friendship

Story of the week: amizade, acima de tudo

As histórias mais bonitas começam quase sempre cm "era uma vez"... As amizades e o amor não começam assim mas acabam por se explicar desta forma. Por isso, a propósito de ostras descobrimos que a amizade já lá estava sem, realmente a termos reconhecido. Amizade em potência, potenciada pelas ostras e o sabor do Tabasco...

Para ler, aqui 

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Potenciar a amizade....

Foto:  FotoGInica

Um dia ouvi falar sobre uma pessoa. Chamavam-lhe o Noronha, num tom que misturava o respeito, a admiração, a raiva e um certo receio... Normalmente ouvia-os dizer o "cabr** do Noronha", seguido de uma frase. Fiquei anos intrigada sobre esse tal Noronha. Um dia vi-o ao longe, ao fundo do corredor, a conversar com outros membros da minha equipa e pensei que aquele era, então, o tal Noronha. Sei que o prefixo estava associado ao facto desse fulano, o Noronha, não fazer as vontades a todas as pessoas e, menos ainda, satisfazer caprichos.

Decidi não me envolver.

Nunca sei muito bem o que pensar das pessoas que me aparecem associadas a prefixos ou sufixos. Eles são sempre filhos da m**. Nunca sabemos se por serem pessoas retorcidas ou aqueles fulaninhos prontos para nos saltarem para cima se pestanejarmos duas vezes seguidas.  Elas são sempre a Maria, uma filha da P***... Também ficamos sem saber se são apenas pessoas de feitio difícil ou se, realmente…

Anos mais tarde, conheci a Noronha que, por acaso, era irmã do "tal" Noronha. Fiquei encantada por conhecer um membro da família que não trazia prefiro ou sufixo associado, e que me poderia ajudar a perceber a razão do sufixo do outro. Tudo mudou quando ela me disse que o Noronha - esse Noronha - temido ou admirado, mas nunca ignorado - lia o meu blog. Os blogues estavam na berra e o meu era relevante para um determinado grupo de pessoas…

Se o Noronha seguia, lia e gostava do blog, então concordaria comigo em muitas das questões que eu abordava. Ou seria apenas para poder criticar? Há pessoas que o fazem, seria o Noronha assim? 

Um dia conheci-o. Não percebi o prefixo... Falámos do blog. Rimos. Conversámos sobre tantas coisas que nos aproximavam e, quando dei por isso, éramos amigos. Aquelas amizades boas, genuínas, a quem podemos mandar à fava sem que se acabe o mundo, ser muito gaja e ter conversas de gajo, ou falar de cenas de gaja, como ele gosta de afirmar. Como a Noronha, também o Noronha é como um irmão mais velho, daqueles a quem não precisamos telefonar todos os dias e que, quando nos ouvem pedir socorro, correm em nosso auxílio.

Há apenas um problema entre nós: a gastronomia.

O Noronha gosta de uma boa refeição. É um bom garfo, adora pratos condimentados o que, para mim, pode ser um problema…Com ele descobri a muamba em almoços pouco requintados, bem regados e extremamente divertidos. Uma vez por mês reunia amigos à mesa com dois elementos na ementa: muamba e boa conversa. Conheci pessoas fantásticas cujo rasto não perdi, embora os almoços tenham acabado. Foi também por almoços destes que experimentei coisas que, de outra forma, jamais... O Noronha é Goês, nascido em Angola, a viver em Portugal há 40 anos. A sua história tem resultados explosivos à mesa. Tudo natural para ele, transcendental para mim. Um dia, muito tempo depois da muamba, dos almoços em que quase desfaleci no Jesus é Goês, de me sentir alcoolizada com almoços ligeiros em restaurantes tailandeses, para acalmar a intensidade dos sabores, dei por mim a partilhar um frasco de Tabasco porque precisava potenciar o sabor da carne. O Noronha riu que nem um perdido!

Eu tinha sido convertida. 

De facto, não há como uma boa refeição parapotenciar uma amizade.

Arte

Confesso: gosto muito destes actores. E ainda gosto mais do texto da peça, por isso, escrever sobre a Arte que estreia esta semana no Teatro Tivoli é um prazer. 

