ficarmos com o que realmente importa, porque a mala é só uma. Há sempre mais um par de calças ou sapatos. Aqueles que deveriam ter ficado para garantir o lugar dos outros que encontramos e nos deixam a bagagem a ponto de não fechar.
Viajar é perder para ganhar. Perdemos tempo na ida mas conquistamos um outro tempo que não tem preço, aquele que só quem vai conhece, porque voltamos sempre mais do que fomos. Mais abertos ao mundo, tolerantes, capazes de apreciar o que antes não víamos. Porque ainda não havíamos visto. Experientes, repletos de novos sabores, que conhecíamos apenas dos filmes.
Viajar é mais do que isto e começa no momento em que pensamos ir. As escolhas são múltiplas e infindáveis. Já não nos limitamos a comprar um bilhete e uma estadia, levamos daqui um roteiro que esteve nos livros e passou a estar no bolso.

A internet mudou o que fazemos e como fazemos, mudando principalmente a forma como viajamos. Procuro o hotel e quero saber o que dizem os outros sobre as instalações e o pequeno almoço, coloco-me na rua, à porta, para concretizar a sua localização, defino roteiros em função dos locais que quero visitar, sabendo que demoro 10 minutos a pé de um ponto ao outro e selecciono, ao detalhe, onde janto, criando pequenas experiências gourmet que antes eram quase impossíveis. Havia sempre quem pudesse recomendar mas, agora, sei quais são os restaurantes e joints que quero visitar porque os encontro num mapa, com fotografias e descrições. Perde-se na descoberta, no local, ganha-se tempo e a (quase) certeza de que vamos comer bem. Estou a caminho de um daqueles locais com pouca reputação gastronómica, por ter adoptado a gastronomia de outros, criando uma nova, um pouco indiferenciada. Mas estou, sem dúvida, cada vez mais a transformar as minhas viagens - aquelas longas, com tempo e mala de porão - em pequenos roteiros gourmet, para descobrir os detalhes que fazem a diferença. Saboreá-los.

Com o tempo que os turistas têm.

Entre (III)

Nos Açores ouvi as mais encantadoras histórias sem, contudo, se tratarem de estórias de encantar. Na Horta, que todos conhecem pelo Peter Café Sport descobri a história de um espaço feito de pequenas estórias dos que cruzam os mares. Esses aventureiros, como ficam conhecidos no Faial. Tudo começou no século passado, uma loja de produtos artesanais que depois também vendia bebidas. Que cresceu para passar  a ser uma espécie de entreposto para navegadores e que se assumiu como Peter por razões que apenas o coração pode conhecer.

O Peter nunca se chamou Peter mas foi assim que se tornou conhecido. A história, contou-me pessoalmente José Henrique, o seu filho e a terceira geração a conduzir o espaço mais famoso do oceano Atlântico, no qual o bife e o gin&tonic fazem as honras da casa. Acima de tudo, o que distingue este Peter é a amabilidade acolhedora com que nos recebe, mesmo tendo atravessado o mar num avião. Isso não importa para quem se orgulha da sua história e gosta de a partilhar.

Há muito que não conversava com alguém com apontamentos de história tão interessantes, com tantos pequenos segredos e detalhes como o José Henrique, actual proprietário do Peter Café Sport e do museu Scrimshaw (*) cujo espólio depende unicamente de uma seleção estética feita ao longo do tempo.

A sua narração visual levou-me atrás no tempo, situando-me num Faial centenário, no tempo da instalação de cabos submarinos, caça à baleia e em que este era um dos mais importantes portos do mundo. Não faltavam navios, companhias inglesas, alemãs e norte-americanas que criaram um movimento de gentes e ideias, bem como estórias de baleeiros e da importância da caça à baleia para a economia local. O Peter, que sempre ajudou o pai no negócio e também trabalhava num navio estacionado no Faial para reparação durante a II Guerra Mundial, na verdade era Português e não se chamava assim. Tornou-se conhecido como Peter por ser parecido com o filho do comandante do navio no qual trabalhava. A saudade, juntamente com a aparência do jovem José transformou-o em Peter a pedido do comandante. Para a vida. Enquanto Peter, ajudava o negócio familiar tendo-o transformado naquilo que é hoje: um ponto de encontro e de apoio aos navegadores. Começou por tentar ajudar os que aportavam e que, por razões de saúde não podiam abandonar os veleiro antes de um atestado de saúde ser certificado pelo médico local o qual, por razões que se entenderão, só se deslocava ao Porto quando navios cheios de gente aportavam. Pobres navegadores que chegavam a estar semanas ancorados sem poderem vir a terra. Verdadeiro percursor do marketing de serviços e do marketing relacional, era o Peter quem os ajudava, visitando-os e assegurando ao médico que estariam de boa saúde, levando-lhes os atestados assinados e carimbados, convidando-os igualmente a conhecerem o seu café e oferendo ajuda pararesolver qualquer problema mecânico ou técnico na embarcação. Ligava pessoas entre si e passou a ser a posta restante na ilha, transformando a forma de comunicação entre navegadores, bem como com os que estavam em terra. As cartas passaram a ser enviadas para o Peter Café Sport e o painel superior do balcão ficava recheado de recados, para transmissão de mensagens entre navegadores. Único. Brilhante.

Hoje, a sua relevância para a comunicação no mar é menor, mas não desprezível. Continua a ser o ponto de encontro que sempre foi, com bifes tenros como nunca antes comi, um creme de batata doce de raspar o prato e o gin que dispensa qualquer comentário...

Resta apenas perceber a designação Sport, que tem uma explicação muito simples. Influenciado por ingleses e norte americanos, foi Peter o percursor do desporto na ilha, como adepto e praticante, razão pela qual também esse aspecto da sua vida ficou reflectida na designação deste local, mais pequeno do que imaginamos e, no entanto, enorme na sua dimensão, estendendo-se, por via marítima, a todo o globo.


(*) Scrimshaw é a arte de gravar imagens nos dentes de cachalote, num processo minucioso que exige precisão e abstracção para trabalhar em negativo, ou seja, os traços que são gravados no marfim serão depois cobertos de tinta. O que permanece branco será o contrário daquilo que estaríamos a ver sem tinta. Complexo? Sim, até para explicar. Mas não para apreciar, porque a colecção merece ser vista ao vivo.


Entre (estórias dos Açores)

ENTRE (I)

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido. Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

ENTRE (II)

Fui aos Açores mas, de todo, conheço os Açores. Se comparados a uma grande metrópole, nada acontece nas ilhas. Marasmo total. Mas os Açores estão a mudar e para além de uma dinâmica própria, revelam um novo arrojo, com um certo movimento artístico e cultural. Sem o roteiro incessante de Lisboa, acontecem coisas nos Açores, provavelmente de forma mais selectiva, demonstrando que as ilhas não são apenas o verde dos pastos e as vacas que os circundam. Na verdade, nunca vi tantas vacas, mesmo não tendo fotografado nenhuma, e nunca vi um verde tão verde. Há vacas por todo o lado, pastando calmamente, tão perto e tão longe do bulício da vida moderna.

Os Açores estão modernos, sem os aspectos negativos que a modernidade aporta. Sem a pressa das grandes cidades, o barulho das coisas ou a interferência que este ritmo nos impõe. Estranhamente, apeteceu-me ficar. Não para sempre, porque o sempre é longe demais, mas deixar-me estar só porque sim. Porque também senti que os Açores poderiam precisar de mim, como eu senti precisar desta calma e afectividade que aqui encontrei. Não me admira que grandes vultos da literatura nacional tenham raízes aqui ou que figuras actualmente relevantes no panorama internacional, resultado da emigração, sejam açoreanos de alma e coração.

Há algo aqui que não encontrei em nenhuma outra região do nosso país a qual, lamento, não sei explicar... Não sei se resultará da insularidade, da distância, da dimensão de cada ilha ou da relação entre essa dimensão - pequena - e a grandiosidade que aparentam as ilhas que visitei. Ouvi das estórias mais bonitas de sempre, conheci pessoas cuja simpatia excedia a obrigação e vi locais que não têm equivalente. Não podem ter. Não há outro verde assim.

