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Instagram. Us and them.

Comecei por sorrir. Depois, comecei a rir. A seguir soltei uma valente gargalhada quando me vi ao espelho. Já não me lembro do último cappuccino que bebi sem antes, o ter fotografado. Mea culpa. O melhor de tudo, quando um vídeo destes nos confronta com os nossos próprios vícios é conseguirmos sorrir quando ele - o Instagram husband que, na verdade, é só husband e não nos fotografa propositadamente para um artigo sobre o tema - nos diz que o cappuccino está lindo. E afirma, em seguida, num tom interrogativo, se não o vamos fotografar. Não íamos. Porque tínhamos fotos de cappuccinos que chegariam para alimentar a conta do Instagram durante um mês sem voltar a beber um cappuccino; porque controlamos razoavelmente as vezes que o impedimos de comer (ou beber) para fotografar; porque decidimos estar de folga; porque não nos estava a apetecer. Porque. E, perante a interrogação, exclamativa, puxamos do telefone para, habilmente, escolher o ângulo e fotografar mais um cappuccino. Esta é, para mim, a melhor cena do vídeo. Porque admito já ter feito a mesma figura, impedindo a outra pessoa de comer, para fotografar. Porque está bonito. Porque poderá ser útil. Porque sim, passou a ser mesmo assim. 

 De resto, a caricatura é mesmo isso, uma caricatura que procura levar-nos à razão, pelo absurdo das situações. Homens pendurados em escadas à procura do melhor ângulo? Fotografias em sequências infindáveis por causa de uma bandeira? Não. A fotografia do nada, a qual ele tem, obrigatoriamente, de amar? Menos ainda.

Dependendo da abordagem e do método, no Instagram ou em qualquer outro site desta natureza, devemos depender apenas de nós, com alegres colaborações. Sujeitar o nosso sucesso a quem nos fotografa é injusto e, por vezes, cruel.

A fotografia de hoje aconteceu. E, por isso, tem graça e valor. Fui apanhada a fotografar o cliché da estação do Oriente: os arcos em metal, com o reflexo da luz do sol. Uau... Que original.... No entanto para quem, como eu, viaja mais de avião do que de carro, e mais ainda do que de comboio, teria a sua graça. Por isso, escrevo sobre o tema.

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Os maridos do Instagram vieram substituir as viúvas do golf, as solitárias do surf ou qualquer outro tipo de categoria que associe um casal a um hobbie. O dele. Não só o Instagram contribui para inverter os papéis como, de certa forma, os posiciona como durante muito tempo nos pocisionaram a nós: um acessório de uma relação centrada neles. Esta inversão não estará correcta mas, efectivamente, quem boa cama faz, nela se deita. Pese embora uma relação dependa de respeito e equilíbrio, não lhes faz mal nenhum sentirem, de quando em vez, que são o nosso selfie stick pessoal, inimitável é insubstituível. Mesmo que seja, apenas, para as fotos do Instagram.

Assim?...

... Assim também eu!...

Estas fotos são prova de que mentimos (muito) no Instagram (Dinheiro Vivo)   

Estas fotos são prova de que mentimos (muito) no Instagram (Dinheiro Vivo)

 

Mentimos muito. Nunca foi diferente. A diferença é que agora, mais pessoas podem ver, apreciar, mostrar que gostam. Antes limitávamos a exibição ao nosso núcleo de amigos. Agora, alargámos esse núcleo - que deixou de ser núcleo (que se define por ser a parte principal) e passou ser... quem estiver na rede?... Ou quem estiver nessa rede? 

Não é bom. Não pode ser bom. Mas dá um gozo desgraçado ver os likes - dos amigos e dos outros que não sabemos quem são - sucederem-se um após o outro. Liberta endorfinas. Causa dependência. O chocolate também, mas isso já sabíamos, não é?

Quem publica não o faz só para si, caso contrário teria uma conta privada e não aceitaria que outros partilhassem esse espaço. Isso contraria a razão de ser destas novas formas de interação social a que chamamos redes sociais online. E que só diferem das outras - as redes sociais, aquelas que se constroem através da interacção social - porque a plataforma através da qual interagimos é outra. Quer queiramos, quer não, faz toda a diferença. Dizemos mais e de formas muito diferentes, assumimos personalidades que não são as nossas, transformamo-nos em cães de fila prontos a atacar mas, também, pessoas mais altruístas sempre disponíveis a partilhar e a, efectivamente, ajudar. Somos nós e o outro em simultâneo. O meu eu confunde-se e mistura-se hibridizando-se à medida que circula, fluídamente, na rede. Somos quem somos, quem esperam que sejamos e quem queremos ser. 

Não sei como começou - até sei, mas não quero ir por aí - e menos ainda sei como vai acabar. Temo que não acabe bem. Por outro lado, este "temo que não acabe bem" parece um discurso de um "velho do Restelo" que não fica bem a quem lida diariamente com a tecnologia. Que se adaptou e migrou para este contexto digital, intercalando o cá e o lá como se ambos fossem apenas um só. Descontando em cada palavra e imagem aquilo que todos sabemos ser o filtro que as redes em si, representam...

Posto isto, estou oficialmente de mudança. Para o Snapchat.