feminism

Beyoncé no Coachella. O que significa isso, para nós?

Mais do que possamos imaginar e queremos admitir. Significa que, finalmente, uma mulher volta a ser cabeça de cartaz num dos eventos musicais com maior notoriedade mundial, depois de Bjork, em 2002 e 2007, ter tocado em Coachella. Não há artistas femininas ou estamos perante o patriarcado machista que mina boa parte das indústrias?

Coachella é lá longe e pode significar pouco para quem, em Portugal, escuta Beyoncé ou vibra nos nossos festivais de Verão. Mas e se revertermos o facto e pensarmos nas artistas nacionais cabeças de cartaz dos nossos eventos musicais? Coachella começa a fazer mais - ou menos, dependendo da perspectiva - sentido.

Se recordarmos M.I.A. (SBSR, 2012) ou Florence and the Machine (SBRS, 2015) não vamos longe na análise porque a maior parte das mulheres - portuguesas incluídas - faz parte de uma banda ou não é cabeça de cartaz. No Rock in Rio acontece o contrário, com várias mulheres (Ivete Sangalo em 2014, Daniela Mercury em 2004; Shakira em 2006 e Miley Cyrus em 2010) como cabeças de cartaz e muitas outras artistas no palco principal. Será o toque da Roberta Medina no RiR?... Muito embora não pensemos muito nisso, não foi à toa que se começou apelidar Coachella de Brochella, do inglês bro (brother, forma de tratamento masculino). Em Coachella, no ano passado, menos de um quarto do total das actuações foram de artistas femininas. Nos anos anteriores o cartaz foi ainda mais masculino, o que quer dizer que as poucas mulheres que aparecem não estão no topo da lista.

Para quem não conhece, Coachella não tem comparação com o que acontece em Portugal. É maior, tem mais concertos e pessoas por metro quadrado, tem impacto mundial, é no meio do deserto (welcome dust...) e a sua notoriedade compromete agendas ao nível da música, moda e lifestyle. Há tanto de música como de desfile de estilo e exibição nos sites de redes sociais com o instagram a liderar as imagens made in Coachella. 

Contudo, importa pensar na representação de género nos cartazes dos festivais. Não creio tratar-se de uma acção concertada para deixar as artistas femininas de fora, mas de uma cultura de tal forma inculcada, em quem faz as escolhas nem percebe que "elas" acabam sempre no fim da lista. Tal como em outras indústrias, o poder está nas mãos de homens que interiorizaram esta cultura sexista que também nós, mulheres defendemos. Não culpo ninguém porque também somos responsáveis pelo estado das coisas. Fomos calando demasiado tempo. Sempre discretas e (bastante) subservientes. A mudança está lentamente a acontecer e não é tão silenciosa quanto se pensa, no sentido do apoio ao artista independente do seu género. O cor. Ou qualquer coisa que se possa interpor entre a decisão e o público.

Independentemente de questões feministas ou de igualdade de género, a presença da Queen Bey nesta edição do Coachella faz todo o sentido. Não só nunca actuou (apareceu em actuações de outros artistas) neste festival, como marcou pontos com o seu Lemonade afastando-se (ainda mais) da conotação de fake pop star que a perseguia. Lemonade não é apenas mais uma colecção de canções, assumindo-se como um trabalho conceptual, que liga artisticamente a música e o vídeo, sem deixar de elogiar a música pop que lhe deu fama e notoriedade. Simultaneamente Coachella cresce num sentido mais mainstream descolando-se da imagem hippie que lhe deu origem. Ainda que sejam os mais jovens em maior percentagem, os festivais de música fazem, actualmente, parte da cena musical e do estilo de vida da maior parte das pessoas, independentemente da idade. A cultura festivaleira está a mudar e, em Portugal e no resto do mundo, os grandes eventos têm uma responsabilidade acrescida porque estabelecem o padrão a seguir: na escolha dos artistas, na qualidade das infra-estruturas, na segurança, na alimentação e, sobretudo, na relação música e estilo de vida, altamente valorizada nesta era de instant likes e instagram pics. Either way, Coachella's music will be fire!

