Traveling

Bronze no escritório? Segredos sem mãos cor-de-laranja | making the fake than (at) work

Chegámos àquela época do ano em que um tom de pele demasiado claro é questionado. Parece-me que essas pessoas não se questionam quanto à opção de não querer bronzear ou outra, sem opção, que é de não conseguir bronzear. 

Actualmente oscilo entre as duas, depois de ter retirado três sinais nas costas e a consciência de que algumas rugas vieram para ficar. O sol é bom e eu gosto mas não me adianta deitar e esperar que a magia aconteça. Não há magia. A tez clara, os cabelos entre o castanho claro e o ruivo não deixam dúvidas, muito embora durante demasiado tempo eu tenha achado que conseguiria contrariar a minha natureza. Rodeada de morenas, aquelas que passam uma tarde na praia parecendo que estiveram 15 dias de férias, fui sempre a do branco leitoso que não vestia biquínis brancos por não fazerem contraste. Até ao dia em que me aceitei. Que passei a valorizar o meu tom de pele porque é este que tenho e não há tarde de sol que o possa mudar. Também há muitos anos tentava de tudo para parecer bronzeada sem ter de apanhar sol. Porque para a maior parte das pessoas com a pele clara e sensível, o sol queima. Aquela sensação de estarmos a fritar, sentados na areia da praia, é tudo menos agradável. Mesmo com protector 50. Mesmo nas horas boas. Mesmo em movimento ou à beira da água... Nessas tentativas conheci de tudo e tive a sorte de nunca acabar com as mãos cor-de-laranja, mas lembro-me de estragar roupa, do cheiro que oscilava entre o caramelo e sérum de vitamina C. Das pernas manchadas porque usava hidratante com cor, esquecendo-me de que teria de passar horas sem me vestir ou sentar no sofá... Um não acabar de disparates até acabar por perceber que não me interessam os olhares dos bronzeados que já circulam por aí. Vou usar os meus vestidos com as pernas brancas, anyway. Caso contrário visto-os quando? Em Outubro, depois de alguns meses a apanhar sol?...

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While in London I feel happy not to have that awakward attitude towards my pale skin. Have you been to the beach lately? You definetly need to get some sunbathing...  

These are common approaches to my non-existent glowing tan. Although a bit annoying, I've been able to move from a "I need to get a tan no matter what" to "I love to be fair skinned and I won't make a single effort to have a bronzed skin". 

Some years ago I was acting a bit crazy about it. I'm the palest among my girlfriends and I wanted to look like them: bronzed skin of well-holidayed young women who have got their act together. Even if all of them were spending an afternoon at the beach to look like it. Even if I'd stayed a whole month at the beach with a pretty lax attitude towards sun cream application, nothing would work. And I didn't had the time, neither the patience to do it. So I used all sorts of fake tan products with the most disappointing results. Fortunately never made that orange hands' mistake but still, fake tan always looked preposterous on me and all I ever wanted was that sunkissed glow that make us look healthier and happier... Yesterday I read this amazing review about Pre-Shower Tan (NDK SKN) which promises to work in ten minutes and continues to develop for the next six hours, meaning you can apply it, take 10 minutes to prepare dinner, shower and go to bed to look (almost) naturally tanned in the morning. A must try, definitely, specially if you spend your days inside with 30° on the outside...

Azores, a love story

Fui uma vez e apaixonei-me. Voltei e passei a amar. Os Açores tiveram essa sublime capacidade de me fazer gostar de algo que pouco ou nada tem a ver comigo, as minhas características e personalidade, o meu estilo de vida: a tranquilidade.

Fui, pela primeira vez aos Açores em Dezembro e andei entre ilhas. Escrevi uma longa carta (LER) apaixonada às ilhas que conheci e não esperava voltar tão cedo. mas voltei. Por pouco tempo e limitada ao azul do mar, mas voltei. Voltei às lapas e às cracas, às amêijoas e ao pão com alho que pinga a gordura da manteiga, ao bolo levedo com o queijo regional, aos chás Gorreana (a mais antiga plantação de chá na Europa), dos quais o preto Pekoe é o meu preferido. 

Voltei também a ver um céu azul livre de poluição e um verde único, umas cores ao pôr do sol que dispensam qualquer filtro e o azul do Atlântico que se estende até onde a vista alcança. 