Elogiar refeições em Portugal é comum, mais ainda nas ilhas, especialmente, nos Açores.

Peixe fresco que sabe a mar, legumes com um sabor intenso e carne que se desfaz na boca. Tudo verdade. Não hesitaria em voltar para um roteiro gourmet. A proximidade entre as pessoas é maior, típica de localidades pequenas em que todos se conhecem e a recepção a quem vem de fora excede todas as expectativas. Não é uma simpatia forçada pelo negócio mas antes pelo prazer de bem receber. De mostrar o que tem de melhor cada local e dar a conhecer as especialidades da casa, que não encontramos no continente.

Provei uma mistura de cerveja e laranjada da qual terei muitas saudades. Nem a cerveja é a mesma e muito menos encontrarei a laranjada Melo Abreu.

As lapas, que já temos em Lisboa, são outras. Mais frescas e carnudas. Sabor melhorado. Comia-as a cada refeição. Sem hesitar. As cracas... Um pouco do mar à mesa, extraídas da rocha são mesmo um pedaço de mar porque o que se come está em pequenos buracos, o que quer dizer que a apanha implica estar debaixo de água para partir pequenos pedaços da rocha. Único, sem dúvida. Cozinhadas com a água do mar que se bebe,  para provarmos isso mesmo: o sabor do mar. Que não é o mesmo que engolir um pirulito quando mergulhamos.

Experimentei peixe que não conhecia e legumes cozinhados ao vapor num papelote de alumínio, provocando uma experiência de sabores e texturas que se apenas entendem na sua intensa suavidade. Descobrir é bom, mas descobrir guiados por aqueles que conhecem o local permite-nos navegar no encantamento da descoberta. Temperadas com alho e limão, acompanhadas com batata doce e arrematadas com canela, as refeições nos Açores despertam-nos os sentidos, levam-nos de volta a tradições perdidas e estimulam o nosso imaginário em torno da ideia de felicidade na imensidão do mundo e do oceano.

Apetecia-me voltar já e repetir, agora.

ENTRE (III)

Nos Açores ouvi as mais encantadoras histórias sem, contudo, se tratarem de estórias de encantar. Na Horta, que todos conhecem pelo Peter Café Sport descobri a história de um espaço feito de pequenas estórias dos que cruzam os mares. Esses aventureiros, como ficam conhecidos no Faial. Tudo começou no século passado, uma loja de produtos artesanais que depois também vendia bebidas. Que cresceu para passara ser uma espécie de entreposto para navegadores e que se assumiu como Peter por razões que apenas o coração pode conhecer.

O Peter nunca se chamou Peter mas foi assim que se tornou conhecido. A história, contou-me pessoalmente José Henrique, o seu filho e a terceira geração a conduzir o espaço mais famoso do oceano Atlântico, no qual o bife e o gin&tonic fazem as honras da casa. Acima de tudo, o que distingue este Peter é a amabilidade acolhedora com que nos recebe, mesmo tendo atravessado o mar num avião. Isso não importa para quem se orgulha da sua história e gosta de a partilhar.

Há muito que não conversava com alguém com apontamentos de história tão interessantes, com tantos pequenos segredos e detalhes como o José Henrique, actual proprietário do Peter Café Sport e do museu Scrimshaw (*) cujo espólio depende unicamente de uma seleção estética feita ao longo do tempo.

A sua narração visual levou-me atrás no tempo, situando-me num Faial centenário, no tempo da instalação de cabos submarinos, caça à baleia e em que este era um dos mais importantes portos do mundo. Não faltavam navios, companhias inglesas, alemãs e norte-americanas que criaram um movimento de gentes e ideias, bem como estórias de baleeiros e da importância da caça à baleia para a economia local. O Peter, que sempre ajudou o pai no negócio e também trabalhava num navio estacionado no Faial para reparação durante a II Guerra Mundial, na verdade era Português e não se chamava assim. Tornou-se conhecido como Peter por ser parecido com o filho do comandante do navio no qual trabalhava. A saudade, juntamente com a aparência do jovem José transformou-o em Peter a pedido do comandante. Para a vida. Enquanto Peter, ajudava o negócio familiar tendo-o transformado naquilo que é hoje: um ponto de encontro e de apoio aos navegadores. Começou por tentar ajudar os que aportavam e que, por razões de saúde não podiam abandonar os veleiro antes de um atestado de saúde ser certificado pelo médico local o qual, por razões que se entenderão, só se deslocava ao Porto quando navios cheios de gente aportavam. Pobres navegadores que chegavam a estar semanas ancorados sem poderem vir a terra. Verdadeiro percursor do marketing de serviços e do marketing relacional, era o Peter quem os ajudava, visitando-os e assegurando ao médico que estariam de boa saúde, levando-lhes os atestados assinados e carimbados, convidando-os igualmente a conhecerem o seu café e oferendo ajuda para resolver qualquer problema mecânico ou técnico na embarcação. Ligava pessoas entre si e passou a ser a posta restante na ilha, transformando a forma de comunicação entre navegadores, bem como com os que estavam em terra. As cartas passaram a ser enviadas para o Peter Café Sport e o painel superior do balcão ficava recheado de recados, para transmissão de mensagens entre navegadores. Único. Brilhante.

Hoje, a sua relevância para a comunicação no mar é menor, mas não desprezível. Continua a ser o ponto de encontro que sempre foi, com bifes tenros como nunca antes comi, um creme de batata doce de raspar o prato e o gin que dispensa qualquer comentário...

Resta apenas perceber a designação Sport, que tem uma explicação muito simples. Influenciado por ingleses e norte americanos, foi Peter o percursor do desporto na ilha, como adepto e praticante, razão pela qual também esse aspecto da sua vida ficou reflectida na designação deste local, mais pequeno do que imaginamos e, no entanto, enorme na sua dimensão, estendendo-se, por via marítima, a todo o globo.

(*) Scrimshaw é a arte de gravar imagens nos dentes de cachalote, num processo minucioso que exige precisão e abstracção para trabalhar em negativo, ou seja, os traços que são gravados no marfim serão depois cobertos de tinta. O que permanece branco será o contrário daquilo que estaríamos a ver sem tinta. Complexo? Sim, até para explicar. Mas não para apreciar, porque a colecção merece ser vista ao vivo.

Entre (II)

Fui aos Açores mas, de todo, conheço os Açores. Se comparados a uma grande metrópole, nada acontece nas ilhas. Marasmo total. Mas os Açores estão a mudar e para além de uma dinâmica própria, revelam um novo arrojo, com um certo movimento artístico e cultural. Sem o roteiro incessante de Lisboa, acontecem coisas nos Açores, provavelmente de forma mais selectiva, demonstrando que as ilhas não são apenas o verde dos pastos e as vacas que os circundam. Na verdade, nunca vi tantas vacas, mesmo não tendo fotografado nenhuma, e nunca vi um verde tão verde. Há vacas por todo o lado, pastando calmamente, tão perto e tão longe do bulício da vida moderna.

Os Açores estão modernos, sem os aspectos negativos que a modernidade aporta. Sem a pressa das grandes cidades, o barulho das coisas ou a interferência que este ritmo nos impõe. Estranhamente, apeteceu-me ficar. Não para sempre, porque o sempre é longe demais, mas deixar-me estar só porque sim. Porque também senti que os Açores poderiam precisar de mim, como eu senti precisar desta calma e afectividade que aqui encontrei. Não me admira que grandes vultos da literatura nacional tenham raízes aqui ou que figuras actualmente relevantes no panorama internacional, resultado da emigração, sejam açoreanos de alma e coração.

