2017

3 estratégias, 5 verbos e 8 apps para trabalhar menos e fazer mais

Creio que nunca vos contei mas, na verdade, não gosto de trabalhar. Gosto de fazer as coisas de que gosto e para as quais raramente me pagam. A isso não se chama trabalhar porque o trabalho supõe uma remuneração. Sou muito boa, mesmo muito boa a fazer as coisas de que gosto e péssima a protelar algumas das coisas que me pagam para fazer. Shit happens, verdade?

Há tempos desenvolvi uma série de artigos sobre a regra das 5 horas, numa tentativa de me auto-motivar a trabalhar menos horas, fazendo mais. Resultou? Obviamente que sim, especialmente para fazer aquelas coisas para as quais ninguém me paga e que eu gosto de chamar trabalho mas que, na verdade, não é.

Como rentabilizar o tempo?

1. Começar a horas

Sempre que ficamos apenas mais 5 minutos na cama estamos a atrasar o dia inteiro, porque esses cinco minutos - que nunca são apenas cinco e se multiplicam por outros cinco - representam um mau pequeno-almoço, uma péssima escolha da roupa (para usar todo o dia, note-se..) e uma correria para tentar picar o ponto a horas. Péssima forma para começar... 

2. Não protelar ou procrastinar

Ao longo do dia, a lista de afazeres adensa-se sem que as tarefas sejam concluídas. O que é chato fica para depois, o que é difícil também e, no entretanto, já respondemos a todas as mensagens de correio electrónico que não eram urgentes, perdemos tempo a conversar com uma colega ou a trocar mensagens sobre o fim de semana que está para vir. É segunda-feira e estamos a fazer planos para, mentalmente, escaparmos ao que temos, de facto, de fazer.

3. Fazer (e respeitar) uma lista de prioridades

O correio electrónico pode esperar e devemos começar a ser capazes de educar as nossas chefias para a relevância de reuniões nas quais muito se fala e pouco se decide. O propósito de uma reunião, por definição, é o de juntar pessoas para discutir um tema ou realizar alguma actividade. O que acontece nas famosas reuniões "that could have been an email" é que há alguém que se ouve a si próprio, enquanto outros sonham acordados, usam os seus telefones e computadores como se tirassem muitas notas e estivessem muito atentos quando, na realidade, não ouviram nada. E perderam tempo. Acabemos com este péssimo hábito, por favor, por reuniões de trabalho objectivas, com duração definida e conclusivas. 

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Como resolver os detalhes que minam o dia-a-dia?

1. Dormir

Deitar cedo e cedo erguer é a utopia dos tempos modernos porque, mesmo que consigamos aterrar na cama a uma hora decente, ficamos só mais cinco minutos (os mesmos que depois servem para protelar o acordar..) no instagram, no facebook ou em qualquer aplicação que não tenha como função fazer-nos adormecer. É importante desligar o telefone (hello modo avião...) deixando-o na mesa de cabeceira para servir de despertador. Ou deixá-lo fora do quarto, aquela opção mais radical... O objectivo é desligar a mente para nos focarmos no que realmente interessa: descansar. Para este efeito sugiro a app Calm (iOS; Android) com histórias para adormecer e sons relaxantes, que vão desde o pôr do sol numa praia tropical à Tundra ou o crepitar de uma lareira. A vantagem? Funciona em modo avião e tem temporizador porque, na maior  parte das vezes, acabamos por adormecer sem a desligar. 

Supondo que adormecemos à hora certa - ou seja, aquela que nos garante tempo suficiente de sono e repouso, o ideal é ter o quarto a uma temperatura amena para não ficarmos mais tempo na cama porque está frio e custa muito levantar... Para além disso, há aplicações que também nos ajudam a saber quando acordar: são aplicações "sleep cycle" ou "sleep better" que registam o ritmo do nosso sono e garantem que acordamos no intervalo de tempo certo, entre ritmos circadianos, para não ficarmos com aquela sensação de cansaço o dia todo. Recomendo a Sleepytime (iOS; Androidsimples e fácil de usar.

2. Caminhar

Chegar ao trabalho a horas depende de organização mas, sobretudo, da colaboração do trânsito ou transportes públicos. Quanto a isto, sejamos realistas e não há aplicação que nos valha mas, a informação de trânsito do GoogleMaps ou da Waze podem facilitar-nos a vida, evitando alguns percursos. Sugestão radical? Fazermos a deslocação a pé, não só porque a caminhada favorece a liberdade de pensamentos, contribui para o meio ambiente e ainda tonifica pernas e glúteos. Experimentem caminhar acompanhados com a WalkTalk App (só iOS) que vos coloca em contacto com alguém que, algures no mundo, também está a fazer uma caminhada.

3. Adiar

Adiar, sim. As conversas inúteis. Assim que chegamos ao trabalho, o ideal é despachar - literalmente despachar - os colegas que gostam de se arrastar com uma caneca de café na mão enquanto mostram as fotografias do cão, do gato ou dos filhos, que são tão lindos, não são?... Também há os que ficam a falar mal da vida e a fazer-nos... perder tempo. Nada daquilo interessa. Não ali, não agora. Concentrem-se no que tem de ser feito para gozarem a vossa hora de almoço ou saírem, por uma vez que seja, a horas! Não conheço nenhuma aplicação para isto mas podem usar uma de chamadas falsas (Fake Call iOS; Android), definir uma hora para receberem o telefonema e fugir deste tempo perdido com a desculpa da chamada que têm (mesmo) de atender.

4. Concentrar

Se precisam de se concentrar ou aquecer os motores para começarem a trabalhar, pois que seja, mas encontrem uma estratégia que funcione de forma simples e rápida. Música ajuda e, se quiserem, podem ouvir a playlist urbanista no Spotify ou, para quem gosta de ouvir os outros a falar, os podcasts urbanista. Pessoalmente, uso muitas vezes o Coffeevity que me dá a sensação de estar num café, rodeada de pessoas a olharem para mim. E concentro-me no trabalho.

5. Gerir

Reservem horas específicas para o correio electrónico. Desliguem as notificações do serviço de correio que utilizam, não deixem que isso interfira com o vosso trabalho, mesmo que estejam à espera de uma mensagem para poderem continuar uma tarefa. Coloquem-na em suspenso e regressem a ela apenas quando terminarem a que entretanto começaram.

Uma lista de tarefas com prioridades definidas ajuda sempre desde que não nos limitemos a fazer lista após lista sem nos dedicarmos a nenhuma das tarefas definida nessa lista. Lembram-se daquele prato que vocês odiavam e que a mãe vos obrigava a comer? Deixavam o melhor, ou o pior para o fim? A regra deve ser a mesma, começando por aquilo que é mais difícil e demorado, sem interrupções para respirar um pouco ou espreitar o Facebook. Para este jogo de gato e do rato, recomendo a Flow Timer (iOS; Androiduma aplicação que define tempos de trabalho e que, como em qualquer jogo, queremos ganhar, terminando a tarefa antes do tempo acabar para, depois, podermos descansar alguns minutos.

Agora... bom trabalho ♡

 


Nota: as aplicações foram testadas em ambiente iOS e baseiam-se na minha experiência pessoal

Imagem de capa: Photo by Charles Koh on Unsplash

 

 

 

Luxo: 21 aspectos que definem o verdadeiro luxo

A palavra luxo remete-nos, imediatamente, para a ideia associada à sua aparente definição, de um modo de vida aparatoso, baseado no supérfluo e ostentação. Mas o luxo é, também, conforto e prazer, independentemente de tudo. Como afirmava Coco Chanel, se não for confortável, não é luxo. Talvez por isso tantas vezes pensamos na tangibilidade do luxo quando, o verdadeiro luxo nem sempre é palpável.

A conferência organizada pela Condé Nast, The Language of Luxury, que este ano se realizou em Lisboa, é tudo menos supérflua. É um luxo. Arrisco a dizer que é uma das melhores conferências em que participei nos últimos anos. Há muito tempo que não era surpreendida de forma tão positiva pela riqueza do conteúdo. Que banho de mundo e conhecimento.

Luxo. No melhor sentido da palavra.

Gostei particularmente de perceber que a linguagem - e o negócio - do luxo ultrapassam, em muito, a ideia de um apelo ao consumo excessivo ou de uma apologia de um certo materialismo sem sentido. Gostei sobretudo de me confrontar com a nossa pequenez, quando pensamos que o mundo é isto que conhecemos, esquecendo-nos, tantas vezes, que há um mundo inteiro por descobrir. A verdade é que nos limitamos demasiadas vezes ao contexto em que nos movimentamos, convencidos de que essa janela chamada internet nos coloca o mundo na mão quando, na verdade, temos acesso apenas a uma fracção das suas infinitas possibilidades. 

Na conferência estiveram diferentes aspectos em discussão, relacionando-se nas suas já existentes co-relações e potenciando novas interligações entre o negócio, a cultura, a sociedade, a identidade - individual, local  e global - a digitalização, a gestão das marcas, ideias futuristas e a realidade para depois de amanhã. 

Dos conselhos da Rimowa relativamente às marcas que vão atrás das tendências focando-se apenas nisso, esquecendo como integrar as tendências na sua própria identidade, à mensagem editora da Vogue na China, relembrando que nos social media a mensagem pode perder-se no meio do ruído causado pelo fluxo contínuo de mensagens, passando pela ideia de que a inovação também passa pela transformação das narrativas que conhecemos até aqui, houve ainda tempo para perceber que temos de aprender a relacionarmo-nos com a inteligência artificial para criarmos uma nova linguagem que irá redefinir a forma como comunicamos com as máquinas, apontando ao futuro para deixar claro que cabe a todos e, principalmente, às marcas, a definição de estratégias de sustentabilidade, garantindo uma economia mais justa e o futuro do planeta.

Foi, de facto, um momento que me fez pensar sobre o luxo e perceber que, também a indústria do luxo privilegia a experiência ou seja, aquilo que, para mim, será a verdadeira definição do luxo:

o ser em detrimento do parecer.

A maior parte destas marcas assenta numa lógica de slow fashion, criando produtos únicos, de grande qualidade. O preço elevado resulta do processo criativo que lhe está associado, da qualidade da matéria prima utilizada e dos custos de produção que resultam em produtos de elevada durabilidade, qualidade e estética. A minha questão prende-se com outras marcas que se posicionam enquanto tal, confundindo o consumidor através de uma comunicação de marca assente no pressuposto do luxo sendo, na verdade, apenas marcas mais caras do que outras, exactamente iguais. Bullshit, portanto. São estas as marcas que critico, censurando igualmente um consumo burguês baseado na ostentação, da mesma forma que, em consciência, não posso - não podemos - continuar numa lógica de fast fashion inconsequente. É urgente questionar quem produz o quê, em que condições e com que matéria prima.

Qual terá sido o custo de produção de camisolas de algodão que se vendem a 3€?

Simultaneamente, podemos também pensar melhor  como nos tornámos tão materialistas e na forma como este consumo desenfreado se baseia numa lógica de baixo custo e rápida substituição. Estou consciente de que o mercado do luxo não é para todos - não é seguramente para mim - mas estou segura de que, independente no dinheiro que temos no bolso, necessitamos de adoptar uma postura mais consciente em relação ao consumo e às marcas, fazer escolhas informadas, menos emocionais e impulsivas, comprando menos e melhor. Cedo muitas vezes ao preço das marcas que oferecem grande variedade a baixo custo mas, hoje, olhando para as fotografias que tirei, constatei, uma vez mais, que o estilo não depende da moda e que, em situações destas, acabo sempre por escolher as peças (quase) intemporais, com as quais estou mais confortável. Já antes vos deixei dicas para melhores compras [LER], gastando menos dinheiro mas, hoje, em torno da palavra luxo, não posso deixar de pensar, como referiu também Alexandre Arnault Co-CEO da Rimowa, que tudo se resume às experiências que temos e que, também essas precisam de acessórios para se materializarem, figurando naquela espécie de auto-biografia que vamos escrevendo no instagram ou snapchat.

A questão é:  o que queremos mostrar? A pessoa que somos ou o que podemos comprar?

Quero acreditar na segunda hipótese e, para os que leram até aqui, esta é uma tentativa de criar uma lista que define o verdadeiro luxo, baseando-se em aspectos tangíveis e intangíveis, pensando na forma como conseguimos alcançar os tangíveis e na importância que podem, ou não, ter na nossa vida. O verdadeiro luxo é:

1. não usar despertador para acordar

2. poder assistir ao pôr-do-sol só porque sim

3. respirar ar puro

4. ir a pé para o trabalho (significa que moramos perto)

5. estar são e salvo num ambiente pacífico

6. dormir uma noite inteira sem interrupções

7. gerir conscientemente as nossas finanças e não contar tostões até ao final do mês

8. viver com saúde e bem estar, sem doenças

9. poder comprar um relógio automático para a vida, uma designer bag que não perde valor por estar usada ou uma trenchcoat que também valoriza com os anos

10. ter liberdade de expressão

11. ter informação e conhecimento para um espírito crítico em relação ao mundo

12. trabalhar no que se gosta e poder gerir os períodos de férias 

13. conhecer-se a si próprio e ser capaz de assumir as suas decisões

14. gostamos de nós como somos e não cedermos à pressão de agradar aos outros

15. chocolate quente

16. saber que a vida pode mudar ao estalar de um dedo

17. aproveitar cada dia com um sorriso e gratidão 

18. poder comprar alimentos com qualidade, produzidos localmente

19. usar sapatos confortáveis; melhor: pés na areia

20. ser capaz de dizer não

21. viver para ter tempo para ler e usufruir de diferentes expressões artísticas ou desportivas

...

 

Keyword: festa! 2018 começa na rua

“Festa” é a keyword que não pode faltar quando falamos de Ano Novo.

É esta que, certamente, também não faltará em qualquer canto - por muito pequeno que seja - de Portugal. Começando pela capital, o must go deste ano é, tal como todos os anos, o Terreiro do Paço. À meia-noite, conta com um espetáculo de fogo de artifício à beira Tejo, mas antes disso - e para aqueles cujas carteiras não apertam - podem ainda aproveitar para jantar num dos múltiplos restaurantes nesta zona. A festa começa antes do último dia do ano e, desde o dia 29 de dezembro ao dia 31,  vamos ter concertos de artistas nacionais, sendo que no último dia, actuarão Marta Ren & The Groovelvets e Capitão Fausto antes do fogo de artifício, seguindo-se músicos como Ana Bacalhau, Lena D’Água ou Miguel Ângelo.

Na Invicta, a festa faz-se também na rua, na Avenida dos Aliados. Conta com um espetáculo de fogo de artifício e vários concertos, como Áurea e Amor Electro. A sul de Portugal, um dos destinos mais procurados para o Ano Novo é Albufeira. A Praia dos Pescadores vai acolher concertos a partir das 22h, cujos cabeça de cartaz serão Agir e Xutos e Pontapés. A animação mantém-se com o habitual fogo de artifício, e poderá continuar na famosa “The Strip”, a rua principal da Oura com os bares e discotecas preferidos dos bifes. Não sei se queremos isso. Ou talvez queiramos, a noite é de festa e nessa altura já muitos perderam o Norte...

Ainda na zona do Algarve, podemos ir até Portimão. O local para onde se viram todas as atenções é a praia da Rocha e toda a Zona Ribeirinha de Portimão, onde irá aturar durante várias horas Edna Pimenta, com o espetáculo de fogo de artifício pelo meio. Na noite anterior atuam os The Gift. Tal como no Algarve, na Figueira da Foz a festa faz-se na praia. As atenções viram-se para a Praça do Forte, onde terão lugar concertos desde o dia 29 de dezembro (com Inês Simões e Diogo Piçarra) ao dia 31 (Pedro Abrunhosa às 23h, espetáculo piromusical à meia-noite e a continuação do concerto de Pedro Abrunhosa e Dj Nelson Cunha a partir da meia-noite e meia). Continuando no litoral, na Nazaré, o novo ano é recebido à beira-mar, com espetáculo de luzes, fogo de artifício e concertos nos diversos palcos espalhados pela avenida principal. Vão marcar presença várias bandas e Dj's para aquecer a noite.

No centro do país, na Covilhã, a passagem de ano celebra-se de forma mais “caseira”. A Serra da Estrela é o sítio ideal para quem procura celebrar o Ano Novo à lareira, aproveitando a paisagem natural coberta de neve e gastronomia regional. Outros pontos atrativos são também as aldeias históricas, a estância de ski (ou sku, dependendo do gosto), o Museu de Lã e a Lagoa Comprida. Esperemos que as estradas não estejam cortadas...

Mais a norte, na zona do Minho, é também famosa a passagem de ano em Braga. Contará com um grande espetáculo de música e fogo de artifício na Avenida Central com vários artistas e Dj's.

Dizer NÃO: o poder transformador do NÃO em 3 passos

Ninguém nasce ensinado e, na verdade,  a sociedade encarrega-se disso a partir do momento em que nascemos, mostrando-nos o certo e o errado, o aceitável e o inaceitável, o poder e o dever. Esquecendo-se, contudo, do pormenor fundamental que reside na natureza de cada indivíduo, que faz a diferença entre todos nós, e enriquece esta mesma sociedade que se deseja o mais homogénea possível quando. na verdade, é na heterogeneidade que reside o valor dessa mesma sociedade.

No can do.

E é talvez por isto que tantas pessoas estão frustradas, cansadas, deprimidas. Porque lhes recusaram a possibilidade de serem quem realmente são, porque se auto-anularam, aceitando ser aquilo que delas (supostamente) se esperava. É também por isto que o propósito de vida passou a ser um jargão atirado à cara de quem não percebe que não podemos ser todos iguais, aceitar as mesmas coisas a favor do bem comum que, muitas vezes, anula o bem-estar individual.

A questão ultrapassa largamente a noção egoísta do prazer individual, centrando-se nessa capacidade intrínseca que aprendemos a ignorar, de dizer não. 

Qual a razão pela qual nos preocupamos tanto em agradar aos outros, mesmo quando não agradamos a nós próprios? Se, por um lado, todos queremos ser aceites e pertencer, por outro, somos rotulados de egoístas por pensarmos em nós. As necessidades estão lá no topo e fazem parte da pirâmide que Maslow definiu: auto-realização e estima, que também conduz a um ciclo vicioso para nos roubar a liberdade de dizer o que sentimos e pensamos, ou fazer o que realmente queremos.

Now what?

Aprender a dizer não é um processo. Demoramos muito tempo a conseguir lá chegar e não é seguro que, sempre que seja necessário dizer "não" acabemos por dizer "sim"...

Como conseguir?

Há várias técnicas simples que podemos implementar na nossa vida para nos concentrarmos no que realmente importa e não tanto nas solicitações de que somos alvo:

Não responder imediatamente às mensagens. Numa urgência, as pessoas (ainda) telefonam. O serviço de correio electrónico não tem (para já...) um dispositivo associado ao nosso cérebro que apita sempre que uma nova mensagem chega. Cabe-nos a nós gerir o tempo, mostrando aos outros que isso de respostas imediatas, raramente acontece. Não ficarmos dependentes das mensagens permite-nos reflectir sobre a resposta que queremos - e vamos dar.

Uma das coisas que me dão mais gozo hoje em dia é responder às mensagens que recebo a partir das 23h, hora a que me deito, logo às 6 da manhã quando acordo. Sabem o que acontece? Quem me manda mensagens a partir dessa hora, depois do meu sms madrugador, aprende rápido.
— Rui Calafate

Quando somos pequenos dizem-nos que "não, não é resposta" mas, na verdade, é a resposta mais adequada a muitas situações, mesmo quando nos sentimos culpados por não aceitar o que nos querem propor. E, em vez das desculpas esfarrapadas que todos damos, experimentem dizer a verdade ou propor uma alternativa... Ficarão surpreendidos com a reacção. Porque ao contrário do que também nos ensinaram, podemos dizer não ou escolher não agradar só porque é isso que esperam de nós. E não, não temos de fazer horas extra só porque nos pedem ou porque alguém se atrasou no seu trabalho, prejudicando a equipa. E, se tiver mesmo de ser, pois que o outro perceba o impacto que isso tem na vida dos que o rodeiam. Comer e calar? Não.

Não?... Não não é resposta.
— Mães, em geral

A palavra não tem um poder transformador. Transforma-nos porque nos permite perceber que, afinal, podemos usar essa palavra sem que o mundo acabe. Transforma os outros porque passam a respeitar-nos. Acontece invariavelmente dizermos não e esperarem que a frase continue. Não, porque... Na verdade, a frase não tem de continuar e não tem de haver uma justificação. 

As primeiras 375 vezes são as piores porque, a partir daí, o "não" passa a ser o novo normal, sem que as necessidades e interesses dos outros dominem ou alterem os nossos dias, sem auto-culpabilização que tantas vezes lhe está associada. Neste processo também aprendemos a reavaliar aa diferença entre ajudar e fazer pelos outros, da mesma forma que deixamos de aceitar a culpa por algo que não é da nossa responsabilidade. E, em vez de encararmos este processo como um valente "não", aquele que ainda vai tornar a nossa vida pior, experimentem olhar para ele como um dos maiores desafios da vossa vida.

There’s nothing wrong with being driven. And there’s nothing wrong with putting yourself first to reach your goals. The other stuff still happens.
— Shonda Rhimes

Em resumo?

Ensinar os outros a esperar pela nossa resposta.

A palavra não é uma resposta e uma frase completa.

A nossa agenda depende de nós independentemente do que os outros nos tentam impor.

Tudo isto sem usar a palavra não. Got it?

O NATAL não é só isto: 24 ideias para a consoada

Há muito que a materialização do espírito natalício transformou esta época numa espécie de Black Friday que começa aproximadamente 10 dias antes da noite de Natal. Da mesma forma, estamos cada vez mais modernos e não queremos o trabalho que a consoada pode significar, a par com os que aproveitam para viajar e os que ficam sozinhos. Sobre isto, pouco se fala.

O isolamento social é uma realidade que evitamos, da mesma forma que a desagregação dos laços também. São famílias que não se juntam porque os primos não se aturam, não querem ter de comprar presentes uns aos outros ou porque, simplesmente, não lhes apetece. E, depois, há aqueles que, por razões várias, não têm família e os amigos esquecem-se deles nesta altura. Mais os velhinhos deixados nos lares e hospitais ou os doentes que não melhoram, enquanto a maior parte de nós anda de cabeça no ar a entrar e a sair das lojas, com uma lista à qual vai riscando nomes, para procurar não o presente perfeito, mas o presente possível. Isto, não é o Natal.

O Natal é, para mim, partilha e renovação. Sejamos mais ou menos religiosos, é inegável a forma como a religião influencia as nossas tradições e como, simultaneamente, essa figura mítica que, dizem, foi inventada pela maior marca de refrigerantes do mundo, nos condiciona a comprar cada vez mais. As crianças deixam de acreditar no Pai Natal cada vez mais cedo, mesmo que esteja em todas as lojas naquela triste figura que parece um boomerang ao vivo com música ou, pior, aquela versão que baixa as calças e faz Oh Oh Oh... Nada disto é o Natal.

Começa cada vez mais cedo, com as decorações nas lojas e centros comerciais, depois a árvore de Natal em casa e as iluminações nas ruas. Este ano o #PinheiroBombeiro surge como uma forma sustentável e solidária de levar uma árvore de Natal para as nossas casas, símbolo que, por ser triangular, pode muito bem representar a Santíssima Trindade. Ou ser apenas uma representação do ritual de celebração do solstício do Inverno. Novamente a religião e a Estrela do Natal que guia os pastorinhos do presépio, colocados debaixo da árvore, ricamente enfeitada e iluminada. Por vezes até demais, num estilo psicadélico, pouco aconselhável aos mais sensíveis. Este exagero também não me parece que seja o Natal mas, antes, uma indústria de produção rápida, custos baixos e pouca durabilidade, que nos leva a renovar os enfeites ano após ano.

Parece-me que nesta lógica de partilha do Natal também estará associada uma certa contenção e se, por um lado, está é uma época do ano com maior folga financeira para compras extraordinárias, estamos a levar a ideia de extraordinário aos limites do suportável quando fazemos um crédito ao consumo para pagar o que, muito provavelmente, não precisamos. Mas queremos. E podemos. Ou parece que podemos. Em Janeiro logo se verá. Isto é o Natal para quem vende e empresta, não para quem consome...

No Natal misturam-se tradições cristãs e pagãs, numa confusão que torna difícil perceber onde começa e acaba o espírito do Natal. Ao que sei, a troca de presentes não tem uma origem consensual. Trata-se de uma tradição muitas vezes associada aos presentes que os Reis Magos levaram ao menino Jesus e a um bispo que dava presentes a crianças de famílias carentes. Curiosamente, era o bispo São Nicolau. Hoje, a tradição tem um misto de ostentação e obrigação, como se o espírito de Natal se resumisse ao ter e não ao ser: bondoso, compreensivo, respeitador. De que adianta andar a bater com a mão no peito todo o ano e chegar a esta época e não ajudar ou, simplesmente, respeitar o próximo? De que serve sermos umas bestas quadradas todos os dias do ano para comprar uma jóia valiosa a quem supostamente gostamos? Gostar é cuidar e respeitar, tudo o resto é teatro. Por isso, o Natal não pode ser só isto.

E, para os que se portaram bem, para aqueles cuja família ou círculo pessoal é pequeno, para quem não tem a casa cheia de risos e gargalhadas, de conversas que se estendem até à hora de trocar presentes, para os que não têm crianças ansiosas por rasgar os papeis e brincar com as caixas dos brinquedos, há opções fora de casa que tornam esta noite estranhamente acolhedora em hotéis e restaurantes.


Em Cascais

Fortaleza do Guincho

Estrada do Guincho, 2750-642 Cascais. 214 870 491. 

A partir de 95€, sem bebidas.

Riviera Hotel

Rua Bartolomeu Dias, Junqueiro 2775-551 Carcavelos. 214 586 600.

27,50€ por pessoa, sem bebidas. 

 

Em Lisboa

InterContinental Lisbon

R. Castilho, 149, Lisboa. 213 818 700. 

70€ por pessoa, com bebidas.

Lumni (The Lumiares Hotel)

The Lumiares Hotel, Rua do Diário de Notícias, 142, 5º Piso. 308 802 394. 

120€ por pessoa, com bebidas.

Bastardo

Internacional Design Hotel, Rua da Betesga, 3, Lisboa. 213 240 993. 

80€ por pessoa, com bebidas.

Restaurante Terraço (Tivoli)

Tivoli Avenida Liberdade Lisboa, Av. da Liberdade, 185, Lisboa. 213 198 640. 

Jantar: 90€ por pessoa, sem bebidas incluídas;

Almoço: 80€ por pessoa, sem bebidas incluídas.

Panorama (Sheraton)

Sheraton Lisboa Hotel & Spa, Rua Latino Coelho, 1, Lisboa. 213 120 000. 

98€ por pessoa, sem bebidas.

Bistro 100 Maneiras

Largo da Trindade, 9, Lisboa. 910 307 575. 

120€ por pessoa.

Sud Lisboa Terrazza

Av. Brasília, Pavilhão Poente, Lisboa. 21 159 2700.

Almoço: €100 por pessoa.

Café Príncipe Real

Memmo Príncipe Real - R. D. Pedro V, 56 J, Lisboa. 21 901 6800.

Jantar de consoada: €78 por pessoa.

Almoço de natal: €68 por pessoa.

Altis Grand Hotel

R. Castilho 11, 1269-072 Lisboa. 21 310 6000.

Jantar véspera de Natal: 75€ por pessoa com bebidas incluídas.

Dia de Natal jantar buffet: 45€ por pessoa com bebidas incluídas.

Dia de Natal almoço buffet: 55€ por pessoa com bebidas incluídas.

Altis Belém Hotel & Spa

Doca do Bom Sucesso, 1400-038 Lisboa. 21 040 0200.

Jantar véspera de Natal: 70€ por pessoa com bebidas incluídas.

Dia de Natal jantar: 155€ por pessoa com vinhos incluídos.

Dia de Natal brunch: 70€ por pessoa com bebidas incluídas.

Altis Avenida Hotel

R. 1º de Dezembro 120, 1200-360 Lisboa.  21 044 0000.

Jantar véspera de Natal: 51€ por pessoa com bebidas incluídas.

Dia de Natal jantar: 45€ por pessoa com bebidas incluídas.

Dia de Natal almoço: 51€ por pessoa com bebidas incluídas.

SANA Lisboa

Ofertas diferentes em cada hotel SANA (consultar aqui)

 

No Porto

Hotel Crowne Plaza

Avenida da Boavista, 1466. 22 607 2500. 

Preço por pessoa: 75€. Grátis para crianças até aos quatro anos e metade do preço para crianças dos cinco aos 10 anos.

Almoço buffet: €70 por pessoa.

Package Natal (com alojamento): €160.

Hotel da música

Mercado do Bom Sucesso, Largo Ferreira Lapa, Porto. 22 040 4410. 

Preço por pessoa: 60€.

Grátis para crianças até aos quatro anos e metade do preço para crianças dos cinco aos 10 anos.

NH Collection Porto Batalha

Praça da Batalha, 60, Porto. 22 766 0600. 

Preço por pessoa: 49,50€, sem bebidas.

Hotel Porto Palácio

Avenida da Boavista 1269, Porto. 22 608 6600. 

Preço por pessoa: 65€.

Grátis para crianças até aos quatro anos e metade do preço para crianças dos cinco aos 10 anos.

Restaurante Porto Novo (Sheraton)

Sheraton Porto Hotel & Spa, Rua Tenente Valadim, 146, Porto. 220 404 000. 

82,50€ por pessoa.

Grande Hotel do Porto

Rua de Santa Catarina, 197, Porto. 22 207 6690. 

50€ por pessoa.

 

Em Amarante

Largo do Paço

Hotel Casa da Calcada Relais & Chateâux, Largo do Paço, 6, Amarante. 25 541 0830.

Ceia e almoço buffet: 70€ por pessoa; Alojamento + duas refeições: 190€ por pessoa.

 

Em Coimbra

Hotel Dona Inês

Rua Abel Dias Urbano, 12, 3000-001 Coimbra. 239 855 800.

27,50€ por pessoa (inclui 3€ para bebidas).

 

No Algarve

 

Conrad Algarve

Estrada da Quinta do Lago, Almancil. 289 350 700. 

Ceia no restaurante Gusto: €145 por pessoa.

Ceia e almoço no restaurante Louro: €95 por pessoa.

Gecko Bistro

Espiche Golf, Lagos. 282 688 270.

Almoço buffet: €65 por pessoa.

O Terraço

Martinhal Beach Resort & Hotel , Quinta do Martinhal, Sagres. 21 850 7788.

Jantar e almoço (buffet): €65 por pessoa.

Piri Piri Steak House e Jardim Colonial

Pine Cliffs Resort - Pinhal do Concelho, Albufeira. 289 500 300.

Jantar de cinco pratos no Piri Piri Steak House: 68€ por pessoa.

Jantar buffet no Jardim Colonial: €59 por pessoa.

 Almoço buffet no Jardim Colonial: €49 por pessoa;.

Programa com alojamento de duas noites: €370.

 


Podem Os Maias e Retox fazer sentido na mesma frase? Podem!

Um dia gostava de passar um dia sem ter ideias. Parvas, loucas, boas ou más, a verdade é que todos os dias tenho ideias para fazer coisas novas e todos os dias me lembro de desafiar alguém para desenvolver alguma dessas ideias. É de fugir...

A Helena Magalhães não sabe isso (agora já sabe, shame on me) e respondeu que sim, que seria giro. E está a ser. É o segundo episódio de uma tentativa de juntar a maravilha dos livros à outra maravilha chamada podcast e à qual originalmente (ou não...) chamámos BOOKCAST... 

Sim, tão óbvio quando isso.  E, para nós, funciona porque somos mesmo só nós e os nossos livros preferidos, sem resumos à mistura...

Ironia das ironias, eu ia deitando tudo a perder quando satirizei aqueles que não leram Os Maias, optando pelos resumos Europa-América e a Helena achou que era verdade! Não! Eu li e amei de perdição (got it?!...) os autores portugueses durante o secundário! Tanto que, armada aos paparucos, fiz questão de ler uma passagem d’Os Maias neste episódio e ainda convenci outra pessoa a fazer o mesmo!

Ora escutem este novo episódio e percebam como duas mulheres tão diferentes até se conseguem entender no que toca a livros!

Obrigada Helena! 

Obrigada Gonçalo, pela leitura! 

Lívia: O fim dos dias MAUS

Há uma novidade no mercado que vos pode interessar: chama-se Lívia e promete acabar com as dores menstruais sem medicação. A mim parece-me genial, mesmo não sabendo o que são dores menstruais porque, felizmente, com uma ou duas excepções, não sei o que isso é. 

Mau estar e irritabilidade não contam, verdade?

A informação caiu-me ao colo e não tive como ignorar. É um tema que eu sei que dá cabo da vida de muitas mulheres...

Não. Não sei se resulta porque, lá está... não consegui experimentar, mas a promessa é de valor, para  acabar com as dores menstruais através de electroestimulação. Eu sei que a técnica resulta muito bem na fisioterapia e, por isso, tem tudo para resultar no abdominal inferior, junto aos ovários, na zona de maior tensão durante o período menstrual. A melhor parte, na minha opinião, é o facto de ser livre de químicos, contrariamente aos analgésicos. 

Portanto, ao contrário do que é habitual no urbanista - não divulgar o que não conheço ou experimentei - creio que esta inovação tecnológica pode ser muito útil a muitas das que por aqui passam, razão pela qual o Lívia mereceu a minha atenção.  

Vende-se online. 

Espumantaria: petiscos que borbulham!

A Espumantaria do Petisco não é nova mas tem uma nova carta de petiscos e espumantes. Fiz, por isso, um desvio às minhas opções mais #healthystyle para redescobrir parte das razões pelas quais os petiscos nacionais nunca desiludem.

Se à primeira vista petisco não rima com espumante, o chef Vitor Hugo, inspirado nas receitas mais tradicionais da cozinha portuguesa, consegue criar rimas inesperadas, com espumantes de origem nacional que nos fazem borbulhar.

A carta está cheia de pormenores e detalhes que fazem merecer a visita à ingreme Calçada do Marquês de Tancos, para petiscar, sonhar e partilhar...

#NãoPactuarComEstaM*rd*

Um dia, ao final da tarde, com alguns dos meus alunos, em ambiente de aula mas num contexto em que as aulas já tinham terminado, fiz uma afirmação que se transformou numa espécie de mantra para eles. