love

Tinder & outros swipes...

Era uma vez uma história de amor. Depois, o amor morreu e nada voltou a ser como era antes.

Agora, tudo se compra, se arranja, prepara e planifica. Um encontro. Dois. O mundo por descobrir na palma da mão. E se não chegar - ou resultar - outros aparecerão para nos comporem, alinharem e entregarem um novo amor.

Hoje vi uma mulher que falava sozinha. Caminhava na rua e os seus lábios mexiam, expressavam palavras que mal se ouviam com o ruído da cidade. Será que é estranha, uma pessoa que fala sozinha? Não tanto ou mais do que os que escrevem no telefone enquanto caminham. Ou os que publicam ferozmente nas redes para ninguém ler. Ou os que swipam (do verbo to swipe - acção de mudar um perfil no Tinder) para a direita e esquerda sem nunca encontrarem nada.

Talvez seja alguém profundamente só. Talvez seja uma de nós. Uma daquelas pessoas dedicadas a si ou, mesmo, alguém que partilha uma união altamente funcional, que não funciona. E, por isso, é mais uma das que se deitam e acordam sozinhas, mesmo tendo alguém ao seu lado. Alguém que assume a rotina sem assumir o coração, que ocupa espaço físico sem ocupar espaço emocional. Alguém que está ao seu lado, literal e fisicamente, sem a tocar. A proximidade não é física. Embora também possa ser, criando um mundo único, momentâneo. A união significa partilha, respeito e emoções vividas a dois que permitem que a relação, essa relação, esteja naturalmente protegida. Tudo o resto, é a fingir.

Há muito que deixámos, todos, de acreditar no amor. Mas, depois, todos queremos amar e ser amados. Paradoxo?

Na verdade, queremos todos acreditar nas pessoas e nos seus sentimentos. Que pode ser para sempre, mesmo quando sabemos que o sempre poderá nunca ser. É o amor que nos coloca à prova. Até aí, não vivemos. É através do amor que aprendemos a viver, que nos confrontamos com quem somos, com quem queremos ser. Com aquilo em que nos podemos transformar.

Por isso, o amor é feito de palavras, embora sejam as acções que lhes dão sentido. Sem a acção o amor não se concretiza e pode eternizar-se nesse limbo do nada, entre o ser e o não ser.

No amor, não há como não ser. O que não é, não é amor. É quase-amor. Ou não é amor. É outra coisa qualquer. Talvez seja um swipe

O amor também resulta de um processo químico mas dificilmente pode ser criado em laboratório. Poderá? Em Londres, a Date Lab acha que sim... Eu acho que talvez.

 

I'm here. You're there.

I imagine you looking at your email just like I do. And scrolling your sms inbox looking for me. I'm not there and you know that. Like you're not in my inbox.

Don't. Send. That. Text.

Women and texting? That can be an issue. We all have the same problem because we don'tknow when to stop...

And they hate it. We send a text after another to say exactly what could be said in one text only.  Our dependency from whatsapp, messenger and every instant messaging apps puts them in control and it drives us nuts. Let me explain....

Stop texting. But also stop trying so hard. Stop chasing something you don't know what it is. Let it be. Let them text you. Let love find you. If they don't?! Their loss. If love doesn't happen? Just be.

I know.. I know... This is a sexist, old fashioned speech. Today we praise our independence.

Right. But when it comes to dating, love affairs and guys, we're still in the golden age of Prince Charming and Cinderella.

Maybe not. At least not that much. After all, it comes down to "who's taking the next step?..." Or "who's texting who"? Just like Cinderella.

In today's society we are entitled to text a guy inviting him to whatever we feel like. They like it. We like it too. Does it work? Not necessarily.

Then he takes more than 5 minutes to answer you... You start acting crazy, constantly checking your phone, unlocking it to check the inbox, checking ringer and alerts to confirm they are on,  double checking if the guy, that guy you are into, hasn't answered. Yet.

Besides anxiety you get nervous. That will lead to stupid reactions when he finally gets back to you. It might be just answering him back a few seconds after your phone beeps. DON'T DO THAT. YOU DON'T NEED THAT. Most of all he doesn't need to know you are close to despair.

Above all: never, ever, send the last text. Stop replying with more kisses and hugs and 'missing you' clichés. Let him look more than once to his inbox waiting for a "me too" or something that slightly resembles the text he sent, expressing his feelings.

Love is hard to find, even harder with today's digital gadgets. Like this idea from the Dating Lab, proposing an old school dating system contrary to Tinder, in which people actually meet. Following the traditional boy meets girl, they fall in love and stay together, the Dating Lab wants to bring back old habits. I would say: leave your smartphone, meet real people and forget about texting (a lot). Swipe it baby...

Erros que os pais cometem. E as mães corrigem. Moms never wrong (.).

Os bons pais erram! Esganiçam-se, têm “ataques de nervos” e “passam-se”! Tirando os pais que fazem de Dupont e Dupond, e aqueles que nunca se enganam e raramente têm dúvidas, todos os outros são bons pais!
— Eduardo Sá, psicólogo (Revista Pais e Filhos)

Na verdade,  as mães também erram. Mesmo quanto têm a certeza de que nunca se enganam. Pais e mães, juntos nessa impossível missão de educar pessoas pequenas, erram todos os dias, várias vezes ao dia. Mesmo quanto parece que acertamos, corremos o risco de errar. Uma e outra vez. Tal como as crianças quando estão a aprender a andar, caímos para nos levantarmos  cairmos outra vez. Com a diferença que nunca aprendemos verdadeiramente porque as crianças mudam todos os dias e não existem filhos iguais.

É, no mínimo, divertido. 

É bom saber que os pais se inquietam, esganiçam e passam dos carretos (ler). Há dias peguei num livro que me propunha deixar de gritar em 21 dias. Atrevi-me a pensar que grito quando, à terceira vez não atendem o meu pedido, quando digo repetidamente a mesma coisa e sou ignorada, quando essa coisa que estou a dizer é importante  deve ser respeitada. Falo grosso. Às vezes é um grito. Um NÃO a vociferar para impedir uma aparente desgraça. Uma frase num tom mais ríspido para os colocar no seu lugar. Ouvi gritos e nem por isso fiquei afectada. Seriam estes os gritos de que falava o livro? Espreitei o interior e pareceu-me muito new age, à la Waldorf, um método de aprendizagem que me parece interessante, embora a descarrilar para o utópico, como se vivêssemos num mundo ideal, com tempo para nós e os outros, o marido e a família. Não é. Mães como eu desdobram-se entre a culpa de estar e a de não estar. A de estar assim assim e a de gritar. A de não gritar e deixar passar. A de despachar um ou outro aspecto. A dos horários intransigentes e exigentes. Das necessidades de carinho e afecto. Das nossas necessidades e do amor partilhado com aquele que aceita aturar-nos e que aturamos sem questionar. Por vezes temos mais culpa do que prazer, porque não existem fórmulas mais certas do que outras, não existe um método melhor do que outro. Cada mãe saberá, intuitivamente, o que é melhor para si e os seus filhos. Com excepção das mães que não entendem o significado dessa palavra e das que hiperbolizam o conceito, todas as outras estão a fazer o melhor que podem, como podem. Como sabem e sentem que é melhor.

Não li livros sobre maternidade nem fiz aulas pré-parto. As mulheres têm filhos desde sempre, achei que seria um processo natural. Que no momento saberia que aquela dor era "a dor", que a força seria para fazer quando fosse para fazer. Quando senti "a dor" agarrei num dos livros e abri a página certa. Era "a dor". Quantas mulheres já pariram naturalmente sem qualquer ajuda? Não poderia ser assim tão complicado. Obviamente que o auxílio médico é importante - fundamental para qualquer imprevisto - e, por isso, no momento certo entrei no hospital. Tive dores até ao limite do suportável e percebi o que são contracções, o que acontece no corpo para que o bebé possa sair. Fiz força quando me disseram e não parei quando me pediram. Amamentei enquanto houve leite, e enquanto supriu as suas necessidades nutricionais. Sem dramas, apenas com a sensação esquisita - horrível, na verdade - daquilo a que chamam a subida do leite e que sempre questionei. Sobe para onde? Onde está o leite? Não está nas mamas? Então porque razão dizem que vai subir? O leite não sobe. Quanto muito, explode. Na verdade tive momentos que ainda recordo - e já não me lembro das contracções ou dores do parto - em que odiei as minhas mamas pelo mau estar provocado pelo leite. Ao fim de um par de horas estava pronto para sair e ela ainda não estava disponível para voltar a comer...