Há algo aqui que não encontrei em nenhuma outra região do nosso país a qual, lamento, não sei explicar... Não sei se resultará da insularidade, da distância, da dimensão de cada ilha ou da relação entre essa dimensão - pequena - e a grandiosidade que aparentam as ilhas que visitei. Ouvi das estórias mais bonitas de sempre, conheci pessoas cuja simpatia excedia a obrigação e vi locais que não têm equivalente. Não podem ter. Não há outro verde assim.

Elogiar refeições em Portugal é comum, mais ainda nas ilhas, especialmente, nos Açores.

Peixe fresco que sabe a mar, legumes com um sabor intenso e carne que se desfaz na boca. Tudo verdade. Não hesitaria em voltar para um roteiro gourmet. A proximidade entre as pessoas é maior, típica de localidades pequenas em que todos se conhecem e a recepção a quem vem de fora excede todas as expectativas. Não é uma simpatia forçada pelo negócio mas antes pelo prazer de bem receber. De mostrar o que tem de melhor cada local e dar a conhecer as especialidades da casa, que não encontramos no continente.

Provei uma mistura de cerveja e laranjada da qual terei muitas saudades. Nem a cerveja é a mesma e muito menos encontrarei a laranjada Melo Abreu.

As lapas, que já temos em Lisboa, são outras. Mais frescas e carnudas. Sabor melhorado. Comia-as a cada refeição. Sem hesitar. As cracas... Um pouco do mar à mesa, extraídas da rocha são mesmo um pedaço de mar porque o que se come está em pequenos buracos, o que quer dizer que a apanha implica estar debaixo de água para partir pequenos pedaços da rocha. Único, sem dúvida. Cozinhadas com a água do mar que se bebe,  para provarmos isso mesmo: o sabor do mar. Que não é o mesmo que engolir um pirulito quando mergulhamos.

Experimentei peixe que não conhecia e legumes cozinhados ao vapor num papelote de alumínio, provocando uma experiência de sabores e texturas que se apenas entendem na sua intensa suavidade. Descobrir é bom, mas descobrir guiados por aqueles que conhecem o local permite-nos navegar no encantamento da descoberta. Temperadas com alho e limão, acompanhadas com batata doce e arrematadas com canela, as refeições nos Açores despertam-nos os sentidos, levam-nos de volta a tradições perdidas e estimulam o nosso imaginário em torno da ideia de felicidade na imensidão do mundo e do oceano.

Apetecia-me voltar já e repetir, agora.

Entre

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido.

Ponta Delgada

Ponta Delgada

Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Furnas

Furnas

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Louvre Michaelense

Louvre Michaelense

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

(continua) 

Catwitter

Estiveram por todo o lado. O seu ar blazé, de indiferença e independência. Não poderiam ter escolhido melhor animal para um momento de bloqueio. Uma espécie de jamming moderno, que misturou comunicações na rede para confundir o outro lado. Sem rádio mas com gatos. Modernices. 

A semana ainda mal começou e tenho para mim que aprendi mais na semana que passou do que em muitos anos de vida. Só aprendemos a valorizar o que perdemos, quando o perdemos, e achamos sempre que tudo está garantido. Até ao momento em que percebemos que não está. 

Se eu perdi, alguém ganhou. Não tenho mau perder mas detesto jogo sujo. De limpa, esta batalha não tem nada. Numa semana redefini prioridades, mudei planos e preocupei-me mais do que normalmente acontece. Sou daquelas pessoas que acredita, sempre, que tudo está, ou vai ficar bem. Optimismo levado ao extremo, mesmo sabendo que nem sempre acontece só aos outros. Desta vez está ainda a acontecer-lhes, com reflexo directo em cada um de nós. Porque estamos, devagarinho, a perder a nossa liberdade. Até de expressão, porque também já ouvi rumores relativos às intenções de perseguição de quem se expressa nos media sociais. Uma vez na rede, para sempre na rede. Pois que fiquem a saber...

O maior atentado é aquele que conseguem perpetrar contra todos nós, aterrorizando-nos. Limitando-nos a acção, porque as barreiras se vão levantando aqui e ali. Mesmo que queiramos permanecer naquele estado latente de resiliência contra o que aí vem, a dada altura deixamos de o conseguir.  