A produção é da UAU e recupera o sucesso de 1998 e 2003, com novo elenco e encenação. O facto de já ter estado em cena não significa que perca - nunca irá perder - a actualidade.  Ou a qualidade. A história é simples: três amigos e um quadro branco. Poderiam ser os nossos amigos porque todos já vivemos situações destas ou tivemos conversas semelhantes.

Tudo se resume a uma questão muito simples, debatida à exaustão: o valor da amizade. Contudo, mais do que a amizade, é principalmente sobre o conto clássico "O Rei Vai Nú". E, da mesma forma que não sabemos como dizer a uma amiga que o corte de cabelo lhe fica mal, muito mal, também não sabemos dizer a um amigo que aquele quadro é branco. Uma tela igual a tantas outras que estão à venda nas lojas. Branca. Sem uma linha. Ponto de cor. Mesmo que não seja isso que o nosso amigo, aquele amigo, esteja a ver. Ou queira ver. Quem nunca?...

Aproveitámos a oportunidade e conversámos com os actores sobre a peça mas, sobretudo, sobre o poder da palavra, da verdade, da mentira e da omissão...

Até depois do fim

Pensei uma, duas, várias vezes antes de publicar este texto. Não tem imagem. Infografia, elementos multimédia. Tem apenas as palavras que escrevi naquele momento. Porque em momentos assim, não consigo falar. Articular uma palavra. Remeto-me ao silêncio. Escrevo. 

Publico porque esta será a única forma de poder fazer duas coisas: homenagear um amigo; dizer-vos que a vida é para ser vivida, que todos os momentos contam, que temos de encontrar o nosso propósito, vivê-lo intensamente e não aceitar não sermos felizes. 

O que hoje publico não tem qualquer revisão ou edição. Porque não se podem editar sentimentos ou escolher palavras quando os queremos exprimir.

 ao meu amigo que morreu

 num momento, tudo muda. A frase está esgotada, por ser verdade. Num instante estamos a rir e a discutir o futuro. No outro...

Toca o telefone. Vindo de quem vem, esperamos coisas boas. Perguntam-nos se estamos sentados. É algo em grande e estão a fazer suspense. Não era. Era grande, a má notícia. Não há forma correcta de dizer que um amigo morreu. Que teve um acidente vascular cerebral fulminante. Não há reacção. Palavras. Nada. Nada serve para responder. Não há resposta. Não há reacção. Não há forma de descrever, por gestos, palavras ou expressão o que sentimos nesse momento. É o chão que nos sai dos pés quando estamos com os pés no chão. É o mundo que pára enquanto, à nossa volta, tudo continua a acontecer. É um sinal com uma mão, olhos no chão e voz descompassada que faz com que quem está ao nosso redor perceba que algo aconteceu. É não acreditarmos porque não se acredita numa coisa assim. É não conseguirmos processar o significado técnico do que nos dizem, porque sabemos o que significa a morte. Quando morre um grande amigo, morre um pedaço de nós. Todos temos amigos mas uns, são mais amigos do que outros. Não precisamos falar todos os dias porque não deixamos de ser amigos. Neste momento em que só quero o meu amigo de volta, estou a imaginá-lo deitado, inanimado, corpulento mas sem forças, o rosto alegre sem expressão, com tubos que o ligam à vida, adesivos e agulhas que o tornam ainda mais humano do que alguma vez foi.

