Portugal

Entre

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido.

Ponta Delgada

Ponta Delgada

Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Furnas

Furnas

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Louvre Michaelense

Louvre Michaelense

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

(continua) 

Sol não falta...

... Falta o resto. E o resto, é tanto. 

Estou lá e poderia estar cá. As notícias chegam à mesma velocidade, onde quer que estejamos. Na verdade, contaram-me que o Governo que não chegou a ser, já se foi. E que não falta o sol e calor em pleno Novembro, contrariando as paisagens outonais e as fotografias de chocolate quente - que já apetece - em Londres.  

Sempre que vou, raramente tenho pressa em voltar e não raramente tenho vontade de chamar os que ficam, para me encontrarem num aeroporto qualquer. Todos os países, hoje, têm problemas. A diferença está em saber viver com esses problemas, com sentido de Estado e o fervor da Nação que me parece ter-se perdido na terra do Sol e do bom tempo. São miúdos que não sabem jogar e se agarram à bola quando o xuto à baliza falhou por centímetros, rodeados de outros que em vez de separar os que se agarraram à bulha rodeiam e gritam "dá-lhe... dá-lhe... dá-lhe..." até um deles cair por terra. Afastam-se e procuram a próxima diversão, como voyeurs que são.

Dizem que estamos em suspenso à espera daquele que há-de chegar e que, sabemos, jamais voltará. Com ou sem nevoeiro. Preferimos viver na ilusão da possibilidade, a enfrentar os nossos medos, carpir mágoas e arregaçar as mangas para enfrentar um novo dia. Esse dia não chega porque vivemos repetidamente o mesmo, repisando todas as questões sem as resolvermos. Talvez estejamos a aguardar a réplica de 1755 para, de uma só vez, reconstruir tudo. Chama-se começar de novo e só nos faria bem. Independentemente de quem habitar o Parlamento, os tempos não estão para brincadeiras, recordações ou esperas. 

Esta manhã, por terras de sua Majestade, Cameron discursou para a Europa. O tom inflamado contrastou com o aspecto depurado e a voz aparentemente bem colocada, para gentilmente ameaçar bater com a porta.

A Europa, fragmentada e desfigurada, está ameaçada por dentro, uma força centrífuga que afasta o centro, descentralizando-o e dispersando as opiniões. Há refugiados encaixados em apartamentos no centro de Londres, cuja valorização ronda o milhão de libras. Alguns são vizinhos da Lady Gaga e não sabem. Dormem, provavelmente, em turnos, porque na mesma casa estão mais pessoas do que camas. Da Arábia não chega apoio nem se abrem portas, mas disponibilizam a totalidade do investimento necessário para a construção de mesquitas por toda a Europa. Nada contra, mas admitamos que a paisagem do velho continente vai mudar radicalmente.

E vai mudar também porque enquanto andamos aqui a brincar às casinhas e em lutas pueris pelo poder, o ártico derrete a uma velocidade nunca antes vista, ameaçando tudo e todos. Como sempre, estamos demasiado preocupados em olhar para o umbigo, sem ver largo e longe, sem antecipar o que por aí vem. E o que está para chegar, tem tudo para não ser bom.

Foto: Simon Schmitt (www.schmitt-simon.com)

Foto: Simon Schmitt (www.schmitt-simon.com)