mulheres

Louca na mesa. Lady na cama.

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Não é assim, mas eu adaptei. Preconceito à parte, a canção do Marco Paulo conta a história do maior desejo de todos os homens: a boa na cama que também é bem educada. Esqueceu-se de acrescentar ao pacote o efeito mãezinha: a louca na cama que é uma lady à mesa e engoma as camisas a preceito.

Porque, no fundo, é isso que procuram. É para isso que servimos. Ou foi para isso que nos educaram: a garantir o bem estar dos nossos meninos. E quem garante o nosso? Porque quando se habituam a isto, querem sempre mais até ao ponto em que desaparecemos ou nos fartarmos. 

Não somos todos iguais, mas somos muito parecidos. Eles e elas. Quando eles encontram a louca na cama esquecem o resto, até ao momento que precisam de uma canja. Mal da louca se não fizer uma boa canja. Deixa de ser a louca na cama e passa a ser apenas mais uma louca na cama. Em rigor não é assim. Eu sei e vocês também. Mas é um bocadinho assim. Porque nos educaram desta forma. Eles brincam às guerras e elas às casinhas. E, nas casinhas, o Ken é sempre sedutor e a Barbie sempre seduzida. Gosto de ser seduzida, não preciso que os papéis se invertam em absoluto. Até porque, ao longo do tempo foram aparecendo muitas mães como eu, que os educaram a ser independentes e a fazer a canja para elas. Que não precisam de ser loucas. Basta apenas que sejam ladies com uma pontinha de loucura. Gosto de um homem que hesita na escolha da camisa. Que tira uma para vestir e opta por outra. E que não deixa a primeira em cima da cama à espera que se arrume sozinha. Porque não arruma. Ou que não deixa traços e objectos espalhados pela casa, com meias aqui, sapatos ali para, depois, perguntar onde estão as chaves do carro. Ela não tem de saber. Ele que procure. Também.... Não te custava nada! - é a frase que invariavelmente ouvimos.

Não, de facto não custa nada. Custa apenas a diferença entre o momento em que cada um trata de si e o outro, em que um trata de todos. Dos que não sabem cuidar-se e dos que, sabendo, preferem ser cuidados por outrem.  Não resulta. Passa de prazo. Mais cedo, ou mais tarde, acontece uma de duas coisas: a louca na cama passa a ser a louca na mesa. Vira a mesa, deixa de ser uma lady e grita a plenos pulmões. Ou cede na loucura, despeja os copos e os pratos no lava-loiças para, furiosamente abrir a água, deixar escorrer, gastar mais detergente do que é necessário, deixar a loiça secar no escorredor e ficar com uma neura constante cuja origem deixou de ser capaz de identificar.

Quando - e se - me detenho a pensar na - serão nas - razão pela qual nós, mulheres, aceitamos partilhar a vida com vocês, homens, fico muitas vezes sem palavras. Porque não há palavras que o expliquem. Serão certamente decisões de miúdas novas, inexperientes, apaixonadas pela vida e a ideia de viver, sem a menor noção do peso e do significado de cada uma das palavras. Boy meets girl, they fall in love and stay together. É tão bonito, no cinema. Poderia ser, na vida real, não fossem eles - aqueles a quem num determinado momento da nossa vida decidimos incluir na nossa vida - dependentes mimados.

E nem sempre a culpa é das mãezinhas e da ideia maternal de protecção dos seus queridos meninos. É da sua natureza serem uns valentões que não vertem uma lágrima, mas que se portam como crianças numa relação, na partilha do espaço e da vida a dois. Apenas aí porque, no resto, pode ser perfeito. Haja amor.

Men's Roles in a Gender Equality Perspective (ICS)

Men's Roles in a Gender Equality Perspective (ICS)

Na dura realidade em que o dinheiro se conta, existe essa penosa tarefa a que chamamos, exactamente, tarefa. A qual - no caso, as quais - os queridos meninos, seja lá qual for a mãezinha, entendem que não lhes compete. Existem. Vivem aqui e connosco. É mais do que suficiente. A nós compete o resto, incluindo a canjinha quando estão com febre. Mas não. Isto de termos mais deveres e menos direitos tem de acabar.

