Love

Papa Francisco: you gotta love him ♡

Raramente me pronuncio sobre questões de religião, sobre religião ou religiosidade. Tal como em relação a muitas outras questões, sobre a fé, cada um tem a sua. Respeito-o desde que respeitem, também, as minhas opções.

Parece-me que também o papa Francisco pensará assim: não julgar significa respeitar as opções dos outros, não sobrepor a nossa visão do mundo em relação à dos outros, ultrapassar os limites daquilo que somos - ou pensamos ser - para observar uma realidade que não se limita à nossa.  Fala sobre gays. Poderia ser sobre etnias, por exemplo.

O papa Francisco afirma que os pecadores somos nós. E, independentemente de sermos ou não devotos, parece-me que todos somos capazes de perceber a mensagem, tão simples, que quer apenas dizer o que pregamos às crianças: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Há lá ideia mais fácil de entender do que esta? 

Avança o Observador, citando o The Guardian que o papa explicou que só repete “o que diz o Catecismo da Igreja Católica: "não devem ser discriminados", referiu. Depois, acrescentou que se buscam Deus, "quem somos nós para julgar?”. A mim parece-me "quem somos nós para julgar" independentemente da sua orientação ou inclinaçãosexual ou  religiosa que, é, de facto, o mais difícil de tudo. E é, parece-me, o que ensina a religião cristã. Respeitar, acima de tudo.

PS: o melhor deste artigo do Observador está no final, na secção de comentários... Priceless!

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Like every good Cristian should, Pope Francis is able to say "I'm sorry" and to seek forgiveness from gay people. I don't usually express my religious thoughts but this time I couldn't agree more with Pope Francis. It is very simple and it is basically about respect. Respecting each others faith and beliefs as we respect each others' choices or sexual orientation.

I think that the Church not only should apologise … to a gay person whom it offended but it must also apologise to the poor as well, to the women who have been exploited, to children who have been exploited by (being forced to) work. It must apologise for having blessed so many weapons.
— Pope Francis (The Guardian)

He also expressed himself about women and children who are not to be forgotten as those being exploited, as well as the poor and, last but not least, the blessing of so many weapons. Hail to Pope Francis who knows it better!

Bronze no escritório? Segredos sem mãos cor-de-laranja | making the fake than (at) work

Chegámos àquela época do ano em que um tom de pele demasiado claro é questionado. Parece-me que essas pessoas não se questionam quanto à opção de não querer bronzear ou outra, sem opção, que é de não conseguir bronzear. 

Actualmente oscilo entre as duas, depois de ter retirado três sinais nas costas e a consciência de que algumas rugas vieram para ficar. O sol é bom e eu gosto mas não me adianta deitar e esperar que a magia aconteça. Não há magia. A tez clara, os cabelos entre o castanho claro e o ruivo não deixam dúvidas, muito embora durante demasiado tempo eu tenha achado que conseguiria contrariar a minha natureza. Rodeada de morenas, aquelas que passam uma tarde na praia parecendo que estiveram 15 dias de férias, fui sempre a do branco leitoso que não vestia biquínis brancos por não fazerem contraste. Até ao dia em que me aceitei. Que passei a valorizar o meu tom de pele porque é este que tenho e não há tarde de sol que o possa mudar. Também há muitos anos tentava de tudo para parecer bronzeada sem ter de apanhar sol. Porque para a maior parte das pessoas com a pele clara e sensível, o sol queima. Aquela sensação de estarmos a fritar, sentados na areia da praia, é tudo menos agradável. Mesmo com protector 50. Mesmo nas horas boas. Mesmo em movimento ou à beira da água... Nessas tentativas conheci de tudo e tive a sorte de nunca acabar com as mãos cor-de-laranja, mas lembro-me de estragar roupa, do cheiro que oscilava entre o caramelo e sérum de vitamina C. Das pernas manchadas porque usava hidratante com cor, esquecendo-me de que teria de passar horas sem me vestir ou sentar no sofá... Um não acabar de disparates até acabar por perceber que não me interessam os olhares dos bronzeados que já circulam por aí. Vou usar os meus vestidos com as pernas brancas, anyway. Caso contrário visto-os quando? Em Outubro, depois de alguns meses a apanhar sol?...

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While in London I feel happy not to have that awakward attitude towards my pale skin. Have you been to the beach lately? You definetly need to get some sunbathing...  

These are common approaches to my non-existent glowing tan. Although a bit annoying, I've been able to move from a "I need to get a tan no matter what" to "I love to be fair skinned and I won't make a single effort to have a bronzed skin". 

Some years ago I was acting a bit crazy about it. I'm the palest among my girlfriends and I wanted to look like them: bronzed skin of well-holidayed young women who have got their act together. Even if all of them were spending an afternoon at the beach to look like it. Even if I'd stayed a whole month at the beach with a pretty lax attitude towards sun cream application, nothing would work. And I didn't had the time, neither the patience to do it. So I used all sorts of fake tan products with the most disappointing results. Fortunately never made that orange hands' mistake but still, fake tan always looked preposterous on me and all I ever wanted was that sunkissed glow that make us look healthier and happier... Yesterday I read this amazing review about Pre-Shower Tan (NDK SKN) which promises to work in ten minutes and continues to develop for the next six hours, meaning you can apply it, take 10 minutes to prepare dinner, shower and go to bed to look (almost) naturally tanned in the morning. A must try, definitely, specially if you spend your days inside with 30° on the outside...

57 channels and nothin' on...

Tenho muito mais do que 57 canais - não temos todos? - na TV. Na maior parte do tempo não dá nada. Do que queremos, quando nos apetece. Lembrei-me desta música do Springsteen não por ser a minha preferida - que não é - mas porque subscrevi, outra vez, o Netflix que se assume como um vicio útil indispensável. Péssimo português numa frase que junta três adjectivos como se um deles fosse o verbo e o outro o sujeito.

Experimentei o Netflix quando apareceu em Portugal. Antes do mês à experiência terminar decidi anular o serviço. Era, de facto, muito confortável mas faltava-lhe conteúdo. Ou talvez não o tenha explorado devidamente. Não sei... Depois comecei a ver partilhas nos sites de redes sociais sobre séries que estão - só estão - no Netflix e pensei duas vezes. Protelei... Uma das vantagens de que mais me recordava eram os perfis diferenciados e independentes que me permitiam a ausência de misturas que acontecem no YouTube... Ora me surgem anúncios de detergentes e produtos de beleza ora coisas que são obviamente off target porque se dirigem à minha filha. Quem, na verdade usa e abusa do YouTube para filmes de animação e música usando, naturalmente, a minha conta, porque isto de emancipação digital ainda está longe de acontecer... Nisso, o Netflix ganha aos pontos a qualquer serviço on-line ou de televisão porque, embora com login comum, cada membro da família pode ter o seu perfil. Nem eu sou inundada com desenhos animados nem ela vê as minhas séries. Isto, juntamente com a possibilidade de ver em qualquer ecrã e poder saltar entre ecrãs sem ter de explicar ao Netflix que fiquei a meio do episódio... Deixou-me saudades. Como fiquei sem saber como se desenrolou a segunda temporada de Grace & Frankie, uma comédia de costumes que trata a homossexualidade masculina nos entas de uma forma tão subtilmente delicada que não consegui ver menos do que dois episódios seguidos. Ou três... Se não pararmos, o Netflix também não o faz, apresentando episódio após episódio até esgotarmos a temporada. Sim, dá para fazer a maratona, se assim o desejarmos. Até fartar. No smartphone, no tablet, na TV ou no computador. Depende do número de ecrãs que definirmos. Escolhi ter tablet e smartphone, e lembro-me de ter deixado tombar o telefone no colo algumas vezes. Ao fim de um certo tempo de inactividade a coisa pára. Não me perguntem como, mas quando voltei, o episódio estava mais ou menos onde me lembro de ter ficado e garanto que não carreguei no botão "stop"!

Estou de volta, depois de uma nova oferta do próprio Netflix que nos trata como nenhum serviço de televisão alguma vez conseguiu. Não são 57 canais mas é muito melhor do que isso...

It's not true I had nothing on. I had Netflix on... 

It's not true I had nothing on. I had Netflix on... 

57 channels and nothing is on. It happens all the time specially when you really experience that awkward feeling of transforming yourself into a couch potato. I'm not a TV kind of girl but sometimes I really like to sit in front of the TV and escape from reality. Currently I turn my smartphone on for one more Netflix moment. I remembered Bruce Springsteen's song not because it is one my my favorites - which is not - but because I’ve subscribed- again - Netflix, my most humble, useful, indispensable addiction.

Yes. I used three different adjectives on purpose, just like if I would replace the subject and the verb with another - one more? - adjective. All because I tried Netflix as soon as it became available in Portugal and it was somehow disappointing. Blame it on my high expectations regarding series and the fact that I was addicted to Scandal, which wasn't (isn't) available on Netflix. It was so much fun to have it on my smartphone and to be able to turn TV on whenever I felt like it. Plus with an amazing image quality and stable video streaming. It really was. But I thought it was far too expensive for content that I didn't really know nor I was interested in knowing, much less to spend time watching. Then social media came along, showing me what others were watching on Netflix and I got jealous. The real Netflix plus was the fact that I could have different profiles for each family member - which left me out of all the cartoon mambo jambo that YouTube infests me every time my daughter is online. Digital emancipation is far from happening around here and Netflix allows a much better curation and control over what my 7-year-old is able to watch. Along with the multiple screens feature, it makes Netflix almost perfect. And let's not forget that the system is intelligent enough to recognize when you stop and in which exact frame, so that you can continue exactly from where you were the next time you log in. I was missing this like hell! And the fact that Grace & Frankie have a new season... There. I confess!

Grace & Frankie is a sitcom approaching male homosexuality in older people in such a subtle way that I had at least two episodes in a row. Or three, to be accurate. And I did stop because if we don't, Netflix doesn’t either, allowing us to watch episode after episode until the season is depleted. Yes, we can have a series marathon as we please. On our smartphone, tablet, laptop or for old school people, on TV. I'm back. With my tablet and a special offer that no telecom nor TV subscription can overwrite. It's no longer about 57 channels, it's much better than that....

No, I'm not.

#InternationalHapinessDay

#InternationalHapinessDay

And I'm happy about it. 

Why happy? Why happiness?

Porquê, e para quê, um dia assim? Que razões nos farão marcar um dia que deveria ser todos os dias? O que nos leva a esta espécie de obrigação em relação à felicidade? E se não formos?

Não acredito na felicidade total mas sei reconhecer o que me deixa feliz, momentos muito simples. Puros. São reconhecíveis mas não serão iguais para todos nós. É tão óbvio que não os podemos comprar que, por vezes, arriscamos a estar gratos por quase tudo. Pharrel Williams, por causa da sua música "happy", escreveu, e bem: 

 happiness always comes from within, and many unfortunately take it for granted, or feel guilty about it or suppress happiness instead of setting it free.

Descobri este postal numa loja pequena de uma rua escondida do bairro de Saint German de Près. É quando passamos uns dias ausentes das redes que lhes sentimos a falta. Ou disfrutamos o prazer de respirar e viver. Prefiro a segunda. Obviamente.

Estar no Facebook e ter conta no Facebook são duas coisas diferentes. Ambas podem contribuir para a nossa felicidade. Ou ausência dela. Seremos mesmos felizes ansiando por likes e comentários? O que nos leva a abrir as portas do nosso mundo ao escrutínio de um outro mundo que teima em não viver, limitado aos pormenores de uma rede que se gere a si própria e aparentemente auto-alimenta, na directa dependência do que lhe damos para se estruturar, processar e desenvolver?

Nunca soube. Deixei de pensar nisso.  

Breathe. Live. Be. 

Breathe. Live. Be. 

Estar no Facebook é, para mim, aquele hábito terrível de transportar parte da nossa vida para o mural, vivê-la através dele e observar o mundo - aquele mundo - por ali. Ter conta é muito diferente. Para o bem, e para o mal. Quando bem utilizado, o Facebook pode contribuir, em muito, para a nossa felicidade. Coloca-nos em contacto com aqueles que de outra forma não voltariam a fazer parte da nossa vida (será que voltaram mesmo?); permite-nos estar informados sobre as notícias bastando, para isso, criar uma lista de conteúdos que "limpa" o mural de tudo o que não encaixe no nosso conceito de informação noticiosa (há seguramente quem pense que os gatinhos se enquadram na categoria); facilita a gestão de comunicações com pequenos grupos de trabalho através da ferramenta "grupos". Tirando isto, pouco mais. Porque há aqueles que o usam apenas para ver as vistas e saber o que se passa. Mas também há os que querem mesmo saber o que se passa na vida dos outros, numa atitude voyeur de quem dizia mal do Big Brother sem nunca ter mudado de canal. Porque sim. Talvez os faça felizes, admirar a vida dos outros de um balcão virtual, através do qual podem interagir sem sem consequências de maior. Palavras, leva-as o vento. Aqui, ficam para sempre. Ou quase.

Há muito que me sinto quixotesca nesta batalha virtual da qual nunca saio vitoriosa e na qual acabo sempre por ceder, reconhecendo que o modo "off" me deixa incomensuravelmente mais livre. Portanto, mais feliz. Como este jornalista, que passou a ter fins de semana sem Internet. Consultar as redes e mensagens, usá-las apenas no período em que estou em ambiente wireless não me permite trabalhar mas garante bem estar. Por isso, no dia internacional da felicidade, modo on-line apenas para publicar.

 

 

Medo?

Muito.  

Ontem li uma entrevista. Hoje li um artigo. Nada de novo ou interessante nesta afirmação. O importante é que dizem o mesmo - ou quase - de forma diferente. Medo. Resume-se (quase) tudo ao medo.

Estou cansada de tantas pessoas medrosas. Cansada de pessoas hipócritas que, por medo, sorriem quando deveriam dizer o que pensam. Pessoas que acenam com a cabeça enquanto, intimamente, nos criticam. Pessoas que se sentem ameaçadas por outras pessoas. Não pelo seu intelecto mas porque são mais altas, ou mais bonitas ou qualquer outro predicado igualmente subjectivo e inútil para avaliarmos alguém. Entre homens e mulheres o problema já assumiu o carácter de cliché. Piada fácil para explicar a razão pela qual tantos relacionamentos nem chegam a acontecer. O que me despertou neste artigo foi esta frase:

 "Continuas a dizer exactamente o que pensas e o que queres, disse-me ele. E isso assusta as pessoas, principalmente os homens".

Estou com a Helena. Medo?... Seriosly?!

Concordo com o que diz, quando afirma que:

"Não seriam a sociedade e as relações mais fáceis de se levar se todos fossemos honestos com o que queremos e o que sentimos?"

Aplica-se a tudo, incluindo o amor.

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Não entendo, nunca entenderei, a razão pela qual tantas pessoas optam pelo cinismo fácil, escondendo-se, concordando por falta de argumento, estabelecendo relações com base na falsa suposição de partilha mútua. Não temos de nos aceitar. Apenas respeitar. Ser capazes de conviver e, eventualmente, trabalhar em conjunto.

Não é mais fácil para todos afirmarmos que  determinadas características de alguém nos incomodam mesmo que tenhamos de partilhar algum tipo de contexto?

Não temos de ser amigos, apenas de ser civilizados e verdadeiros. Optamos, muitas vezes, por mostrar a mentira, socialmente mais segura e aceitável. Acontece por absoluta estupidez ou medo. Ostracismo será demais, convém respeitar o outro nas suas diferenças, reconhecer as suas competências e capacidades para trabalhar, em conjunto, no que tem de ser. Experimentem dizer a alguém exactamente o que pensam.

É libertador.

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O artigo, focado nas relações entre homens e mulheres, tem uma passagem interessante, que levanta cinco potenciais razões para que isto aconteça. Vou adaptar, porque se aplica a tudo. Especialmente às relações profissionais, num contexto como o de hoje, em que as mulheres poderiam facilmente dominar as principais posições nas organizações. Diz a autora que os homens precisam de estar com mulheres que considerem inferiores para se sentirem superiores. Eu diria que as pessoas, em geral, não gostam de se sentir inferiores porque a inferioridade é uma ameaça, tornando-as dependentes e incapazes de dominar as diferentes situações de qualquer contexto entre indivíduos. Sim, no geral, ninguém quer que se perceba a sua ignorância ou falta de inteligência.

From Abigail Keenan (abigailkeenan.com)

From Abigail Keenan (abigailkeenan.com)

Aplica-se às relações entre homens e mulheres. Como afirma, os homens têm medo que uma mulher inteligente acabe por perceber que eles não o são e, por isso, também receiam ser abafados. Pessoas capazes são sempre ameaçadoras. Quando a situação se coloca entre homens e mulheres, a nossa socialização, paternalista, machista e conservadora, transforma mulheres inteligentes e independentes numa verdadeira ameaça à sua masculinidade. Na maior parte do tempo, de forma inconsciente.

Pior se as considerarem bonitas.

Sabem o que dizia a entrevista

Que somos um país de medricas, de gente subserviente, assustada. 

É isto. 

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há-de ser... um dia...

... esse dia é hoje.

 Admitamos: não é uma, nem duas ou três vezes que pensamos nisto, sequer que o expressamos em voz alta. A vontade de sair daqui, abandonar tudo e usar havaianas todo o ano já nos invadiu. Da mesma forma, a necessidade urgente de férias. 

A Noelle pode, mas não é um exemplo. Sozinha e sem qualquer compromisso pessoal ou social, abandonou tudo. Partiu sem plano, fixando-se no paraíso que é St. Johns. A questão não é financeira. É maior e mais ampla, paradoxal e quase esquizofrénica. Ela tem razão. Esta urgência nas férias significa que estamos mal na nossa vida.

Não entendo a razão pela qual somos, desde a mais tenra idade, encarreirados num sistema que não conhecemos e com o qual não se sabe se queremos vir a pactuar. Tudo começa na escola com critérios de homogeneização e padronização para dar coerência a uma estrutura de avaliação. Já há escolas que apadrinham a diferença, com moldes menos rígidos mas, na generalidade, transformamos crianças em pequenos adultos, fardados, formatados, a pensar no seu futuro de sucesso. Por definição, as crianças não sabem o que querem ou o que é melhor para elas, pelo que estamos cá nós para decidir em seu nome. Questiono-me muitas vezes sobre estas decisões, o ritmo e o rigor que lhes é imposto. Oiço dizer muitas vezes que as crianças não têm tempo para brincar e que as suas agendas sociais se assemelham às de um adulto. Não concordo e não pratico. Mas cedi a uma lógica que a encaixa num sistema de ensino vocacionado para a produção de pequenos exemplos de sucesso, como se o falhanço tivesse sido riscado do dicionário. Falhar ajuda-nos a crescer e é, em si mesmo, uma forma de aprendizagem. Hoje, o verbo falhar é pronunciado entre dentes, como as palavras feias. Não nos podemos dar ao luxo dos falhanços porque esses estão reservados aos muito ricos com uma rede que os suporta durante a queda e ajuda a levantar. Vivemos numa sociedade de tal forma capitalista, liberal e competitiva que há outros verbos que passaram a ser menosprezados: compreender, ajudar, diferenciar. 