Sentei-me à beira mar e não pude deixar de pensar no que faria se vivesse num sítio assim. A ideia de viver em relação com o mar é inevitável, como foi também inevitável o pensamento seguinte, sobre as opções e a variedade que temos no continente. Na verdade, sentada a olhar o horizonte debati-me a pensar no continente que é o meu quando os meus olhos fitavam aquele outro continente que não é nosso e que, talvez por isto, atraia tanto os Açorianos. Na verdade, olhamos mais vezes o pôr do sol e este acontece de costas voltadas para a Europa.

Com viagens de avião por vezes mais caras para residentes do que turistas, com limites impostos pela geografia. O que faria? Escreveria? Talvez. A internet é uma porta que se abre para o mundo e que nos permite chegar onde fisicamente não vamos. Como seria, viver todos os dias, num local rodeado de mar, distante de tudo e, na verdade, tão perto mas sem, na verdade, estar realmente perto ou se limitar à ideia que dele fazemos.

A globalização uniu-nos e uniformizou-nos. Contudo, embora tenhamos as mesmas coisas, maneirismos, as mesmas roupas ou tiques de linguagem, na verdade, São Miguel não se deixou globalizar totalmente, mantendo o centro da cidade (quase) igual a si próprio, com uma traça antiga e cuidada que consegue esconder os (poucos) mamarrachos que a modernidade fez aparecer.

Refugiei-me naquele que elegi como o meu local preferido em São Miguel. Chama-se Louvre Michaelense e é um daqueles locais antigos com a contemporaneidade de que gostamos. A selecção de chás é irrepreensível, as opções não são infinitas mas são mais do que as que esperamos e vão além do que precisamos. Os bolos derretem-se na boca e o ambiente é perfeito para estar ou, mesmo, trabalhar. O resto? O resto já sabem. Escrevi este artigo e deliciei-me a ver o tempo passar.

 

Mindfulness: It's the word of the day and the trend of the year, but I believe there's more to it than just a state of mind. Defined as a mental state achieved by focusing one's awareness on the present moment, while calmly acknowledging and accepting one's feelings, thoughts and bodily sensations, I believe that there's much more to it than what's been preached about it. I also believe that it might be much easier to achieve than we actually think.

I don't know how to reach a mindful state of mind and honestly I've never tried it. Although I feel that I've reached it effortlessly at Azores. I was focused on the present moment, considering my feelings, thoughts and bodily sensations, experiencing a quietude that I have encountered before, once, a few months ago, at Azores. It brings me peace of mind, a different notion of time and a tranquility that no other place in the world has ever brought me, with no effort at all. I wasn't planning to work on a mindfulness mental state. I wasn't keen to find some peace of mind. I wasn't looking for some quiet. And it all happened. Likewise in Basel a few weeks ago, but in a much higher and deeper extent.

I took a walk and I couldn't help but wonder what it would be to live in a place like this. I was sitting at the dock and I felt completely surrounded by the Atlantic Ocean, which is rather different  from gazing at the sea or at the beach trying to reach the horizon. I felt very close, yet, far away from everything we take for granted. When on an island, the world gets a different dimension and our sense of being, our options and challenges get challenged as well. That brought me peace, along with the silence and few traffic on the streets. You don't have to go far to get immersed in the nature and the green sights mixed with the blue tones of the sea to allow you to escape reality. Azores really takes you, while lying back on the grass, to wherever you want to go.

Basileia deixa saudades. Missing Basel ♡

Com sol e dias bonitos, como é possível ter saudades de Basileia?

É possível. 

Porque Basileia é das cidades mais acolhedoras e tranquilas que conheci nos últimos tempos.

Para quem, como eu, gosta da agitação das grandes cidades, do turbilhão de coisas e pessoas que caracterizam algumas capitais, Basileia pode ser uma desilusão. Contudo, se pensarmos que aqui encontramos tudo o que há nessas cidades com a serenidade que a distingue, então sim, este é um daqueles raros locais que deixa saudades.

Lá fora está sol e a temperatura convida a usar sandálias. Quando visitei Basileia o calendário definia Primavera, embora esta se apresentasse com ares de Inverno. Um Inverno suave, contudo, a apelar aos casacos quentes. Conheci duas cidades diferentes: a Basileia fria e cinzenta, chuvosa e a apelar a um chocolate quente e outra, com dias iguais ao de hoje, solarenga, demasiado quente para a data, impondo-nos tardes à beira rio. Gostei das duas porque em ambas senti a mesma harmonia que me tranquilizava, mesmo quando pedia agitação (que também tem).