Fraldas, alimentação, dentes e febres... Acho tudo tão natural que a ajuda de quem já sabe se torna preciosa para tirar pequenas dúvidas sem que tenhamos de fazer um curso intensivo sobre maternidade. Bom senso, capacidade para ouvir e observar são fundamentais. Mesmo quando eles só gritam, esse choro quer dizer-nos algo. Não adivinhamos, vamos por tentativa e erro, seguindo o coração e a intuição, ignorando os outros - que sabem sempre imenso e que com os filhos deles foi assim ou assado - quando achamos que somos nós que estamos certos. É o nosso filho e ninguém o conhece melhor do que nós. 

A maternidade adiada tem este efeito perverso que é o de abandonarmos a intuição para nos tornarmos dependentes do saber enciclopédico sobre isto de ser pais. Fazer tudo como mandam as regras é pernicioso. As regras são as nossas, de acordo com o que consideramos correcto num determinado momento e que pode mudar rapidamente. Eles crescem. Nós temos de crescer com eles, adaptar a nossa forma de estar, o ritmo e as rotinas em função do "agora". O modelo que nos transmitiram e a forma como nos educaram não terá sido perfeita mas serve muito bem como fonte de inspiração para o que devemos fazer. Como servem todos os exemplos que conhecemos e que, misturados se transformam na nossa forma de fazer as coisas. Mesmo que inclua uns gritos de quando em vez. Lá em casa (ainda) mando eu. 

Every once and a while, somewhere around the world, a baby cries, kids run, mothers shout, a house gets really messy, another mother goes crazy, kids go wild, a baby smiles, kids hug each other, mothers talk in the park, others run home to their kids.  

Motherhood is the most beautiful thing in the world, we all know it. But it is also the most challenging, time-consuming,  guilty conscious and probably, responsible for grey hair increase... I was reading this article by a  Portuguese psychologist to find that we weren't meant to be perfect parents. Although mothers are never wrong (we definitely aren't!), this challenging mission of raising a kid originates all sorts of mistakes and misbehaviour. Like children learning to walk, we fall over and over again. And we never learn. Kids are different everyday and all kids are alike. It is, above all, quite fun, actually.

He says that we are allowed to go nuts, to raise our voices, to be scared and to act insane. Well deserved, I would say.

A few days ago I was flipping through a book in order to challenge myself to stop screaming in 21 days. Right. I scream if I want to as many times as I feel like it. Mostly when I call them more than three times, when I say the exact same thing more than once being intentionally ignored (they just don't listen, do they?). When something is really important I may not scream but I speak loudly. Well, sometimes sounds almost like shouting... Like hell I talk loud to avoid a broken leg, to make myself heard and respected. I've been there and I remember the feeling. And it didn't scratch me.  Is this what the book was talking about? This kind of screaming?  While flipping through it seemed to me to be very New Age and Waldorf-oriented, which might be interesting though quite utopian since the world isn't a perfect place to be living. Mothers are here and there all the time, in between motherhood, a relationship, work, friends in need, family and something else. It's who and what we are. Therefore, we're always in between the guilt of being there and the feeling of not being there enough. And the guilt of screaming. Tight, demanding schedules, caring and affection. Our inner needs and the couple we decided to become. Day in, day out the guilt is here and it will stay forever, erasing loads of pleasure coming from a happy relationship and motherhood. 

So, my motto is simple: to live and let live, hoping to do the best - my best - everyday, considering my intuition, my feelings and their constant feedback. Maybe with some shouting here and there but above all, with loads of L O V E!

just dance

Há dois filmes que me marcaram. Ou dois filmes de que gosto muito. Ou dois filmes de que me lembro imediatamente, sempre que me perguntam: "filmes preferidos?". Nenhum é o que queremos responder porque não são obras primas do cinema - um até terá sido, à época -, porque não são intelectualmente relevantes, porque há outros realizadores mais importantes. Porque... Porque respondemos raramente com a verdade e antes com o que os outros querem ouvir, ou com o que esperam de nós. 

Um ficará em segredo. O outro é Flashdance, esse momento inspirador para todas as meninas que sonharam, algum dia, em ser bailarinas. Eu tinha oito anos e, ainda hoje, gosto de o rever. Neste momento, a banda sonora toca e eu danço. Canto, de cor, as letras das músicas e abano os pés. Não poderá ser um artigo normal. Não é. É escrito a dançar, com o coração na ponta dos dedos, à espera do impossível.

No filme, o impossível acontece e, fora do tempo, da idade ou do método, ela consegue. Também eu poderia conseguir, pensaram muitas de nós, em surdina, no cinema. Outras choraram. Não sendo uma obra prima, é dos filmes mais populares da década de 1980, com uma crítica difícil de catalogar. À distância, o dinamismo das coreografias é algo exagerado, o guarda-roupa duvidoso, a narrativa pobre e a relação com a realidade pouco real. Mas que interessa isso quando o que queremos é sonhar? E dançar.

Defendo que dançar faz bem a tudo. Podem dançar altos e baixos, gordos e magros, porque a dança depende do corpo para se revelar, mas nasce cá dentro. Ou temos, ou não temos. Ela tinha.

Começo (quase) sempre a semana a dançar e termino da mesma forma. O que gasto em energia converte-se num outro tipo de energia para começar a semana, ou alienar todas coisas más que se vão acumulando ao longo dos dias de trabalho. Dancem. Vão ver que nada voltará a ser igual. Não sabem? Ela também não sabia. E conseguiu. Porque tinha aquilo.

Podemos aprender. Mas nunca é a mesma coisa. Podemos forçar e ser tecnicamente perfeitos. Mas, depois, falta a emoção. Aquilo.

A dança resulta de uma conjugação de factores e elementos: técnica; ritmo; emoção. O que significa que, para dançar, convém saber como executar os passos e movimentos os quais, em sequência, constituem um conjunto de elementos que criam uma coreografia. Para além da sua execução, há que saber colocá-los em sintonia com a música, que fornece a banda sonora e o ritmo para dançar.

O resto? O resto depende de cada um de nós e da forma como interpretamos o que tudo aquilo quer dizer. Porque a mesma coreografia, dançada por duas pessoas diferentes, jamais será igual. A mesma música pode ser interpretada de forma mais delicada ou agressiva, mais feminina ou masculina. Também pode ser nada mais do que um conjunto de passos de dança executados ao som de uma música. O que equivale a nada. Ou quase nada.

Dançar é trazer para o exterior muito do que somos, ou projectar uma personagem que nos pedem para criar. Dependendo da música, podemos ser sexy ou naive, dominadas ou dominadoras. Depende da interpretação. Mesmo quando aparentemente nada há a interpretar, há. A música conta uma estória que vamos representar através da dança. Tudo o resto são aproximações ao conceito. Dançar é isto. É o ritmo frenético que a Alexandra colocava nas pernas para treinar os músculos ao som de Maniac ou quando Laura Brannigan lhe cantava Imagination para dançar, à noite, no bar.

do amor e outras estórias

Há várias razões para muitas pessoas não gostarem do Dia de São Valentim.

Primeiro, o amor não escolhe dias. O amor não precisa de um dia especial para se celebrar. O amor acontece. E, quando acontece, deve viver-se. Celebrá-lo, quando faz sentido. Não porque nos impõem uma data. Como o Natal, cujo espírito deve perdurar o ano inteiro e que, tantas vezes, é esquecido para ser recuperado, apressadamente, dias antes da data.

Porque podemos tocar. É esse o segredo da lingerie. E do amor. 

Segundo, o amor não precisa de cartazes e balões e flores e chocolates e lingerie e todas aquelas piroseiras que invadem as lojas numa tentativa desesperada de marcar uma data inventada para isso mesmo: encher restaurantes, lojas de flores e chocolates ou sessões de cinema com comédias românticas que elas supostamente gostam. Ou gostam, apenas neste dia.

Terceiro, o equívoco do amor. Quem não ama, não sabe ou não quer amar, toca-se neste dia, o pior do ano para se estar sozinho, dizem. Inventaram-se fórmulas para os solteiros se juntarem, criaram-se imagens para denegrir o amor. O que está em causa não é o amor porque o Valentine's Day não é sobre o significant other mas sobre todos os significant others da nossa vida. Que pode muito bem ser a nossa melhor amiga.

Quarto, os corações despedaçados que não encontram um novo amor. Porque não se amam e, por isso, não se deixam amar. Porque querem curar um heartbreak com outro, coleccionando os arranhões sem deixar sarar as feridas. Quando acaba o amor tem de haver um luto. Mesmo quando saltamos directamente para o colo de alguém, essa pessoa serve apenas para fazer esse luto. Luto feito, a pessoa deixa de fazer sentido. Para nós. Para o outro. Nova relação terminada sem que ninguém tenha percebido porquê. Outro arranhão, pele sensível, sensibilidade à flor da pele... Palavras para quê? Sabemos, no íntimo, que o amor precisa de tempo e espaço.    O seu tempo e espaço. Mas não queremos estar sozinhos.

Quinto: amar. Pedro Paixão escreveu, no título de um livro, que viver todos os dias cansa. Amar também. Gostar exige de nós a capacidade de dar e receber, de adivinhar o outro, entendendo-o sem que ele nos explique. Porque quando entramos no domínio das explicações é quando tudo se complica, porque o que se diz nem sempre é o que se pensa; o que se afirma não é o que se quer dizer e o que se diz não é o que se faz. Esperamos que o outro adivinhe. Somos todos muito maus nesta arte de adivinhar. Por isso, importa ouvir. O problema não é só deles,  conhecidos por ouvirem sem darem atenção. O problema também é nosso, por falarmos nas entrelinhas, sussurrarmos o que fica por dizer. O que supõe adivinhar. E, quando ninguém se entende, não adianta gritar. Not good...

Sexto: não gostamos do Dia de São Valentim porque ignoramos os sinais. Os sinais estão lá. Estão sempre lá. Uma mecha de cabelo fora do sítio, a palavra errada, um toque que não faz arrepiar. Ignoramos deliberadamente os sinais numa ânsia do amor. Qualquer. Não necessariamente aquele amor. Porque, também sabemos, o amor não é perfeito. Por isso vamos aceitando as suas imperfeições mesmo quando não lhes encontramos uma imperfeição perfeita. Importa não ignorar os sinais. Cada um tem os seus. São esses que contam. Não os que vêm nos livros.

Sétimo: andamos à deriva. Amar é abrir as portas da nossa casa e deixar o outro invadir o nosso mundo, respeitando quem nós somos e o nosso espaço, afirmando-se como aquela pessoa a quem queremos contar tudo, com quem podemos partilhar tudo e não esconder nada. Porque é essa pessoa que nos faz rir e nos limpa as lágrimas nos piores momentos. O amor tem muito de amizade, porque a amizade se baseia na confiança. Sem confiança não há relação. Não há amor. Como em qualquer relação, somos dois. A remar com a mesma força, o mesmo ritmo e na mesma direcção. Mesmo quando o rio está turbulento ou nos apetece estar à deriva.

Não há deriva, no amor.

Oitavohigh expectations. Não falha. Esperamos sempre mais do que o outro promete. Resulta em desilusão. Como os sinais. Estão presentes e teimamos ignorá-los. A falha é nossa, não do outro que se mantém fiel a si próprio enquanto nos tentamos adaptar. Como o quadrado não encaixa no triângulo, há coisas que não valem a pena. A insistência cansa, engana e desilude. Muitas desilusões conduzem ao descrédito no amor. E o amor não tem nada a ver com isso. Apenas nós, a nossa ganância de sermos o que esperam de nós ou de transformarmos o outro no que queremos que seja. Ninguém muda. Adaptamo-nos. Aprendemos a encaixar. Naturalmente.

Nono: não evoluímos. Porque não queremos. Porque não nos deixam. Porque não há evolução possível. A pessoa que amamos deve fazer de nós uma pessoa melhor. Nós devemos fazer dessa pessoa, uma pessoa melhor. Crescermos juntos, num percurso feito a dois sem interferência de ninguém. Ou com interferências positivas, que ambos aceitam, nesse processo de evolução.  Juntos, conseguem chegar onde, sozinhos, jamais chegariam. Não interessa o que é. Desde que seja a dois e que os transforme em pessoas melhores do que alguma vez foram.

Décimo: não gostamos. Apenas isso.

Preferimos  estar discreta e confortavelmente na cama, a dois, longe do mundo, ignorando o que se passa lá fora. 

Qual é a aparência da felicidade? Todos sabemos que os sentimentos não têm aparência, mas a felicidade já foi descrita, pintada, fotografada, filmada tantas vezes e de formas tão diferentes que quando pensamos na felicidade a relacionamos de imediato com as imagens e sons que fazem parte desta cultura popular. 

Sabemos que a felicidade não tem absolutamente nada a ver com ter, estar ou possuir. Mas queremos isso. A felicidade é mais sobre sentimentos que inexplicavelmente vão crescendo em nós. Tem catalizadores. Uma música. Um sorriso. Pode estar ao virar da esquina, para usar um cliché demasiado gasto. Pode ser o sentimento de finalizar uma reunião de negócios, sair da sala, enviar uma mensagem ao nosso melhor amigo e perceber que nos sentimos verdadeiramente bem. De forma pura. Apetece sorrir. Sair do edifício sem tocar o chão. Colocar os auscultadores, escolher a música e simplesmente ausentarmo-nos do mundo enquanto cantamos rua fora como se mais ninguém existisse. Porque simplesmente não nos interessa o que os outros possam pensar. Poder é isso: a felicidade entrar-nos pelo corpo adentro e dominar o que fazemos ou pensamos.

Depois olhamos os outros na rua. As pessoas são estranhas. Não conseguimos definir o seu grau de felicidade. Sequer se estão felizes. E queremos partilhar. Sorrisos, que voltam para nós quando os espalhamos. Cantamos e os outros sorriem porque nos ouvem cantar. Felicidade é isso. Amor também. Aquele sentimento de who cares?!

Sempre ouvir dizer que o amor é eterno enquanto dura. Enquanto namoramos, dizemos sempre ao outro o quanto o amamos. Parece para sempre. Ali e agora, naquele momento, sem a certeza do tempo que o sentimento iria durar. Porque era eterno, até ao momento em que deixaria de o ser. Essa eternidade poderia estar ao virar da esquina ou no fim do mundo. Não dependeria apenas de nós. De cada um de nós. Dependeria de tudo aquilo que faz cada um de nós ser o que é, na certeza de que, aquilo que somos, muda de dia para dia. Como evolução e retrocesso, com influências e vislumbres sobre o que somos no mais intimo de nós, revelando-se de formas diferentes à medida que o mundo gira. Ninguém é em definitivo.

Os sonhos apaixonados tem música ♡

Do. Go. Love.

Makes sense? Talvez não. Talvez não assim, mas o video explica tudo. Porque se nos arrependemos é porque o deveríamos ter feito. O what if persegue-nos para o resto da vida e mesmo que não tenhamos dúvidas em relação ao que somos ou nos transformámos, o what if permanece porque nunca sabemos - saberemos - se aquele teria sido o if correcto.

O quadro esteve durante um dia em Nova Iorque. Poderia estar uma semana, os what if continuariam a crescer. Poderia estar em Lisboa e mudaria apenas a língua em que o what if se expressava. Os "ses" da nossa vida e os arrependimentos que todos temos porque, na maior parte das vezes, temos apenas medo. A coach Joana Areias pergunta, muitas vezes: se não tivesses medo, o que farias? Está certa. Coberta de razão. É o medo que nos impede de arriscar, de ver largo e longe, que nos domina e formata em função do que os outros acham melhor para nós. Pedimos opinião quando temos a resposta dentro de nós. Também afirma que já somos tudo o que queremos ser e só andamos a fingir que não somos. Mentira?! Não me façam rir... Também anda por aí um anúncio que diz que a nossa intuição não se engana. E não engana. Nunca. Com intuição e sem medo, onde irias?

