family

há-de ser... um dia...

... esse dia é hoje.

 Admitamos: não é uma, nem duas ou três vezes que pensamos nisto, sequer que o expressamos em voz alta. A vontade de sair daqui, abandonar tudo e usar havaianas todo o ano já nos invadiu. Da mesma forma, a necessidade urgente de férias. 

A Noelle pode, mas não é um exemplo. Sozinha e sem qualquer compromisso pessoal ou social, abandonou tudo. Partiu sem plano, fixando-se no paraíso que é St. Johns. A questão não é financeira. É maior e mais ampla, paradoxal e quase esquizofrénica. Ela tem razão. Esta urgência nas férias significa que estamos mal na nossa vida.

Não entendo a razão pela qual somos, desde a mais tenra idade, encarreirados num sistema que não conhecemos e com o qual não se sabe se queremos vir a pactuar. Tudo começa na escola com critérios de homogeneização e padronização para dar coerência a uma estrutura de avaliação. Já há escolas que apadrinham a diferença, com moldes menos rígidos mas, na generalidade, transformamos crianças em pequenos adultos, fardados, formatados, a pensar no seu futuro de sucesso. Por definição, as crianças não sabem o que querem ou o que é melhor para elas, pelo que estamos cá nós para decidir em seu nome. Questiono-me muitas vezes sobre estas decisões, o ritmo e o rigor que lhes é imposto. Oiço dizer muitas vezes que as crianças não têm tempo para brincar e que as suas agendas sociais se assemelham às de um adulto. Não concordo e não pratico. Mas cedi a uma lógica que a encaixa num sistema de ensino vocacionado para a produção de pequenos exemplos de sucesso, como se o falhanço tivesse sido riscado do dicionário. Falhar ajuda-nos a crescer e é, em si mesmo, uma forma de aprendizagem. Hoje, o verbo falhar é pronunciado entre dentes, como as palavras feias. Não nos podemos dar ao luxo dos falhanços porque esses estão reservados aos muito ricos com uma rede que os suporta durante a queda e ajuda a levantar. Vivemos numa sociedade de tal forma capitalista, liberal e competitiva que há outros verbos que passaram a ser menosprezados: compreender, ajudar, diferenciar. 

Os excêntricos têm estes devaneios de fuga. Os integrados adoram os seus fatos e as horas passadas nos escritórios, dos quais saem, qual autómatos, à hora do almoço, vestidos de igual, para uma refeição no restaurante da moda - para os neoyuppies - ou no centro comercial mais próximo, para os aspirantes a yuppies.

O termo nasceu algures em 1980 para descrever os young urban professionals que agora já não são tão young assim mas que mantém o padrão. Licenciados com carreiras nas finanças, profissões liberais ou consultoria, ganham bem e vivem melhor, com um estilo de vida urbano e cosmopolita.  Misturam-se com os preppys e, por  vezes, encontramos uma espécie de yuppie-preppy, verdadeiramente irritante, que deixa um rasto de perfume da moda, colocado em excesso, e nos atira palavras com dicção afectada que afecta a forma e o tom das palavras. Dialectos?

Mostram-se felizes com o tipo de vida que escolheram, igual à dos amigos, com férias partilhadas em locais comuns, numa perspectiva do mundo que se reduz àquilo que conhecem, sem reflectir muito sobre isso. Tal profundidade na análise iria mostrar a verdade, com a qual, provavelmente, não sabem lidar. 

Aplica-se a estes e todos os que se recusam a olhar para o que temos de forma crítica, praticando a #gratitude nos sites de redes sociais porque fica bem. Estarmos gratos pela vida confortável que temos e os filhos lindos, impecavelmente engomados na farda da escola é estarmos gratos por aquilo a que nos submetemos de livre vontade, traduzido num cansaço constante e necessidade de férias. Gratos pelo sol da manhã, o sorriso de quem amamos e saúde. Tudo o resto podemos construir. Ou destruir para fazer de novo, com um outro molde, outro ritmo e objectivos. Estaremos certos, encaixados em apartamentos modernos com vista para os vizinhos do lado, conduzindo carros de última geração mais tempo parados nos semáforos do que a circular, que nos levam para outros edifícios, aclimatizados, organizados e padronizados para acenar com a cabeça de um lado enquanto protegemos as costas do outro? Não estamos. Talvez uma galinha na banheira faça mais sentido, quando até um cão consegue ter mais aventura na sua vida do que a maior parte de nós.

 


     

Adoptar o Amor

O que é o amor?

Não sei. 

Mas sei que existem demasiadas convenções para um sentimento tão complexo que possa ser descrito apenas em palavras, intricado a ponto de ser tudo, e não ser nada.  

Decidiu-se que o amor deveria corresponder a paradigmas definidos socialmente, e que o amor de um pai pelos seus filhos seria incontestável. Mas também se terá definido que esse amor tem de obedecer a regras e a um modelo que a sociedade confortavelmente inventou para si, estabelecendo regras onde elas não existem. Porque para amar só é preciso o amor. O amor não depende do que queremos, apenas do que sentimos. E se somos capazes de amar alguém que não nasceu de nós, que diferença faz essa criança ter mais ou menos referências masculinas e femininas, desde que as tenha e, sobretudo, que seja amada, protegida, educada e acompanhada?

Não sei. Mas sei que uma instituição não tem como distribuir o amor que dois homens ou duas mulheres conseguem dar, mesmo que isso represente o contrário da parentalidade supostamente suposta, com a qual nos habituámos a conviver. Acredito mesmo que estas serão crianças mais conscientes de que o mundo não depende de um conjunto de convenções, mais tolerantes à diferença e, principalmente, respeitadoras do espaço individual de cada um. Porque orientações sexuais (ou serão antes amorosas?) são isso mesmo: orientações e, portanto, individuais. 