Para muitas pessoas Basileia resume-se em três palavras: design, design e design. Concordo, mas acho que Basileia é daqueles locais quase perfeitos para se viver, encaixada entre países e culturas diferentes, perto de tudo e, no entanto, aparentemente distante, com um ritmo próprio.

Num dos dias, com um sol e um céu em tudo iguais aos de Lisboa, havia pessoas junto ao rio aproveitando o bom tempo. Muitas pessoas que conversavam, namoravam, divertiam-se. Encontrei-os de todas as idades e estilos, à beira de um Reno temperamental que foge para o mar do Norte. Em oposição, com frio e chuva, os cafés e museus encheram-se de pessoas que não se limitam pelos rigores do Inverno.

Aprecio este aparente fazer nada que significa mais do que parece. Apresenta-se como uma valorização do eu e do outro, da comunhão do tempo e do espaço que significa uma relação. Não acho os suíços - estes suíços - particularmente simpáticos ou afáveis, mas sinto-os felizes, de bem com a vida, mesmo que sem o samba brasileiro ou as mornas africanas. São mais individualistas do que estamos habituados o que, para mim, significa menos intrometidos. São organizados e regrados sem a quadrícula alemã que nada permite fora do limite. As ruas são limpas e direitas, os cães (muitos cães, por sinal) andam pela trela e cumprem o padrão civilizado da higiene que se impõe numa cidade. 

Do outro lado da cidade - muito grande e, no entanto, suficientemente pequena para se andar a pé -, encontrei várias crianças da idade da minha filha caminharem sozinhas na rua, mochila às costas, como quem acabou de sair da escola. Outras circulavam de bicicleta juntamente com os adultos e os automóveis. Olhei para o relógio. Às quatro e meia da tarde país e avós, empregadas domésticas e outros predicados que desconheço amontoam-se no hall de entrada da escola. Cá fora não circulam carros, nem os conseguimos estacionar porque quem está lá dentro tem apenas uma prioridade: ir buscar a criança à escola. Concentrei-me e ignorei o dia-a-dia da escola em Lisboa. Cruzei-me com outras meninas. Duas delas, de mão dada, muito cheias de si, caminhando certamente a caminho de casa. Mochilas às costas e a inocência das crianças da escola primária. Pensei que poderia ser, também assim, em Lisboa. O nosso proteccionismo excessivo mima crianças que poderiam percorrer uma rua a pé, num bairro pacato do centro de Lisboa mas não o fazem porque "pode acontecer alguma coisa". Alguma coisa acontece em Paris ou em Bruxelas e em metrópoles infinitas como Nova Iorque. Aqui acontece um par de estalos ou um roubo por esticão. Eu sei. Também tenho medo. E sei o que faria de não tivesse.

Seis da tarde, hora de ponta. Eléctricos cruzam-se com bicicletas, os carros abrandam e os peões avançam. Para além do metal nos carris e da campainha dos eléctricos, não há barulho. Há movimento e não há encontrões. Há pressa e ninguém corre. Sinto-me em casa perante a descontração das mulheres de saia, sentadas na bicicleta e não estou em Amsterdão. Não entendo a cultura da "minha lata ser melhor do que a tua", sentados a 20 km/hora numa auto estrada, ou parados numa fila que termina lá longe, num semáforo vermelho. Em Basileia, alguns bairros nos subúrbios já estão em França ou na Alemanha porque a sua área metropolitana se estende para estes países e, no entanto, em redor do centro há bairro de casas baixas, ruas com edifícios onde vivem pessoas. Lisboa está lentamente a trazer as pessoas de volta para viverem no centro. Falta o passo seguinte, como lá, em que muitas pessoas caminham, entram e saem dos eléctricos e pedalam nas suas bicicletas.

Para um cidade com mau tempo, chuva e muita neve, vi mais esplanadas em 300 metros do que em toda a cidade de Lisboa - se excluirmos, naturalmente, a rua pedonal transformada em esplanada que é hoje, a Rua Augusta. As pessoas estão bem dispostas e reúnem-se ao fim do dia com uma cerveja para conversar. Jantam ao ar livre no exacto momento em que nós, Lisboetas, estamos a sair do emprego ou temos a sorte de chegar a casa. Parece-me que, por lá o trabalho acaba mais cedo e sobra tempo para aquilo que falta a muitos de nós - viver. 