O pior que me podem fazer é tentarem prender-me porque encontrarei sempre forma de escapar. Mas temo que, neste caso, não exista saída. Porque não é a mim que quer limitar, mas antes a uma sociedade e a um certo modo de vida. Desde que comecei a viajar mais, conclui pelas suspeitas iniciais: não dependo de um passaporte para me definir. Sempre fui daquelas que tanto é daqui como dali, desenraizada o suficiente para me sentir bem onde não tenho a minha almofada. Nunca fui pessoa de viajar com a almofada atrás e acredito que se me obrigassem a sair, amanhã, apenas com uma mala de cabine, seria capaz de recolher o essencial. Porque o que é importante nunca está - ou cabe - numa mala de viagem. Sim, sou despegada e desapegada. Talvez por isso, quando sinto, sinto a valer. Quando dou, entrego sem reservas. Quando mudo, limito-me ao essencial. Pode até ser uma palavra. E será sempre, liberdade.

#Liberdade #BrusselsLockdown #BrusselsAlert

Ir. Verbo to GO

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Há uma ideia de liberdade e prazer associada ao verbo IR, associada a outro verbo, viajar, que não é totalmente verdadeira. Para quem viaja com frequência e o faz sem a liberdade de ir quando quer, como quer ou para onde deseja, o prazer é relativo, se pensarmos no acto de fazer a mala, encaixar amostras e versões mínimas de tudo o que não abdicamos para a higiene pessoal, um par de sapatos extra só porque sim e toda a parafernália electrónica e digital que hoje nos acompanha. Ou da qual abdicamos para nos tornarmos dependentes de aplicações móveis, confesso...

O(s) acto(S) seguinte(S) implica(m) carregar, segurar, vigiar, abrir e fechar até à exaustão. Nisto, há muito pouco (ou mesmo nenhum) prazer. Ou liberdade. Ainda acresce a comida de aeroporto, o som excessivo de vozes sem compasso, cheiros misturados, filas e apertos. Sabermos que vamos descobrir algo novo impele-nos a superar qualquer ideia de sacrifício associada ao verbo e, por isso, vamos sempre e com vontade.

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Durante muitos anos habituei-me a passar de raspão pelo aeroporto de Lisboa. Nos últimos tempos tenho vindo a ser agradavelmente surpreendida pelo espaço e sua dinâmica. É um exemplo da forma como um edifício pode crescer sem as paredes se ampliarem, com uma disposição diferente, melhor aproveitamento do espaço e jogos de luz que o iluminam. Está tudo melhor neste aeroporto que, sendo pequeno parece grande, onde já se podem fazer refeições que não são de aeroporto a preços razoáveis para o local, com o prazer dos sabores conhecidos e a sensação de estarmos num centro comercial. O melhor, começa à porta, com uma área ampliada para o controlo de segurança, dividido por duas grandes salas para evitar filas e atrasos. Para primeira experiência no novo boarding control... 🔝🔝🔝

Por isto é tudo o resto, IR. Sempre... 

uberlicious

A Uber, dizem, é tecnologia. E a tecnologia transporta pessoas.

Há décadas…

Foi assim com a rádio, consolidando-se na era da televisão. Como McLuhan explicou, os satélites de comunicação criaram a aldeia global. A tecnologia liga o planeta reduzindo-o à dimensão de uma aldeia. McLuhan não conheceu esta nossa aldeia, porque só mais tarde a Uber apareceu para nos transportar, numa lógica feliz de mobilidade global. Igual aqui e onde quer que o serviço esteja disponível.

Táxi? Isso é outra coisa.