Até porque isto nos impede de avançar. mesmo que tenhamos melhores resultados escolares e sejamos altamente qualificadas, não deixamos aliviar a pressão social em torno do papel da mulher. Nisto, boa parte da culpa é nossa.

"Se há que encontrar um culpado, é a própria sociedade. As mulheres sentem-se pressionadas, não só pelos companheiros, mas também pela sociedade e pelas empresas. É dado como certo que elas terão maior responsabilidade com os filhos e com a casa", garante Pamela Stone, professora de Sociologia na universidade de Hunter e uma das autoras do estudo ao "El País".

Parte da nossa insatisfação com a carreira resulta desta culpa e a culpa não é deles.  É nossa porque os deixamos colocar a carreira em primeiro lugar. Foi assim que nos ensinaram. Pode, mas não tem de ser assim. Ou pelo menos, sempre assim.

Não é esta a guerra dos sexos. A guerra dos sexos é mais divertida por reflectir o conflito global entre homens e mulheres.

A luta de poder da qual saímos, invariavelmente, a perder. Mas, da qual, não desistimos.

Marie-Sophie Tékian:  https://unsplash.com/mstekian

Marie-Sophie Tékian: https://unsplash.com/mstekian

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#girlspower #gender #equality

Outras leituras:

Policy Brief: Homens, papéis masculinos e igualdade de género |LER|

What’s life like for women around the world in 2015? |LER|

 

Eu juro que...

... não quero transformar o urbanista num projecto feminista, mas não dá para ignorar...

Independentemente de qualquer convicção política, há que tirar o chapéu a estas duas mulheres. Aguerridas, têm-nos no sítio (mais do que muitos homens), com poder de argumentação e lucidez para encontrar a novidade nas velhas fórmulas. Algum lirismo, certamente. Contudo, tal não  as impediu de fazer conquistar muitos votos em todo o país.

Não sou de expor as minhas ideologias políticas, comentar ou entrar em discussões desta natureza. Como  na religião ou futebol,  raramente as opiniões coincidem, supostamente sabemos sempre mais do que o outro e a nossa opinião é sempre melhor. Pelo menos, pensamos que sim. Isto interessa-me porque a semana tem sido rica em discussões políticas e pobre no que respeita ao papel da mulher na política. Quotas à parte, que as acho assim a atirar para a tolice, o alarme despertou com a fotografia que a @luvazf, lá na Suécia, publicou:

@luvazf

@luvazf

Sempre fui feminista e demorei quarenta anos a perceber. Na verdade, sempre me debati pela igualdade de género. Se ele pode, eu também posso, pensava. Nunca percebi - ou nunca quis perceber - a razão pela qual eles - os meninos - podiam fazer tantas coisas que nós - as meninas - não podíamos. Porque assim e porque assado... E nunca me convenceram. Não me lembro de ter sido uma Maria rapaz, mas sempre brinquei com eles. Com elas, também, embora já na infância elas sejam mais matreiras e fiteiras do que eles. E eles, quando se apresentavam assim, tinham três hipóteses: ou se emendavam, levavam porrada ou eram postos de parte. Para brincarem com elas. Nada a opor. Mas não me obriguem a ter paciência.

Portanto, não subia às árvores nem jogava futebol - sempre fui muito feminina para aventuras dessas - mas corria mais do que alguns deles; jogava às guerras e nunca morria;  era destemida num jogo parvo e violento a pedalar nas bicicletas. Tratava-se de algo tão estúpido quanto isto: circularmos o mais próximo possível uns dos outros, tocar com as rodas da bicicleta, empurrar e assustar para ver quem era o primeiro a colocar os pés no chão. Putos...

