society

Verdade. Truth.

Este artigo foi, também, publicado no website da revista Briefing.

Um aspecto curioso da história recente, tão próxima que ainda se chama presente, é a ideia de um certo regresso ao passado, no sentido da valorização da verdade. A pública e a privada.

Em pouco tempo estrearam três filmes diferentes e, contudo, iguais entre si, que nos desvendam a verdade. Contudo, mais do que isso, fazem a apologia do regresso do jornalismo. Do bom jornalismo, aquele que coloca a verdade acima dos interesses – quaisquer interesses –, que não pactua com as tramóias típicas da vida em sociedade, e dos jornalistas que defendem essa verdade, mesmo quando ninguém os defende a eles.

O mundo acordou para o tema das offshores porque um conjunto de jornalistas, organizados numa rede internacional, decidiu provar que ainda há quem se recuse a ser um mero assalariado ao serviço das ambições de um órgão de comunicação social – e que nunca sabemos verdadeiramente quais serão –, para defender aquilo que tantas vezes se apregoa e que a rotina deixar escapar: o interesse público. A informação. A verdade. O jornalismo, tal como me explicaram que seria.

Gostei de ver, num país tão competitivamente aberrante, dois órgãos de comunicação social, de grupos de media diferentes, juntos para tratar os dados de uma investigação internacional.

Não sei se o caso Panama Papers irá mudar alguma coisa ou se os grandes poderes conseguirão manter o status quo. Parece-me bem que, se contribuírem para um jornalismo mais forte, contribuirão para uma sociedade mais informada, consequentemente mais atenta e desperta para questionar e esperar respostas.

O filme Spotlight, através de personagens sólidas e bem construídas, mostrou-nos que, mesmo que quiséssemos, a nossa vida seria indubitavelmente mais pobre sem um jornalismo independente, com recursos para investigar e garantir uma sociedade justa e informada.

Recentemente, o The Big Short demonstrou como fomos enganados por um sistema bancário ganancioso que se auto-regula e protege com a conivência política que tanto convém. Agora, Truth, não só desvenda o que muitos já sabiam sobre o ex-presidente Bush como coloca a nu a teia de relações e conspirações que muitos processos eleitorais escondem, usando jornalistas como bode espiatório quando outro não pode existir.

Sabemos muito pouco sobre quem regula e governa. O papel do jornalismo é o de revelar aquilo que não sabemos, e o que não temos como saber. Nunca fui jornalista, mesmo tendo feito equivalente em diferentes momentos da minha vida. Talvez por isso me emocione, sempre, com filmes que mostram um jornalismo exigente que denuncia e tenta mudar o sistema. Se a ficção imita a realidade, é tempo da realidade se assumir como esta ficção.

There’s something interesting about the truth: we all want it, although we spend most of the time avoiding it.


As far as I can see, there’s a very curious trend in our society, which is a certain throwback towards respecting the truth. Reality as it is, both for public events and private matters.


In a short time, three different movies approached the truth as it is supposed to be. Moreover, these movies figure journalism and its comeback. Good, honest, relevant journalism. Journalism that stands for the truth above any kind of interest. The wrong kind of approach - the business as usual journalism - seems to be replaced by a journalism that doesn’t go along with scam and schemes. We see more and more journalists defending the truth, even when there’s no one to defend or protect them.


We have already known it for a long time, but today it is impossible to pretend to ignore that offshores are a worldwide issue. All because of a group of independent journalists, organized in an international network, that decided to prove that there are still journalists who refuse to go with the flow. These journalists want to be more than corporate employees serving someone’s ambitions - which we never know in reality - and they are assuming themselves as the guardians of what we always talk about and usually forget: public interest. News. Truth. Journalism as I have been taught.


I am unsure if the Panama Papers will actually change anything or if the big powers in our society will be able to keep the status quo. In fact, if the Panama Papers can contribute to a stronger journalism, they account for a well-informed society. Therefore, more aware and awake to make questions and expect the answers.