Vai, antes que seja tarde. Para que nada exista para escrever no quadro preto.



Spotlight

Ontem, enquanto assistia à ante-estreia do filme Spotlight não consegui deixar de pensar que não há duas semanas iguais e que, tão depressa o urbanista está recheado de waffles e outras coisas fora de portas, como tem cultura dois dias seguidos. Estreia esta semana a peça de teatro Arte, no Tivoli, na Av. da Liberdade, com o mesmo texto, nova encenação e outro elenco. Gosto muito da ideia e do texto, por isso sou suspeita. Caso queiram saber mais, espreitem aqui.

Ontem sentei-me tranquilamente a assistir ao Spotlight. O caso Spotlight, em português. É igual. Uma e a mesma história sobre a qual sou igualmente suspeita para escrever. Passa-se num jornal e há lá coisa mais estimulante do que farejar notícias e descobrir coisas para publicar? Na altura publicava-se em papel e acrescentava-se um URL ao fim do texto.

"Podemos colocar um URL no fim da notícia. É muito simples".

Tão bom. Tão antigo. E foi apenas há 15 anos. Uma eternidade? Só na era da comunicação em rede, com a sua estonteante velocidade e instantânea disseminação. Uma estória destas não se aguentaria tantas semanas sem verter para o twitter. Aguentaria? Não sabemos. Há tanto que não sabemos, como não sabiam, na altura, pela sublime capacidade que a organização da Igreja Católica (ainda) tem de esconder o que não quer que se encontre.

Este é um filme baseado em factos reais. Uma espécie de Watergate dos tempos modernos que levanta o véu daquilo que, há uns anos, se descobriu nos Estados Unidos: uma intrincada colecção de casos de pedofilia abafados pelas esferas mais elevadas da Igreja Católica. Começou em Boston. Os relatos desvendam casos no mundo inteiro. Que outros Watergate's haverá para descobrir?

Na vida real os jornalistas do Boston Globe receberam um Pulitzer. No filme não sei, mas estão nomeados para 6 Óscares, incluíndo o de melhor filme. Sentei-me sem nada saber. Tinha visto umas imagens na Internet sem prestar muita atenção. Melhor assim, quando não temos expectativas e nos deixamos surpreender com a entrada dos actores em cena, as vozes que se cruzam e a narrativa que evolui. Naquele momento em que começamos a escorregar na cadeira do cinema, despertei quando um actor secundário - muito secundário - afirmou que no dia anterior tinha navegado na Internet, surpreendendo-se com a quantidade e variedade de informação disponível. Revelava que tal era, no mínimo, assustador e uma eventual ameaça à sua profissão. Era um padre que falava numa missa - momento paralelo, para percebermos como a investigação influenciaria modos de pensar e atitudes de uma das jornalistas. Porque, afinal, um jornalista é isento mas não é uma pedra. E deixa-se afectar com a miséria humana. Verei algum dia um padre no Snapchat? Isso sim, seria assustador. Não o volume de informação que, na altura, existia na rede.

Não sei o que vão dizer os críticos sobre o filme e frankly my dear, I don't give a damm porque aa coerência entre críticos é pouca e, entre algumas posturas pseudo-intelectuais e a realidade, também. A Igreja talvez não tenha gostado, porque o filme revela não apenas os factos relativos aos casos de pedofilia em Boston mas, também, as suas consequências: mais de mil pessoas abusadas, a religião em descrédito e a Igreja mais ainda, traumas escondidos com álcool e drogas. Este é um filme que, através de uma estória bem contada, com personagens sólidas e bem construídas, nos mostra que, mesmo que quiséssemos, a nossa vida seria indubitavelmente mais pobre sem um jornalismo independente, com recursos para investigar e garantir um sociedade justa e informada.

Não conto a estória do filme porque não sou spoiler, mas recomendo-o a todos os que gostam de uma boa intriga, especialmente aos que vibram com o dia-a-dia numa redacção. Os exteriores mostram Boston e, se estivermos com atenção, conseguimos seguir os percursos das personagens no mapa. Uma curiosidade: um dos jornalistas afirma-se de ascendência portuguesa. Se virem o filme vão perceber que o apelido só é um bocadinho semelhante a um apelido português... Outra curiosidade: andei a pesquisar alguns dados sobre o filme e é interessante verificar as semelhanças físicas entre os actores e os jornalistas que, na realidade, faziam parte da equipa Spotlight. Sobre o resto, vão ter de ver o filme.



do your own thing

"Do your own thing"... That's the way he sees it.

He's 93 years old. He must know something better.

I will follow his advice. From now on. And always. Why don't you?...

Cómo cumplir años con gracia

¿Qué les parecen estos consejos?

Posted by Tele13Radio on Wednesday, 26 August 2015

"Faz as coisas à tua maneira"... É assim que ele encara a vida. 

Ele tem 93 anos. Deve saber alguma coisa... Da vida.

Vou seguir o seu conselho. Já e para sempre. E vocês?

Arte

Confesso: gosto muito destes actores. E ainda gosto mais do texto da peça, por isso, escrever sobre a Arte que estreia esta semana no Teatro Tivoli é um prazer. 

A produção é da UAU e recupera o sucesso de 1998 e 2003, com novo elenco e encenação. O facto de já ter estado em cena não significa que perca - nunca irá perder - a actualidade.  Ou a qualidade. A história é simples: três amigos e um quadro branco. Poderiam ser os nossos amigos porque todos já vivemos situações destas ou tivemos conversas semelhantes.

Tudo se resume a uma questão muito simples, debatida à exaustão: o valor da amizade. Contudo, mais do que a amizade, é principalmente sobre o conto clássico "O Rei Vai Nú". E, da mesma forma que não sabemos como dizer a uma amiga que o corte de cabelo lhe fica mal, muito mal, também não sabemos dizer a um amigo que aquele quadro é branco. Uma tela igual a tantas outras que estão à venda nas lojas. Branca. Sem uma linha. Ponto de cor. Mesmo que não seja isso que o nosso amigo, aquele amigo, esteja a ver. Ou queira ver. Quem nunca?...

Aproveitámos a oportunidade e conversámos com os actores sobre a peça mas, sobretudo, sobre o poder da palavra, da verdade, da mentira e da omissão...

d'être

Adoro Bruxelas, mas não posso dizer que seja dos primeiros locais nos quais penso quando decido viajar. Passou a ser.

#bff rule.

Mais os outros quase quase #bff que lá estão. E tudo o resto. 

Quem me conhece sabe que já viajei inúmeras vezes para esta cidade, sempre por motivos profissionais. A sua centralidade facilita o encontro e reunião de pessoas de diferentes pontos da Europa. Por isso, fui conhecendo, ponto a ponto, sem verdadeiramente ter descoberto a cidade. Foi-se revelando à medida que o encontro obrigatório mudava de localização. É, contudo, daqueles locais que não importa repetir porque é uma cidade bonita, cativante, simples e sedutora, mesmo que não nos arrebate como alguns destinos o fazem. Não será uma paixoneta, sequer amor à primeira vista - até porque as primeiras visitas foram tudo menos fáceis ou apaixonantes - mas daquelas relações que o tempo prova que valem a pena, que tem tudo a ver connosco, que não defrauda mas que vai sempre surpreendendo e fazendo apaixonar cada vez mais. Dizem que é assim o amor e tenho, agora, boas razões para voltar. Sempre.