English right here

 

 

Coulda, shoulda, woulda

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Joséphine não foge. Escapa. Um atentado evitado. Quantos se seguirão, na cidade que nos faz apaixonar a cada visita? Paris será sempre o seu reduto, o local de onde parte olhando para trás, ao qual regressa inevitavelmente. Voltamos sempre ao local onde fomos felizes e Joséphine nunca chegou verdadeiramente a partir. Ausentou-se temporariamente da luz de que todos falam, aquela que nunca entendeu ou irá reconhecer, porque encontra luz em cada cidade que visita.

A luz está em nós, nessa capacidade única que cada um tem de ver o mundo, deixar-se inundar por tudo aquilo que é possível conhecer sem esquecer o que já sabemos. A vida é feita de partidas e regressos. Não pode ser de outra forma. A rotina tolda-nos a visão, essa permanente sede de vida e de viver. Trocamos o conforto disto, igual a si próprio e a cada dia que passa, por aquilo que desconhecemos e os riscos que lhe estão associados. Nada pode ser tão enriquecedor como ficarmos entre os que desconhecemos, os que não gostamos ou queremos gostar, o novo e indizível ao olhar. Aprender a ver o que não está à vista, ouvir o que não dizem, descobrir os detalhes que fazem parte de todos os dias, que tomamos por certos, amplia-nos a perspectiva, torna-nos mais fortes, capazes do desafio. Qualquer. Mesmo quando não sabemos qual será o desafio.

Fora daqui - de todos os dias - Joséphine era mais forte e destemida. Achava-se capaz de conquistar o mundo. Por isso lhe custava tanto voltar. Sentia-se sempre a regressar à dimensão que teimam em impor-lhe, à regra do diminutivo como se o mundo se resumisse a essa medida.

O mundo é maior do que possamos imaginar e só com imaginação poderemos ultrapassar as limitações que nos dizem existir. Que não existem. A não ser para aqueles cujo mundo não é mundo. Apenas um pedaço. Aquele que definem por seu, que impõem aos outros, mesmo que não caibam nesse espaço. 

Saiu, um dia, convencida de que iria sem destino, mesmo que o bilhete indicasse a partida e o regresso. Portugal tem uma espécie de manto que nos impede de ver largo e longe. Quando nos afastamos, parece tudo maior e mais evidente. Como se uma neblina nos ofuscasse, limitasse, transformasse o infinito à extensão geográfica do país.

Portugal é pequeno nas suas diferentes dimensões. Soube tornar-se imenso quando descobriu o mundo, sem conseguir conservar essa amplitude. Ou, pelo menos, parte dela. Mesmo quando se expandiu, cresceu em tamanho aparente sem abandonar, nunca, o objectivo pequenino que o caracteriza. Pensou no aqui, e no agora, explorou o óbvio, esqueceu-se de criar raízes que influenciassem, verdadeiramente, cada povo e o que lhe deu origem. Há, naturalmente, resquícios da colonização. Permanecemos em muitas línguas e nacionalidades, deixámos que cada uma delas permaneça em nós. Excepto naquele ponto fulcral que diferencia o ímpeto expansionista da necessidade de encontrar soluções para problemas que nenhuma expansão pode resolver. Falta-nos raça e carisma para desbravar o mundo sem nos assustarmos com as consequências, estratégia para ultrapassarmos a estatura a que sempre nos reduziram - ou tentaram reduzir -, a tenacidade que nos tornaria maiores do que algumas vez quisemos considerar.

Felizes os que vão, mesmo que por pouco tempo, porque voltam sem o olhar embaciado pelos vícios, estratagemas e malandrices que destroem essa capacidade de pensarmos que somos capazes, que a aparência da limitações é apenas o que nos submete a uma condição do sucesso em potência. E que nunca chega a concretizar-se porque se perde na névoa, nos atalhos, nos contratempos, destruído pelo cansaço de fazer parte de um grupo descoordenado e desconcertado que teima em remar numa permanente ausência de sincronia.

