feminismo

Liberdade. Freedom.

Sobre a liberdade e outros predicados, muito haveria a escrever. Sobretudo, o facto de não pensarmos sobre essa liberdade e a realidade de sermos livres. Ou quase livres.

Somos livres quando não perdemos um minuto a recordar que podemos pensar ou fazer o que quisermos, quando e como o desejarmos, no limite da possibilidade e da liberdade do outro. Como a felicidade, sobre a qual apenas pensamos na sua ausência, incapazes para reconhecer aqueles momentos em que somos, de facto, felizes. O que é diferente de ser - ou estar - grato.

Por isso, hoje tenho de reconhecer a liberdade e a gratidão: posso pensar e escrever o que quero, na forma e no momento em que o faço, limitada apenas à auto-censura que a auto-expressão supõe. E, se me apetecer gritar sem filtro, posso fazê-lo. Sem que as consequências ultrapassem a crítica e o julgamento dos meus pares ou da sociedade. Diferente de um local chamado Tarrafal.

Sou livre para viajar sozinha, criar o meu negócio, vestir-me como entender e expressar-me na comunicação social. Sem pedir autorização ou justificar as minhas opções. No limite do respeito por aqueles com quem decidimos partilhar a vida e amar, nada mais nos obriga - a nós mulheres - a explicar o que fazemos ou porque fazemos. A isso chama-se liberdade, cidadania e igualdade. Não fomos apenas nós, as mulheres, as cidadãs de segunda. Os retornados - alguns dos quais não retornaram a nada porque nem cá nasceram - também assim foram catalogados, muito embora o estatuto tenha sido modificado ainda durante o regime. A discriminação existiu e persiste, ainda que a Lei e a sociedade assobiem para o lado. Continuamos a usar a palavra retornados num sentido depreciativo para fazer referência aos que saíram das ex-colónias e vieram para a, na altura, metrópole. Também continuamos a achar que as mulheres são diferentes. Nem melhores ou piores, mas diferentes. Chama-se discriminação e aceitamo-la mais do que deveríamos.

Juridicamente, a mulher hoje está protegida, contudo, muito ficou por fazer no movimento revolucionário de Abril, que abriu portas a um novo olhar sobre o papel social da mulher, reconhecendo-lhe direitos que hoje nos parecem óbvios. Antes, a mulher deveria viver para a família, na dependência do marido a quem devia subserviência. Aquilo que tantas de nós hoje fazem naturalmente - como viajar sozinhas ou abrir um negócio - dependia de autorização. Votar era para eles. E era normal. Aceite como um facto, corroborado pela Lei e a prática social, como se, de facto, fossemos incapazes da emancipação que hoje se comprova. A mudança começou em Abril mas é um PREC, um processo revolucionário em curso.

Talk is cheap. Above all, very easy. To be free is not to think about freedom. As happiness isn't meant to be thought about, so does freedom.  We take freedom for granted and we forget to praise it. I admit it more often than I should.

Until 1974, Portugal was a free country without freedom. Individual freedom. Freedom of speech in the media. Thoughts weren't free. Culture and arts were censored. Education was a privilege and even if appeared to be a wealthy and progressive country, in fact, it was not.

Women were considered as second class citizens and one couldn't express himself about the society and the regime without fear. Censorship was considered business as usual and many emigrated to escape poverty, educational standards and political persecution.

April 25th, 1974 is a historical day for several reasons being the democratic revolution the most relevant. For me, one of the most significant improvements is women's rights. I am who I am because someone, someday decided to make a change and acknowledge us as equals, allowing women to vote, to have their privacy (can you believe that husbands were legally allowed to open their wife's correspondence?...), to become businesswomen without any kind of consent and to travel alone without the husband's authorisation. Just the perfect scenario for an independent woman like me, right?.... This is why I started writing this post about being free and seldom freedom. I usually forget the enormous steps we already climbed, moaning about what's still left to do without appreciating the much that as already been done... 

Who run the world?...

... We do. Even if we don't. 

Eles mandam. Nós dizemos que sim e fazemos à nossa maneira. Quando deixam. Como deixam. Quando não deixam? Fazemos à mesma. Ou tentamos. Porque queiramos ou não, o mundo não seria o mesmo sem nós. Mulheres. As mulheres. Todas. Independentemente da sua consciência de género e dos seus direitos. Porque ainda há mulheres que aceitam ser menos do que aquilo que são, têm de existir outras que lhes despertem essa consciência. Porque existem, ainda, mulheres que aceitam todas as formas de violência, outras levantam a voz em sua defesa. Porque muitas também acatam uma condição que não é a sua, outras se erguem para fazer valer os seus direitos.

O facto de ser necessário um Dia Internacional da Mulher é apenas a ponta do icebergue de uma sociedade que se diz moderna mas que continua a achar que o lugar da mulher é em casa, junto ao fogão a tratar dos filhos. A mulher pode viver apenas essa sua dimensão, se assim o desejar, sem ser menorizada por isso. Ou sem a considerarem uma privilegiada que não tem de trabalhar, vivendo às custas do marido. O tempo do progenitor paternalista que sustenta a família acabou e, com ele, terminou também uma época em que o homem tinha o seu papel estabelecido, perfeitamente definido para si e a sociedade. 

Quando nos pediram ajuda, demos. Quando nos obrigaram a assumir diferentes funções e papéis sociais não recusámos e estivemos à altura. Não esperavam que, depois, nos resignássemos à condição que vos era mais confortável, pois não?  

Afinal, se as mulheres foram capazes de garantir o armamento durante a II Grande Guerra, mantendo a família e a sociedade (possível) num período tão negro e conturbado, não esperem menos, desse dia em diante.

Continuamos a falar muito e a fazer pouco. Debates, blogs, programas na televisão e artigos de opinião. Música, filmes ou séries de televisão. O tema espalha-se sem resultados concretos porque muitas mulheres continuam a ser vítimas de maus tratos e violência doméstica; a ganhar menos, mesmo tendo maiores qualificações profissionais e académicas; a viver diferentes glass ceilings em vários contextos da sua vida.

A gálderia e a mulher-homem ainda estão inculcadas em todos nós,  mesmo que o queiramos (muito) negar. Serão precisas várias gerações para as barreiras sociais e psicológicas serem totalmente eliminadas. Especialmente porque somos, ainda, as nossas piores inimigas, minando atitudes, palavras e comportamentos antes, sequer, destes tomarem forma ou acontecerem...

