Life

57 channels and nothin' on...

Tenho muito mais do que 57 canais - não temos todos? - na TV. Na maior parte do tempo não dá nada. Do que queremos, quando nos apetece. Lembrei-me desta música do Springsteen não por ser a minha preferida - que não é - mas porque subscrevi, outra vez, o Netflix que se assume como um vicio útil indispensável. Péssimo português numa frase que junta três adjectivos como se um deles fosse o verbo e o outro o sujeito.

Experimentei o Netflix quando apareceu em Portugal. Antes do mês à experiência terminar decidi anular o serviço. Era, de facto, muito confortável mas faltava-lhe conteúdo. Ou talvez não o tenha explorado devidamente. Não sei... Depois comecei a ver partilhas nos sites de redes sociais sobre séries que estão - só estão - no Netflix e pensei duas vezes. Protelei... Uma das vantagens de que mais me recordava eram os perfis diferenciados e independentes que me permitiam a ausência de misturas que acontecem no YouTube... Ora me surgem anúncios de detergentes e produtos de beleza ora coisas que são obviamente off target porque se dirigem à minha filha. Quem, na verdade usa e abusa do YouTube para filmes de animação e música usando, naturalmente, a minha conta, porque isto de emancipação digital ainda está longe de acontecer... Nisso, o Netflix ganha aos pontos a qualquer serviço on-line ou de televisão porque, embora com login comum, cada membro da família pode ter o seu perfil. Nem eu sou inundada com desenhos animados nem ela vê as minhas séries. Isto, juntamente com a possibilidade de ver em qualquer ecrã e poder saltar entre ecrãs sem ter de explicar ao Netflix que fiquei a meio do episódio... Deixou-me saudades. Como fiquei sem saber como se desenrolou a segunda temporada de Grace & Frankie, uma comédia de costumes que trata a homossexualidade masculina nos entas de uma forma tão subtilmente delicada que não consegui ver menos do que dois episódios seguidos. Ou três... Se não pararmos, o Netflix também não o faz, apresentando episódio após episódio até esgotarmos a temporada. Sim, dá para fazer a maratona, se assim o desejarmos. Até fartar. No smartphone, no tablet, na TV ou no computador. Depende do número de ecrãs que definirmos. Escolhi ter tablet e smartphone, e lembro-me de ter deixado tombar o telefone no colo algumas vezes. Ao fim de um certo tempo de inactividade a coisa pára. Não me perguntem como, mas quando voltei, o episódio estava mais ou menos onde me lembro de ter ficado e garanto que não carreguei no botão "stop"!

Estou de volta, depois de uma nova oferta do próprio Netflix que nos trata como nenhum serviço de televisão alguma vez conseguiu. Não são 57 canais mas é muito melhor do que isso...

It's not true I had nothing on. I had Netflix on... 

It's not true I had nothing on. I had Netflix on... 

57 channels and nothing is on. It happens all the time specially when you really experience that awkward feeling of transforming yourself into a couch potato. I'm not a TV kind of girl but sometimes I really like to sit in front of the TV and escape from reality. Currently I turn my smartphone on for one more Netflix moment. I remembered Bruce Springsteen's song not because it is one my my favorites - which is not - but because I’ve subscribed- again - Netflix, my most humble, useful, indispensable addiction.

Yes. I used three different adjectives on purpose, just like if I would replace the subject and the verb with another - one more? - adjective. All because I tried Netflix as soon as it became available in Portugal and it was somehow disappointing. Blame it on my high expectations regarding series and the fact that I was addicted to Scandal, which wasn't (isn't) available on Netflix. It was so much fun to have it on my smartphone and to be able to turn TV on whenever I felt like it. Plus with an amazing image quality and stable video streaming. It really was. But I thought it was far too expensive for content that I didn't really know nor I was interested in knowing, much less to spend time watching. Then social media came along, showing me what others were watching on Netflix and I got jealous. The real Netflix plus was the fact that I could have different profiles for each family member - which left me out of all the cartoon mambo jambo that YouTube infests me every time my daughter is online. Digital emancipation is far from happening around here and Netflix allows a much better curation and control over what my 7-year-old is able to watch. Along with the multiple screens feature, it makes Netflix almost perfect. And let's not forget that the system is intelligent enough to recognize when you stop and in which exact frame, so that you can continue exactly from where you were the next time you log in. I was missing this like hell! And the fact that Grace & Frankie have a new season... There. I confess!

