brincar

Sol não falta...

... Falta o resto. E o resto, é tanto. 

Estou lá e poderia estar cá. As notícias chegam à mesma velocidade, onde quer que estejamos. Na verdade, contaram-me que o Governo que não chegou a ser, já se foi. E que não falta o sol e calor em pleno Novembro, contrariando as paisagens outonais e as fotografias de chocolate quente - que já apetece - em Londres.  

Sempre que vou, raramente tenho pressa em voltar e não raramente tenho vontade de chamar os que ficam, para me encontrarem num aeroporto qualquer. Todos os países, hoje, têm problemas. A diferença está em saber viver com esses problemas, com sentido de Estado e o fervor da Nação que me parece ter-se perdido na terra do Sol e do bom tempo. São miúdos que não sabem jogar e se agarram à bola quando o xuto à baliza falhou por centímetros, rodeados de outros que em vez de separar os que se agarraram à bulha rodeiam e gritam "dá-lhe... dá-lhe... dá-lhe..." até um deles cair por terra. Afastam-se e procuram a próxima diversão, como voyeurs que são.

Dizem que estamos em suspenso à espera daquele que há-de chegar e que, sabemos, jamais voltará. Com ou sem nevoeiro. Preferimos viver na ilusão da possibilidade, a enfrentar os nossos medos, carpir mágoas e arregaçar as mangas para enfrentar um novo dia. Esse dia não chega porque vivemos repetidamente o mesmo, repisando todas as questões sem as resolvermos. Talvez estejamos a aguardar a réplica de 1755 para, de uma só vez, reconstruir tudo. Chama-se começar de novo e só nos faria bem. Independentemente de quem habitar o Parlamento, os tempos não estão para brincadeiras, recordações ou esperas. 

Esta manhã, por terras de sua Majestade, Cameron discursou para a Europa. O tom inflamado contrastou com o aspecto depurado e a voz aparentemente bem colocada, para gentilmente ameaçar bater com a porta.

A Europa, fragmentada e desfigurada, está ameaçada por dentro, uma força centrífuga que afasta o centro, descentralizando-o e dispersando as opiniões. Há refugiados encaixados em apartamentos no centro de Londres, cuja valorização ronda o milhão de libras. Alguns são vizinhos da Lady Gaga e não sabem. Dormem, provavelmente, em turnos, porque na mesma casa estão mais pessoas do que camas. Da Arábia não chega apoio nem se abrem portas, mas disponibilizam a totalidade do investimento necessário para a construção de mesquitas por toda a Europa. Nada contra, mas admitamos que a paisagem do velho continente vai mudar radicalmente.

E vai mudar também porque enquanto andamos aqui a brincar às casinhas e em lutas pueris pelo poder, o ártico derrete a uma velocidade nunca antes vista, ameaçando tudo e todos. Como sempre, estamos demasiado preocupados em olhar para o umbigo, sem ver largo e longe, sem antecipar o que por aí vem. E o que está para chegar, tem tudo para não ser bom.

Foto: Simon Schmitt (www.schmitt-simon.com)

Foto: Simon Schmitt (www.schmitt-simon.com)


Brincar. É um direito!

"Já não brinco. Já não solto uma gargalhada. Acho as pequenas brincadeiras muito parvas. Não percebo como se pode brincar quando há tantas coisas sérias e que nos preocupam na vida".

Infelizmente, parte dos adultos é assim. Eu também já não brinco. Ao faz de conta. À apanhada. Às escondidas. À macaca (com pena...). Mas não deixei de brincar. Acho mesmo que o pior que pode acontecer a um adulto é perder a vontade de brincar, de se rir de si próprio, da gargalhada solta a doer a barriga. Deixar de ter essa capacidade de abstracção que o faz viajar por mundos nunca antes explorados e regressar vitorioso. De pegar num monte de peças e fazer uma cidade, do nada inventar instrumentos e tocar, com um lenço fazer uma princesa e com um lençol um castelo.

É tudo muito bonito mas somos corrompidos por esse estado a que chamam idade adulta, que é tudo menos divertida. Cilindrados por aquilo a que chamam rotina, que se instala e cristaliza em cada um de nós afastando tudo o que antes gostávamos de fazer. Piora se tivermos filhos e não formos capazes de sair da nossa zona de conforto, falar a sua linguagem e brincar à sua maneira. Ou, pelo menos, atingir o limiar da adaptação que nos faz brincar cheios de vontade e os deixa felizes por lhes darmos atenção. Total. Sem telefones. Televisão. Jornais ou qualquer outra forma de entretenimento que os adultos simplesmente não dispensam.

Não brinco a tudo, confesso. E devia brincar mais. Todos os dias. Às princesas. Às viagens. Às fadas. Às escolas. A fugir das ondas. A contar as estrelas. Ao faz de conta. Faço de conta que gosto e acabo a arrumar-lhe o quarto. Quando me apetece mesmo brincar, brinco. Construo casas e carros e cidades com Lego. Dança(mos) e escolhemos músicas como estrelas pop. Vestimos roupas e experimentamos vários estilos nas lojas. Fazemos pulseiras, colares e pintamos as unhas de vermelho. Desenho este mundo e o outro que ainda não conhecemos e pinto-o com muitas cores. É tão bom...