Louca na mesa. Lady na cama.

FotoGInica

FotoGInica

  FotoGInica

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Não é assim, mas eu adaptei. Preconceito à parte, a canção do Marco Paulo conta a história do maior desejo de todos os homens: a boa na cama que também é bem educada. Esqueceu-se de acrescentar ao pacote o efeito mãezinha: a louca na cama que é uma lady à mesa e engoma as camisas a preceito.

Porque, no fundo, é isso que procuram. É para isso que servimos. Ou foi para isso que nos educaram: a garantir o bem estar dos nossos meninos. E quem garante o nosso? Porque quando se habituam a isto, querem sempre mais até ao ponto em que desaparecemos ou nos fartarmos. 

Não somos todos iguais, mas somos muito parecidos. Eles e elas. Quando eles encontram a louca na cama esquecem o resto, até ao momento que precisam de uma canja. Mal da louca se não fizer uma boa canja. Deixa de ser a louca na cama e passa a ser apenas mais uma louca na cama. Em rigor não é assim. Eu sei e vocês também. Mas é um bocadinho assim. Porque nos educaram desta forma. Eles brincam às guerras e elas às casinhas. E, nas casinhas, o Ken é sempre sedutor e a Barbie sempre seduzida. Gosto de ser seduzida, não preciso que os papéis se invertam em absoluto. Até porque, ao longo do tempo foram aparecendo muitas mães como eu, que os educaram a ser independentes e a fazer a canja para elas. Que não precisam de ser loucas. Basta apenas que sejam ladies com uma pontinha de loucura. Gosto de um homem que hesita na escolha da camisa. Que tira uma para vestir e opta por outra. E que não deixa a primeira em cima da cama à espera que se arrume sozinha. Porque não arruma. Ou que não deixa traços e objectos espalhados pela casa, com meias aqui, sapatos ali para, depois, perguntar onde estão as chaves do carro. Ela não tem de saber. Ele que procure. Também.... Não te custava nada! - é a frase que invariavelmente ouvimos.

Não, de facto não custa nada. Custa apenas a diferença entre o momento em que cada um trata de si e o outro, em que um trata de todos. Dos que não sabem cuidar-se e dos que, sabendo, preferem ser cuidados por outrem.  Não resulta. Passa de prazo. Mais cedo, ou mais tarde, acontece uma de duas coisas: a louca na cama passa a ser a louca na mesa. Vira a mesa, deixa de ser uma lady e grita a plenos pulmões. Ou cede na loucura, despeja os copos e os pratos no lava-loiças para, furiosamente abrir a água, deixar escorrer, gastar mais detergente do que é necessário, deixar a loiça secar no escorredor e ficar com uma neura constante cuja origem deixou de ser capaz de identificar.

Quando - e se - me detenho a pensar na - serão nas - razão pela qual nós, mulheres, aceitamos partilhar a vida com vocês, homens, fico muitas vezes sem palavras. Porque não há palavras que o expliquem. Serão certamente decisões de miúdas novas, inexperientes, apaixonadas pela vida e a ideia de viver, sem a menor noção do peso e do significado de cada uma das palavras. Boy meets girl, they fall in love and stay together. É tão bonito, no cinema. Poderia ser, na vida real, não fossem eles - aqueles a quem num determinado momento da nossa vida decidimos incluir na nossa vida - dependentes mimados.

E nem sempre a culpa é das mãezinhas e da ideia maternal de protecção dos seus queridos meninos. É da sua natureza serem uns valentões que não vertem uma lágrima, mas que se portam como crianças numa relação, na partilha do espaço e da vida a dois. Apenas aí porque, no resto, pode ser perfeito. Haja amor.

Men's Roles in a Gender Equality Perspective (ICS)

Men's Roles in a Gender Equality Perspective (ICS)

Na dura realidade em que o dinheiro se conta, existe essa penosa tarefa a que chamamos, exactamente, tarefa. A qual - no caso, as quais - os queridos meninos, seja lá qual for a mãezinha, entendem que não lhes compete. Existem. Vivem aqui e connosco. É mais do que suficiente. A nós compete o resto, incluindo a canjinha quando estão com febre. Mas não. Isto de termos mais deveres e menos direitos tem de acabar.

Até porque isto nos impede de avançar. mesmo que tenhamos melhores resultados escolares e sejamos altamente qualificadas, não deixamos aliviar a pressão social em torno do papel da mulher. Nisto, boa parte da culpa é nossa.

"Se há que encontrar um culpado, é a própria sociedade. As mulheres sentem-se pressionadas, não só pelos companheiros, mas também pela sociedade e pelas empresas. É dado como certo que elas terão maior responsabilidade com os filhos e com a casa", garante Pamela Stone, professora de Sociologia na universidade de Hunter e uma das autoras do estudo ao "El País".

Parte da nossa insatisfação com a carreira resulta desta culpa e a culpa não é deles.  É nossa porque os deixamos colocar a carreira em primeiro lugar. Foi assim que nos ensinaram. Pode, mas não tem de ser assim. Ou pelo menos, sempre assim.

Não é esta a guerra dos sexos. A guerra dos sexos é mais divertida por reflectir o conflito global entre homens e mulheres.

A luta de poder da qual saímos, invariavelmente, a perder. Mas, da qual, não desistimos.

Marie-Sophie Tékian:  https://unsplash.com/mstekian

Marie-Sophie Tékian: https://unsplash.com/mstekian

FotoGInica

FotoGInica

#girlspower #gender #equality

Outras leituras:

Policy Brief: Homens, papéis masculinos e igualdade de género |LER|

What’s life like for women around the world in 2015? |LER|

 

Ponto (.)

Até pode ser parto natural, mas com epidural. E bolos? Também contam aqueles aos quais adicionamos leite e ovos ou isso é batota?...

Já era tempo de sermos menos preconceituosos, críticos, conservadores...

Menos, com menos, dá mais. Ficamos a ganhar!


O prazer do silêncio

by Mallory   Johndrow

by Mallory   Johndrow

Porque há pessoas que não sabem calar. 

Porque há alguns que perseguem o aforismo "falem mal, mas falem de mim" à exaustão.