Os excêntricos têm estes devaneios de fuga. Os integrados adoram os seus fatos e as horas passadas nos escritórios, dos quais saem, qual autómatos, à hora do almoço, vestidos de igual, para uma refeição no restaurante da moda - para os neoyuppies - ou no centro comercial mais próximo, para os aspirantes a yuppies.

O termo nasceu algures em 1980 para descrever os young urban professionals que agora já não são tão young assim mas que mantém o padrão. Licenciados com carreiras nas finanças, profissões liberais ou consultoria, ganham bem e vivem melhor, com um estilo de vida urbano e cosmopolita.  Misturam-se com os preppys e, por  vezes, encontramos uma espécie de yuppie-preppy, verdadeiramente irritante, que deixa um rasto de perfume da moda, colocado em excesso, e nos atira palavras com dicção afectada que afecta a forma e o tom das palavras. Dialectos?

Mostram-se felizes com o tipo de vida que escolheram, igual à dos amigos, com férias partilhadas em locais comuns, numa perspectiva do mundo que se reduz àquilo que conhecem, sem reflectir muito sobre isso. Tal profundidade na análise iria mostrar a verdade, com a qual, provavelmente, não sabem lidar. 

Aplica-se a estes e todos os que se recusam a olhar para o que temos de forma crítica, praticando a #gratitude nos sites de redes sociais porque fica bem. Estarmos gratos pela vida confortável que temos e os filhos lindos, impecavelmente engomados na farda da escola é estarmos gratos por aquilo a que nos submetemos de livre vontade, traduzido num cansaço constante e necessidade de férias. Gratos pelo sol da manhã, o sorriso de quem amamos e saúde. Tudo o resto podemos construir. Ou destruir para fazer de novo, com um outro molde, outro ritmo e objectivos. Estaremos certos, encaixados em apartamentos modernos com vista para os vizinhos do lado, conduzindo carros de última geração mais tempo parados nos semáforos do que a circular, que nos levam para outros edifícios, aclimatizados, organizados e padronizados para acenar com a cabeça de um lado enquanto protegemos as costas do outro? Não estamos. Talvez uma galinha na banheira faça mais sentido, quando até um cão consegue ter mais aventura na sua vida do que a maior parte de nós.

 


     

To dance. To barre. To be.

Falo aqui muitas vezes da Mafalda e do MSBStudio. Não é promoção. É lá que pratico exercício físico, intercalado com umas corridas à beira rio. Ou running, para estar na moda. 

Oito da manhã. Saco às costas, galochas e blusão para enfrentar a chuva fraca. Troco as galochas pelos sapatos de dança, ainda sem saber se acordei. Oiço a música e sei que o aquecimento está a meio. Entro quando as ancas rebolam compassadamente da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. Somos só mulheres, impera a descontração. Outra música, que conheço de cor, nestas aulas de dança. O corpo mexe, mesmo com o cérebro ainda a meio gás. O ritmo frenético deixa-me sem fôlego, logo hoje que não trouxe água. Passo os próximos minutos a pensar se saio para beber água ou se me aguento até ao fim. A música contagia-me. Não quero perder nada, quero dar o meu melhor e só me concentro na garganta seca. A aula acaba e eu quero mais. Mais ritmo, mais expressão, mais energia. Estou pronta para enfrentar outro dia. Ou quase. Deveria alongar, fazer trabalho de força. Estou cansada. Não posso. Tenho de concentrar as minhas forças num outro trabalho. E saio, de blusão e galochas, a pensar nas vezes em que decidimos seguir pela direita quando o caminho poderia ter sido pela esquerda...

No MSBStudio há técnica, força e expressão. As componentes essenciais para um treino que nos define o corpo, aumenta a auto estima e torna mais funcionais. Voltei aos treinos há quase um mês e ainda não é a sério. Sinto que estou em baixo de forma. A culpa é minha. Dos hambúrgueres e das waffles, dos donuts e das sandwiches. Não estou a queixar-me de peso a mais, apenas a revelar a importância que a alimentação tem no nosso desempenho. Voltei à alimentação "normal" há uma semana mas o rasto dos efeitos da outra perdura...

Simultaneamente sentia os músculos presos e a lombar desarticulada. Queria esticar-me e o corpo não respondia. Esta parte já resolvi. Viajar é maravilhoso mas tem um problema, a viagem. Desconjunta-nos e cria tensões musculares onde não deve. Já visitei o meu fisioterapeuta - quem pratica qualquer tipo de exercício reconhece a importância de "termos" alguém que conhece o nosso corpo ao ponto de antecipar lesões e resolver as imprevistas -. Em poucos minutos recuperei a mobilidade perdida por tantas horas sentada em bancos de avião. Mas não recuperei a elasticidade entregue aos açúcares e hidratos porque quando estico, sinto dor. E quando não sinto dor, sinto pequenos excessos acumulados na zona abdominal que teimam em não desaparecer. É hora de comer bem. Não há solução que a Mafalda, a Joana ou a Maria arranjem no MSBStudio ou massagem que o terapeuta João Pedro Fonseca possa inventar para deitar abaixo três semanas seguidas de excessos. A comida gulosa vicia e não apetecem refeições saudáveis... Pratico mais ou como menos?...

da arte da amizade

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Hoje assisti aos ensaios de uma peça de teatro sobre arte. Não. Sobre amizade. Chama-se arte porque a narrativa gira em torno de uma obra de arte. Ou do subtexto que podemos entender da obra em si. Porque como em tudo na vida, nem sempre que se vê é o que é, e o que é, nem sempre se vê.

Porque as pessoas são como são e não estão à vista. Como a obra de arte, são o que queremos ver até ao momento em que as conseguimos perceber, tal como realmente são. Onde antes estavam traços magenta e linhas de cor, passa a estar um eterno é infindável branco. Ou negro, porque o preto está associado tantas vezes ao desconhecido. A ausência de cor, ao absorver todos os raios de luz, não reflecte nenhum, surgindo como desprovida de clareza. Tal como as pessoas, algumas das quais para além de clareza, falta-lhes também a inteligência para se verem reflectidas ao espelho e, nessa ausência, projectam o seu reflexo nos outros, imaginando aquilo que são, reflectido na sociedade.