Todos os filhos da P*** são fantásticos quando morrem, mas este não só não encaixava na definição como era mesmo fantástico. Filho da P*** só por morrer sem pedir autorização, mais nada. Tinha defeitos. Todos do mundo. Mas era uma pessoa muito especial para mim. Mesmo que estivéssemos no registo do "depois falamos", "liga-me", "temos de combinar", eu sei que estávamos à distância de um telefonema e que um "preciso de ajuda" jamais ficaria para depois. Fomos tão próximos que parecíamos namorados mas éramos, na verdade, dois irmãos. Daqueles que se esgadanham e chamam nomes um ao outro, porque gostam e se respeitam genuinamente. Mesmo quando parece que não. Lidámos como soubemos com as ciumeiras dos namorados e namoradas que não entendiam que poderíamos ser bonitos e não nos sentirmos atraídos um pelo outro. Fomos a prova de que um homem e uma mulher podem ser só amigos. Foi isso que formos desde o dia em que nos conhecemos e, por isso, foi tão bom. Foram anos e anos de aventuras, cumplicidades e segredos. Como eu ficava lixada quando não tinhas tempo para ouvir os meus lamentos sobre os gajos que me atormentavam. Valeu-me a tua mãe, fiel conselheira, que me ouvia sempre que não estavas em casa. Quantas vezes nos deixávamos ficar, entre apontamentos e trabalhos a comer os crepes da minha mãe ou o pão com chouriço do meu pai. Não fosses tu, nunca tinha ido à rádio. Àquela rádio, naquele dia. Não fosses tu empurrar-me porta dentro, mentindo com quantos dentes tinha, afirmando que estavam à minha espera e que queriam conhecer-me... Nunca teria lá ido e, provavelmente, não seria quem sou. Como não estar grata por isso? E por tudo o resto que me deste, as gargalhadas e parvoíces. A paciência para aturar as tuas vaidades e manias. Coisas que só os amigos entendem ou toleram. Mesmo que nos tenhamos afastado sob o argumento de que a vida é assim, andámos sempre perto, debaixo de olho para sabermos se o outro estaria bem. Porque sempre foi isso que quisemos um para o outro, independentemente dos nossos caminhos profissionais não se cruzarem. E agora? És mesmo estúpido. E desta vez não consegues fazer-me rir.

Até já. Adeus é demais.

Nem sempre a música é apenas música...

Que gosto de música, já se percebeu. Que adoro concertos e festivais, também.

Contudo, mais do que a música, cada vez gosto mais de olhar, ao longe, os detalhes, sentir o pulso ao espaço, às pessoas, andar nos bastidores e perceber tudo o que faz parte de um evento destes.

O melhor, para quem não sabe, está atrás do palco. Quando o artista é bom, à frente do palco é que se está bem mas, garanto, passam-se grandes dias lá atrás. Mesmo com pó. Com o sol que torra e o calor de Agosto. Todos os grandes festivais de música têm as suas características e pormenores. Em todos, são as pessoas que os definem. Porque, afinal, um festival de Verão é feito por pessoas. Para outras pessoas. Não é assim, também, na rádio? É. Talvez por isso, estejam estes eventos em directa relação com a rádio. Os maiores são organizados por aqueles que, decididamente, são da rádio. O que faz toda a diferença. Só quem é da rádio, pode perceber.

O Nos Alive é, para mim, o melhor festival urbano que conheço. Mas a vibe do MEO Sudoeste, essa, ninguém lhe tira. O facto de ser no Alentejo, de nos obrigar à deslocação, de nos retirar da nossa zona de conforto, já faz deste evento algo especial. Porque só vamos se quisermos mesmo ir. Não está "já ali", com transportes à porta e a conveniência que nos permite sair do emprego e ter uma noite recheada de boa música. Amigos. Loucura. Muita. E da boa.

Estive em pleno Alentejo para sentir a diferença. Andei pelo recinto, vi pessoas a chegar, malas, sacos, mochilas, tendas. A montarem o seu espaço. A curtirem a ideia de estarem acampadas, em comunhão com a natureza e os mergulhos no canal, água fresca e limpa, o sol a escaldar. Almocei com aqueles que são fundamentais para que tudo esteja no sítio e corra bem. Comi como uma princesa, no meio do nada. Terminei o dia a bordo de um autocarro para ver um pôr do sol, como só o Atlântico pode engolir, com música, álcool e a tribo Sudoeste aos gritos, a cantar de alegria e a contagiar todos os que passavam. Deixei-me contagiar e ouvi o meu nome em ovação. Por vezes, basta darmos um bocadinho de nós para transformar, mesmo que por breves minutos, o mundo de alguém. Conheci a M, a quem prometi ajudar. Porque não faço promessas que não posso cumprir. Porque a sua história me tocou. Porque a abracei de forma genuína, quando todos cantavam, gritavam. Dançavam. Sem noção de que, mesmo num momento tão bom, que partilhávamos, há coisas que merecem ser contadas, conversadas e desabafadas. Acho que recebi mais do que dei, pelo pouco que aprendi. Só por isso, aquele abraço foi uma promessa. Porque as mulheres são tantas vezes tão más umas para as outras que, quando se abraçam, isso não pode ser menosprezado. Não foi.

Para mim já acabou e volto a Lisboa cansada, mas feliz.

 

#summertimebyurbanista #meosudoeste #sunset