Depois desta fase chegou a outra, do politicamente correcto e do socialmente aceite para elas e para eles, seguida da revolta em torno da célebre ideia do garanhão que come todas e da ordinária que vai com todos. Os preconceitos e o moralismo tão portuguesinho que nos confinam a categorias ou definem limites cuja origem nunca descobrimos. 

A seguir comecei a degladiar-me perante as afirmações que me reservavam um papel com o qual nunca me identifiquei completamente, e que me atribui responsabilidade acrescidas em casa. Porque fomos educadas para saber tomar conta do lar, dos filhos e do marido. Mas não. E mesmo sabendo como se faz, tal não significa que o faça. Mesmo que o queira fazer e que acredite que o deva fazer. Quando um assume o trabalho de dois há desequilíbrio e o funcionamento da estrutura pode colapsar. É assim nas empresas, porque haveria de ser diferente no lar?

Também não sei porque continuamos - todas - a pactuar com atitudes machistas que reservam à mulher o papel exclusivo na maternidade. Foram dois que fizeram a criança, não pode a licença de maternidade ser partilhada sem que haja aquela atitude negativa em relação ao homem, que passa a ser considerado um choninhas dominado pela mulher?

Na rádio, há muitas mulheres. Na comunicação social, também. Na rádio, muitas são locutoras e jornalistas. Outras tantas gravitam em torno do pivot, essa palavra igualmente masculina. E directoras? E dinheiro?

Não deveria preocupar-me porque, afinal, há cada vez mais mulheres em lugares de destaque, elas e eles misturam-se em profissões que antes eram claramente destinadas a um género em específico.

Continua a existir preconceito e discriminação. Todos sabemos isso. É isso, não é bom. mesmo que elas sejam  um terço no Parlamento.

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#feminismo #igualdade #mulheres

As mulheres. E eles.

Feminismos e outros "ismos" à parte, a verdade está aqui. Toda. Sem demagogia e cheia de pequenos detalhes que marcam a diferença. As mulheres poderão não ter sido feitas para pensar, mas aprenderam a fazê-lo. Isso é que os lixa. E às que teimam em não aprender, também.

Isto é um país de homens. E um país onde as mulheres não são muito solidárias com as mulheres. Pondo de lado a política correta sobre estas coisas, as mulheres neste país estão tramadas. Uma mulher raramente é levada a sério, e, se é, arranja dez vezes mais inimigos do que um homem.
— Clara Ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

Eu não era assim, mas refinei-me. Tornei-me mais acutilante à medida que fui percebendo que, de facto, tinha de lutar para fazer valer os meus direitos a todos os níveis. A sociedade está de tal forma minada por este pensamento paternalista, misógino e machista em relação às mulheres que até em sala de aula sou obrigada a criticar alunas quando, do alto da inocência dos vinte, fazem afirmações das quais, mais tarde, se irão arrepender. Corrijo as mães que nos criaram para sermos mães e mulheres de alguém, afirmando, simultaneamente que deveríamos prosseguir os nossos sonhos, ter uma carreira e sermos independentes. Não é incompatível, é simplesmente muito difícil, duro e cansativo. Implica uma luta diária, tantas vezes contra tudo e todos, para agirmos em consciência. A nossa. A que despreza o que os outros acham que devemos fazer, aquelas que são, supostamente, as nossas obrigações, para nos focarmos naquilo que fomos interiorizando, muito devagar: tu és forte; tu consegues; ignora-os porque és tu quem está certa; direitos e deveres iguais; não tens a responsabilidade de carregar o mundo e a família às costas; os filhos precisam de ti até ao ponto em que se tornam independentes para cuidarem de si; esses filhos têm um pai com igual responsabilidade na matéria; o supermercado não é a sala de estar das mulheres e a cozinha o seu escritório; não és pior mãe por deixares os filhos na escola até mais tarde por uma reunião, se o pai os puder is buscar; não és má pessoa se cuidares de ti e não apenas dos outros; sim, tens o direito a dedicar-te a uma carreira intelectualmente mais estimulante do que a do teu parceiro e não, não estás impedida, pela genética, de fazeres o que bem te apetecer.