Dos parques para correr às ruas para caminhar sem perder o fôlego, os museus com exposições que não encontramos por aqui, as livrarias - qual a livraria que não nos apaixona? - as esquinas com waffles, as lojas com chocolates estonteantes ou bolachas tão boas que preferimos não perguntar qual a composição. Há ainda as frites - que agora querem transformar em património mundial - e uma diversidade gastronómica que não nos permite o tédio. Há também as moules. Mas isso já todos sabemos. Como o Tintin. Que gostamos mais quando não estamos em sua casa. O que é demais não valorizamos. Como o sol, que temos a mais em Lisboa e que, por isso, só aproveitamos verdadeiramente depois de uma semana inteira de chuva e céu cinzento.

Já tinha sentido frio em Bruxelas mas, desta vez, estava mais do que o que conhecia. Gosto deste frio que nos obriga a tapar. Cobrir o corpo, escondendo mãos e cabeça com luvas e gorros. Este frio não entra nos ossos, como por vezes referimos em Lisboa, mas corta a pele do rosto e, sobretudo, gela os dedos para fotografar. O próprio aparelho recusa-se a focar como habitualmente, porque os dedos estão de tal forma inertes que o toque perde sensibilidade. Ponto negativo. O único que me incomoda porque honestamente, há mais frio mas sofremos menos. Obriga a calçado que isole a humidade e frio, um casaco adequado, mãos e cabeça protegidas. Não é à toa que muitos andam de t-shirt, vá... sweat-shirt, por baixo do casaco (casacão). Todos os locais estão aquecidos e os apartamentos têm um aquecimento central, no edifício, que nos permite estar muito confortáveis em casa. Não podemos dizer o mesmo da luminosa Lisboa, pois não?

Paradoxalmente, não é quando neva que se sente mais frio, mas é quando a cidade fica branca que acreditamos em magia. Na rua ou num bosque, o manto branco remete sempre para o nosso imaginário e deixa a imaginação fluir, com estórias de encantar que sussurramos aos mais pequenos, deitados numa cama quente, no centro da cidade.



The many looks... of love

Um artigo inspirado no amor moderno, publicado no Briefing. Para ler aqui.

De apaixonados a escrutinados, num simples swipe. Só posso concluir que a paixão já não é o que era. Ou será ainda, o que sempre foi, com novas ferramentas para quem se quer apaixonar e outras tantas para os apaixonados? Opto pela segunda opção. Não creio que o amor tenha acabado.

Paris

Muito sobre Paris. Muito pouco sobre o que aconteceu, cada vez mais convencida de que nada sabemos, para além dos tiros, vítimas e explosões. 

Deixei-me ir na onda e, naquele momento que considero de introspecção, cedi à tentação de me manifestar, juntar a minha voz à da maioria, gastar a hashtag que circula sem cessar e sem grande significado. Ou com grande significado, virtual. O nosso pensamento está sempre com o das vítimas, contra quem perdeu a humanidade em prol de um suposto bem maior. Mas está sempre mais com umas vítimas do que outras. Pela proximidade. Geográfica, mas não só. Pela identificação. Semelhanças do modo de vida, de pensar e ver o mundo. Pelo inesperado contra o habitual. Não me choca que assim seja. Mas choca-me a dimensão online da comoção em modo rebanho, atrás da espiral do silêncio que, nestes casos, ganha voz nas redes. Não podem existir mortes inocentes mais relevantes do que outras.

Eles, os que fazem estas coisas, estão-se nas tintas para o Facebook pintado de azul, vermelho e branco; o Twitter repleto de hashtags que terminam em Paris ou fotografias da torre Eiffel no Instagram, para lembrar as vítimas deste atentado.  Ou o que quer que tenha sido. Pode muito bem ser outra batalha de uma guerra que há muito começou, e ninguém anunciou.

Não percebo, principalmente porque não quero entender, geometrias e geografias da politica internacional, mas sei uma coisa: não atacaram com cocktails molotov ou armas artesanais. Se as compraram, alguém as vendeu. Quem lucra com estes negócios tem visto, ao longo da história, a mão que alimenta ser mordida por aqueles que a alimentam. Porque podem. Porque a verdade de hoje é a mentira de amanhã e os jogos de tabuleiro ganham uma dimensão incomensurável com vários bispos e reis no mesmo xadrez. 

Sabemos tanto quanto nos contam os filmes de hollywood ou os comentadores dos jornais que tentam recordar a origem do problema. O que é manifestamente pouco. Se mal desvendamos os bastidores da política nacional, o que dizer dos bastidores de uma manipulação mediática que inter-relaciona a política, economia, cultura e religião? Antes fosse a anunciada torre de Babel em que se transformaria o mundo da aldeia global. As ligações, presunções e justificações são demasiado complexas e tenho para mim que tudo se resume a essa característica humana impossível de controlar, a inveja, controlada por uma outra manifestação tão nossa, a intolerância. 

A história do mundo é a história da inveja e, sobretudo, da nossa incapacidade para aceitar o outro como ele é, respeitando-o, aceitando-o e integrando essa diferença. A nossa história é a da anulação da diferença, da parametrização do homogéneo, que é mais fácil de entender. Dos bárbaros às barbaridades do Império Romano, a febre do ouro sob a bandeira do Islão. As cruzadas e os Cristãos nas Américas. O sanguinário Genghis Khan. As trevas da inquisição, a caça às bruxas em Salem e o renascimento que pouco ou nada fez renascer, cabeças que rolaram nas revoluções. Atentados, lutas pelos direitos que, durante décadas, dependeram da cor da pele. Guerras civis, guerras mundiais e Hiroshima para sempre na nossa memória. A guerra fria e a dívisa da liberdade, da lei do mais forte num eterno confronto que se concretizou em Nova Iorque, Madrid, Londres ou Paris, mas também em vôos que cruzam os céus do Meio Oriente a caminho da Europa, abatidos como aviões de papel.

Dentadas na mão que alimenta e simultaneamente se alimenta. Não se pode alimentar e comer no mesmo prato. Como não se pode contribuir para a manutenção de um regime enquanto se ajuda a destruí-lo. A hipocrisia de jogar em duas equipas que se opõem é demasiado perigosa e trouxe-nos aqui, com fronteiras diluídas a ponto de se terem tornado irreconhecíveis e, por isso, impossíveis de respeitar. Circulação e migração de pessoas sem igual em toda a história, no pressuposto igualitário de uma Europa exemplar na abertura ao mundo, de miscegenação de referências e culturas para criar um novo contexto que nunca entendi verdadeiramente.

O resultado é sermos cada vez mais iguais sem abandonarmos as nossas diferenças, olhando de soslaio para tudo e para todos, sob a ameaça em cada esquina ou grande evento. Hitler um dia convenceu milhares de que seriam os melhores do mundo e os que os outros, diferentes deles, seriam a raíz de todos os males, por isso, imperioso eliminar. Qual a grande diferença, agora? O alvo somos todos nós. Porque quando não estão comigo, estão contra mim. Porque perante Deus e o mundo, o mais forte tem o direito de fazer prevalecer a sua vontade.

Onde é que eu já ouvi isto?

A Europa extremizou-se e perdeu o rumo. Quem, são, então, os que nos aterrorizam?

Londoner

As regras dizem que não se começam as estórias pelo fim mas, no caso, poderá fazer sentido. Aquilo que acontece durante um dia em Londres pode encher páginas por uma semana. A cidade é intensa, vibrante. Entre todas as boas razões para gostar de Londres - ou de outras cidades com igual dimensão e dinamismo  - estão as compras. Já lá vamos...

Lisboa é confortavelmente confortável. Acolhedora. Sentimo-nos sempre em casa, mesmo não estando. Londres, juntamente com outras cidades europeias, é agreste. Faz-se difícil, como se não quisesse receber-nos quando, na verdade, está ansiosamente à nossa espera. São duas mulheres, com a diferença que uma é muito gaja, derrete-se à nossa passagem, brilha com os elogios, sorri para as fotografias e chora com a nossa indiferença. A outra mostra-se fria e distante, indiferente à nossa presença, como se fossemos apenas mais um. Não somos. Toda ela é coração quando perdemos tempo para observar e ver além do que nos mostra. Tem medo de se apaixonar naquele vai e vem constante de gente que passa sem parar e, por isso, fecha-se sobre si própria quando se queixam da sua (pouca) luz.