Spotlight gave us consistent and perfectly shaped characters. We learnt that even if we wanted it, our lives would be undoubtedly poorer without independent, resourceful and investigative journalism. Recently, The Big Short showed us how we have been fooled by a greedy, self-regulated banking system, protected by the political subversion. Currently, Truth not only reveals what some of us already knew - or at least were suspicious of - concerning ex-president Bush, but it also shines a light on puzzling relations and devious conspiracy of some elections, using journalists as scapegoats when nothing - or no one else - is there to blame.


We know very little about regulation, regulators and governments. Journalism prevails to disclose what we don’t know, to show what we can’t see and provide us information that we can't access any other way. I've never been a journalist, although I acted like one even in specific moments of my life. Maybe this is the reason for becoming so emotional with this kind of movies.  Yes, we can have a journalism able to dig out the real "reality". If fiction imitates reality, I think that it's about time for reality to imitate fiction.

 

 

 

dos dias em que ser mulher não chega

Em Março há um dia só nosso. Não chega. Nossos, são todos os dias, mesmo que o tentem ignorar.

Não é discurso feminista porque, como dizemos aqui, a palavra tem inúmeras conotações. Poucas boas. O feminismo não é um rótulo mas sim uma atitude. Um estado de alma. Felizmente, há muitos homens que também a assumem. Deveres iguais? Direitos iguais. Não somos iguais nem teremos de o ser, porque é essa a riqueza da humanidade. Há, contudo, muitas situações, contextos e desigualdades que devem acabar. Entre homens e mulheres. Entre mulheres. Entre homens.

O problema não é exclusivo das mulheres porque vivemos numa sociedade que, por um lado, resiste à luta pela igualdade de direitos e oportunidades e, por outro, nos limita em relação a todas as oportunidades que o mundo nos oferece. Na maior parte das vezes somos nós que nos auto-censuramos, limitamos e rejeitamos a ideia de mudança. Porquê?

A sociedade tem um peso demasiado naquilo que somos e como somos. Nem todos podemos ser Beyoncé's ou JLo's estratosféricas que sussurram e se fazem ouvir. Mas podemos tentar...

A JLo from the block tem a lot e a Beyoncé runs the world com as suas girls. Nós podemos ver, de longe, aplaudir e partilhar, ou arregaçar as mangas, adoptar uma postura mais proactiva e perseguir os nossos sonhos. Na maior parte das vezes refugiamo-nos na desigualdade e na falta de oportunidades, esquecendo-nos de as criar. Cruzei-me, há dias, com este artigo no Observador do qual retiro a melhor parte:

Zero F*ck Given

A receita é simples e pode significar a diferença entre ser feliz. Ou não.

A palavra não é bonita mas, em inglês, não soa tão mal quanto o seu significado. Na verdade, se não nos preocuparmos com o que os outros pensam - excepção feita para aqueles que importam, os que respeitamos e os que nos sabem fazer críticas construtivas - seremos incomensuravelmente mais felizes, simplesmente porque eliminamos da equação, seja ela qual for, o peso do olhar alheio. Isso liberta-nos. O escrutínio nas redes sociais torna-se irrelevante e o padrão transforma-se naquilo que entendemos ser o nosso padrão. Não é fácil, obriga a uma grande disciplina interior, um crescimento em relação a tudo o que durante demasiado tempo demos importância, rejeitando boa parte das ideias que nos serviram, até ao momento em que, simplesmente se tornam incómodas.

O Observador seleccionou oito coisas que nos preocupam e prendem os movimentos. Uma lista da qual devemos riscar a totalidade dos elementos, para sermos mais felizes: preocuparmo-nos demasiado com o que é adequado para "a idade"... Parece-me bem que importa apenas o bom senso e os limites (ou limitações físicas) que a idade possa acarretar. Limitarmo-nos em função do que os outros poderão pensar.  É, sem dúvida, o melhor exemplo para "I don't give a F*". O emprego.... Mesmo que nem o trabalho abunde, ser infeliz uma vida inteira para manter o estatuto social não pode ser uma opção. O medo. Todos temos. Há uns bonecos bons para isto. Chamam-se papa monstros e entregam-se às crianças pequenas para lá colocarem os seus medos. Querem um? Libertarmo-nos do passado, da atitude derrotista do "é a vida" e não pensarmos demasiado no futuro para sermos capazes de gerir expectativas, enquanto abandonamos a atitude interesseira de tantas pessoas, para aprendemos a dar sem esperar nada em troca. Acreditem que recebemos em dobro do que damos. Finalmente, os padrões. Definir quem somos e escolher quem queremos ser. Sem medos.