É por isto que existem pessoas boas e más. As boas reflectem luz, estão cheias de cor e permitem que os outros as vejam tal como elas são, sem o subterfúgio do branco que, na sua extrema clareza, reflecte todas as cores do espectro. Esse reflexo são o eu e o outro, aquilo que sou e aquilo que o outro entende de mim, bem como aquilo que sou e aquilo que projecto. No preto, que são todos os outros, não há projecção. Pena que não consigamos ver nada além da abjecção das atitudes daqueles que, simplesmente, pelo suposto excesso de brilho preferem ver tudo a negro, catalogando os outros nas suas escuras e medíocres categorias, como se o mundo e as pessoas que lá vivem fossem uma projecção do seu próprio mundo.

Todos nós já conhecemos alguém assim, não já?

Sorrir faz bem

Nas redes, people moaning about the rain. Não se traduz a saudade com missing. Também não se traduz moaning com queixume. Embora possa. É isso, mas de uma forma diferente. São gemidos, é certo, mas também se pode entender de outra maneira menos sonora e mais verbal. Porque se lamuriavam (também é demais e não traduz o moaning) sobre o mau tempo. O Inverno, portanto.

O que é o Inverno senão tempo frio, tempestuoso? Dias e dias sem sol, com chuva, vento, água acumulada nos beirais e nas bermas das estradas, chuva mais ou menos intensa, aguaceiros que nos apanham desprevenidos mesmo quando ameaça chover desde o momento em que decidimos sair de casa. Temos a sorte de ter Invernos primaveris, a ponto de deixarmos alagar as ruas quando cai uma carga de água. E, quando o cinza se abate sobre nós durante uns dias é vê-los, nas redes, choramingar por dias melhores. Que hão-de vir. Que chegam sempre porque nada pode ser eternamente mau.

E, repentinamente, o sol. O rosa, o amarelo e outras cores de Verão em tons pastel que me chegam em imagens celebrando um dia - outro dia - de sol.

Também gosto dos dias frios e secos, com sol a queimar. Porque o sol de Inverno é diferente da luz de Verão e queima. Não no sentido do queimar para bronzear, mas queimar, queimando. Vermelho a pedir hidratante.

Gosto dos dias assim, para sair à rua sem a preocupação dos dias maus, na certeza de que também os outros terão um sorriso para oferecer. Sorriam. Mesmo que, com sol, a vida não vos corra bem.

Um sorriso arrasta sempre outro de volta. Que o diga quem arrisca coisas novas.

Por isso, sorriam e aproveitem para conhecer duas amigas que se decidiram por uma aventura a solo em 2016: a fotoGInica que fotografa melhor do que vocês e vos pode fazer sessões daquelas que nos tornam narcisistas. Vamos querer emoldurar todas as fotografias... E a miss Yoga&Stories que consegue fazer-nos rir enquanto adoptamos aquelas posturas que invejamos no Instagram. Para quem tem filhos, as propostas são de yoga divertido em família, ensinando yoga (quase) a brincar. No entanto, nenhuma está a brincar, levando estes projectos muito a sério, que podem conhecer aqui e aqui.

Por falar em projectos, qual é o vosso, para 2016?

Mãos

 aviso à navegação masculina: este artigo contém detalhes extraordinariamente fúteis e femininos. Já sabem...

 

É só a mim que acontece ou a manicure tem prazo de validade? É só comigo ou, mesmo com truques e artifícios, ao bater das 24 horas do sétimo dia, estalam uma atrás da outra como milho a saltar quando fazemos pipocas?

Manicure... Um daqueles momentos que condiciona a semana toda... 

Tudo começa no momento em que nos levantamos da cadeira para pagar, pegamos na mala e demais acessórios que carregamos diariamente... O medo. O pânico. O horror...

A manicure fita-nos como as mães olhavam para nós, com aquele ar que cada um interpreta à sua maneira mas que tem apenas um significado: "não vais fazer m****, pois não?!" 

Pagamos. Saímos em confiança, com as mãos naquela posição ridícula e que se mantém durante um par de horas, como a boca - que ninguém nota, mas que sabemos que está esquisita - depois de um ligeiro adormecimento no dentista. As mãos vão assim meio no ar, a tentar não tocar em nada, para não estragar. Porque afinal, verniz normal demora mesmo a secar...

No dia seguinte... A vaidade. O prazer de umas mãos impecavelmente arranjadas, cor à maneira. Até encontramos maneira do outfit combinar, um pendant aparentemente negligé (que todas sabemos ser do mais pensado que possa haver)... Terceiro dia... Continuamos a acreditar que desta vez é que vai ser, que o verniz não vai estalar, que a manicure é espectacular e que com jeitinho, a coisa até dura mais de uma semana...

No dia seguinte olhamos bem para as mãos e pensamos que é melhor ter cuidado. Evitamos usá-las (às unhas) para tarefas arriscadas. Está a correr tão bem que não queremos que o verniz salte de uma delas. Não há pior do que nove dedos impecáveis e uma unha estragada. Não há. E só quem arranja as unhas, as pinta com frequência, pode entender. Além de que isto é uma renda. Há que esticar a corda ao limite do que a unha e o verniz possam aguentar.

No outro dia continuamos em estado de graça. Se o fim de semana estiver à porta ninguém escapa a pensar que, se tiver mesmo muito cuidado, aquilo aguenta o fim de semana inteirinho... Há quem reze. 

Dia seguinte: olho para as unhas e penso que elas, as manicures, devem pensar que somos parvas e não descobrimos o segredo da coisa... Usam frascos sem rótulos, mezinhas amareladas, em tom rosa ou transparente para nos criarem dependência. As unhas pintadas lá, ficam bonitas e brilhantes... até estalarem. E estalam ainda a brilhar, como se tivessem sido acabadas de pintar. Vá... Pintadas no dia anterior... Para quem não sabe, inventaram um acabamento "estilo gel". É a última camada que nos colocam, actualmente e em alguns locais, antes do óleo para as cutículas. De facto, a unha brilha e aguenta mais. Mas, ao sétimo  dia... Descaca como sempre descascou. Pipocas, portanto. Sou eu que tenho unhas de sete dias ou isto é mesmo assim?!...

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Sim, tudo isto entre as 17:00 e as 22:00. Definitivamente, isto tem prazo de validade! 