About misconceptions (mal entendidos)

The pressure to fit into an uncomfortable mound #BeingHuman #HeForShe @edgarramirez25

A video posted by #HeForShe (@heforshe) on

@heforshe The pressure to fit into an unconfortable mound #BeingHuman #HeForShe @edgarramirez25

@heforshe The pressure to fit into an unconfortable mound #BeingHuman #HeForShe @edgarramirez25

Para ver e ouvir até ao fim.

Gosto de homens (ponto, mas ainda mais dos) que conseguem perceber que esta coisa de ser feminista não se relaciona em nada com manias de gajas que acham que sabem mais do que os outros, que têm a mania, que odeiam os homens ou as outras mulheres. 

Quando falamos de feminismo, estamos principalmente a falar de direitos. Quando falamos de género, falamos de igualdade. Nenhum é exclusivo das mulheres, muito embora, na maior parte dos casos, respeite às mulheres. Porque, por exemplo, ganham menos trabalhando o mesmo número de horas, com as mesmas responsabilidades; se dedicam mais horas ao trabalho doméstico e a cuidar da família. Porque estão limitadas no acesso à educação. Porque estão sub-representadas na política, na economia, nos negócios. Não vale a pena ser exaustiva. O engano está em pensar que a questão da igualdade e dos direitos é exclusiva das mulheres. Pode haver maior pressão sob as mulheres e serem muitas mulheres a levantar a voz contra a desigualdade. Na verdade, acredito na igualdade a na defesa desses direitos. Para homens e mulheres. Dizem que é ser feminista. Pois que seja. Mas também levantaria a minha voz para defender a situação contrária, como alguns homens fazem, lembrando que a desigualdade não é uma questão de género.

Igualdade? Yes we can

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Já aqui falei sobre "a lista". 

103 mulheres que devem estar no centro da discussão internacional sobre os media, segundo o site britânico Journalism.

executiva descobriu a lista e fez questão de falar comigo sobre igualdade de género, diversidade e inclusão nos media. Um daqueles artigos sérios, curtos e bem escritos que importa ler.

 

Se o problema fossem os saltos... From heels to flats in style....

(...) If fictional women like Murphy Brown did not need high heels to reach through the glass ceiling, and real women didn't catwalk into the workplace wiggling in her stilettos, where did they come from, and why have they become married to the way we think of feminine power?

- Huffington Post

 

O problema não são os saltos altos ou bolhas nos calcanhares. O problema é sempre o mesmo, aplicando-se aos sapatos, aos vestidos e às calças justas, à despensa vazia, a quem cozinha o jantar ou outros predicados tipicamente femininos que apenas alguns homens conseguem assimilar. E adoptar. O problema também não são as compras ou quem as carrega mas aquela preocupação pequenina, que fica lá ao fundo, no nosso interior, a repetir-se, para que não nos esqueçamos de pormenores domésticos em função das outras preocupações que nos enchem o dia. Até podem ser eles a ir comprar mas somos (quase) sempre nos a verificar se ainda há leite no frigorífico. E o leite não é o problema. O problema é maior.

O problema é uma sociedade patriarcal que aceitou a nossa emancipação e valoriza a igualdade desde que isso não se aplique ao dia a dia. O problema, portanto, é que a sociedade vai dizendo que sim para ficar bem na fotografia, obrigando-nos a lutar diariamente, nas coisas mais pequenas, por essa paridade. Umas meias caídas no chão são um pormenor? São. Mas provam que ainda há quem pense que as podemos apanhar por si. Não custa nada. De facto, não custa. É simbólico.

Eu não abdico. 

 

O problema não são os saltos. Muito embora tenham sido os saltos a fazê-la saltar dali para fora.

O que fariam no seu lugar?

Aceitariam?