Aceitação social pode ser importante e valida-nos enquanto pessoas. Todos queremos essa aceitação.

 A que preço?

das imagens motivacionais e outras cenas do género...

Chamou-me a atenção esta imagem, num dia em que acordei rodeada de mensagens motivacionais, daquelas que nos fazem acreditar que é possível e que sim, devemos perseguir sonhos para fazermos o que gostamos.

Sai, cheia de energia para o compromisso já habitual, na rádio, onde gravo, semanalmente, o programa Em Nome do Ouvinte. É uma abordagem institucional à rádio que me dá tanto ou mais prazer do que qualquer programa de entretenimento pelo desafio que representa. Nem sempre conseguido, muitas vezes suado, para transformar aquilo que decorre da espuma dos dias em algo relevante para mim, os ouvintes e a rádio.

Influenciada por aquilo que li e escrevi ontem, decidi levar a diversidade e a discriminação à rádio. No mesmo dia, entre mensagens sub-reptícias (mas muito evidentes) que me diziam para fazer o que gosto e outras, menos óbvias, concluo pelo óbvio: quando gostamos do que fazemos, quando o fazemos com empenho e amor, mais cedo ou mais tarde somos reconhecidos.  

Na rádio falei sobre o papel dos media na sociedade e a sua importância para a diversidade que, por vezes, é tao pouco diversa. Descobri o #WednesdayWoman, da BBC no Instagram e duas mulheres, entre várias, que celebram as conquistas das mulheres pioneiras. Para além da Sharmeen Obaid Chinoy, fiquei a conhecer também a produtora e realizadora Sarah Moshman, que ganhou um Emmy pelo seu trabalho em prol das mulheres. O documentário que produziu, The Empowerment Project: Ordinary Women Doing Extraordinary Thingspromove mulheres normais que fazem coisas extraordinárias: mulheres que chegaram ao topo da carreira em diversas indústrias e têm estórias inspiradoras para contar. O ponto de partida é igual ao de cada um de nós...

What would you do if you weren't afraid to fail? 

Não faltam mulheres assim. Homens também mas todos sabemos que há detalhes sexistas e machistas que lhes facilitam a vida. Na verdade, como afirmei no programa que poderão ouvir esta semana, it is so important to celebrate and support diverse perspectives and voices in media, in front of, and behind, the camera. That's the way our society can be more equal; by having more opportunities for women and people of color to see themselves reflected on screen but also to be the ones creating the media behind the scenes as well. No mesmo dia, sem desculpas, cruzei-me também a curta metragem Excuse. Inspirei-me no que publicaram no Facebook para escrever este artigo. 

Sometimes when you go looking for what you want, you find exactly what you need

A curta metragem é dirigida por Diogo Morgado e conta com Daniela Ruah como protagonista. Diz o próprio Morgado que é uma história única, contada por uma equipa de apaixonados contadores de histórias. Não sei como é o filme, menos ainda a história. Mas sei que há aqui demasiados pontos de contacto para o tema escapar, especialmente porque a semana tem sido recheada de estórias de pessoas que não vivem - fazem que vivem -, de pessoas velhas - quando são novas - e de um país pequeno que poderia ser maior do que a geografia permite. Já foi. Não sei se quer voltar a ser. De um mundo cheio de preconceitos e ideias preconcebidas, de regras e imposições que nos limitam, que nos metem medo e tornam esta, uma sociedade mais redutora.

São as mulheres quem mais sente e sofre esta inevitável opressão que ataca todos os grupos mais frágeis - destaque para a homosexualidade que ainda querem trancar, a sete chaves, no armário - ou , simplesmente, os que são diferentes. A carta fora do baralho. A ovelha negra. Aquele. Ou aquela a quem não sabemos dar nome porque não é igual a nós. Saio à rua e vejo demasiada homogeneidade para poder acreditar que vivemos numa sociedade plural e diversa. Queremos ser essa sociedade mas ainda não somos. Não estou a defender os freaks ou aqueles que são tão diferentes que é impossível não reparar. Estou a falar de algo tão prosaico como aceitar que o diferente é o novo normal e que não temos todos, de agir, pensar ou fazer da mesma forma. Isso é absolutamente aborrecido, limitador e não contribui, nada, para nos desenvolvermos enquanto sociedade. Mina a criatividade e o empreendedorismo porque faz acreditar que o impossível é apenas isso: impossível. Não é.