A relação perfeita não existe. Como também não existem cidades assim. Tudo depende dos dois elementos da equação, mesmo quando um deles é ausente de um rosto, porque o rosto de Londres são todos os pequenos detalhes de uma cidade que, não sendo a cidade-luz, toda ela é energia.

Gosto de Londres. Como gosto de Paris e Amesterdão, Nova Iorque ou Toronto. Ou Marraquexe. Poderia dizer que gosto de todos os lugares mas não é exactamente assim, embora goste de muitas cidades para além de Lisboa. Todas por razões diferentes e nenhuma com traços comuns. Porque tal como cada relação que vamos acumulando ao longo da vida tem as suas idiossincrasias, também nos apaixonamos por cada cidade por motivos e em momentos diferentes. Mas Londres... É sempre o lugar ao qual me apetece voltar, aquele onde me perco mesmo sabendo a direcção, porque prefiro descobrir uma nova rua, um pequeno detalhe, escapando-me ao óbvio das artérias principais, para descobrir uma Londres diferente daquela que a maior parte das pessoas afirma conhecer. 

Um dos meus momentos preferidos em Londres acontece pela manhã, nos dias felizes em que o ar está fresco, o céu nublado sem neblina ou ameaça de chuva. Não é uma cidade fácil e, por isso mesmo, aprendemos a apreciar cada instante em que podemos caminhar na rua ou no jardim sem chuva ou neve. Jogging em Hyde Park é uma experiência a que todos deveríamos ter direito. Uma vez que fosse. Mesmo que não sejamos amantes da corrida. 

Em Lisboa tomamos o sol e o bom tempo por adquiridos, menosprezando as vantagens de uma caminhada ou corrida que atravessa o jardim, para nos encaixarmos em automóveis cada vez mais inteligentes e automáticos, que nos deixam percorrer sites de redes sociais em cada fila ou semáforo.

Estar longe de um contexto que é o nosso faz maravilhas a quem somos e como somos, reaprendendo detalhes que talvez possamos levar connosco e aplicar a partir daí. Esta cidade perde com as nuvens o que ganha em caminhos sem qualquer inclinação. Poderia ser perfeita se fosse sempre assim, com temperaturas a meio da tabela, sol que espreita entre nuvens, pouca humidade e uma brisa que afasta a poluição. Mas não é. Talvez por isso mesmo vibre no que ainda falta a outros locais, caracterizando-se pela sua ausência de definições ou características, mesmo quando lhe reconhecemos aquele pormenor very british. Não é o caldeirão de culturas que se imagina, mas também é. Cidade aparentemente cinzenta, toda ela brilha com os brancos que lhe impõem e as cores que importa ou a densidade extrema por metro quadrado.  Sumos naturais de fruta, waffles, castanhas assadas de uma forma diferente da nossa, fatias de pizza em cada esquina. Demasiados cappuccinos e chocolate-quente on the go. To go. Porque não paramos. 

Caótica, desarrumada, repleta de tons, padrões, linguagens, maneirismos, tradições, cheiros e sabores que se misturam sem, contudo, formarem um só. Poderia ser suficiente para se tornar descaracterizada mas é isto que a torna tão rica e interessante, aquele local onde nunca somos apenas mais um, mas no qual podemos ser absolutamente diferentes sem sermos notados.

Há preconceito ali, como aqui (ou em qualquer lado), mas há uma indiferença à excentricidade diferente que amplia a diversidade e faz com que olhares se cruzem sem o requinte de observar aquilo que foge ao padrão. Porque o padrão é mesmo a ausência dele e isso também se nota em cada loja. Para além das promoções que acontecem entre os saldos, cada loja tem pormenores de estilo que nos permitem encontrar a distinção entre aquilo que é aparentemente igual e o que se vende em qualquer lado...

#london #traveling #love

das (s)enas que dão pano para mangas

Coisas da semana que passou....

A beleza está aos olhos de quem a vê, mesmo quando à nossa volta tudo grita feio. Não tenhamos dúvidas de que aquilo que percecionamos depende apenas de nós, das conotações que damos ao mundo e a forma como interpretamos o que está à nossa volta. No momento, preocupa-me mais a situação dos refugiados sírios perdidos por essa Europa ou o orçamento que (ainda) não temos, do que a miúda que lá nos antípodas resolveu acordar e perceber que andava a brincar ao faz de conta, bem como a outra que, na mesma altura (já dizia a Margarida Rebelo Pinto que não há coincidências), decidiu expor os objetivos da Socality Barbie.

Para ler no OBSERVADOR.

Demora. Mas aprendemos

Tal e qual como nos namoros: sedução, encantamento, projecção, realização, consciencialização, contestação, abandono ou dependência.

Não há meio termo. Depois de cedermos à paixão, depois de limarmos arestas, ou é para sempre ou acaba. No caso dos media sociais, o namoro é ainda curto, mas muito intenso. E muito provavelmente, vai acabar mal. A tomada de consciência vai-se fazendo com os detractores a afirmarem, em regojizo "eu não te disse", tal como nos dizem sobre aquela pessoa que não valia a pena mas na qual insistimos. Alguns cedem ao "tens razão". Outros  moderam as expectativas, aprendem a viver assim e, outros, simplesmente desistem. Afastam-se, intoxicados, e passam a fazer parte do grupo dos "eu bem te avisei". 

Nos media sociais não é tudo mau, mas quase. A Essena O'Neil percebeu isso e, subitamente, mudou por completo a sua perspectiva. Mais do que as lições e ilações teóricas que daqui possamos retirar, importa perceber o movimento que se vem criando em torno de um certo retrocesso sem que tal signifique, verdadeiramente, um regresso ao passado. A Kate Winslet, mãe de 3 filhos, apela ao uso do monopólio. Também eu acho que os dispositivos digitais podem ser excelentes ferramentas de aprendizagem, mas não podem subsitituir-nos e substituir a criatividade da infância, que lhes permite brincar ao faz de conta e subir às árvores como quem sobre ao Empire State Building. 

É a mesma Kate Winslet que se arriscou sem maquilhagem numa selfie que correu mundo para combater esta tendência de #bodyhating que por aí anda. A Essena, ao pé de mim e da Kate é uma miúda e é de louvar a sua tomada de consciência. Passou horas da sua juventude em frente ao espelho, reflectindo-o nos ecrãs para projectar uma vida perfeita quando todos sabemos que a vida não é assim. Mas, como nos filmes, deixamo-nos enganar. A diferença é que um filme dura aproximadamente 90 minutos e estas vidas desfiadas no instagram podem durar décadas. No mínimo.

A Essena apela agora, no website que criou para o efeito, a uma tomada de consciência em relação aos efeitos negativos dos media sociais (way to go girl!). Acima de tudo, critica a excessiva edição de imagem para provar o nosso valor ao mundo e sermos definidos pelos números que esse "mundo" regista. A maquilhagem, as tendências, o corpo esbelto, o cabelo louro... estereótipos que se acumulam e espelham aquilo que apenas uma tiny bit consegue. Há muitas louras, muitos cabelos compridos, muitas esbeltas, muitas com as últimas tendências, muitas maquilhadas. Tudo junto, numa só? Há poucas. E essas, alimentam ideias artificiais sobre aquilo que cada um deve ser. Acima de tudo, sobre a fantasia da vida online. Como explica, e bem, "when you stop comparing and viewing yourself against others, you start to see your own spark and individuality. Everyone has love, kindness, creativity, passion and purpose. Don't let anyone sell you something different". É isto. E aplica-se a todos nós.

 

#bodyloving #bodyimagemovent #consciousness

Escandalosamente escandaloso. O amor.

O escândalo que é amar.

Gosto (muito) de assistir aos episódios da série norte-americana Scandal, não só por ser escrita pela Shonda Rhimes e isso significar, quase sempre, uma história plena de romance, mascarada de qualquer outra coisa, mas porque o Scandal é, de certa forma, a história de amor que todos queremos viver. Não por ser um amor proibido mas, antes, por ser um amor capaz de derrubar preconceitos, ideias  e estigmas. Um amor intenso, inadiável, com tudo para correr mal e, no entanto, capaz de sobreviver a todos os ataques, ao tempo e a tudo aquilo que está contra a sua natureza. 