Muitas vezes aceitamos por falta de opção. Por medo e necessidade do pão em cima da mesa. E se, um dia, deixássemos todos de aceitar? Sim, todos. Porque se para nós o problema são os saltos, para eles outros problemas existirão. Porque um homem pode ser pai, mas e se dividir a licença de maternidade com a mãe? Ainda são os mariquinhas que ficam em casa. Um pai dificilmente pode argumentar em relação aos horários para ir buscar os filhos à escola. Afinal, numa sociedade machista (como ainda somos, e este artigo prova-o), o pai garante o sustento de uma família matriarcal, na qual a mãe cuida dos filhos... Entre as suas múltiplas tarefas diárias, porque já são mais as mães que se multiplicam do que as que optam pela maternidade a tempo inteiro. Correcção: são menos as mães que podem optar pela maternidade a tempo inteiro. 

E se, um dia, disséssemos todos NÃO ao preconceito?

Se respondêssemos NÃO aceito e lutássemos mais pelos nossos direitos sociais e laborais? Não seria tão bom?... 

When London-based Nicola Thorp was sent home from her temp job at financial company PwC for not wearing high heels, she started a petition online to bring attention to the ludicrous expectation that women be physically uncomfortable throughout the length of the workday.

- Huffington Post

I'm pro-sneakers, pro-flats, pro-ballerinas. Most of all, I'm pro-freedom to feel, do and wear what we want, according to the context we're in and good sense. Dress codes are a simple way to organize social and professional situations. I'm not against dress codes, but I'm against unreasoning demands. Like wearing heels at PwC. Like wearing heels anywhere, because I can't remember any professional situation that can't be handled in flats. Why the heels? They make us look taller, with more slender legs. It's about elegance. But it's also about seduction. Our bodies are forced to tilt, emphasising bottoms, waist and boobs. We look more elegant, confident and maybe more authoritative. Besides that, just knee stress, lower back pain, agonising feet.

Dear Nicola, you did good. Very good!

 

 

 

 

 

Lemons? Lemonade.

Ouvi e repeti mais de 3 vezes. Não são canções nem é, apenas, mais um disco pop. Queen Bey criou um álbum, daqueles à moda antiga. Se o ouvirmos no Tidal, do início ao fim, podemos assistir a um vídeo de uma hora, com ligações entre cada música, ao estilo conceptual que alguns (bons) artistas nos habituaram. Em tempos...

Não sou a maior fã de música pop mas gosto de ouvir alguma música pop. Para correr, para dançar. Ou porque sim. Beyoncé habituou-me a um certo ritmo que ignoro propositadamente, a favor de outros, menos ligeiros na intenção e pesados na definição. Mas há muito que venho prestando atenção à Queen Bey e à sua capacidade de intervenção que culmina, agora, com Lemonade. Fui ouvir porque pensei, de imediato, no aforismo: se a vida te dá limões, faz limonada. Quis perceber que tipo de limonada seria esta. 

Parece-me uma limonada gourmet, porque Lemonade é inspiracional, representando claramente as aspirações da Bey relativamente a uma cultura que tem subjugado a mulher, especialmente a mulher negra. Sim, a música continua sensual e até um certo ponto, sexual, mas Lemonade é mais que isso. É um manifesto e uma composição visual disponível, por enquanto, numa plataforma (quase) exclusiva que supõe uma inscrição com subscrição.  É poético, carregado de simbolismo e apontamentos subliminares que requerem a nossa atenção. As letras são reflexo de experiências e rituais femininos, contra o estereótipo da mulher negra. Consta que muito do que canta Beyoncé em Lemonade é sobre as supostas traições de Jay-Z. Na verdade, diria que se trata da Beyoncé contra o mundo, colocando o dedo na ferida e assumindo que usa e abusa dos clichés da cultura pop para conseguir passar uma mensagem mais séria do que parece.

...

It's true and we hardly notice it. Many times life gives us lemons and we insist on orange juice. Then we find others who can do whatever they want to and yet, they make lemonade. Stunning Lemonade, by the way. I'm talking about Beyoncé and her impressive move called Lemonade.

What if one day one would wake up to Beyoncé? 

Sometimes it feels like it and that's why Lemonade isn't just a new record. It's a manifesto and a visual composition based on I'm not taking anymore s*** from the world, which might have already happened to you without you being able to create such an astonishing public cultural statement, promoted with bright ideas, sharp concepts and polished production.