Porque há alguns que perderam a noção.

A questão não é nova nem se esgota. Ontem brinquei com o tema, hoje cansei-me de o ouvir.

De quando em vez aparece um novo herói que nos escolhe para heroínas de uma história que é só sua. Há uns tempos um tal de Pedro Arroja armou-se em arrojado, lançou uns disparates para a esfera pública e foi gozado de todas as formas possíveis nos sites de redes sociais. Na rua. Ao telefone. Nos media. Para o substituir, Jerónimo de Sousa tentou ser engraçadinho. Não conseguiu, mas andou perto. Opções de candidatos engraçadinhos e populistas? Jamais. Não são capazes de mudar. E o resultado está à vista. Pobre Edgar...

Política e politiquices à parte, creio (espero) que Jerónimo de Sousa não terá tido a exacta noção do que estava a afirmar. Porque a afirmação não era apenas uma farpa ao Bloco de Esquerda e à escolha da sua candidata, cujos resultados, admitamos, foram surpreendentes. A afirmação é triste, antiquada, despropositada e sexista. De facto, revela aquilo que expressou ao terminar a sua intervenção: não mudam e a derrota não os desanima. Mas desanime-se porque de mulheres sérias não verá muitos votos no futuro, para recorrer a algumas das palavras sábias dessa noite.

Quem me lê sabe que não sou de comentar a política, de embandeirar ou embarcar em politiquices mas, não resta qualquer dúvida que esta não é uma questão política. Jerónimo cometeu uma gaffe que o irá perseguir durante muito tempo. Consta que não pensa assim e que o PCP tem sempre os direitos das mulheres em mira. Quem diria... 

Engraçadinha/o é uma forma depreciativa de caracterizar uma pessoa. Pior se for uma mulher. Pior ainda se for num discurso político de derrota em que uma outra candidata - do sexo feminino - se destacou. Mau perder e machismo na mesma frase ficam mal a qualquer um. Pior ainda numa altura (praise the Lord!) em que os direitos das mulheres estão na ordem do dia e as desigualdades (incluíndo as de género) também. Estamos em pleno século XXI e continuamos a não conhecer a numeração romana, trocando a ordem dos números. XXI não é, nem pode ser XIX, muito embora algumas mentalidades tenham cristalizado na passagem do século. Dezanove. Por extenso, para se perceber melhor.

Não somos apenas bonitas ou inteligentes. Podemos ser bonitas, inteligentes, eficientes. Com piada e chamando à atenção de uma grande audiência. Isso não faz de nós engraçadinhas. Ou populistas. E, se fizer de nós populistas, so what? 

As pessoas também se definem pela sua aparência e esta é determinante em muitos cargos e profissões. Mas não pode nunca determinar-nos e ao nosso valor. Porque somos uma gaja boa, uma mulher bonita, uma rapariga simpática mas muito feia, uma inteligente que é mesmo gorda. Porque nos arranjamos. Porque parecemos descuidadas. Porque assim. Porque assado. Incomodamos?

Não faltam exemplos na política nacional da subida a pulso das mulheres, enquanto ouviam comentários que as deitariam abaixo e poderiam ferir todas as outras mulheres, não fosse a tenacidade que nos é tão característica. De mal vestida a pin-up, algures no meio termo está o segredo do sucesso. Que nenhuma de nós sabe exactamente qual é...

 

Coisas que fazem pensar II

Sobre o feminismo e a política:

Se isto que podemos ver no vídeo é verdadeiro, então é maravilhoso. Se são palavras numa folha de papel, então, o Primeiro Ministro sabe o que deve dizer. E quando o fazer.

Anyway, you know it Mr. Trudeau!

Trudeau Urges Men to Be Feminists

"We shouldn't be afraid of the word 'feminist,' men and women should use it to describe themselves anytime they want." – Canada PM Justin Trudeau

Posted by AJ+ on Friday, 22 January 2016

Porque é que o Mr. Trudeau afirmou é importante?  

Não é por ser primeiro ministro. Nem por sê-lo no Canadá. Também não é pelo acesso facilitado à comunicação social, ampliando-lhe a  voz.

É por ser homem. E por saber que mais do que defender a ideia do feminismo, tem de educar o filhos do sexo masculino a respeitarem as mulheres. É também por ser um dos outros, porque isto de se afirmar feminista continua a resultar em olhares de esguelha. Se, por um lado, é muito hype assumir-se feminista, por outro, as que o fazem ainda são vistas como as reguilas da turma. As refilonas que questionam. Que opinam. Que, no fundo, lutam pelos seus direitos e que são tomadas de ponta pelo professor. As que vão sempre a exame e não desarmam. As escrutinadas, questionadas, adoradas em segredo e odiadas publicamente.

Porque muitas mulheres continuam a preferir o status quo pacificado do que uma mecha de cabelo fora do sítio. Por isso é tão importante serem os outros - eles - a dar a cara e a falar sobre esta questão. Por isso é muito importante que os homens adultos compreendam que o feminismo não é uma cena de ressabiadas de esquerda com a mania, mas uma causa transversal à sociedade. Se ensinarem os filhos a perceber a questão, já estão a ajudar. Se respeitarem e apoiarem, melhor ainda. 

Da mesma forma, é importante serem os outros - não sei como lhes chamar, eventualmente, os normais? - a trazer para a ordem do dia o tema da diversidade. Porque há muitas pessoas na televisão, mas são todas iguais. 

A diversidade - a falta dela, na verdade - não afecta apenas as mulheres. A mais recente polémica em Hollywood (#OscarsSoWhite) é disso  um bom exemplo. Hoje o The Guardian evoca a questão com exemplos da televisão. E, se pensarmos, a televisão mostra um mundo a preto e branco, asséptico e perfeitinho. Já há raças diferentes nos noticiários, no jornalismo em geral, na apresentação de programas e na ficção, mas este número está muito distante da dimensão real de cada grupo sub-representado. E as mulheres, também ficam de lado. Naturalmente.

The fact that men outnumber women two to one on television, that women disappear almost completely after the age of 50, that there are hardly any disabled presenters on air of any age, or that black men are only listened to about the industry’s lack of diversity once they’ve become really famous in America; none of it is all that funny.
Jane Martinson (The Guardian)

Instagram. Us and them.