Assim vamos, dia a dia, meses, anos. Até voltarmos a sentir o ar frio no rosto, a luz que nos desconcerta, iluminando ideias que de outra forma não conseguiríamos alcançar. Na maior parte das vezes, precisamos da distância para nos aproximarmos. Permite articular o pensamento, sintonizando-o no tempo e no espaço, com um determinado agora que, por vezes, teima em permanecer na neblina. Quando se dissipa este manto que assume a forma de nevoeiro, deixamos o estado de numbness em que a maior parte dos Portugueses se encontra, ignorando o mundo lá fora, presos numa bolha que consideram ser apenas sua, protegendo-os do que possa estar para vir. A bolha existe mas não nos protege. A única bolha que pode fazer face ao que aí vem é a da criatividade e inovação que também existe, mas que tantos teimam limitar, agarrando-se ao que já conhecem, rejeitando aquilo a que se chama mudança e que é fundamental para sairmos do nevoeiro. Agora é já.

Amor? Espaço.

Mais um exemplo de dois que decidiram "come clean" que é como quem diz, dizer a verdade. Amar não é fácil. Amar, com a rede a interferir, mais difícil. De malas aviadas e sempre em trânsito? Muito difícil.

O casal de bloggers Jarryd Salem e Alesha Bradford entraram numa espécie de burnout virtual. Cansados das fotografias perfeitas, cansaram-se, também, um do outro. Para além da questão principal - a aparente perfeição do que publicamos na rede - há outra, subjectiva: pode e deve um casal estar junto 24 horas?

Acho que não. Ou, pelo menos, não sempre. O espaço para o outro depende do nosso próprio espaço, da capacidade que temos de abdicar de nós pelo outro. Até onde abdicamos? 

Dias a fio, mala ao ombro, maquina fotografia na mão. A foto perfeita por encomenda. Ele e ela. Juntos nesta missão. Até quando? Seremos felizes nesta realidade que se ausenta dela própria? 

Travel troubles: Jarryd Salem e Alesha Bradford

Travel troubles: Jarryd Salem e Alesha Bradford

Un jour à Antwerpen

Antuérpia não é a Bélgica. Na verdade, é. Mas não sei bem o que é a Bélgica - e tenho para mim que eles também não. Um dia conheci Bruxelas. A suposta capital da Europa, como a maior parte das capitais não é exemplo de um país. Depois, Leuven e pensei que era muito diferente da capital. A seguir aquele cantinho especial que é Ghent onde se fala mais neerlandês do que francês, no qual fiz mal figura expressando-me em francês para me responderem em Inglês. Por momentos enfiei-me num buraco pensando que a minha pronúncia seria para lá de má. Nunca tal me tinha acontecido em França. Mas há sempre uma primeira vez para nos meterem no lugar a que cada língua pertence, pensei. Ainda os achei arrogantes e insisti na prática, para depois perceber que falam melhor inglês do que francês e que o francês é uma coisa pouco praticada por aqui. Agora, em Antuérpia, confirmei o que já devia saber. Deixar o francês no bolso e sacar do meu melhor inglês, que todos falam e entendem. Porque neerlandês ainda não explorei. Não entendo e o que leio parece sempre algo que na realidade não é. Talvez um dia.

Neste dia em Antuérpia não vi muito mas gostei. Voltarei, certamente, porque é daqueles locais que nos acolhe sussurrando que devemos voltar para conhecer melhor. Não sou a melhor pessoa para o habitual sightseeing e já perdi a paciência para correr os pontos turísticos, tirar fotografias para as quais só voltarei a olhar quando arrumar pastas de fotografias (que nunca acontece, certo?) e selfies sem selfiestick que nos mostram em ponto grande, escondendo o cenário. Por isso, há muito que adoptei duas opções: guardar na memória o que vejo e ser romana em cada local que visito. Actuar e agir como os locais, percorrendo os seus percursos, frequentando os seus locais e as suas lojas é o melhor que podemos fazer. Naturalmente que nem sempre é possível mas, as partilhas na rede, as recomendações e os sites que contam os segredos das cidades são uma grande ajuda. Talvez por isso vá encontrando muitos (alguns) turistas em alguns locais supostamente "locals only" em Lisboa. É o preço a pagar. Eu pago.

Contam alguns belgas que Antuérpia é para compras. Venho convencida. Lojas maravilhosas,  algumas, de cadeias internacionais, só supostamente são iguais às nossas: escolheram imóveis históricos e mantiveram a traça original. O que lhes dá um toque muito especial, porque entramos para ver duas coisas, a arquitectura e as futilidades que têm para vender. Há bons saldos e variedade, apesar da afluência. Novamente, o preço a pagar. Há que partilhar, mesmo que alguns entrem naquela loucura dos saldos e invadam lojas como se o mundo fosse acabar e precisassem mesmo daquele par de sapatos. Não precisam. Mas o mundo pensa que sim.