É assim o amor de Fitz e Olivia. Vai contra todos os estereótipos sociais e do próprio romance no grande ecrã: ela é negra, poderosa, jovem, bonita e com grande sucesso profissional. Ele também é mais jovem do que habitualmente acontece nestas estórias e isso provavelmente contribui para o sucesso da série. Há, aliás, um aparente pequeno pormenor que me deixa muito curiosa... Entre tantas e árduas tarefas, tamanhas preocupações e conspirações, como é que o Fitz tem tempo para manter aquela forma física invejável? Ela, sabemos, alimenta-se de pipocas e vinho tinto....

São apenas detalhes de uma estória recheada de inverosimilhanças que nos fazem sonhar. Quase acreditar que "yes, we can" e que, no amor, tudo é possível. São também esses pormenores que nos obrigam a ficar colados ao ecrã - seja lá ele qual for - em versão legal, pirata ou assim-assim.  Ou, há falta de melhor, quando nos deleitamos com os vídeos que vão sendo partilhados no Facebook e no YouTube.

Scandal conta-nos uma estória única, cheia de mentiras, traições, insanidades, amizades e inimizades, revelando o pior da natureza humana. Talvez seja por isso mesmo que a narrativa é tão boa. Revemo-nos em cada pormenor, a cada fracção de segundo daquelas estórias habilmente encaixadas umas nas outras, interligadas e interdependentes, com algo que nos faz identificar. Não somos gladiadores mas invejamo-los. Não faríamos um quinto do que muitos já fizeram ao longo das várias temporadas, mas não ficamos escandalizados. Porque tal quando Pope diz que alguém tem de ser "relatable" e "just like regular people", sabemos que nenhum deles é "regular people" porque nenhum de nós também o é. E é isso que nos predispõe, é isso que nos motiva e interessa numa estória que se designa, ela própria, por ser um escândalo.

Para quem (ainda) não conhece, está disponível em Portugal.

#love #scandal #tv

The devil's in the details

mesmo que muitas vezes digamos que o que interessa é o sentimento...sejamos sinceras, nada melhor do que ser surpreendida com uma prenda.

Nao. Não. Não.

Definitivamente, não é por aí. Embora também seja. O que eles não sabem é o quanto nos rimos, em surdina, com a repetição dos clichés que teimam em não abandonar e que afastam mais do que aproximam. Primeiro, nem todos os homens são de dar prendas. Segundo, são poucos os que conseguem um grau de atenção e detalhe capaz de ouvir, perceber e registar para, então, surpreender. Terceiro, também não há muitos com a generosidade de dar de si, materializando esse comportamento e atitude. Posto isto, o melhor é estarem quietos e deixarem-nos tratar do resto. Que é o que, invariavelmente, acontece. Mesmo quando exibimos, orgulhosamente, algo que namoramos, escolhemos, compramos e nos deixamos convencer que foi tudo obra dele. Não foi. Se têm um capaz de o fazer, conservem-no. Poderá não ser o melhor namorado mas será sempre alguém que gosta de nós. Isso, não tem preço. Porque as melhores prendas não se compram. Os melhores presentes são aqueles que nos dão aqueles que sabem tudo sobre nós mesmo quando nada dizemos. Os que nos adivinham as cores, formas e feitios, que terminam as nossas ideias, que não compram nada e nos dão mais do que aquilo que existe nas lojas.

Diz o artigo que há 12 prendas que uma mulher deseja receber pelo menos uma vez na vida. Talvez seja verdade. Antes de perceber o que é a vida. Depois, opta por se mimar e deixar de esperar que ele lhe ofereça o que quer que seja.

Uma jóia? Sim. Se for um anel de noivado, embrulhado sem os eternos bolos e restantes subterfúgios das comédias românticas, se for um acto de amor e não um apontamento no calendário, então sim, uma jóia como está poderá fazer derreter o mais duro dos corações.

A carta de amor foi substituída pelas sms com a palavra "amo-te", corações nas fotografias do Instagram e emojis apaixonados para terminar uma mensagem no Whatsapp. Já não conhecemos a caligrafia uns dos outros - e a caligrafia diz tanto sobre cada um de nós - por isso sim, uma carta pode fazer toda a diferença. Ou a eterna rejeição.  

 

As velas... As velas são uma manobra perigosa, equivalente a uma sala cheia de balões aos corações... É bonito, incendeia a alma e... Pode incendiar tudo o resto. Inspirem-se em coisas mais modernas, como a Samantha Jones cobertura de sushi.

 

Fim de semana romântico um presente? Não. Fins de semana, dias de semana ou semanas inteiras para namorar são noblesse oblige.  

 

Tarefas domésticas? Como um presente? Uma recompensa? Não. Mesmo. As tarefas dividem-se. Não se presenteia mulher nenhuma fazendo aquilo que supostamente é da sua responsabilidade. Porque não é. 

 

Um álbum de recordações. Giro. Mas altamente improvável. Vamos guardar Qr Codes, print screens das reservas de hotel ou dos talões de embarque adicionados à wallet do smartphone? Mandamos imprimir tudo o que comemos, visitamos, exploramos e que publicamos nos sites de redes sociais? Pois... 

 

Lingerie sexy. É giro. Mas todos sabemos que eles preferem sem. Lingerie. 

 

"O" concerto. Estamos, finalmente, no bom caminho. Já dizia o Rui Veloso... "Não se ama alguém que não ouve a mesma canção"... 

 

Pequeno Almoço na cama... Um clássico que fica sempre bem, especialmente se, depois, continuarem na cama. Se, mais tarde, ainda na cama, mandarem vir pizza para matar a fome e dormitar em conchinha, todo o dia, entre uma e outra coisa, televisão sem som a debitar notícias, música a tocar, som tão baixo quando o volume dos nossos pensamentos que se limitam a estar ali. No momento.

 

Uma noite no hotel. Sim! Juntamente com o tal fim de semana romântico? True must have. 

 

A mensagem no espelho da casa de banho? De preferência no hotel, depois daqueles banho prolongados e, digamos, apaixonados... 

 

Uma cena romântica. Sem cenas românticas não há namoro ou relação. Se ele cozinhar para nós... Isso é perfeito e prova que afinal, as prendas são todas as que eu disse: sem preço... 

Faz o que eu digo. Não faças o que eu faço.

Fazer um filho é fácil. Ter um filho, às vezes também. Criar um filho? Muito difícil. 

É tudo tão maravilhoso quanto perigoso e terrível. Não faltam crónicas de mães e pais que (ainda bem) desistiram do politicamente correcto que quase nos obriga a dizer que é uma benção ter um filho. É. Não tenho dúvidas. Mas também é difícil e desgastante. Gosto de ler os depoimentos mais ou menos inflamados sobre parentalidade verdadeira. Crua. Porque esta, também é feita de fraldas que cheiram muito (mesmo muito) mal, de pés que depois de lavados continuam a ter aquele cheiro a sapato, de feitios que não se cruzam e nos testam ao limite, de refeições infindáveis repletas de afirmações mais ou menos inflamadas, e dos dias em que o mundo - o nosso mundo - se pinta de cor-de-rosa com um sorriso deles.

Admiro as mulheres que se dedicam exclusivamente aos filhos. Não as invejo, de todo. Acho interessante que isso aconteça, numa época em que a mulher conquista cada vez mais poder. Uma espécie de contra-poder, regresso às origens e ao tempo das mulheres que eram mulher de alguém e mães de família. Acho bonito e romântico, mas não me revejo, como também não defendo a super-mulher (que quase todas somos) equilibrando estoicamente três - ou mais - vidas em paralelo: a sua, a deles e a nossa, representando-se a si e à família, gerindo os diferentes contextos com igual responsabilidade e dedicação. A essas, tiro-lhes o chapéu. Tiro-me o chapéu porque muitas vezes - tantas vezes - é muito difícil. Depois, só queremos uma cama com lençóis lavados, olhamos durante os segundos a vida a acontecer lá fora e adormecemos. Independentemente de tudo. Ou do mundo acabar no minuto seguinte. Chama-se cansaço. 