Grace & Frankie is a sitcom approaching male homosexuality in older people in such a subtle way that I had at least two episodes in a row. Or three, to be accurate. And I did stop because if we don't, Netflix doesn’t either, allowing us to watch episode after episode until the season is depleted. Yes, we can have a series marathon as we please. On our smartphone, tablet, laptop or for old school people, on TV. I'm back. With my tablet and a special offer that no telecom nor TV subscription can overwrite. It's no longer about 57 channels, it's much better than that....

Coulda, shoulda, woulda

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Joséphine não foge. Escapa. Um atentado evitado. Quantos se seguirão, na cidade que nos faz apaixonar a cada visita? Paris será sempre o seu reduto, o local de onde parte olhando para trás, ao qual regressa inevitavelmente. Voltamos sempre ao local onde fomos felizes e Joséphine nunca chegou verdadeiramente a partir. Ausentou-se temporariamente da luz de que todos falam, aquela que nunca entendeu ou irá reconhecer, porque encontra luz em cada cidade que visita.

A luz está em nós, nessa capacidade única que cada um tem de ver o mundo, deixar-se inundar por tudo aquilo que é possível conhecer sem esquecer o que já sabemos. A vida é feita de partidas e regressos. Não pode ser de outra forma. A rotina tolda-nos a visão, essa permanente sede de vida e de viver. Trocamos o conforto disto, igual a si próprio e a cada dia que passa, por aquilo que desconhecemos e os riscos que lhe estão associados. Nada pode ser tão enriquecedor como ficarmos entre os que desconhecemos, os que não gostamos ou queremos gostar, o novo e indizível ao olhar. Aprender a ver o que não está à vista, ouvir o que não dizem, descobrir os detalhes que fazem parte de todos os dias, que tomamos por certos, amplia-nos a perspectiva, torna-nos mais fortes, capazes do desafio. Qualquer. Mesmo quando não sabemos qual será o desafio.

Fora daqui - de todos os dias - Joséphine era mais forte e destemida. Achava-se capaz de conquistar o mundo. Por isso lhe custava tanto voltar. Sentia-se sempre a regressar à dimensão que teimam em impor-lhe, à regra do diminutivo como se o mundo se resumisse a essa medida.

O mundo é maior do que possamos imaginar e só com imaginação poderemos ultrapassar as limitações que nos dizem existir. Que não existem. A não ser para aqueles cujo mundo não é mundo. Apenas um pedaço. Aquele que definem por seu, que impõem aos outros, mesmo que não caibam nesse espaço. 

Saiu, um dia, convencida de que iria sem destino, mesmo que o bilhete indicasse a partida e o regresso. Portugal tem uma espécie de manto que nos impede de ver largo e longe. Quando nos afastamos, parece tudo maior e mais evidente. Como se uma neblina nos ofuscasse, limitasse, transformasse o infinito à extensão geográfica do país.

Portugal é pequeno nas suas diferentes dimensões. Soube tornar-se imenso quando descobriu o mundo, sem conseguir conservar essa amplitude. Ou, pelo menos, parte dela. Mesmo quando se expandiu, cresceu em tamanho aparente sem abandonar, nunca, o objectivo pequenino que o caracteriza. Pensou no aqui, e no agora, explorou o óbvio, esqueceu-se de criar raízes que influenciassem, verdadeiramente, cada povo e o que lhe deu origem. Há, naturalmente, resquícios da colonização. Permanecemos em muitas línguas e nacionalidades, deixámos que cada uma delas permaneça em nós. Excepto naquele ponto fulcral que diferencia o ímpeto expansionista da necessidade de encontrar soluções para problemas que nenhuma expansão pode resolver. Falta-nos raça e carisma para desbravar o mundo sem nos assustarmos com as consequências, estratégia para ultrapassarmos a estatura a que sempre nos reduziram - ou tentaram reduzir -, a tenacidade que nos tornaria maiores do que algumas vez quisemos considerar.