Uso o serviço de uns e de outros com muita frequência. Quando, às cinco da manhã, tenho de sair em direcção ao aeroporto, banho tomado, arranjada e a tentar chegar ao destino com ar de quem não acordou a meio da noite, tudo o que quero é entrar num carro recente, limpo e ser conduzida em silêncio às partidas. Não raras vezes entro num Mercedes com mais de um milhão de quilómetros, o cinto de segurança está coçado e com uma mistura de cheiros indescritível.  Perguntam-me qual o percurso que quero fazer e escolho sempre o mais rápido e com menos semáforos. Nunca fui verdadeiramente mal servida, mas o serviço poderia ser muito melhor.

No regresso, escolho sempre um táxi nas partidas e nunca nas chegadas. Fui devidamente instruída que são mais sérios e menos disponíveis para dar a volta à cidade. Com efeito, nunca me recusaram a viagem por ser curta ou tentaram escolher o caminho mais longo. Não dou hipóteses, não faço perguntas e evito as respostas.

Lá fora, nem pestanejo. Uber numa mão e porta do carro na outra, porque é sempre um instante entre o precisar e o entrar no veículo. Com excepção do UberX (veículos mais pequenos e, como a Uber os caracteriza, do dia-a-dia), um Uber está sempre muito limpo. Playlist Spotify a tocar e a certeza do valor a pagar. Sem transações nem dinheiro na mão, dúvidas sobre o trajecto ou comentários que acabam em “inho” ou “inha”. Como às vezes se diz, “é muito à frente”. De facto é, porque não foi concebido com base nas pessoas, mas antes na tecnologia, que se serve das pessoas para poder conduzir outras. Porque isto da tecnologia é para nos transportar. Para outros mundos como no cinema, para surfar, como na web ou, simplesmente circular, como num Uber.

foto: João Porfírio/Lusa

foto: João Porfírio/Lusa


#LovelyRitaTravels

A maior parte de vocês não imagina mas, quem me conhece, sabe o que significou ir à Disney em Paris. No Verão. Calor = Praia, não cidade. Gosto dos originais e desprezo os sucedâneos. Por isso, Disney = Orlando. Por outro lado, gosto mais de Lego. E dos Marretas. Também não sou fã das histórias "happilly ever after". A não ser que sejam verdade. Não é o caso. Além disso, Paris é Paris, tudo o resto é província. Lá fui, então, para os arredores. Decidi ir. Ninguém me pressionou dizendo que era algo que deveria fazer. Tentaram. Não resultou.

A Rita pediu uma vez. Duas vezes. Também queria muito conhecer a torre Eiffel. Isso deixou-me feliz... De um dia para o outro reservei hotéis, comprei bilhetes de avião e as entradas nos dois parques. Se gostei? Não interessa. Se ela gostou? É uma criança. Acredita nos sonhos e na fantasia. Ao fim de 3 horas estava satisfeita. Eu também. 

Se podemos voltar à torre Eiffel, Rita? Claro que sim. E este passou a ser o seu spot em Paris. How not to love her?!

#coisasquefazemospelosfilhos #LovelyRitaTravels  #DisneylandParis

Fatty Paris. Paris fatty. Ou Fatty in Paris?

Não se pode comer e não engordar em Paris. Assunto arrumado.

Les fromages, les pains au chocolate, le vin, le velouté aux champignons de Paris, les petis pains et les baguettes... Les crêpes, les patisseries et boulangeries. Les bagels... Tudo acompanhado com salada é certo, que lhe dá um certo toque saudável, mas não impede a gordura das principais delícias que me fazem sempre, ter saudades desta cidade mágica. No fundo, é igual a todas as outras, com caos no trânsito, no metro e na rua. Com barulho e veículos que não páram nas passadeiras. Com pseudo franceses que falam mal francês, com franceses que falam tão bem, a ponto de desprezarem quem faz um esforço. Com francesas baixas, feias e gordas e la parisiene que degusta tudo o que descrevi e preenche o nosso imaginário da típica francesa: esguia, despreocupada, impecável, a ponto do seu estilo fazer inveja e ser mundialmente comentado. E copiado. E sim, comem queijo e bebem vinho. Todas as tardes. Só não sei para onde isso vai porque não as vejo a fazer jogging. Será tudo consequência da bicicleta?


#parisgourmet #cyclechic #patisserie