I was scrolling on Twitter when I remembered someone's yesterday post referring to Lemonade. I searched for Beyoncé's Lemonade on Twitter and started listening to the album on Tidal. Something exclusive drives our curiosity and leaves us keen to try. So I did. Volume up, shower on and the ultimate female drama: robe and messy hair looking at the wardrobe. I was influenced by Beyoncé's voice and lyrics, inspirational and empowering. I picked a black jumpsuit and couldn't stop wondering about Beyoncé's yellow dress. 

The amazing Cavalli dress is much more than just fashion or an awesome choice. Theories are flooding the web around the idea that Beyoncé was inspired by a Yoruba Orisha, Oshun, victim of abuse and seeking revenge for those who hurted her. Being so, my understanding seems to be right since I always look at Beyoncé's public appearances and music productions as references of something bigger than Queen Bey herself. In Lemonade, wearing a yellow Oshun inspired couture dress, Beyoncé becomes a symbol of a black woman's journey.  She started as an entertainer, becoming a worldwide pop star and she steadily built trust around her impressive vocals and sophistication. She then defined herself as a feminist voice for women around the world, now using entertainment as a platform to talk about important things. I barely listen to Beyoncé songs but more than once I was inspired by her feminist positions and militant activism. In fact, what we see in Lemonade is the traditional female duality: we can be both sexy and emotional, but yet emotional and strong or sexy and violent, depending on the context that drive women's strengths.

Today, she inspired me again and I'll sure make some Lemonade. I have my black jumpsuit on, a metaphor for here I am against the world,  I'm listening to her on Tidal and thinking that this Lemonade is much more than a bunch of songs. It's visual, symbolic and poetic, a collection of experiences,  reflecting rituals and womanhood. Definitely against black, stereotyped feminist and perhaps, a breakup album. Not with Jay-Z but with the world. After all, are we facing a black woman celebration album? Maybe so, if understood as unapologetic of anger and culture against race and gender And even if I don't understand it fully - I'm not black nor a pop music fan, and I've been marginalised for my skin colour - I do understand gender issues and the need to express ourselves against a society that builds walls instead of bridges.

NOTE TO READERS: you must have a Tidal premium account to be able to listen to the full album.

dos dias em que ser mulher não chega

Em Março há um dia só nosso. Não chega. Nossos, são todos os dias, mesmo que o tentem ignorar.

Não é discurso feminista porque, como dizemos aqui, a palavra tem inúmeras conotações. Poucas boas. O feminismo não é um rótulo mas sim uma atitude. Um estado de alma. Felizmente, há muitos homens que também a assumem. Deveres iguais? Direitos iguais. Não somos iguais nem teremos de o ser, porque é essa a riqueza da humanidade. Há, contudo, muitas situações, contextos e desigualdades que devem acabar. Entre homens e mulheres. Entre mulheres. Entre homens.

O problema não é exclusivo das mulheres porque vivemos numa sociedade que, por um lado, resiste à luta pela igualdade de direitos e oportunidades e, por outro, nos limita em relação a todas as oportunidades que o mundo nos oferece. Na maior parte das vezes somos nós que nos auto-censuramos, limitamos e rejeitamos a ideia de mudança. Porquê?

A sociedade tem um peso demasiado naquilo que somos e como somos. Nem todos podemos ser Beyoncé's ou JLo's estratosféricas que sussurram e se fazem ouvir. Mas podemos tentar...

A JLo from the block tem a lot e a Beyoncé runs the world com as suas girls. Nós podemos ver, de longe, aplaudir e partilhar, ou arregaçar as mangas, adoptar uma postura mais proactiva e perseguir os nossos sonhos. Na maior parte das vezes refugiamo-nos na desigualdade e na falta de oportunidades, esquecendo-nos de as criar. Cruzei-me, há dias, com este artigo no Observador do qual retiro a melhor parte:

Zero F*ck Given

A receita é simples e pode significar a diferença entre ser feliz. Ou não.