Felizes os que vão, mesmo que por pouco tempo, porque voltam sem o olhar embaciado pelos vícios, estratagemas e malandrices que destroem essa capacidade de pensarmos que somos capazes, que a aparência da limitações é apenas o que nos submete a uma condição do sucesso em potência. E que nunca chega a concretizar-se porque se perde na névoa, nos atalhos, nos contratempos, destruído pelo cansaço de fazer parte de um grupo descoordenado e desconcertado que teima em remar numa permanente ausência de sincronia.

Assim vamos, dia a dia, meses, anos. Até voltarmos a sentir o ar frio no rosto, a luz que nos desconcerta, iluminando ideias que de outra forma não conseguiríamos alcançar. Na maior parte das vezes, precisamos da distância para nos aproximarmos. Permite articular o pensamento, sintonizando-o no tempo e no espaço, com um determinado agora que, por vezes, teima em permanecer na neblina. Quando se dissipa este manto que assume a forma de nevoeiro, deixamos o estado de numbness em que a maior parte dos Portugueses se encontra, ignorando o mundo lá fora, presos numa bolha que consideram ser apenas sua, protegendo-os do que possa estar para vir. A bolha existe mas não nos protege. A única bolha que pode fazer face ao que aí vem é a da criatividade e inovação que também existe, mas que tantos teimam limitar, agarrando-se ao que já conhecem, rejeitando aquilo a que se chama mudança e que é fundamental para sairmos do nevoeiro. Agora é já.

No, I'm not.

#InternationalHapinessDay

#InternationalHapinessDay

And I'm happy about it. 

Why happy? Why happiness?

Porquê, e para quê, um dia assim? Que razões nos farão marcar um dia que deveria ser todos os dias? O que nos leva a esta espécie de obrigação em relação à felicidade? E se não formos?

Não acredito na felicidade total mas sei reconhecer o que me deixa feliz, momentos muito simples. Puros. São reconhecíveis mas não serão iguais para todos nós. É tão óbvio que não os podemos comprar que, por vezes, arriscamos a estar gratos por quase tudo. Pharrel Williams, por causa da sua música "happy", escreveu, e bem: 

 happiness always comes from within, and many unfortunately take it for granted, or feel guilty about it or suppress happiness instead of setting it free.

Descobri este postal numa loja pequena de uma rua escondida do bairro de Saint German de Près. É quando passamos uns dias ausentes das redes que lhes sentimos a falta. Ou disfrutamos o prazer de respirar e viver. Prefiro a segunda. Obviamente.

Estar no Facebook e ter conta no Facebook são duas coisas diferentes. Ambas podem contribuir para a nossa felicidade. Ou ausência dela. Seremos mesmos felizes ansiando por likes e comentários? O que nos leva a abrir as portas do nosso mundo ao escrutínio de um outro mundo que teima em não viver, limitado aos pormenores de uma rede que se gere a si própria e aparentemente auto-alimenta, na directa dependência do que lhe damos para se estruturar, processar e desenvolver?

Nunca soube. Deixei de pensar nisso.  

Breathe. Live. Be. 

Breathe. Live. Be. 

Estar no Facebook é, para mim, aquele hábito terrível de transportar parte da nossa vida para o mural, vivê-la através dele e observar o mundo - aquele mundo - por ali. Ter conta é muito diferente. Para o bem, e para o mal. Quando bem utilizado, o Facebook pode contribuir, em muito, para a nossa felicidade. Coloca-nos em contacto com aqueles que de outra forma não voltariam a fazer parte da nossa vida (será que voltaram mesmo?); permite-nos estar informados sobre as notícias bastando, para isso, criar uma lista de conteúdos que "limpa" o mural de tudo o que não encaixe no nosso conceito de informação noticiosa (há seguramente quem pense que os gatinhos se enquadram na categoria); facilita a gestão de comunicações com pequenos grupos de trabalho através da ferramenta "grupos". Tirando isto, pouco mais. Porque há aqueles que o usam apenas para ver as vistas e saber o que se passa. Mas também há os que querem mesmo saber o que se passa na vida dos outros, numa atitude voyeur de quem dizia mal do Big Brother sem nunca ter mudado de canal. Porque sim. Talvez os faça felizes, admirar a vida dos outros de um balcão virtual, através do qual podem interagir sem sem consequências de maior. Palavras, leva-as o vento. Aqui, ficam para sempre. Ou quase.