Comecei por sorrir. Depois, comecei a rir. A seguir soltei uma valente gargalhada quando me vi ao espelho. Já não me lembro do último cappuccino que bebi sem antes, o ter fotografado. Mea culpa. O melhor de tudo, quando um vídeo destes nos confronta com os nossos próprios vícios é conseguirmos sorrir quando ele - o Instagram husband que, na verdade, é só husband e não nos fotografa propositadamente para um artigo sobre o tema - nos diz que o cappuccino está lindo. E afirma, em seguida, num tom interrogativo, se não o vamos fotografar. Não íamos. Porque tínhamos fotos de cappuccinos que chegariam para alimentar a conta do Instagram durante um mês sem voltar a beber um cappuccino; porque controlamos razoavelmente as vezes que o impedimos de comer (ou beber) para fotografar; porque decidimos estar de folga; porque não nos estava a apetecer. Porque. E, perante a interrogação, exclamativa, puxamos do telefone para, habilmente, escolher o ângulo e fotografar mais um cappuccino. Esta é, para mim, a melhor cena do vídeo. Porque admito já ter feito a mesma figura, impedindo a outra pessoa de comer, para fotografar. Porque está bonito. Porque poderá ser útil. Porque sim, passou a ser mesmo assim. 

 De resto, a caricatura é mesmo isso, uma caricatura que procura levar-nos à razão, pelo absurdo das situações. Homens pendurados em escadas à procura do melhor ângulo? Fotografias em sequências infindáveis por causa de uma bandeira? Não. A fotografia do nada, a qual ele tem, obrigatoriamente, de amar? Menos ainda.

Dependendo da abordagem e do método, no Instagram ou em qualquer outro site desta natureza, devemos depender apenas de nós, com alegres colaborações. Sujeitar o nosso sucesso a quem nos fotografa é injusto e, por vezes, cruel.

A fotografia de hoje aconteceu. E, por isso, tem graça e valor. Fui apanhada a fotografar o cliché da estação do Oriente: os arcos em metal, com o reflexo da luz do sol. Uau... Que original.... No entanto para quem, como eu, viaja mais de avião do que de carro, e mais ainda do que de comboio, teria a sua graça. Por isso, escrevo sobre o tema.

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Os maridos do Instagram vieram substituir as viúvas do golf, as solitárias do surf ou qualquer outro tipo de categoria que associe um casal a um hobbie. O dele. Não só o Instagram contribui para inverter os papéis como, de certa forma, os posiciona como durante muito tempo nos pocisionaram a nós: um acessório de uma relação centrada neles. Esta inversão não estará correcta mas, efectivamente, quem boa cama faz, nela se deita. Pese embora uma relação dependa de respeito e equilíbrio, não lhes faz mal nenhum sentirem, de quando em vez, que são o nosso selfie stick pessoal, inimitável é insubstituível. Mesmo que seja, apenas, para as fotos do Instagram.

braless

Brooke Cagle  

Brooke Cagle 

Parece tudo menos aquilo que realmente é: isso. Esse reduto da liberdade feminina. Esse prazer único que, só quem as tem, sabe o que significa. Sem sutiã. Sem aros. Almofadas. Algodões. Sintéticos. Presilhas. Alças. Só pele e roupa em cima. Liberdade total. Mesmo que abanem. Mesmo que tal signifique algum desconforto, não há prazer maior do que aquele movimento tão nosso, de despir as mangas da camisola, colocar uma mão atrás das costas, voltar a vestir as mangas e, com a outra mão, puxar o sutiã que sai pela lateral da camisola como se fosse um intruso. Segue-se um suspiro em silêncio ou aquele movimento que também só nós sabemos fazer: ajeitar o sutiã. Na sua ausência, celebrar o momento de libertação, movendo ombros e omoplatas de forma muita rápida e em sincronia, como se estivéssemos a dançar.

Não é, mas o sutiã pode ser entendido como uma grilheta e a sua ausência a libertação final da mulher. Quantas vezes olhamos para um homem adivinhando-lhe os mamilos? Outras tantas pensando, em surdina, que bem precisaria de um sutiã. E nada acontece. Nem ouvem comentários lascivos nem estão a pôr-se "a jeito". Para quem não sabe ou prefere ignorar, o corpo é, todo ele, uma zona erógena. Os mamilos masculinos também.

Não foi à toa que (supostamente) as mulheres queimaram sutiãs. A luta das mulheres pelos seus direitos é longa e agudizou-se por altura da Segunda Guerra Mundial quando foram chamadas a substituir os homens, transformando a luta pela liberdade numa bandeira que ainda hoje, embora de forma mais discreta, persiste. O icónico momento em que decidiram queimar sutiãs foi mais simbólico do que pirómano, quando em 1968 as activistas do Women's Liberation Movement nos Estados Unidos sairam à rua para expor a opressão contra as mulheres, bem como a exploração da beleza feminina. Cansadas das conotações que lhes estavam (estão?) associadas, decidiram que era tempo de mostrar que poderiam ser mais do que donas de casa e mães de família, da mesma forma que toda a parafernália que destaca a beleza feminina (sutiãs, saltos altos, cintas, rolos de cabelo, pinças e afins) foi deitada à rua para deitar por terra os estereótipos. Não chegou, e hoje, continuamos a depender de uma série de artimanhas para realçar a (natural) beleza feminina. 

Muitas não queimaram sutiã nenhum, mas decidiram sair à sua sem sutiã o que, para a altura, terá sido mais do que uma acção simbólica para apoiar este movimento pelos direitos das mulheres. Terá sido uma provocação como ainda hoje é tantas vezes considerada. Uma mulher sem sutiã está a provocar, está a dar nas vistas, foge à normalidade que é tapar as maminhas. Muito embora às vezes apeteça mesmo sentir a liberdade de não ter nada que as segure. Mesmo que estejam tapadas. E o Inverno, lembra a Mashable, tem essa vantagem: as sobreposições escondem o que muitos consideram semi-obsceno e que é, simplesmente, o corpo da mulher.