Gosto sobretudo da descontracção destes países. Quanto mais a norte melhor. Menos presunção e mais individualismo, menos água benta e mais variedade. Comer na rua não tem a sombra do fantasma da ASAE - era mais perigoso e menos saudável, mas éramos um bocadinho, nem que fosse só um bocadinho, mais felizes antes desta agência tentar tornar as nossas vidas totalmente assépticas, não éramos? Eu acho que eles são. As waffles que se vendem na rua são maravilhosas e nos cafés, patisseries ou boulangeries, não sinto aquela pressão que existe sobre nós das regras e higienização. Para além de que em qualquer lugar podemos optar por "emporter" e acompanhar o nosso passeio de um saboroso cappuccino. Quente. Para aquecer as mãos.

Não é tudo bom e há muitas coisas que funcionam de forma diferente. Não necessariamente mal, mas diferente dos hábitos nacionais que não serão todos criticáveis. Seja como for... Antuérpia é local para estar muito mais do que um dia. Dos museus aos locais históricos, há muito para ver e pontos maravilhos para parar e comer. Não serei foodie, mas tenho uma veia de teller que me faria contar muitas estórias de comida. Porque aquilo que encontramos fora de portas é sempre diferente e digno de registo. Amanhã, estórias de fazer crescer água na boca, com sabor belga.

Still NYC (always) New York.

 É oficial: vivo (vivemos, porque a maior parte dos leitores do Urbanista tem um IP localizado em Lisboa) numa aldeia. Em formato concha, para não nos perdermos ou afastarmos. Nova Iorque é tudo menos uma concha. Adoro a minha conchinha pessoal. A minha casa, o meu reduto onde me escondo quando preciso, o local que me retempera e dá a energia para todos os dias. Apenas essa concha. De resto, espaços abertos, quanto maiores melhores, quanto mais amplos mais desafiantes, quanto mais desafiantes, mais apaixonantes. Sim. Há muito que me apaixonei pela Big Apple porque é mesmo isso: BIG. Enorme. O mundo numa cidade que parece representar muitas cidades dentro da mesma. Atravessá-la de ponta a ponta demora mais do que dar duas voltas a Lisboa e conseguimos maior variedade do que alguma vez a nossa cidade poderá contemplar. Não há comparação possível e não estou a comparar o incomparável. Gostemos de demasiado cimento e betão, ou não, na verdade este é um daqueles locais imperdíveis para quem prefere o recorte dos arranha-céus a uma bucólica paisagem verde. Ou mesmo ao azul do mar. Acredito que a vida se faz de equilíbrio e, por isso, nenhuma das opções isolada estará completa. Mas, if you can make it here, you can make it anywhere. That's what I believe.

 

Dunkin Donuts

Dunkin Donuts

Times Square

Times Square

Dean & Deluca

Dean & Deluca

Philly, you got me.

Não é difícil apaixonar-me por uma cidade. Grande em dimensão e expressão, dinâmica e movimentada, exuberante e com requintes de rebeldia? Gosto. Polvilhada de cultura, gentes, sons, cheiros, sabores, cores e diferenças em relação ao de todos os dias? Adoro.

Philly não é exactamente assim, mas é um bocadinho assim. Antiga, com história, parte da história e berço da história dos Estados Unidos há muito que queria espreitar as ruas e sentir-lhe o pulso. Oscilando entre o novo e o velho, o passado e o presente, Philadelphia não é um must see, mas é um worth going to. O tempo foi curto para tudo, merecia mais horas para explorar os detalhes do que ficou por ver e fazer.  Encaixada entre um rio e outro, a cidade é tanto virada para dentro e para fora, ou seja, para o rio e para si própria, concentrada no centro social, cultural e artístico. Junto a um rio corremos e remamos. No outro, aproveitamos o ar e o espaço, as pessoas e o tempo.

No centro há tudo à distância que os pés alcançam. Crianças num ringue de patinagem e adultos que se encantam com mercados de Natal dominados por árvores nórdicas, iluminadas ao pormenor. Ruas cheias de gente com mais ou menos estilo, tantas no estereótipo norte americano quanto as que estão no extremo oposto. Ruas com lojas iguais a tantas outras e outras tantas diferentes, próprias do local, provando que o global nos invadiu sem, contudo, matar o local. Porque verdadeiramente local são os cheesesteaks, únicos até nos Estados Unidos. Provei dois. O mesmo sabor, ainda que um deles tenha revelado maior cuidado na confecção e, portanto, maior qualidade. Melhor sabor.