Há muito que me sinto quixotesca nesta batalha virtual da qual nunca saio vitoriosa e na qual acabo sempre por ceder, reconhecendo que o modo "off" me deixa incomensuravelmente mais livre. Portanto, mais feliz. Como este jornalista, que passou a ter fins de semana sem Internet. Consultar as redes e mensagens, usá-las apenas no período em que estou em ambiente wireless não me permite trabalhar mas garante bem estar. Por isso, no dia internacional da felicidade, modo on-line apenas para publicar.

 

 

Medo?

Muito.  

Ontem li uma entrevista. Hoje li um artigo. Nada de novo ou interessante nesta afirmação. O importante é que dizem o mesmo - ou quase - de forma diferente. Medo. Resume-se (quase) tudo ao medo.

Estou cansada de tantas pessoas medrosas. Cansada de pessoas hipócritas que, por medo, sorriem quando deveriam dizer o que pensam. Pessoas que acenam com a cabeça enquanto, intimamente, nos criticam. Pessoas que se sentem ameaçadas por outras pessoas. Não pelo seu intelecto mas porque são mais altas, ou mais bonitas ou qualquer outro predicado igualmente subjectivo e inútil para avaliarmos alguém. Entre homens e mulheres o problema já assumiu o carácter de cliché. Piada fácil para explicar a razão pela qual tantos relacionamentos nem chegam a acontecer. O que me despertou neste artigo foi esta frase:

 "Continuas a dizer exactamente o que pensas e o que queres, disse-me ele. E isso assusta as pessoas, principalmente os homens".

Estou com a Helena. Medo?... Seriosly?!

Concordo com o que diz, quando afirma que:

"Não seriam a sociedade e as relações mais fáceis de se levar se todos fossemos honestos com o que queremos e o que sentimos?"

Aplica-se a tudo, incluindo o amor.

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Não entendo, nunca entenderei, a razão pela qual tantas pessoas optam pelo cinismo fácil, escondendo-se, concordando por falta de argumento, estabelecendo relações com base na falsa suposição de partilha mútua. Não temos de nos aceitar. Apenas respeitar. Ser capazes de conviver e, eventualmente, trabalhar em conjunto.

Não é mais fácil para todos afirmarmos que  determinadas características de alguém nos incomodam mesmo que tenhamos de partilhar algum tipo de contexto?

Não temos de ser amigos, apenas de ser civilizados e verdadeiros. Optamos, muitas vezes, por mostrar a mentira, socialmente mais segura e aceitável. Acontece por absoluta estupidez ou medo. Ostracismo será demais, convém respeitar o outro nas suas diferenças, reconhecer as suas competências e capacidades para trabalhar, em conjunto, no que tem de ser. Experimentem dizer a alguém exactamente o que pensam.

É libertador.

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O artigo, focado nas relações entre homens e mulheres, tem uma passagem interessante, que levanta cinco potenciais razões para que isto aconteça. Vou adaptar, porque se aplica a tudo. Especialmente às relações profissionais, num contexto como o de hoje, em que as mulheres poderiam facilmente dominar as principais posições nas organizações. Diz a autora que os homens precisam de estar com mulheres que considerem inferiores para se sentirem superiores. Eu diria que as pessoas, em geral, não gostam de se sentir inferiores porque a inferioridade é uma ameaça, tornando-as dependentes e incapazes de dominar as diferentes situações de qualquer contexto entre indivíduos. Sim, no geral, ninguém quer que se perceba a sua ignorância ou falta de inteligência.