 

48 coisas e nenhuma mentira

Para além destas, há mais. Muitas mais. Tantas quantas a imaginação quiser. Gosto particularmente das que têm a ver com a beleza e o corpo feminino, como se uma mulher bonita tivesse culpa de o ser, ou uma mulher considerada feia o seja, realmente. Um homem tem sempre outros atributos. Raramente é objectivamente feio. Menos vezes ainda, criticado por ser atraente. E nunca mal considerado por ser galanteador. Porque se galanteia, é porque ela é bonita. E boa. Tesuda. Uma brasa. Gira que até dói. Cheia de estilo. Se for inteligente e sorrir, um homem não tem como resistir. E a culpa é dela. Porque se não fosse assim, o galanteador não se lhe dirigia. Get a grip!

Afinal, "estava apenas a cumprimentar-te". Pois.

Há formas e formas de nos cumprimentarem e sim, sabemos quando esse cumprimento tem segundas intenções e não, não temos de nos derreter por cada um que nos aparece, ou aceitar todos esses "cumprimentos". Estamos, também, no direito de os ignorar. De não retribuir, de não nos deixarmos afectar por eles. Ou de os ouvir, sorrir e seguir, esquecendo-os (a eles e ao elogio). Por incrível que vos possa parecer, aprendemos a lidar com isso, cada uma à sua maneira. Sem que nos afecte demasiado o ego.

"És tão bonita". E então? Há algo que queiras acrescentar em relação àquilo que sou, ou ficamo-nos por aqui? Na verdade, há roupas que não devemos usar porque vão "distrair os rapazes". Curiosamente, eles, os rapazes, podem vestir-se como quiserem. Com excepção dos limites do bom senso, códigos de etiqueta e pudor pessoal, cada um - homem ou mulher - deve poder vestir-se como entender sem que isso leve ao típico "vestida assim, o que esperavas". Não tenho de esperar nada porque tenho o direito de usar calções, saias curtas ou decotes se assim o entender. É muito cansativo passar a vida a escolher a roupa em função de todas as determinantes (local, ocasião, estado do tempo, diferentes actividades que teremos ao longo do dia, humor e conforto), incluíndo outra, subreptícia, sempre presente e nunca enunciada, que elimina das escolhas qualquer elemento que possa, eventualmente, provocar. E que nos faz, tantas vezes, voltar a pendurar no roupeiro algumas peças de roupa. Umas porque mostram demasiada pele, outras porque são justas, outras porque... Não queremos que nos identifiquem como uma "p***" mas também não gostamos de parecer "virgens puritanas" a vida toda. Simplesmente "o que tinhas vestido" condiciona e determina muito do que acontece, mesmo quando o "que tinhamos vestido" nada tem a ver com aquilo que eles, os rapazes, são capazes de ver. Mesmo de gola alta e calças compridas. Até assim, podemos estar "a pedi-las".

Não, não estou a ser "emotional" e menos, ainda, "histérica", pese embora me apeteça dirigir ao mundo pedindo desculpa por existir e ser mulher, enquanto lhe grito que "não estou a chamar a atenção". Mas isso faria de mim uma "bitch" que é sempre "mal humorada". Ou mal interpretada. E garanto, mesmo "naqueles dias", não nos deixamos controlar pelas hormonas. Curiosamente, hormonas essas que conduzem o comportamento masculino na maior parte do tempo, fazendo-os comportarem-se como o vídeo enuncia. Não é à toa que não nos dizem que "pensamos com a cabeça de baixo"...

Depois, exigem-nos um pequeno esforço para sermos "bonitas" ou um "sorriso" porque nos tornaria mais belas. O paradoxo em cada instante, entre o facto de sermos atraentes e, portanto, disponíveis, ou a necessidade de nos tornarmos mais bonitas só porque sim. Para podermos receber os tais "elogios" que na maior parte do tempo são quase perseguições, porque se subentende que, por não sermos desagradáveis, estamos a retribuir. Não estamos. Não queremos é passar parte do tempo a mandar-vos àquele sítio. Porque isso é feio. E cansa.

Depois, há todo um outro conjunto que só nos faz chorar de tanto rir: as bebidas alcóolicas, a quantidade de comida, o desporto. A nossa determinação que mete medo aos meninos da mamã e a cereja no topo do bolo: olhamos o mundo como ele é, com direitos e deveres iguais, a objectividade nas palavras e nas acções para imediatamente nos perguntarem "és... tipo... feminista?!". Não... Deveres iguais, direitos iguais. Agora lava a loiça que eu cozinhei o jantar. Sem "treinos" porque nenhuma mulher quer viver com um animal amestrado que precisa de ser "treinado" para fazer o que, naturalmente, deve fazer. E isso, não é "dar uma ajuda", porque se a lógica é a da "ajuda", tal significa que a responsabilidade é nossa. E não é. É de ambos. Tal como todas estas frases também são, em boa medida, responsabilidade nossa, mais que não seja porque as ouvimos ao longo da vida e as aceitamos...

 

Nasceste para isso. Não queiras mais...

As Sufragistas  

As Sufragistas  

 Tu és mãe. Minha mulher.

Foi para isso que nasceste.

E se eu não for apenas isso?

Nenhuma de nós é apenas isso. Nenhuma de nós nasceu para ser mulher de alguém e não pode ser (apenas) a maternidade a definir-nos.

Frases como estas poderão derrubar mulheres pouco inteligentes.

Mas não existem mulheres assim.

A história pode prová-lo. E, as que existem, acabam por seguir a maioria quando se torna incontornável que é essa a razão.

As Sufragistas

As Sufragistas

Quero crer que não as há. Submissas, acredito. Medrosas, ingénuas e com um certo grau de ignorância? Também. Incapazes de perceber que ainda somos humilhadas, desprezadas e mal tratadas? Impossível. O mundo tornou-se tão igual que também eles sofrem com a desigualdade. A diferença é que nós temos uma longa história de luta por direitos que deveriam, à partida, ser iguais e que, apesar de serem, ainda não são.

Não são porque a sociedade enferma com um dos seus maiores problemas e que é o de não pensar pelos seus próprios meios, considerando sempre o que pensam os outros para tomar as suas decisões. Para definir como será a sua vida.

Este juízo comum impede-nos, muitas vezes, de reflectir para opinar e tomar uma posição. Silencia-nos mesmo quando, no íntimo, concordamos - ou tendemos a concordar - com o pensamento da minoria.

Fui ao cinema. Não poderia perder as Sufragistas. 