A palavra não é bonita mas, em inglês, não soa tão mal quanto o seu significado. Na verdade, se não nos preocuparmos com o que os outros pensam - excepção feita para aqueles que importam, os que respeitamos e os que nos sabem fazer críticas construtivas - seremos incomensuravelmente mais felizes, simplesmente porque eliminamos da equação, seja ela qual for, o peso do olhar alheio. Isso liberta-nos. O escrutínio nas redes sociais torna-se irrelevante e o padrão transforma-se naquilo que entendemos ser o nosso padrão. Não é fácil, obriga a uma grande disciplina interior, um crescimento em relação a tudo o que durante demasiado tempo demos importância, rejeitando boa parte das ideias que nos serviram, até ao momento em que, simplesmente se tornam incómodas.

O Observador seleccionou oito coisas que nos preocupam e prendem os movimentos. Uma lista da qual devemos riscar a totalidade dos elementos, para sermos mais felizes: preocuparmo-nos demasiado com o que é adequado para "a idade"... Parece-me bem que importa apenas o bom senso e os limites (ou limitações físicas) que a idade possa acarretar. Limitarmo-nos em função do que os outros poderão pensar.  É, sem dúvida, o melhor exemplo para "I don't give a F*". O emprego.... Mesmo que nem o trabalho abunde, ser infeliz uma vida inteira para manter o estatuto social não pode ser uma opção. O medo. Todos temos. Há uns bonecos bons para isto. Chamam-se papa monstros e entregam-se às crianças pequenas para lá colocarem os seus medos. Querem um? Libertarmo-nos do passado, da atitude derrotista do "é a vida" e não pensarmos demasiado no futuro para sermos capazes de gerir expectativas, enquanto abandonamos a atitude interesseira de tantas pessoas, para aprendemos a dar sem esperar nada em troca. Acreditem que recebemos em dobro do que damos. Finalmente, os padrões. Definir quem somos e escolher quem queremos ser. Sem medos.

Aceitação social pode ser importante e valida-nos enquanto pessoas. Todos queremos essa aceitação.

 A que preço?

O prazer do silêncio

by Mallory   Johndrow

by Mallory   Johndrow

Porque há pessoas que não sabem calar. 

Porque há alguns que perseguem o aforismo "falem mal, mas falem de mim" à exaustão.

Porque há alguns que perderam a noção.

A questão não é nova nem se esgota. Ontem brinquei com o tema, hoje cansei-me de o ouvir.

De quando em vez aparece um novo herói que nos escolhe para heroínas de uma história que é só sua. Há uns tempos um tal de Pedro Arroja armou-se em arrojado, lançou uns disparates para a esfera pública e foi gozado de todas as formas possíveis nos sites de redes sociais. Na rua. Ao telefone. Nos media. Para o substituir, Jerónimo de Sousa tentou ser engraçadinho. Não conseguiu, mas andou perto. Opções de candidatos engraçadinhos e populistas? Jamais. Não são capazes de mudar. E o resultado está à vista. Pobre Edgar...

Política e politiquices à parte, creio (espero) que Jerónimo de Sousa não terá tido a exacta noção do que estava a afirmar. Porque a afirmação não era apenas uma farpa ao Bloco de Esquerda e à escolha da sua candidata, cujos resultados, admitamos, foram surpreendentes. A afirmação é triste, antiquada, despropositada e sexista. De facto, revela aquilo que expressou ao terminar a sua intervenção: não mudam e a derrota não os desanima. Mas desanime-se porque de mulheres sérias não verá muitos votos no futuro, para recorrer a algumas das palavras sábias dessa noite.

Quem me lê sabe que não sou de comentar a política, de embandeirar ou embarcar em politiquices mas, não resta qualquer dúvida que esta não é uma questão política. Jerónimo cometeu uma gaffe que o irá perseguir durante muito tempo. Consta que não pensa assim e que o PCP tem sempre os direitos das mulheres em mira. Quem diria... 

Engraçadinha/o é uma forma depreciativa de caracterizar uma pessoa. Pior se for uma mulher. Pior ainda se for num discurso político de derrota em que uma outra candidata - do sexo feminino - se destacou. Mau perder e machismo na mesma frase ficam mal a qualquer um. Pior ainda numa altura (praise the Lord!) em que os direitos das mulheres estão na ordem do dia e as desigualdades (incluíndo as de género) também. Estamos em pleno século XXI e continuamos a não conhecer a numeração romana, trocando a ordem dos números. XXI não é, nem pode ser XIX, muito embora algumas mentalidades tenham cristalizado na passagem do século. Dezanove. Por extenso, para se perceber melhor.