A culpa é nossa. A desunião e a incapacidade de atacar enleiam as mulheres em Portugal. Não se trata de sermos discriminadas, trata-se de consentirmos em ser discriminadas e concordarmos com a discriminação. No fundo, achamos que não somos capazes, não seremos capazes, não merecemos ser capazes. Consentimos em desaparecer.
— Clara ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

São tantas as frases que temos de decorar, interiorizar e repescar a cada vez que nos querem menorizar que, muitas vezes, nos deixamos ir na corrente por ser menos cansativo. Por exaustão. Mas, depois, tropeçamos em artigos destes. Saltamos da cama e reclamamos aquilo que é nosso, por direito: liberdade e autonomia.

Nunca consegui nada com base na quota e não acredito que as mulheres precisem de quotas. Agustina, Sophia, Maria Barroso e Natália Correia nunca precisaram de quotas. As mulheres precisam de autoconfiança e tempo livre, precisam de uma vida intelectual, que a maternidade, a dependência financeira e a vida doméstica não autorizam.
— Clara Ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

Preconceito, aqui não falta, e os ataques são em barda: das mulheres à religião, destas às opções sexuais, passando pelos idosos e deficientes, é escolher. Nós, mulheres, somos apenas mais um divertido alvo...

As correntes sociais e os seus entusiastas emocionais respiram este ar venenoso. As mulheres são a maioria da população universitária e a minoria no poder político, económico, financeiro e social. E não vejo por aí uma mulher política disposta a mudar o estado das coisas.
— Clara Ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

Independentemente de tudo, concordamos no repúdio da mediocridade. 


dos intes aos intas e, destes, aos entas...

e os entas são tão bons.

Dizem que os 40 são so novos 20. Não me interessa.

Sei mais do que aos vinte, tenho mais estilo do que aos vinte, mais auto-confiança, mais perspicaz, mais capacidade para dizer não.

Sei o que quero e o que gosto. Saudades dos 20? Não. Saudades de saber aos vinte o que sei hoje. Querias, não era?...

You only have one trip. You might as well enjoy it.
— Iris Apfel

O mundo mudou muito. As nossa mães não foram como as nossas avós e nós, por muito que queiramos bem à nossa mãe e nos deixemos influenciar, aprendemos a delimitar muito bem o limite dessa influência. Não somos assim. Não sei se seremos melhores, mas somos certamente diferentes. Também elas gostam dos quarenta e falam, agora dessa década. 

As quarentonas dos século XXI, na sua maioria sabem mais do que souberam as quarentonas do século XX. Aprenderam com elas e, para além disso, adoptaram a tecnologia como melhor aliada. Nos vinte, a tecnologia serve para passar o tempo. Nos quarenta, a tecnologia ajuda a ganhar tempo. fazemos escolhas mais acertadas que evidenciam a beleza da mulher. Estamos mais sofisticadas. Com uma beleza serena. Enigmática, em alguns ângulos. Não somos mulheres Hollywoodescas mas, mesmo sendo mulheres normais, das que saem todos os dias à rua sem produções fotográficas que as valorizem somos iguais. Felizmente, a sociedade começa (lentamente) a valorizar a mulher normal e a mulher ao longo da sua vida.

Há mais mulheres maduras na televisão. Na publicidade.  Isso só pode ser bom.