As Sufragistas

As Sufragistas

Não sei o que dizem os críticos e, sinceramente, não me interessa. Não se se esteticamente o filme é uma obra prima, se a narrativa tem alguma debilidade, se as interpretações são boas ou se a história está bem contada. Um filme não tem de ser apenas o filme em si, mas aquilo que representa para cada um nós e o que a história, em si mesma, pode representar.

Esta, representa mais do que aquilo que nos mostram. Representa uma luta que ainda agora começou. E que, parece-me bem, está para durar.

 

Tropeçar não é o mesmo que cair

Se há uma coisa que não entendo, é a violência.

Se há uma coisa que não admito, é a violência.

Se há algo que não aceito, é a violência.

Mesmo numa lógica de "quem vai à guerra, dá e leva", não compreendo.

Nathan Walker

Nathan Walker

A violência não é só aquela que se vê e deixa marcas. Há outra, mais profunda, enraizada no medo e na submissão, que impede muitas pessoas de viver. A violência doméstica ocorre sobre homens e mulheres, é certo, mas as maiores vítimas são elas. A maioria também são elas. Porque são fisicamente mais frágeis, porque foram ensinadas a serem submissas, a sujeitarem-se à vida.

"É a vida... É assim".

Não é. Por muito que possam pensar que é, não é.

Porque ninguém tem o direito de violentar o outro, seja de que forma ou porque motivo for. A violência exerce-se de diferentes maneiras e a violência psicológica é, de todas as formas invisíveis de violentar alguém, a pior.

Todos os anos, o mundo acorda para o drama da violência, no Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

Em 2015 e uma vez mais, o contexto de violência doméstica, a não-aceitação da separação, a atitude possessiva, os ciúmes e a compaixão pelo sofrimento da vítima representam 81% da motivação ou suposta justificação pela prática do crime.
— Observador (relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas )

Não concebo que a paixão inclua violência. Com excepção para o amor violento e sexual, aquele que sabemos que só faz bem, que nos estimula e leva aos limites, qualquer violência deve ser levada em consideração. Palmadinhas afectivas não entram em jogo, excepção feita se essas palmadinhas forem o requisito do prazer. Pode ser um indício de muitas outras coisas. Adiante... A violência, doméstica ou não - chamem-lhe como quiserem - violência é sempre violência... Tem de acabar. O amor não supõe qualquer forma de violência.

As mulheres - algumas mulheres - acreditam que para serem amadas têm de ser violentadas. Eu acredito que não. Como também penso que, para deveres iguais, direitos iguais. Como também sei que teria sido uma sufragista se tivesse nascido no final do século XIX, no momento em que as mulheres recusaram a humilhação e desconsideração que a história lhes reservou. Se foram capazes de mudar a história, não seremos nós, capazes de mudar esta história?

Também sei que há, ainda, muitas mulheres que morrem por prática de crimes contra a sua integridade física. Outras são perseguidas. Mensagens, flores e comentários ao estilo Alex Forrest (Glen Close em Atracção Fatal) ou o suposto assédio sexual de Meredith Johnson (Demi Moore) no filme Disclosure, perante um Michael Douglas que inocentemente entrou no jogo. Curiosamente, o cinema inverte os papéis com frequência, colocando-as como perseguidoras tresloucadas mas que, em boa verdade, não ultrapassam a obsessão, sem qualquer consequência física, mostrando o lado maquiavélico tantas vezes associado ao sexo feminino. Estereótipos de género que o cinema tende a enraizar. Na verdade, não faltam eles diabólicos, que as entendem enquanto propriedade, numa possessividade sem limites e ciúme do próprio espelho. São relações tóxicas das quais qualquer um deverá fugir, especialmente as mulheres. Que se encolhem com medo. Que se deixam ficar, por medo. Que se anulam, por medo. Depois, há as que andam sempre a cair, que escorregam e batem nas esquinas dos móveis, mulheres muito desastradas que inventam para esconder murros e outros pormenores da sua vida íntima. Na rua, elas são também violentadas porque as calças eram justas, a saia curta ou porque estavam mesmo a pedi-las quando não pediram nada mas, também porque, de boca tapada por uma mão surpreendentemente grande, não gritaram "não" de forma convincente.  Não faltam estórias destas. Perante os dados que as notícias dão a conhecer, continuamos, sem dúvida, a ser o sexo mais fraco. Até quando?



Eu juro que...

... não quero transformar o urbanista num projecto feminista, mas não dá para ignorar...

Independentemente de qualquer convicção política, há que tirar o chapéu a estas duas mulheres. Aguerridas, têm-nos no sítio (mais do que muitos homens), com poder de argumentação e lucidez para encontrar a novidade nas velhas fórmulas. Algum lirismo, certamente. Contudo, tal não  as impediu de fazer conquistar muitos votos em todo o país.

Não sou de expor as minhas ideologias políticas, comentar ou entrar em discussões desta natureza. Como  na religião ou futebol,  raramente as opiniões coincidem, supostamente sabemos sempre mais do que o outro e a nossa opinião é sempre melhor. Pelo menos, pensamos que sim. Isto interessa-me porque a semana tem sido rica em discussões políticas e pobre no que respeita ao papel da mulher na política. Quotas à parte, que as acho assim a atirar para a tolice, o alarme despertou com a fotografia que a @luvazf, lá na Suécia, publicou:

@luvazf

@luvazf

Sempre fui feminista e demorei quarenta anos a perceber. Na verdade, sempre me debati pela igualdade de género. Se ele pode, eu também posso, pensava. Nunca percebi - ou nunca quis perceber - a razão pela qual eles - os meninos - podiam fazer tantas coisas que nós - as meninas - não podíamos. Porque assim e porque assado... E nunca me convenceram. Não me lembro de ter sido uma Maria rapaz, mas sempre brinquei com eles. Com elas, também, embora já na infância elas sejam mais matreiras e fiteiras do que eles. E eles, quando se apresentavam assim, tinham três hipóteses: ou se emendavam, levavam porrada ou eram postos de parte. Para brincarem com elas. Nada a opor. Mas não me obriguem a ter paciência.

Portanto, não subia às árvores nem jogava futebol - sempre fui muito feminina para aventuras dessas - mas corria mais do que alguns deles; jogava às guerras e nunca morria;  era destemida num jogo parvo e violento a pedalar nas bicicletas. Tratava-se de algo tão estúpido quanto isto: circularmos o mais próximo possível uns dos outros, tocar com as rodas da bicicleta, empurrar e assustar para ver quem era o primeiro a colocar os pés no chão. Putos...