From Abigail Keenan (abigailkeenan.com)

From Abigail Keenan (abigailkeenan.com)

Aplica-se às relações entre homens e mulheres. Como afirma, os homens têm medo que uma mulher inteligente acabe por perceber que eles não o são e, por isso, também receiam ser abafados. Pessoas capazes são sempre ameaçadoras. Quando a situação se coloca entre homens e mulheres, a nossa socialização, paternalista, machista e conservadora, transforma mulheres inteligentes e independentes numa verdadeira ameaça à sua masculinidade. Na maior parte do tempo, de forma inconsciente.

Pior se as considerarem bonitas.

Sabem o que dizia a entrevista

Que somos um país de medricas, de gente subserviente, assustada. 

É isto. 

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há-de ser... um dia...

... esse dia é hoje.

 Admitamos: não é uma, nem duas ou três vezes que pensamos nisto, sequer que o expressamos em voz alta. A vontade de sair daqui, abandonar tudo e usar havaianas todo o ano já nos invadiu. Da mesma forma, a necessidade urgente de férias. 

A Noelle pode, mas não é um exemplo. Sozinha e sem qualquer compromisso pessoal ou social, abandonou tudo. Partiu sem plano, fixando-se no paraíso que é St. Johns. A questão não é financeira. É maior e mais ampla, paradoxal e quase esquizofrénica. Ela tem razão. Esta urgência nas férias significa que estamos mal na nossa vida.

Não entendo a razão pela qual somos, desde a mais tenra idade, encarreirados num sistema que não conhecemos e com o qual não se sabe se queremos vir a pactuar. Tudo começa na escola com critérios de homogeneização e padronização para dar coerência a uma estrutura de avaliação. Já há escolas que apadrinham a diferença, com moldes menos rígidos mas, na generalidade, transformamos crianças em pequenos adultos, fardados, formatados, a pensar no seu futuro de sucesso. Por definição, as crianças não sabem o que querem ou o que é melhor para elas, pelo que estamos cá nós para decidir em seu nome. Questiono-me muitas vezes sobre estas decisões, o ritmo e o rigor que lhes é imposto. Oiço dizer muitas vezes que as crianças não têm tempo para brincar e que as suas agendas sociais se assemelham às de um adulto. Não concordo e não pratico. Mas cedi a uma lógica que a encaixa num sistema de ensino vocacionado para a produção de pequenos exemplos de sucesso, como se o falhanço tivesse sido riscado do dicionário. Falhar ajuda-nos a crescer e é, em si mesmo, uma forma de aprendizagem. Hoje, o verbo falhar é pronunciado entre dentes, como as palavras feias. Não nos podemos dar ao luxo dos falhanços porque esses estão reservados aos muito ricos com uma rede que os suporta durante a queda e ajuda a levantar. Vivemos numa sociedade de tal forma capitalista, liberal e competitiva que há outros verbos que passaram a ser menosprezados: compreender, ajudar, diferenciar. 

Os excêntricos têm estes devaneios de fuga. Os integrados adoram os seus fatos e as horas passadas nos escritórios, dos quais saem, qual autómatos, à hora do almoço, vestidos de igual, para uma refeição no restaurante da moda - para os neoyuppies - ou no centro comercial mais próximo, para os aspirantes a yuppies.

O termo nasceu algures em 1980 para descrever os young urban professionals que agora já não são tão young assim mas que mantém o padrão. Licenciados com carreiras nas finanças, profissões liberais ou consultoria, ganham bem e vivem melhor, com um estilo de vida urbano e cosmopolita.  Misturam-se com os preppys e, por  vezes, encontramos uma espécie de yuppie-preppy, verdadeiramente irritante, que deixa um rasto de perfume da moda, colocado em excesso, e nos atira palavras com dicção afectada que afecta a forma e o tom das palavras. Dialectos?

Mostram-se felizes com o tipo de vida que escolheram, igual à dos amigos, com férias partilhadas em locais comuns, numa perspectiva do mundo que se reduz àquilo que conhecem, sem reflectir muito sobre isso. Tal profundidade na análise iria mostrar a verdade, com a qual, provavelmente, não sabem lidar. 