Foi Natal

Dizem que o Natal é o tempo da família. De partilha, de amor e generosidade. Acho que esse é - será (ou talvez seria) - o tempo de todos os dias. Mas não é isso que vejo. Nem nos dias, menos ainda no Natal, dominado por um consumismo exacerbado em que dar significa dar algo e não dar de nós. Dar atenção, carinho, amor. Dar algo a alguém que precisa ou dar algo que alguém precisa passou, há muito, ao dar porque "tenho de lhe dar alguma coisa", com sabonetes, velas ou meias à mistura que ninguém quer comprar e menos, ainda, receber.

Não é isto, o Natal. Nem pode ser apenas isto, o Natal. Mas também não pode ser o Natal que agora vi, com lojas de pronto a vestir abertas até à uma da manhã, em noite de consoada, e um mar de gente nas ruas, enchendo a praça mais movimentada que alguma vez conheci, tornando impossível a circulação.

Times Square na noite de Natal estava repleta de turistas e outros que não sei quem eram. Às oito da noite os teatros encheram, antes disso o movimento nos restaurantes estava imparável e, depois, não faltavam pessoas a circular entre os vários pontos da Broadway. Os carros circulavam com (extrema) dificuldade. As pessoas também. Os odores, intensos, dos hot dogs, pretzels, pipocas, amendoins doces, halal food e outras especialidades que desconheço mas cujo cheiro é inconfundível, misturavam-se com a babel de sons, misturando línguas e sotaques como numa antes ouvi. Aqui, é difícil perceber quem são os locais porque a maioria não é daqui e, por isso, o global assumiu-se local, mesmo não o sendo. Há de tudo e a qualquer momento, porque a cidade não dorme. Descansa, algures na madrugada, sem cair à cama, para, pela manhã fresca, acelerar com todas as suas forças pelo Central Park, correndo, patinando ou circulando de bicicleta.

Outro dia começou, continuava a ser Natal e continuou a vida em modo "Natal turístico", com o comércio de porta entreaberta, restaurantes e afins repletos de clientes cheios de vontade de um Brunch ou uma refeição gordurosa, que misture as tradições europeias com as ideias da cozinha norte-americana. A maior parte das lojas preparava aquele que é conhecido como "second Black Friday", a 26 de Dezembro, dia em que as lojas, todas, reabrem portas para vender o que sobrou do Natal, com preços que chegam a descer 60%. É o mercado capitalista a funcionar, com o consumo estimulado não sei de que forma, garantindo um Starbucks em cada esquina e lojas multimarca que apresentam tanta - ou maior - variedade do que as inúmeras ruas repletas de comércio de toda a natureza.

São mais de 10 milhões numa área menor do que Portugal, com o mesmo número de habitantes. Isto quer dizer muitas coisas e quer, sobretudo, mostrar que ser grande não quer dizer que se seja grande coisa que é, exactamente, o espírito actual do Natal.

NYC é grande em todos os sentidos, mesmo o da coisa. Com (algumas) qualidades e (poucas) virtudes, NYC não dorme nem deixa dormir, expande-se em altura, luz e movimento a cada vez que a visitamos. Não é sempre Natal em Nova Iorque mas, não fossem as luzes exuberantes, as montras de produção sofisticada e os pinheiros preparados para serem fotografados e nem parecia Natal...

Philly, you got me.

Não é difícil apaixonar-me por uma cidade. Grande em dimensão e expressão, dinâmica e movimentada, exuberante e com requintes de rebeldia? Gosto. Polvilhada de cultura, gentes, sons, cheiros, sabores, cores e diferenças em relação ao de todos os dias? Adoro.

Philly não é exactamente assim, mas é um bocadinho assim. Antiga, com história, parte da história e berço da história dos Estados Unidos há muito que queria espreitar as ruas e sentir-lhe o pulso. Oscilando entre o novo e o velho, o passado e o presente, Philadelphia não é um must see, mas é um worth going to. O tempo foi curto para tudo, merecia mais horas para explorar os detalhes do que ficou por ver e fazer.  Encaixada entre um rio e outro, a cidade é tanto virada para dentro e para fora, ou seja, para o rio e para si própria, concentrada no centro social, cultural e artístico. Junto a um rio corremos e remamos. No outro, aproveitamos o ar e o espaço, as pessoas e o tempo.

No centro há tudo à distância que os pés alcançam. Crianças num ringue de patinagem e adultos que se encantam com mercados de Natal dominados por árvores nórdicas, iluminadas ao pormenor. Ruas cheias de gente com mais ou menos estilo, tantas no estereótipo norte americano quanto as que estão no extremo oposto. Ruas com lojas iguais a tantas outras e outras tantas diferentes, próprias do local, provando que o global nos invadiu sem, contudo, matar o local. Porque verdadeiramente local são os cheesesteaks, únicos até nos Estados Unidos. Provei dois. O mesmo sabor, ainda que um deles tenha revelado maior cuidado na confecção e, portanto, maior qualidade. Melhor sabor.

Estas são umas macro sandwiches cheias de carne de vaca cortada em tiras muito fininhas, grelhada ao ponto e com um molho cujo sabor não sei descrever, mas que é daqueles de lamber os dedos. Chegam embrulhadas num papel, comem-se à mão, lambuzam-nos e lambuzamo-nos enquanto acompanhamos com batatas fritas e limonada. Único. Para comer uma vez. E recordar para sempre como a mais awkward sandwich ever.

No quarteirão da Avenue des Artistes para além da arte e da música há lojas, restaurantes e bares, uma movida pouco parecida com a nossa, em Lisboa ou Madrid, mas que tem, também, a sua piada. Lá mais em baixo na Passyunk Av. encontramos o mundo à mesa, com uma oferta gourmet apenas equivalente em cidades como Londres. Mas é também lá mais abaixo, na mesma cidade que a Little Italy se enche de cor com cannolis e outras especialidades italianas, lojas de queijos com fila muito além da porta, venda de café que cheira mesmo a café, talhos centenários e outras tantas lojas agora dominadas por latinos e chineses. Uma torre de babel, portanto, como são, em boa verdade, os Estados Unidos da América.

Instagram. Us and them.