Depois desta fase chegou a outra, do politicamente correcto e do socialmente aceite para elas e para eles, seguida da revolta em torno da célebre ideia do garanhão que come todas e da ordinária que vai com todos. Os preconceitos e o moralismo tão portuguesinho que nos confinam a categorias ou definem limites cuja origem nunca descobrimos. 

A seguir comecei a degladiar-me perante as afirmações que me reservavam um papel com o qual nunca me identifiquei completamente, e que me atribui responsabilidade acrescidas em casa. Porque fomos educadas para saber tomar conta do lar, dos filhos e do marido. Mas não. E mesmo sabendo como se faz, tal não significa que o faça. Mesmo que o queira fazer e que acredite que o deva fazer. Quando um assume o trabalho de dois há desequilíbrio e o funcionamento da estrutura pode colapsar. É assim nas empresas, porque haveria de ser diferente no lar?

Também não sei porque continuamos - todas - a pactuar com atitudes machistas que reservam à mulher o papel exclusivo na maternidade. Foram dois que fizeram a criança, não pode a licença de maternidade ser partilhada sem que haja aquela atitude negativa em relação ao homem, que passa a ser considerado um choninhas dominado pela mulher?

Na rádio, há muitas mulheres. Na comunicação social, também. Na rádio, muitas são locutoras e jornalistas. Outras tantas gravitam em torno do pivot, essa palavra igualmente masculina. E directoras? E dinheiro?

Não deveria preocupar-me porque, afinal, há cada vez mais mulheres em lugares de destaque, elas e eles misturam-se em profissões que antes eram claramente destinadas a um género em específico.

Continua a existir preconceito e discriminação. Todos sabemos isso. É isso, não é bom. mesmo que elas sejam  um terço no Parlamento.

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#feminismo #igualdade #mulheres

As mulheres. E eles.

Feminismos e outros "ismos" à parte, a verdade está aqui. Toda. Sem demagogia e cheia de pequenos detalhes que marcam a diferença. As mulheres poderão não ter sido feitas para pensar, mas aprenderam a fazê-lo. Isso é que os lixa. E às que teimam em não aprender, também.

Isto é um país de homens. E um país onde as mulheres não são muito solidárias com as mulheres. Pondo de lado a política correta sobre estas coisas, as mulheres neste país estão tramadas. Uma mulher raramente é levada a sério, e, se é, arranja dez vezes mais inimigos do que um homem.
— Clara Ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

Eu não era assim, mas refinei-me. Tornei-me mais acutilante à medida que fui percebendo que, de facto, tinha de lutar para fazer valer os meus direitos a todos os níveis. A sociedade está de tal forma minada por este pensamento paternalista, misógino e machista em relação às mulheres que até em sala de aula sou obrigada a criticar alunas quando, do alto da inocência dos vinte, fazem afirmações das quais, mais tarde, se irão arrepender. Corrijo as mães que nos criaram para sermos mães e mulheres de alguém, afirmando, simultaneamente que deveríamos prosseguir os nossos sonhos, ter uma carreira e sermos independentes. Não é incompatível, é simplesmente muito difícil, duro e cansativo. Implica uma luta diária, tantas vezes contra tudo e todos, para agirmos em consciência. A nossa. A que despreza o que os outros acham que devemos fazer, aquelas que são, supostamente, as nossas obrigações, para nos focarmos naquilo que fomos interiorizando, muito devagar: tu és forte; tu consegues; ignora-os porque és tu quem está certa; direitos e deveres iguais; não tens a responsabilidade de carregar o mundo e a família às costas; os filhos precisam de ti até ao ponto em que se tornam independentes para cuidarem de si; esses filhos têm um pai com igual responsabilidade na matéria; o supermercado não é a sala de estar das mulheres e a cozinha o seu escritório; não és pior mãe por deixares os filhos na escola até mais tarde por uma reunião, se o pai os puder is buscar; não és má pessoa se cuidares de ti e não apenas dos outros; sim, tens o direito a dedicar-te a uma carreira intelectualmente mais estimulante do que a do teu parceiro e não, não estás impedida, pela genética, de fazeres o que bem te apetecer.

A culpa é nossa. A desunião e a incapacidade de atacar enleiam as mulheres em Portugal. Não se trata de sermos discriminadas, trata-se de consentirmos em ser discriminadas e concordarmos com a discriminação. No fundo, achamos que não somos capazes, não seremos capazes, não merecemos ser capazes. Consentimos em desaparecer.
— Clara ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

São tantas as frases que temos de decorar, interiorizar e repescar a cada vez que nos querem menorizar que, muitas vezes, nos deixamos ir na corrente por ser menos cansativo. Por exaustão. Mas, depois, tropeçamos em artigos destes. Saltamos da cama e reclamamos aquilo que é nosso, por direito: liberdade e autonomia.

Nunca consegui nada com base na quota e não acredito que as mulheres precisem de quotas. Agustina, Sophia, Maria Barroso e Natália Correia nunca precisaram de quotas. As mulheres precisam de autoconfiança e tempo livre, precisam de uma vida intelectual, que a maternidade, a dependência financeira e a vida doméstica não autorizam.
— Clara Ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

Preconceito, aqui não falta, e os ataques são em barda: das mulheres à religião, destas às opções sexuais, passando pelos idosos e deficientes, é escolher. Nós, mulheres, somos apenas mais um divertido alvo...

As correntes sociais e os seus entusiastas emocionais respiram este ar venenoso. As mulheres são a maioria da população universitária e a minoria no poder político, económico, financeiro e social. E não vejo por aí uma mulher política disposta a mudar o estado das coisas.
— Clara Ferreira Alves (Our Boys, Expresso 2.10.15)

Independentemente de tudo, concordamos no repúdio da mediocridade. 