Não gosto de viver assim e, por isso, fiz opções. Opções que nem todas as mulheres podem fazer, porque não acumulam cargos mas sim diferentes trabalhos para, no final do dia - longo, quase interminável - poderem garantir que o mundo - aquele pedacinho que têm na sua casa - continua a girar.

As crianças aprendem mais por imitação do que através do que lhes dizemos. Foi duro ver a minha filha imitar-me. Não com os apetrechos da cozinha para preparar uma refeição ou qualquer outro acessório verdadeiramente doméstico, mas com um telefone na mão e um computador portátil debaixo do braço, planeando e discutindo temas que desconheço, numa atitude tão ou mais adulta do que a minha. Achei graça mas foi o momento em que me vi ao espelho. E que coloquei travões a fundo para transformar aqueles momentos em que estamos juntas em tempo de qualidade, interrompendo-o apenas para tarefas domésticas (porque tem de ser a mãe a fazer,  muitas vezes com a sua ajuda ou, simplesmente, companhia) ou para conversar ao telefone com as tias e os tios, com quem também ela aproveita para falar ou enviar "muitos beijinhos".

Os anos passam demasiado depressa e nada justifica este tempo que perdemos sem eles. As crianças que escolhemos ter. Es co lhe mos, notem bem. As cenas horríveis que fazem são, invariavelmente, culpa nossa. Nem sempre por falta de atenção. Muitos resultam de pura imitação. Muitas vezes temos comportamentos altamente criticáveis que eles - os miúdos - aprendem rápida e facilmente. E, depois, sobra para nós, que os queremos certinhos e direitinhos sem partir um prato. Porque dá mais jeito. Mas essas, não são crianças, são autómatos.

A minha Rita fala muito. Tanto que às vezes ligo o piloto automático, ouvindo uma palavra aqui e outra ali, para não perder o rumo da sua conversa (estória seria mais adequado). Nestas estórias que inventa para si reside o segredo da coisa: às vezes deixo-me estar atenta (escondida no corredor) à sua conversa. No quarto, parece que desenvolve uma estória entre bonecos quando, na realidade, recria a realidade que conhece, imitando-me na perfeição ou trazendo, para o seu quarto, o que acontece na escola. Nestes curtos momentos consigo saber mais sobre o seu dia-a-dia do que em qualquer conversa que tenhamos sobre o tema, e muito mais do que quando os bombardeamos com perguntas traiçoeiras sobre esse reduto impenetrável que é a escola. 

Eu sei que deveria ser melhor - podemos sempre ser melhores, na verdade - mas este auto retrato é fantástico para nos posicionar. Para sermos capazes de olhar, fora de nós, e percebemos quem somos. Ou, pelo menos, que imagem passamos para os nossos filhos. É um exercício que recomendo porque, com a pressa com que passámos a viver, na maior parte do tempo esquecemo-nos das coisas mais simples. Uma delas, é dar o exemplo.

#fortiesrock. You bet!

Já aqui escrevi sobre os quarenta, a sociedade e cenas e não sei o quê [ler]. Mas acho que não escrevi sobre o meus quarenta. Aquele dia em que passaram a chamar-me quarentona e achei graça. Aquele momento em que não senti diferença nenhuma entre o antes e o depois.

Quando passei a barreira para os vinte senti-me a maior. Finalmente. Quando dei por mim eram trinta e essa década demorou a passar. Aconteceram tantas coisas que me parecia que jamais chegaria aos quarenta. Não que tivesse pressa ou os quisesse retardar mas, confesso, cheguei aos quarenta cansada, com vontade de parar. Ou fazer rewind. Em qualquer um dos casos, não é possível. O marido, o filhos, o trabalho, o cão, o gato... sei lá mais o quê. Responsabilidades, dizem. Parar até seria possível mas depois cansar-me-ia de estar parada. Saberia estar parada? E rewind? Seria justo andar para trás sabendo tudo o que sei? Não é a vida uma infindável supresa e essa surpresa o melhor que levamos dessa mesma vida? Seria justo - até para nós - sabermos o que aconteceria quando temos de escolher entre várias opções?

Não. A resposta é simplesmente não. Não seria justo. Ou seria, mas muito enfadonho. Porque a vida é feita de avanços e recuos, certezas e incertezas. Saber sempre como será o dia de amanhã destrói tudo isso. Não tenho medo da mudança. Menos ainda de mudar.  De não saber o que, ou como vai ser. Gosto apenas de um bocadinho de rotina para saber a que horas vou buscar a Rita à escola ou quando posso treinar mas, tirando isso...

Talvez por essa razão a idade não me assuste. Assusta-me o que a idade pode trazer - que dispenso - e, por isso, já comecei o processo de retrocesso. Pela saúde. Mobilidade. Bem estar. Rugas? Fazem parte. Quem não gostar, não olhe.

Foi uma festa bonita. 

Descobri um local novo, a estrear e que, com a senha certa, abriu as portas a quarenta ladrões.

Encontrá-lo é quase como procurar uma Agulha no Palheiro(*) porque é difícil encontrar sítios assim, que nos recebam como se estivéssemos em casa, que sirvam como se tivéssemos sido nós a preparar, que estejam atentos aos detalhes como a governanta perfeita, que não deixem copos vazios ou espalhados, que reponham tudo e nos surpreendam a cada prato, que circulem sem notarmos a sua presença, que se integrem como se fizessem parte da festa. Porque sem eles, também não havia festa. 

Tive a sorte de conhecer estas pessoas no momento certo e de poder contar-vos esta aventura de celebrar quarenta anos aqui, neste espaço que já não é só meu e que é, cada vez mais, daqueles o acompanham.Que cobram quando não escrevo, quando não envio o Friday Digest, quando lhes parece que não estou lá. Mas estou. Mesmo quando dou folga à super-máquina-fotográfica-disfarçada-de-telefone e deixo a tarefa de registar o que se vê, e o que fica por contar, entregue à minha grande amiga e excelente fotógrafa Gi (Georgina Noronha).

Nasci no mesmo dia da minha Mãe e isso, torna este dia sempre muito importante. Este ano tive (tivemos) direito a uma tarde muito especial, especialmente para mim, que há muitos anos não me metia numa destas. Recheada de abraços e sorrisos rasgados, sentindo que há pessoas de quem gosto muito que me retribuem de forma igual. E mesmo aqueles que não estiveram porque estão longe - e são cada vez mais mais - também lá estavam. Porque a amizade não se mede ou se perde na distância.

(*) Agulha no Palheiro é o nome de um novo spot em Lisboa. Que vocês não vão querer perder. Conto tudo quando abrir...

Endless Summer 💙

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Algures, numa praia, um menino dá à costa enquanto, aqui, nos dividimos entre o que queremos e o que tem de ser. Entre os que nos pedem e o que nos exigem, com a culpa de não aproveitar cada minuto e cada instante, como se não houvesse amanhã. Porque o que aconteceu ali, pode muito bem acontecer aqui...

Mesmo que pensemos sempre que não...

Estas são pequenas estórias daqueles dias que não são uma coisa nem outra. Que trabalhamos com uma mãozinha que nos puxa a camisola para brincar, que usamos e abusamos do telefone para escapar ao computador. Que somos mães, que queremos ser apenas mães e gozar o tempo com eles, aqueles dias em que ainda não há escola e, alguém do outro lado, os pergunta porque razão o relatório ainda não está pronto... 

Ser mãe não é apenas isto, mas é muito isto. Não conheço académicos ou freelancers que partilhem estados semelhantes. Talvez não partilhem. Talvez seja apenas isso e estejam, também, entre uma coisa e outra sem serem nenhuma de verdade.  São sempre elas. Talvez porque elas gostem mais de falar. De se expressar.

Porque quando a atenção se dispersa, não estamos - não somos - nem uma coisa nem outra, com toda a ansiedade e más vibrações que isso acarreta. E, tudo o que queremos, é apenas o melhor de dois mundos...

 #workingmom #summertimebyurbanista #love