Estas são umas macro sandwiches cheias de carne de vaca cortada em tiras muito fininhas, grelhada ao ponto e com um molho cujo sabor não sei descrever, mas que é daqueles de lamber os dedos. Chegam embrulhadas num papel, comem-se à mão, lambuzam-nos e lambuzamo-nos enquanto acompanhamos com batatas fritas e limonada. Único. Para comer uma vez. E recordar para sempre como a mais awkward sandwich ever.

No quarteirão da Avenue des Artistes para além da arte e da música há lojas, restaurantes e bares, uma movida pouco parecida com a nossa, em Lisboa ou Madrid, mas que tem, também, a sua piada. Lá mais em baixo na Passyunk Av. encontramos o mundo à mesa, com uma oferta gourmet apenas equivalente em cidades como Londres. Mas é também lá mais abaixo, na mesma cidade que a Little Italy se enche de cor com cannolis e outras especialidades italianas, lojas de queijos com fila muito além da porta, venda de café que cheira mesmo a café, talhos centenários e outras tantas lojas agora dominadas por latinos e chineses. Uma torre de babel, portanto, como são, em boa verdade, os Estados Unidos da América.

O mar

Down there, the Atlantic

Down there, the Atlantic

Este artigo nada tem a ver com o mar, mas nada mais me ocorre quando estou há várias horas a sobrevoá-lo.
Ia escrever uma nova frase quando reflecti melhor porque, de facto, não viajo muito. Desloco-me muito, quase sempre para os mesmos locais, durações curtas e incisivas, bagagem de cabine, rapidez e leveza nas pernas. Não é isto, viajar. E, porque raramente viajo, feita turista, carregada de bagagem e tempo a perder, contamino todos à minha volta com estes hábitos eficientes, embora terríveis para quem não os tem. Ou quem não precisa deles. Sobram para mim as escolhas, os detalhes dos produtos de higiene, as dobras na manga  da camisola, a separação entre o essencial, o acessório e aquilo que gostávamos mas abdicamos.
Viajar é abdicar para conquistar. Abdicar dos que ficam para nos concentrarmos nos que vão, do que temos ou gostamos para ficarmos com o que realmente importa, porque a mala é só uma. Há sempre mais um par de calças ou sapatos. Aqueles que deveriam ter ficado para garantir o lugar dos outros que encontramos e nos deixam a bagagem a ponto de não fechar.
Viajar é perder para ganhar. Perdemos tempo na ida mas conquistamos um outro tempo que não tem preço, aquele que só quem vai conhece, porque voltamos sempre mais do que fomos. Mais abertos ao mundo, tolerantes, capazes de apreciar o que antes não víamos. Porque ainda não havíamos visto. Experientes, repletos de novos sabores, que conhecíamos apenas dos filmes.
Viajar é mais do que isto e começa no momento em que pensamos ir. As escolhas são múltiplas e infindáveis. Já não nos limitamos a comprar um bilhete e uma estadia, levamos daqui um roteiro que esteve nos livros e passou a estar no bolso.

A internet mudou o que fazemos e como fazemos, mudando principalmente a forma como viajamos. Procuro o hotel e quero saber o que dizem os outros sobre as instalações e o pequeno almoço, coloco-me na rua, à porta, para concretizar a sua localização, defino roteiros em função dos locais que quero visitar, sabendo que demoro 10 minutos a pé de um ponto ao outro e selecciono, ao detalhe, onde janto, criando pequenas experiências gourmet que antes eram quase impossíveis. Havia sempre quem pudesse recomendar mas, agora, sei quais são os restaurantes e joints que quero visitar porque os encontro num mapa, com fotografias e descrições. Perde-se na descoberta, no local, ganha-se tempo e a (quase) certeza de que vamos comer bem. Estou a caminho de um daqueles locais com pouca reputação gastronómica, por ter adoptado a gastronomia de outros, criando uma nova, um pouco indiferenciada. Mas estou, sem dúvida, cada vez mais a transformar as minhas viagens - aquelas longas, com tempo e mala de porão - em pequenos roteiros gourmet, para descobrir os detalhes que fazem a diferença. Saboreá-los.

Com o tempo que os turistas têm.