The grey stars estão a recuperar um espaço mediático que nunca deveriam ter perdido (se é que alguma vez o tiveram) e isso dá-nos (às mulheres normais) uma renovada esperança. Afinal, o mundo real existe e não é cor de rosa, asséptico e flawless como a comunicação social nos tentou fazer acreditar. As grey stars estiveram, durante muito tempo - demasiado tempo - associadas ao intelecto. Nos negócios ou na cultura, estas stars eram escritoras. Jornalistas. Políticas. Artistas plásticas. Nunca - ou muito raramente - representantes de profissões ou ocupações associadas à beleza porque o ideal de beleza são os eternos 20 anos. Essa década imatura e inexperiente na qual acreditamos que vamos ficar assim para sempre. Até ao dia em que a ressaca nos invade e percebemos que, afinal, também sofremos disso.

É quando tudo muda e tomamos consciência de que o corpo não é imutável. Umas aprendem a viver com isso. Outras procuram mantê-lo assim até ao momento impossível de acreditar. Há também as que passam a preocupar-se (mais) com o que comem, bebem, com o exercício que fazem ou as noites que dormem. Não é irreversível, mas podemos adiá-lo. O envelhecimento. Precoce. Porque envelhecer, envelhecemos todos. Podemos é envelhecer com estilo.

Iris Apfel   (1921):  American businesswoman, interior designer, and fashion icon.

Iris Apfel (1921):  American businesswoman, interior designer, and fashion icon.

 

 

Fe-mi-nis-mo

Nunca fui pessoa de me preocupar demasiado com categorias, definições ou designações e nunca pensei em mim como feminista, até ao dia em que dei por mim a afirmar que desprezava veementemente os machistas. Porque, afinal, sempre fui contra essa forma de estar que domina socialmente a mulher, a acha inferior e divide os géneros de tal forma que, ao homem e à mulher passam a estar reservados diferentes papéis sociais. Naturalmente estão, podem e devem estar, desde que esses papéis também se misturem em todos os domínios. Como no trabalho, especialmente intelectual, uma vez que existe uma supremacia física óbvia entre homens e mulheres. Fiquei sem saber se havia de rir ou chorar perante as declarações de Tim Hunt, bioquímico a quem foi atribuído um prémio Nobel em 2001, quando afirmou, do alto da sua (chauvinista) honestidade, que as mulheres são um problema num laboratório: apaixonamo-nos, apaixonam-se e quando as criticamos choram, afirmado. Não acontecerá também em outros locais onde homens e mulheres - desculpem, let me rephrase it, onde pessoas - trabalham juntas? Para além de desprezar as mulheres ignora que pessoas do mesmo sexo podem, também, apaixonar-se? Talvez seja por pessoas como Tim Hunt que a academia e a ciência ainda sofre diferenças de género. Há poucas Reitoras, Presidentes ou Directoras de Faculdade para tantas professoras que o Ensino Superior já tem. Há também poucas mulheres a liderar a investigação científica apesar do número de cientistas do sexo feminino. E, depois, querem fazer-me acreditar que vivemos numa sociedade igualitária. Não vivemos.

De uma vez por todas: o feminismo nada tem a ver com paixonetas, opções sexuais ou com a aparência. São ideias, atitudes e valores defendidos por mulheres (e alguns homens) que entendem que a diferença de género há muito que deixou de fazer sentido, uma herança clara dos movimentos de emancipação da mulher e de luta pelos seus direitos. Não é uma coisa de lésbicas ou de gajas feias. Peludas. Andrajosas. Há mulheres coquette e feministas. Mulheres heterossexuais feministas. Mulheres que gostam de se arranjar e sentir bonitas que também são feministas. Mulheres vegan. Mulheres que comem carne. Mulheres que praticam exercício e mulheres sedentárias. Mulheres sem nenhuma característica em particular que as descreva e que também são feministas. Esqueçamos a caricatura. Acima de tudo, o feminismo não é um rótulo que se possa colar em quem queremos, de alguma forma, desprezar, categorizar ou humilhar. A ser um rótulo, que seja para colar em todos os que defendem os direitos da mulheres numa sociedade que teima em afirmar esses direitos e a agir de forma diferente. 

Não faltam notícias, artigos, entrevistas ou relatórios sobre os factos. As mulheres, em regra, ganham menos para o mesmo cargo e responsabilidade. Também têm maior dificuldade no acesso a cargos de chefia e tomada de decisão. Eles têm-nos no lugar, são corajosos. Elas são histéricas e choronas. Ou demasiado masculinas, porque se adaptaram a um mundo dominado por homens. É assim que a maioria nos vê. Não há pior ameaça numa empresa do que uma mulher inteligente, que se faz entender entre os homens - mesmo quando é detestada pelas outras mulheres - e que, ainda por cima, é bonita e feminina. Para muitas cabeças, não faz sentido porque destrói o estereótipo.

Quando elas pensam como eles são umas cabras. Quando eles se entendem com elas, elas andam a dormir com eles. O mundo vê a mulher a preto e branco. Ou boazinha, quando é dona de casa e mãe; ou a má da fita, quando assume a sua carreira em detrimento da família. A mulher, como o mundo, tem várias cores. É multidimensional porque consegue ser multitarefa, executando com perfeição mais do que uma simultaneamente. O mundo não acaba se uma mulher não sentir o apelo da maternidade nem muda radicalmente se outra for Presidente. De uma empresa ou da República. Mulheres e homens não têm necessariamente vocações diferentes. Foram ensinados assim. A nossa socialização tem muito impacto na forma como nos definimos e vemos o mundo. Hoje, há uma nova categoria de mulheres, no limbo entre o preto e branco porque querem - e conseguem, com esforço - ter uma vida familiar como mandam as regras mais tradicionais e um carreira de sucesso. Que teria ainda mais sucesso que o mundo não colocasse tantos entraves; se tantos maridos e filhos não continuassem a olhá-la como mãe, mulher e fada do lar; se as empresas compreendessem a importância do equilíbrio entre o trabalho e família; se a moral judaico-cristã não as fizesse sentir tão culpadas...

Queixo-me de barriga cheia porque em alguns países as mulheres não podem, sequer, assistir a eventos desportivos com atletas masculinos. Não sou excisada, não me obrigam a casar e tenho os mesmos direitos legais. Bom, não é? Mas não fico satisfeita, porque muitas mulheres continuam a ser vítimas de abuso sexual e violência doméstica, a outras queimam o rosto por aparente rebeldia na defesa dos seus (supostos) direitos e, mesmo quando tudo está bem, continuamos a sofrer com uma atitude paternalista e machista que nos reserva a responsabilidade de cuidar dos filhos e da casa. Porquê? Eles, os que vivem nessa casa não comem, também? Se eu também trabalho, porque razão essa tão aprazível tarefa de fazer compras no supermercado não há-de ser dividida? Porque razão um cozinha e o mesmo arruma? Porque não dividir? Não há culpa. Mas, a haver, é das mães que os educaram para chegar, sentar, comer e voltar a sentar, desta vez no sofá, enquanto ela - a mãe e, mais tarde, alguém com quem viva - foi mais cedo para a cozinha, comeu mais depressa e fica até mais tarde nessa mesma cozinha a arrumar. Um dia ouvi dizer “nem que a M**** chegue ao tecto”, numa declaração mais ou menos inflamada de quem, como eu, achava que as tarefas se dividem. Fiz dessa a minha bandeira.  Não havendo justificação (sim, porque nisto das relações a dois há que saber avaliar as situações e praticar algum desprendimento para a entre-ajuda) pode a loiça chegar ao topo do armário que não cedo. Ou não cozinho. Queixo-me de barriga cheia. Novamente. Ou talvez não, porque sei que há outros a quem não é preciso pedir. Para quem, ultimatos destes, seriam absurdos. Estão lá longe, na Escandiávia, essa Europa que pratica a igualdade e na qual nenhum homem é menos homem por ajudar ou ficar em casa com as crianças. Havemos de lá chegar...

Dados infografia:  expresso ,  observador  e  observador

Dados infografia: expressoobservador e observador