Comecei por sorrir. Depois, comecei a rir. A seguir soltei uma valente gargalhada quando me vi ao espelho. Já não me lembro do último cappuccino que bebi sem antes, o ter fotografado. Mea culpa. O melhor de tudo, quando um vídeo destes nos confronta com os nossos próprios vícios é conseguirmos sorrir quando ele - o Instagram husband que, na verdade, é só husband e não nos fotografa propositadamente para um artigo sobre o tema - nos diz que o cappuccino está lindo. E afirma, em seguida, num tom interrogativo, se não o vamos fotografar. Não íamos. Porque tínhamos fotos de cappuccinos que chegariam para alimentar a conta do Instagram durante um mês sem voltar a beber um cappuccino; porque controlamos razoavelmente as vezes que o impedimos de comer (ou beber) para fotografar; porque decidimos estar de folga; porque não nos estava a apetecer. Porque. E, perante a interrogação, exclamativa, puxamos do telefone para, habilmente, escolher o ângulo e fotografar mais um cappuccino. Esta é, para mim, a melhor cena do vídeo. Porque admito já ter feito a mesma figura, impedindo a outra pessoa de comer, para fotografar. Porque está bonito. Porque poderá ser útil. Porque sim, passou a ser mesmo assim. 

 De resto, a caricatura é mesmo isso, uma caricatura que procura levar-nos à razão, pelo absurdo das situações. Homens pendurados em escadas à procura do melhor ângulo? Fotografias em sequências infindáveis por causa de uma bandeira? Não. A fotografia do nada, a qual ele tem, obrigatoriamente, de amar? Menos ainda.

Dependendo da abordagem e do método, no Instagram ou em qualquer outro site desta natureza, devemos depender apenas de nós, com alegres colaborações. Sujeitar o nosso sucesso a quem nos fotografa é injusto e, por vezes, cruel.

A fotografia de hoje aconteceu. E, por isso, tem graça e valor. Fui apanhada a fotografar o cliché da estação do Oriente: os arcos em metal, com o reflexo da luz do sol. Uau... Que original.... No entanto para quem, como eu, viaja mais de avião do que de carro, e mais ainda do que de comboio, teria a sua graça. Por isso, escrevo sobre o tema.

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Os maridos do Instagram vieram substituir as viúvas do golf, as solitárias do surf ou qualquer outro tipo de categoria que associe um casal a um hobbie. O dele. Não só o Instagram contribui para inverter os papéis como, de certa forma, os posiciona como durante muito tempo nos pocisionaram a nós: um acessório de uma relação centrada neles. Esta inversão não estará correcta mas, efectivamente, quem boa cama faz, nela se deita. Pese embora uma relação dependa de respeito e equilíbrio, não lhes faz mal nenhum sentirem, de quando em vez, que são o nosso selfie stick pessoal, inimitável é insubstituível. Mesmo que seja, apenas, para as fotos do Instagram.

Entre

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido.

Ponta Delgada

Ponta Delgada

Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Furnas

Furnas

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Louvre Michaelense

Louvre Michaelense

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

(continua) 

Chiq? Não!! Da Chick!

Palácio Foz

Palácio Foz

Os grandes, são sempre grandes. Os que se espera que sejam grandes raramente desiludem. Foi o caso de Benjamin Clementine que, na Sexta-feira, foi enorme. Maior do que si próprio, gigante na humildade e na voz que encheu não só o Coliseu mas os corações de quem o ovacionou até às lágrimas. Mas são igualmente grandes muitas das promessas que se fizeram ouvir em duas noites cheias de grandes surpresas e grandes pequenos concertos, palcos improvisados que fazem do espectáculo, um espectáculo maior. Salas intimistas e cheias de história que deveriam, mais vezes, dar lugar à cultura e encherem-se de vida, como aconteceu nestes dois dias em que locais como a Sociedade de Geografia, o Palácio Foz ou a casa do Alentejo mexeram como raramente mexem. Assim foi Castello Branco. Genuíno. Ele, o violão, a sua voz, as palavras de amor e o detalhe dos acordes simples, mais bonitos que o rococó de uma sala por natureza fria, que derreteu suavemente com a voz quente deste brasileiro que não engana, um estilo clássico-moderno que ecoou em Lisboa e que apetece (vai apetecer) sempre ouvir.

Castello Branco

Castello Branco

O Vodafone Mexefest é também palco de miúdas giras que invadem uma piscina e agitam uma audiência morna. Gira, mesmo, foi só uma...

Da Chick aqueceu à medida que o ritmo acelerou, a ponto da audiência levar os braços ao ar em movimentos compassados, ritmados com a força do funk electrónico que animou um tanque inicialmente vazio, mas que encheu mais do que alguma vez esteve, clapping hands as they love to party. Isto é Da Chick no seu melhor, sem erros, com um tom que lhe é característico e que faz desta, uma artista pronta a encher outros palcos. Super. Atitude ao máximo. Audiência ao rubro.

Numa outra sala, cheia de história, faltou tempo às emoções psicadélicas que nos transportariam, em definitivo, para o universo de um certo imaginário alternativo cabo-verdiano. Foi mais psicadélico do que Cabo-verdiano. Não necessariamente o que eu esperava. Sai e continuei, mexendo aqui e ali, ainda entoando o refrão das duas que ficam sempre que ouvimos Da Chick, agitando-me ao ritmo de uma fest que, sem dúvida, mexe a baixa lisboeta.

Cachupa Psicadélica

Cachupa Psicadélica

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Benjamim

Benjamim

É música? Mexeu.

Quando mais esquisito mais eu gosto. Quanto mais pop mais eu danço. Quando mais difícil, mais eu insisto.

Umas mexem à primeira. Outras implicam uma segunda ou terceira... Insistência para aprender a gostar. Outras, nunca chegam a mexer. A música é assim. Mexe e faz mexer. Essa sublime capacidade de ser mais do que aquilo que está a tocar, criando contextos diferentes em cada momento e em cada um de nós. Difícil é não ouvir música.

Desconfio sempre dos que afirmam não gostar de música. Respeito os que não conhecem e procuro dar-lhes a conhecer. Aborrecem-me os que ignoram. Não sei explicar a razão pela qual gosto tanto de música. Faz parte daquelas coisas que não se explicam ou têm de explicar. Produz dopamina que nos aumenta a sensação de prazer. Por isso, não entendo os que dizem não gostar desta sensação de prazer. Mesmo que musical.

Oiço, danço, canto. Por favor páre de ler quem não o faz porque, daqui até ao fim, o texto vai mexer. Com a música. Como a música! 

Não faltam eventos musicais, concertos e festivais. Esta semana Lisboa mexe ao som da fest que a Vodafone e a Música no Coração organizam. Não é um evento, mas também não é um festival, menos ainda um concerto, porque são vários, em diferentes pontos da baixa da cidade. Este, que é o seu maior defeito - as localizações - é também a sua maior virtude, porque nos faz descobrir locais que, de outra forma, passariam despercebidos. Melhor ainda, mostra-nos música nova, tão nova que às vezes a descoberta começa quando os primeiros nomes são anunciados, cruzando fronteiras, estilos e épocas numa linguagem única, que é a linguagem musical. Novo é bom, descongestiona a alma, introduz sons que antes ignorávamos e que correspondem à ansiedade do novo. Do inesperado.

Inesperados são também alguns dos locais por onde vou passar na Sexta e no Sábado, para ouvir Tó Trips (Sociedade de Geografia), LA Priest ou Villagers, Roots Manuva (estação do Rossio), Ducktails ou Benjamin Clementine, terminando a noite num tanque, para dançar ao som de San Holo (Tanque), agitando uma piscina sem água. Vou à Casa do Alentejo para ouvir Selma Uamusse e mergulho outra vez no tanque para um som muito funky e muito electrónico de Da Chick para, depois, continuar a pairar com Nicolas Godin (ex-Air). O Palácio Foz  não voltará a ser o mesmo depois de ouvirmos Cachupa Psicadélica. Nem o Tanque, que irá, certamente, abanar ao ritmo da electrónica africana do colectivo Meu Kamba Live. 

 

 

#music #love #VodafoneMexeFest

 

 

 

Adoptar o Amor

O que é o amor?

Não sei. 

Mas sei que existem demasiadas convenções para um sentimento tão complexo que possa ser descrito apenas em palavras, intricado a ponto de ser tudo, e não ser nada.  

Decidiu-se que o amor deveria corresponder a paradigmas definidos socialmente, e que o amor de um pai pelos seus filhos seria incontestável. Mas também se terá definido que esse amor tem de obedecer a regras e a um modelo que a sociedade confortavelmente inventou para si, estabelecendo regras onde elas não existem. Porque para amar só é preciso o amor. O amor não depende do que queremos, apenas do que sentimos. E se somos capazes de amar alguém que não nasceu de nós, que diferença faz essa criança ter mais ou menos referências masculinas e femininas, desde que as tenha e, sobretudo, que seja amada, protegida, educada e acompanhada?

Não sei. Mas sei que uma instituição não tem como distribuir o amor que dois homens ou duas mulheres conseguem dar, mesmo que isso represente o contrário da parentalidade supostamente suposta, com a qual nos habituámos a conviver. Acredito mesmo que estas serão crianças mais conscientes de que o mundo não depende de um conjunto de convenções, mais tolerantes à diferença e, principalmente, respeitadoras do espaço individual de cada um. Porque orientações sexuais (ou serão antes amorosas?) são isso mesmo: orientações e, portanto, individuais. 

O mundo muda e nós, queiramos ou não, mudamos com ele. Quando não o fazemos, o mundo encarrega-se de nos mostrar como estávamos errados.  Aquilo que durante gerações se pensou ser doença não é. O que se escondia com receio do ostracismo começa, finalmente, a ser aceite. Longe vai a idade do armário. Em todos os sentidos da expressão.

Mudar custa, mas é bom. Portugal tem uma tendência inata para o conservadorismo, desafiado aqui e ali por padrões de modernidade. A decisão desta Sexta-feira, de adopção de crianças por casais gay, é disso um bom exemplo. 

A quantas crianças  se dará, agora (finalmente...), a oportunidade do amor?

 

#love #adopção #kids

Já não é Paris. Mas continua a ser

Poderia - talvez devesse - continuar a escrever sobre Paris e o que aconteceu na Sexta-feira. Ou tudo aquilo que se sucedeu a uma acção que não é mais do que um atentado ao nosso modo de vida, uma tentativa de nos subjugar ao medo, paralisando-nos. Deveria ter entrado num avião em direcção a Paris. Teria ido, independentemente da situação, mas mudaram-me o destino e acabei numa outra cidade, cruzando os céus da Europa.

Poderia - talvez devesse - continuar a escrever sobre tudo o que nos afasta da humanidade, tudo o que atenta contra aquilo que no fundo somos. Seremos? Não páro de pensar nisto. Há muito que a sociedade se tornou egoista a ponto de se preocupar mais consigo do que os outros sem, contudo, perder de vista o rumo, unindo-se por causas como esta. Paradoxal. O problema, parece-me, é existirem causas demais, por termos criado inúmeros problemas, fruto da ganância e incapacidade para antecipar as consequências das nossas acções. Temos um passado de luta pela sobrevivência e não perdemos todos os resquícios desse tempo em que dependíamos da força e tenacidade para sobreviver.

Fomos capazes de ir à Lua, há quem já planeie viagens a Marte sem, contudo, resolvermos problemas cuja dimensão pode parecer pequena, mas que nos afecta a todos. Mesmo que indiretamente. Porque a fome ali produz guerra aqui e os desentendimentos do outro lado acarretam mortes deste.

O mundo é demasiado grande - em dimensão -, pequeno - nas suas semelhanças - e complexo para Paris se explicar em meia dúzia de frases. Não quero explicá-lo mas também não consigo ignorá-lo, escrevendo sobre o lado bom da vida, como se este tema não estivesse, ainda, tão urgente entre nós. O problema já não é questionar o que se passou, mas a antecipar o que aí vem. Não sei exactamente o que é  (saberá alguém?), mas sei que nada voltará a ser igual.

Por isso, para além das notícias e dos vídeos e relatos e comentários, nada mais me parece fazer sentido. É nestes momentos que revemos a matéria. No duche, aproveitei para gozar os segundos em que tudo me ocorreu, para registar ideias que nos ficam para sempre.

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Quando começou, o urbanista era todo ele estilo e vida. Os critérios de lifestyle e as hashtags mais populares no Instagram presidiam às escolhas, gradualmente abandonadas em função daquilo que era, de facto, relevante num determinado momento sem, contudo, debater a política ou a economia. Tornou-se, rapidamente, num espaço de opinião e estórias, com tempo para pensar e um ângulo alternativo.

Let's call it opinionated about life and love.

Na verdade, é isto o urbanista: pode ser lifestyle, mas não deixa de ser um reflexo, muitas vezes crítico, da sociedade em que vivemos. Do preconceito e das ideias preconcebidas, dos estereótipos e padrões de comportamento, num cruzamento entre aquilo que é, e o que poderia ser. Sempre em construção.

Porque não há dois dias iguais....

 #parisattacks #life #love