O recado é simples: encontrem o que gostem e não o que podem, mantenham-se focados, não tenham medo e avancem. Somos todos extraordinários. Só querem que não acreditemos nisso.

Catwitter

Estiveram por todo o lado. O seu ar blazé, de indiferença e independência. Não poderiam ter escolhido melhor animal para um momento de bloqueio. Uma espécie de jamming moderno, que misturou comunicações na rede para confundir o outro lado. Sem rádio mas com gatos. Modernices. 

A semana ainda mal começou e tenho para mim que aprendi mais na semana que passou do que em muitos anos de vida. Só aprendemos a valorizar o que perdemos, quando o perdemos, e achamos sempre que tudo está garantido. Até ao momento em que percebemos que não está. 

Se eu perdi, alguém ganhou. Não tenho mau perder mas detesto jogo sujo. De limpa, esta batalha não tem nada. Numa semana redefini prioridades, mudei planos e preocupei-me mais do que normalmente acontece. Sou daquelas pessoas que acredita, sempre, que tudo está, ou vai ficar bem. Optimismo levado ao extremo, mesmo sabendo que nem sempre acontece só aos outros. Desta vez está ainda a acontecer-lhes, com reflexo directo em cada um de nós. Porque estamos, devagarinho, a perder a nossa liberdade. Até de expressão, porque também já ouvi rumores relativos às intenções de perseguição de quem se expressa nos media sociais. Uma vez na rede, para sempre na rede. Pois que fiquem a saber...

O maior atentado é aquele que conseguem perpetrar contra todos nós, aterrorizando-nos. Limitando-nos a acção, porque as barreiras se vão levantando aqui e ali. Mesmo que queiramos permanecer naquele estado latente de resiliência contra o que aí vem, a dada altura deixamos de o conseguir.  

O pior que me podem fazer é tentarem prender-me porque encontrarei sempre forma de escapar. Mas temo que, neste caso, não exista saída. Porque não é a mim que quer limitar, mas antes a uma sociedade e a um certo modo de vida. Desde que comecei a viajar mais, conclui pelas suspeitas iniciais: não dependo de um passaporte para me definir. Sempre fui daquelas que tanto é daqui como dali, desenraizada o suficiente para me sentir bem onde não tenho a minha almofada. Nunca fui pessoa de viajar com a almofada atrás e acredito que se me obrigassem a sair, amanhã, apenas com uma mala de cabine, seria capaz de recolher o essencial. Porque o que é importante nunca está - ou cabe - numa mala de viagem. Sim, sou despegada e desapegada. Talvez por isso, quando sinto, sinto a valer. Quando dou, entrego sem reservas. Quando mudo, limito-me ao essencial. Pode até ser uma palavra. E será sempre, liberdade.

#Liberdade #BrusselsLockdown #BrusselsAlert

O casamento

Photo by Scott Webb (http://scottwebb.me)

Photo by Scott Webb (http://scottwebb.me)

Foi quando recebi o convite de casamento que, finalmente, percebi que tudo tinha mudado.

A estória não é sobre casamentos, relacionamentos, dor de corno, ciúme ou inveja. Embora com ciúme e inveja (da boa - se é que existe) a estória não é sobre o que imaginam.

Foi quando li o convite que tudo se tornou tão duro, de tão real que é. Enquanto lia, pensei imediatamente na roupa. Acho que todas fazemos isso, especialmente as que têm armários cheios: pensar na roupa que podemos usar numa ocasião que, de repente, passa a fazer parte do nosso calendário. No dia seguinte, água a correr na cozinha, legumes caídos para se transformarem numa refeição supostamente saudável, quando ele me recorda o tal casamento. O típico uhm-uhm murmurado, para voltar a visualizar o roupeiro, aquela porta que se abre em dias de festa, e fazer combinações mentais. Foi quando pensei, como sempre fiz que, se me faltar a clutch perfeita, o detalhe de festa no qual teimo sempre em não investir, te peço ajuda. Passo em tua casa, já no limite da hora para incluir o apontamento que falta. Mas, desta vez, isso não vai acontecer. Porque não vais estar. Cá. Aqui pertinho como sempre estiveste, para podermos fazer aquelas coisas de miúdas, trocar roupas ou, simplesmente, fazer um closet cleaning. Não vais estar porque vais estar lá. Lá. E eu aqui. E nós aqui, sem solução. Tu vais porque tens soluções a mais. Como tantos outros foram por terem soluções a menos. E isso, é de uma injustiça tal que me revolta. Porque vais. Porque vais e eu fico. Nesta ausência de espaço, repleta de opções que não chegam a concretizar-se e sonhos que teimosamente se realizam ao contrário. 

Tudo isto porque alguém decidiu casar. Porque me distraí a pensar na clutch, uma das tuas, que são sempre melhores do que as minhas. Foi quanto precisei para perceber que há muito me cansei de ser Portuguesa e de cá viver. E tu não. Adoras isto. Respiras intensamente em cada esquina, orgulhas-te de cada pedra da calçada, veneras a luz - aquela de que todos falam - e gritas a plenos pulmões pela defesa de cada ícone da cultura e do viver Português. Vais continuar a fazê-lo ao longe. Talvez por isso tu podes ir e eu não. Talvez eu não olhasse para trás, talvez eu perdesse o Norte para o reencontrar num outro ponto cardeal. Qualquer.

Os que vão sentem falta da família, da comida e da luz. Com excepção da família, nada mais importa. Já perdi a conta aos que foram, que deram corpo a esse mito urbano de que há semanas se falava. E, desses, não se fala dos que voltaram. Terão mesmo voltado, como as crisálidas atraídas pela luz? Não creio. Parece-me bem que a riqueza que entra equivale à riqueza intelectual que se perdeu e que a saudade se ultrapassa com vooslow cost cheios de pessoas saudosas e horas infindáveis no skype.

Como é diferente, o mundo, hoje. Como mudaram as nossas percepções sobre quem vai, quem fica e como isso acontece. Emigra quem procura emprego, vai viver para longe quem recebe um convite para se mudar. Os sentimentos de pertença e desencaixe são os mesmos. Quem sai olha para o que aqui se passa com uma lente que amplia. Não sabe os pormenores, mas analisa o contexto com a distância que nos falta a nós, os que ficamos, e a perspicácia de quem reconhece um antigo amante. Nada de bom vem de amores perdidos. E eles, os que saem, sabem melhor do que nós, os que ficamos, que aquilo que temos é pior do que um amor perdido. Nem amor falhado. É um casamento que está morto há tempo demais, no qual nos habituamos a viver por comodidade, pelos conforto do que sabemos e antecipamos, sem surpresa ou glamour, traídos e violentados sem ponta de respeito. Há muito que perdemos o respeito mútuo e vivemos neste casamento de fachada. Um daqueles sem diálogo, sem esperança mas que, por inércia, por medo, vamos mantendo. Como se fosse recuperável. Mesmo que saibamos que não é.

São os que partem que nos confrontam com a nossa ingenuidade e simultânea cobardia. Durante uns minutos pensamos como eles. Depois reduzimo-nos à nossa insignificância e voltamos à rotina, que tem essa sublime capacidade de ser desconfortavelmente confortável, para pensar que eles, os que saíram, já se contaminaram com essa mania Europeia, Americana e sei lá mais o quê, de olhar de lado para nós, porque é tudo pequenino, as mulheres ainda têm buço e andam de bata preta. Não é verdade. Mas isso não faz diferença nenhuma porque tudo o resto está certo.

Só gostava de saber o que aconteceria se saíssemos todos. Novos, velhos e por nascer. Nenhum casamento se mantém apenas com um dos cônjuges. Essa é que é essa. Para quem governaria  o arco do poder?....

Curiosamente, não casaram. Mas tu, já tens as malas feitas.