Fe-mi-nis-mo

Nunca fui pessoa de me preocupar demasiado com categorias, definições ou designações e nunca pensei em mim como feminista, até ao dia em que dei por mim a afirmar que desprezava veementemente os machistas. Porque, afinal, sempre fui contra essa forma de estar que domina socialmente a mulher, a acha inferior e divide os géneros de tal forma que, ao homem e à mulher passam a estar reservados diferentes papéis sociais. Naturalmente estão, podem e devem estar, desde que esses papéis também se misturem em todos os domínios. Como no trabalho, especialmente intelectual, uma vez que existe uma supremacia física óbvia entre homens e mulheres. Fiquei sem saber se havia de rir ou chorar perante as declarações de Tim Hunt, bioquímico a quem foi atribuído um prémio Nobel em 2001, quando afirmou, do alto da sua (chauvinista) honestidade, que as mulheres são um problema num laboratório: apaixonamo-nos, apaixonam-se e quando as criticamos choram, afirmado. Não acontecerá também em outros locais onde homens e mulheres - desculpem, let me rephrase it, onde pessoas - trabalham juntas? Para além de desprezar as mulheres ignora que pessoas do mesmo sexo podem, também, apaixonar-se? Talvez seja por pessoas como Tim Hunt que a academia e a ciência ainda sofre diferenças de género. Há poucas Reitoras, Presidentes ou Directoras de Faculdade para tantas professoras que o Ensino Superior já tem. Há também poucas mulheres a liderar a investigação científica apesar do número de cientistas do sexo feminino. E, depois, querem fazer-me acreditar que vivemos numa sociedade igualitária. Não vivemos.

De uma vez por todas: o feminismo nada tem a ver com paixonetas, opções sexuais ou com a aparência. São ideias, atitudes e valores defendidos por mulheres (e alguns homens) que entendem que a diferença de género há muito que deixou de fazer sentido, uma herança clara dos movimentos de emancipação da mulher e de luta pelos seus direitos. Não é uma coisa de lésbicas ou de gajas feias. Peludas. Andrajosas. Há mulheres coquette e feministas. Mulheres heterossexuais feministas. Mulheres que gostam de se arranjar e sentir bonitas que também são feministas. Mulheres vegan. Mulheres que comem carne. Mulheres que praticam exercício e mulheres sedentárias. Mulheres sem nenhuma característica em particular que as descreva e que também são feministas. Esqueçamos a caricatura. Acima de tudo, o feminismo não é um rótulo que se possa colar em quem queremos, de alguma forma, desprezar, categorizar ou humilhar. A ser um rótulo, que seja para colar em todos os que defendem os direitos da mulheres numa sociedade que teima em afirmar esses direitos e a agir de forma diferente. 

Não faltam notícias, artigos, entrevistas ou relatórios sobre os factos. As mulheres, em regra, ganham menos para o mesmo cargo e responsabilidade. Também têm maior dificuldade no acesso a cargos de chefia e tomada de decisão. Eles têm-nos no lugar, são corajosos. Elas são histéricas e choronas. Ou demasiado masculinas, porque se adaptaram a um mundo dominado por homens. É assim que a maioria nos vê. Não há pior ameaça numa empresa do que uma mulher inteligente, que se faz entender entre os homens - mesmo quando é detestada pelas outras mulheres - e que, ainda por cima, é bonita e feminina. Para muitas cabeças, não faz sentido porque destrói o estereótipo.

Quando elas pensam como eles são umas cabras. Quando eles se entendem com elas, elas andam a dormir com eles. O mundo vê a mulher a preto e branco. Ou boazinha, quando é dona de casa e mãe; ou a má da fita, quando assume a sua carreira em detrimento da família. A mulher, como o mundo, tem várias cores. É multidimensional porque consegue ser multitarefa, executando com perfeição mais do que uma simultaneamente. O mundo não acaba se uma mulher não sentir o apelo da maternidade nem muda radicalmente se outra for Presidente. De uma empresa ou da República. Mulheres e homens não têm necessariamente vocações diferentes. Foram ensinados assim. A nossa socialização tem muito impacto na forma como nos definimos e vemos o mundo. Hoje, há uma nova categoria de mulheres, no limbo entre o preto e branco porque querem - e conseguem, com esforço - ter uma vida familiar como mandam as regras mais tradicionais e um carreira de sucesso. Que teria ainda mais sucesso que o mundo não colocasse tantos entraves; se tantos maridos e filhos não continuassem a olhá-la como mãe, mulher e fada do lar; se as empresas compreendessem a importância do equilíbrio entre o trabalho e família; se a moral judaico-cristã não as fizesse sentir tão culpadas...

Queixo-me de barriga cheia porque em alguns países as mulheres não podem, sequer, assistir a eventos desportivos com atletas masculinos. Não sou excisada, não me obrigam a casar e tenho os mesmos direitos legais. Bom, não é? Mas não fico satisfeita, porque muitas mulheres continuam a ser vítimas de abuso sexual e violência doméstica, a outras queimam o rosto por aparente rebeldia na defesa dos seus (supostos) direitos e, mesmo quando tudo está bem, continuamos a sofrer com uma atitude paternalista e machista que nos reserva a responsabilidade de cuidar dos filhos e da casa. Porquê? Eles, os que vivem nessa casa não comem, também? Se eu também trabalho, porque razão essa tão aprazível tarefa de fazer compras no supermercado não há-de ser dividida? Porque razão um cozinha e o mesmo arruma? Porque não dividir? Não há culpa. Mas, a haver, é das mães que os educaram para chegar, sentar, comer e voltar a sentar, desta vez no sofá, enquanto ela - a mãe e, mais tarde, alguém com quem viva - foi mais cedo para a cozinha, comeu mais depressa e fica até mais tarde nessa mesma cozinha a arrumar. Um dia ouvi dizer “nem que a M**** chegue ao tecto”, numa declaração mais ou menos inflamada de quem, como eu, achava que as tarefas se dividem. Fiz dessa a minha bandeira.  Não havendo justificação (sim, porque nisto das relações a dois há que saber avaliar as situações e praticar algum desprendimento para a entre-ajuda) pode a loiça chegar ao topo do armário que não cedo. Ou não cozinho. Queixo-me de barriga cheia. Novamente. Ou talvez não, porque sei que há outros a quem não é preciso pedir. Para quem, ultimatos destes, seriam absurdos. Estão lá longe, na Escandiávia, essa Europa que pratica a igualdade e na qual nenhum homem é menos homem por ajudar ou ficar em casa com as crianças. Havemos de lá chegar...

Dados infografia:  expresso ,  observador  e  observador

Dados infografia: expressoobservador e observador