Aplica-se a estes e todos os que se recusam a olhar para o que temos de forma crítica, praticando a #gratitude nos sites de redes sociais porque fica bem. Estarmos gratos pela vida confortável que temos e os filhos lindos, impecavelmente engomados na farda da escola é estarmos gratos por aquilo a que nos submetemos de livre vontade, traduzido num cansaço constante e necessidade de férias. Gratos pelo sol da manhã, o sorriso de quem amamos e saúde. Tudo o resto podemos construir. Ou destruir para fazer de novo, com um outro molde, outro ritmo e objectivos. Estaremos certos, encaixados em apartamentos modernos com vista para os vizinhos do lado, conduzindo carros de última geração mais tempo parados nos semáforos do que a circular, que nos levam para outros edifícios, aclimatizados, organizados e padronizados para acenar com a cabeça de um lado enquanto protegemos as costas do outro? Não estamos. Talvez uma galinha na banheira faça mais sentido, quando até um cão consegue ter mais aventura na sua vida do que a maior parte de nós.

 


     

da arte da amizade

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Hoje assisti aos ensaios de uma peça de teatro sobre arte. Não. Sobre amizade. Chama-se arte porque a narrativa gira em torno de uma obra de arte. Ou do subtexto que podemos entender da obra em si. Porque como em tudo na vida, nem sempre que se vê é o que é, e o que é, nem sempre se vê.

Porque as pessoas são como são e não estão à vista. Como a obra de arte, são o que queremos ver até ao momento em que as conseguimos perceber, tal como realmente são. Onde antes estavam traços magenta e linhas de cor, passa a estar um eterno é infindável branco. Ou negro, porque o preto está associado tantas vezes ao desconhecido. A ausência de cor, ao absorver todos os raios de luz, não reflecte nenhum, surgindo como desprovida de clareza. Tal como as pessoas, algumas das quais para além de clareza, falta-lhes também a inteligência para se verem reflectidas ao espelho e, nessa ausência, projectam o seu reflexo nos outros, imaginando aquilo que são, reflectido na sociedade.

É por isto que existem pessoas boas e más. As boas reflectem luz, estão cheias de cor e permitem que os outros as vejam tal como elas são, sem o subterfúgio do branco que, na sua extrema clareza, reflecte todas as cores do espectro. Esse reflexo são o eu e o outro, aquilo que sou e aquilo que o outro entende de mim, bem como aquilo que sou e aquilo que projecto. No preto, que são todos os outros, não há projecção. Pena que não consigamos ver nada além da abjecção das atitudes daqueles que, simplesmente, pelo suposto excesso de brilho preferem ver tudo a negro, catalogando os outros nas suas escuras e medíocres categorias, como se o mundo e as pessoas que lá vivem fossem uma projecção do seu próprio mundo.

Todos nós já conhecemos alguém assim, não já?

Foi Natal

Dizem que o Natal é o tempo da família. De partilha, de amor e generosidade. Acho que esse é - será (ou talvez seria) - o tempo de todos os dias. Mas não é isso que vejo. Nem nos dias, menos ainda no Natal, dominado por um consumismo exacerbado em que dar significa dar algo e não dar de nós. Dar atenção, carinho, amor. Dar algo a alguém que precisa ou dar algo que alguém precisa passou, há muito, ao dar porque "tenho de lhe dar alguma coisa", com sabonetes, velas ou meias à mistura que ninguém quer comprar e menos, ainda, receber.

Não é isto, o Natal. Nem pode ser apenas isto, o Natal. Mas também não pode ser o Natal que agora vi, com lojas de pronto a vestir abertas até à uma da manhã, em noite de consoada, e um mar de gente nas ruas, enchendo a praça mais movimentada que alguma vez conheci, tornando impossível a circulação.

Times Square na noite de Natal estava repleta de turistas e outros que não sei quem eram. Às oito da noite os teatros encheram, antes disso o movimento nos restaurantes estava imparável e, depois, não faltavam pessoas a circular entre os vários pontos da Broadway. Os carros circulavam com (extrema) dificuldade. As pessoas também. Os odores, intensos, dos hot dogs, pretzels, pipocas, amendoins doces, halal food e outras especialidades que desconheço mas cujo cheiro é inconfundível, misturavam-se com a babel de sons, misturando línguas e sotaques como numa antes ouvi. Aqui, é difícil perceber quem são os locais porque a maioria não é daqui e, por isso, o global assumiu-se local, mesmo não o sendo. Há de tudo e a qualquer momento, porque a cidade não dorme. Descansa, algures na madrugada, sem cair à cama, para, pela manhã fresca, acelerar com todas as suas forças pelo Central Park, correndo, patinando ou circulando de bicicleta.

Outro dia começou, continuava a ser Natal e continuou a vida em modo "Natal turístico", com o comércio de porta entreaberta, restaurantes e afins repletos de clientes cheios de vontade de um Brunch ou uma refeição gordurosa, que misture as tradições europeias com as ideias da cozinha norte-americana. A maior parte das lojas preparava aquele que é conhecido como "second Black Friday", a 26 de Dezembro, dia em que as lojas, todas, reabrem portas para vender o que sobrou do Natal, com preços que chegam a descer 60%. É o mercado capitalista a funcionar, com o consumo estimulado não sei de que forma, garantindo um Starbucks em cada esquina e lojas multimarca que apresentam tanta - ou maior - variedade do que as inúmeras ruas repletas de comércio de toda a natureza.

São mais de 10 milhões numa área menor do que Portugal, com o mesmo número de habitantes. Isto quer dizer muitas coisas e quer, sobretudo, mostrar que ser grande não quer dizer que se seja grande coisa que é, exactamente, o espírito actual do Natal.

NYC é grande em todos os sentidos, mesmo o da coisa. Com (algumas) qualidades e (poucas) virtudes, NYC não dorme nem deixa dormir, expande-se em altura, luz e movimento a cada vez que a visitamos. Não é sempre Natal em Nova Iorque mas, não fossem as luzes exuberantes, as montras de produção sofisticada e os pinheiros preparados para serem fotografados e nem parecia Natal...

Instagram. Us and them.

Comecei por sorrir. Depois, comecei a rir. A seguir soltei uma valente gargalhada quando me vi ao espelho. Já não me lembro do último cappuccino que bebi sem antes, o ter fotografado. Mea culpa. O melhor de tudo, quando um vídeo destes nos confronta com os nossos próprios vícios é conseguirmos sorrir quando ele - o Instagram husband que, na verdade, é só husband e não nos fotografa propositadamente para um artigo sobre o tema - nos diz que o cappuccino está lindo. E afirma, em seguida, num tom interrogativo, se não o vamos fotografar. Não íamos. Porque tínhamos fotos de cappuccinos que chegariam para alimentar a conta do Instagram durante um mês sem voltar a beber um cappuccino; porque controlamos razoavelmente as vezes que o impedimos de comer (ou beber) para fotografar; porque decidimos estar de folga; porque não nos estava a apetecer. Porque. E, perante a interrogação, exclamativa, puxamos do telefone para, habilmente, escolher o ângulo e fotografar mais um cappuccino. Esta é, para mim, a melhor cena do vídeo. Porque admito já ter feito a mesma figura, impedindo a outra pessoa de comer, para fotografar. Porque está bonito. Porque poderá ser útil. Porque sim, passou a ser mesmo assim. 

 De resto, a caricatura é mesmo isso, uma caricatura que procura levar-nos à razão, pelo absurdo das situações. Homens pendurados em escadas à procura do melhor ângulo? Fotografias em sequências infindáveis por causa de uma bandeira? Não. A fotografia do nada, a qual ele tem, obrigatoriamente, de amar? Menos ainda.

Dependendo da abordagem e do método, no Instagram ou em qualquer outro site desta natureza, devemos depender apenas de nós, com alegres colaborações. Sujeitar o nosso sucesso a quem nos fotografa é injusto e, por vezes, cruel.

A fotografia de hoje aconteceu. E, por isso, tem graça e valor. Fui apanhada a fotografar o cliché da estação do Oriente: os arcos em metal, com o reflexo da luz do sol. Uau... Que original.... No entanto para quem, como eu, viaja mais de avião do que de carro, e mais ainda do que de comboio, teria a sua graça. Por isso, escrevo sobre o tema.

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Os maridos do Instagram vieram substituir as viúvas do golf, as solitárias do surf ou qualquer outro tipo de categoria que associe um casal a um hobbie. O dele. Não só o Instagram contribui para inverter os papéis como, de certa forma, os posiciona como durante muito tempo nos pocisionaram a nós: um acessório de uma relação centrada neles. Esta inversão não estará correcta mas, efectivamente, quem boa cama faz, nela se deita. Pese embora uma relação dependa de respeito e equilíbrio, não lhes faz mal nenhum sentirem, de quando em vez, que são o nosso selfie stick pessoal, inimitável é insubstituível. Mesmo que seja, apenas, para as fotos do Instagram.

Entre

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido.

Ponta Delgada

Ponta Delgada

Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Furnas

Furnas

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Louvre Michaelense

Louvre Michaelense

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

(continua) 

Já não é Paris. Mas continua a ser

Poderia - talvez devesse - continuar a escrever sobre Paris e o que aconteceu na Sexta-feira. Ou tudo aquilo que se sucedeu a uma acção que não é mais do que um atentado ao nosso modo de vida, uma tentativa de nos subjugar ao medo, paralisando-nos. Deveria ter entrado num avião em direcção a Paris. Teria ido, independentemente da situação, mas mudaram-me o destino e acabei numa outra cidade, cruzando os céus da Europa.

Poderia - talvez devesse - continuar a escrever sobre tudo o que nos afasta da humanidade, tudo o que atenta contra aquilo que no fundo somos. Seremos? Não páro de pensar nisto. Há muito que a sociedade se tornou egoista a ponto de se preocupar mais consigo do que os outros sem, contudo, perder de vista o rumo, unindo-se por causas como esta. Paradoxal. O problema, parece-me, é existirem causas demais, por termos criado inúmeros problemas, fruto da ganância e incapacidade para antecipar as consequências das nossas acções. Temos um passado de luta pela sobrevivência e não perdemos todos os resquícios desse tempo em que dependíamos da força e tenacidade para sobreviver.

Fomos capazes de ir à Lua, há quem já planeie viagens a Marte sem, contudo, resolvermos problemas cuja dimensão pode parecer pequena, mas que nos afecta a todos. Mesmo que indiretamente. Porque a fome ali produz guerra aqui e os desentendimentos do outro lado acarretam mortes deste.

O mundo é demasiado grande - em dimensão -, pequeno - nas suas semelhanças - e complexo para Paris se explicar em meia dúzia de frases. Não quero explicá-lo mas também não consigo ignorá-lo, escrevendo sobre o lado bom da vida, como se este tema não estivesse, ainda, tão urgente entre nós. O problema já não é questionar o que se passou, mas a antecipar o que aí vem. Não sei exactamente o que é  (saberá alguém?), mas sei que nada voltará a ser igual.

Por isso, para além das notícias e dos vídeos e relatos e comentários, nada mais me parece fazer sentido. É nestes momentos que revemos a matéria. No duche, aproveitei para gozar os segundos em que tudo me ocorreu, para registar ideias que nos ficam para sempre.

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Quando começou, o urbanista era todo ele estilo e vida. Os critérios de lifestyle e as hashtags mais populares no Instagram presidiam às escolhas, gradualmente abandonadas em função daquilo que era, de facto, relevante num determinado momento sem, contudo, debater a política ou a economia. Tornou-se, rapidamente, num espaço de opinião e estórias, com tempo para pensar e um ângulo alternativo.

Let's call it opinionated about life and love.

Na verdade, é isto o urbanista: pode ser lifestyle, mas não deixa de ser um reflexo, muitas vezes crítico, da sociedade em que vivemos. Do preconceito e das ideias preconcebidas, dos estereótipos e padrões de comportamento, num cruzamento entre aquilo que é, e o que poderia ser. Sempre em construção.

Porque não há dois dias iguais....

 #parisattacks #life #love