Não somos apenas bonitas ou inteligentes. Podemos ser bonitas, inteligentes, eficientes. Com piada e chamando à atenção de uma grande audiência. Isso não faz de nós engraçadinhas. Ou populistas. E, se fizer de nós populistas, so what? 

As pessoas também se definem pela sua aparência e esta é determinante em muitos cargos e profissões. Mas não pode nunca determinar-nos e ao nosso valor. Porque somos uma gaja boa, uma mulher bonita, uma rapariga simpática mas muito feia, uma inteligente que é mesmo gorda. Porque nos arranjamos. Porque parecemos descuidadas. Porque assim. Porque assado. Incomodamos?

Não faltam exemplos na política nacional da subida a pulso das mulheres, enquanto ouviam comentários que as deitariam abaixo e poderiam ferir todas as outras mulheres, não fosse a tenacidade que nos é tão característica. De mal vestida a pin-up, algures no meio termo está o segredo do sucesso. Que nenhuma de nós sabe exactamente qual é...

 

Coisas que fazem pensar II

Sobre o feminismo e a política:

Se isto que podemos ver no vídeo é verdadeiro, então é maravilhoso. Se são palavras numa folha de papel, então, o Primeiro Ministro sabe o que deve dizer. E quando o fazer.

Anyway, you know it Mr. Trudeau!

Trudeau Urges Men to Be Feminists

"We shouldn't be afraid of the word 'feminist,' men and women should use it to describe themselves anytime they want." – Canada PM Justin Trudeau

Posted by AJ+ on Friday, 22 January 2016

Porque é que o Mr. Trudeau afirmou é importante?  

Não é por ser primeiro ministro. Nem por sê-lo no Canadá. Também não é pelo acesso facilitado à comunicação social, ampliando-lhe a  voz.

É por ser homem. E por saber que mais do que defender a ideia do feminismo, tem de educar o filhos do sexo masculino a respeitarem as mulheres. É também por ser um dos outros, porque isto de se afirmar feminista continua a resultar em olhares de esguelha. Se, por um lado, é muito hype assumir-se feminista, por outro, as que o fazem ainda são vistas como as reguilas da turma. As refilonas que questionam. Que opinam. Que, no fundo, lutam pelos seus direitos e que são tomadas de ponta pelo professor. As que vão sempre a exame e não desarmam. As escrutinadas, questionadas, adoradas em segredo e odiadas publicamente.

Porque muitas mulheres continuam a preferir o status quo pacificado do que uma mecha de cabelo fora do sítio. Por isso é tão importante serem os outros - eles - a dar a cara e a falar sobre esta questão. Por isso é muito importante que os homens adultos compreendam que o feminismo não é uma cena de ressabiadas de esquerda com a mania, mas uma causa transversal à sociedade. Se ensinarem os filhos a perceber a questão, já estão a ajudar. Se respeitarem e apoiarem, melhor ainda. 

Da mesma forma, é importante serem os outros - não sei como lhes chamar, eventualmente, os normais? - a trazer para a ordem do dia o tema da diversidade. Porque há muitas pessoas na televisão, mas são todas iguais. 

A diversidade - a falta dela, na verdade - não afecta apenas as mulheres. A mais recente polémica em Hollywood (#OscarsSoWhite) é disso  um bom exemplo. Hoje o The Guardian evoca a questão com exemplos da televisão. E, se pensarmos, a televisão mostra um mundo a preto e branco, asséptico e perfeitinho. Já há raças diferentes nos noticiários, no jornalismo em geral, na apresentação de programas e na ficção, mas este número está muito distante da dimensão real de cada grupo sub-representado. E as mulheres, também ficam de lado. Naturalmente.

The fact that men outnumber women two to one on television, that women disappear almost completely after the age of 50, that there are hardly any disabled presenters on air of any age, or that black men are only listened to about the industry’s lack of diversity once they’ve become really famous in America; none of it is all that funny.
Jane Martinson (The Guardian)