O mundo muda e nós, queiramos ou não, mudamos com ele. Quando não o fazemos, o mundo encarrega-se de nos mostrar como estávamos errados.  Aquilo que durante gerações se pensou ser doença não é. O que se escondia com receio do ostracismo começa, finalmente, a ser aceite. Longe vai a idade do armário. Em todos os sentidos da expressão.

Mudar custa, mas é bom. Portugal tem uma tendência inata para o conservadorismo, desafiado aqui e ali por padrões de modernidade. A decisão desta Sexta-feira, de adopção de crianças por casais gay, é disso um bom exemplo. 

A quantas crianças  se dará, agora (finalmente...), a oportunidade do amor?

 

#love #adopção #kids

Faz o que eu digo. Não faças o que eu faço.

Fazer um filho é fácil. Ter um filho, às vezes também. Criar um filho? Muito difícil. 

É tudo tão maravilhoso quanto perigoso e terrível. Não faltam crónicas de mães e pais que (ainda bem) desistiram do politicamente correcto que quase nos obriga a dizer que é uma benção ter um filho. É. Não tenho dúvidas. Mas também é difícil e desgastante. Gosto de ler os depoimentos mais ou menos inflamados sobre parentalidade verdadeira. Crua. Porque esta, também é feita de fraldas que cheiram muito (mesmo muito) mal, de pés que depois de lavados continuam a ter aquele cheiro a sapato, de feitios que não se cruzam e nos testam ao limite, de refeições infindáveis repletas de afirmações mais ou menos inflamadas, e dos dias em que o mundo - o nosso mundo - se pinta de cor-de-rosa com um sorriso deles.

Admiro as mulheres que se dedicam exclusivamente aos filhos. Não as invejo, de todo. Acho interessante que isso aconteça, numa época em que a mulher conquista cada vez mais poder. Uma espécie de contra-poder, regresso às origens e ao tempo das mulheres que eram mulher de alguém e mães de família. Acho bonito e romântico, mas não me revejo, como também não defendo a super-mulher (que quase todas somos) equilibrando estoicamente três - ou mais - vidas em paralelo: a sua, a deles e a nossa, representando-se a si e à família, gerindo os diferentes contextos com igual responsabilidade e dedicação. A essas, tiro-lhes o chapéu. Tiro-me o chapéu porque muitas vezes - tantas vezes - é muito difícil. Depois, só queremos uma cama com lençóis lavados, olhamos durante os segundos a vida a acontecer lá fora e adormecemos. Independentemente de tudo. Ou do mundo acabar no minuto seguinte. Chama-se cansaço. 

Não gosto de viver assim e, por isso, fiz opções. Opções que nem todas as mulheres podem fazer, porque não acumulam cargos mas sim diferentes trabalhos para, no final do dia - longo, quase interminável - poderem garantir que o mundo - aquele pedacinho que têm na sua casa - continua a girar.

As crianças aprendem mais por imitação do que através do que lhes dizemos. Foi duro ver a minha filha imitar-me. Não com os apetrechos da cozinha para preparar uma refeição ou qualquer outro acessório verdadeiramente doméstico, mas com um telefone na mão e um computador portátil debaixo do braço, planeando e discutindo temas que desconheço, numa atitude tão ou mais adulta do que a minha. Achei graça mas foi o momento em que me vi ao espelho. E que coloquei travões a fundo para transformar aqueles momentos em que estamos juntas em tempo de qualidade, interrompendo-o apenas para tarefas domésticas (porque tem de ser a mãe a fazer,  muitas vezes com a sua ajuda ou, simplesmente, companhia) ou para conversar ao telefone com as tias e os tios, com quem também ela aproveita para falar ou enviar "muitos beijinhos".

Os anos passam demasiado depressa e nada justifica este tempo que perdemos sem eles. As crianças que escolhemos ter. Es co lhe mos, notem bem. As cenas horríveis que fazem são, invariavelmente, culpa nossa. Nem sempre por falta de atenção. Muitos resultam de pura imitação. Muitas vezes temos comportamentos altamente criticáveis que eles - os miúdos - aprendem rápida e facilmente. E, depois, sobra para nós, que os queremos certinhos e direitinhos sem partir um prato. Porque dá mais jeito. Mas essas, não são crianças, são autómatos.

A minha Rita fala muito. Tanto que às vezes ligo o piloto automático, ouvindo uma palavra aqui e outra ali, para não perder o rumo da sua conversa (estória seria mais adequado). Nestas estórias que inventa para si reside o segredo da coisa: às vezes deixo-me estar atenta (escondida no corredor) à sua conversa. No quarto, parece que desenvolve uma estória entre bonecos quando, na realidade, recria a realidade que conhece, imitando-me na perfeição ou trazendo, para o seu quarto, o que acontece na escola. Nestes curtos momentos consigo saber mais sobre o seu dia-a-dia do que em qualquer conversa que tenhamos sobre o tema, e muito mais do que quando os bombardeamos com perguntas traiçoeiras sobre esse reduto impenetrável que é a escola. 

Eu sei que deveria ser melhor - podemos sempre ser melhores, na verdade - mas este auto retrato é fantástico para nos posicionar. Para sermos capazes de olhar, fora de nós, e percebemos quem somos. Ou, pelo menos, que imagem passamos para os nossos filhos. É um exercício que recomendo porque, com a pressa com que passámos a viver, na maior parte do tempo esquecemo-nos das coisas mais simples. Uma delas, é dar o exemplo.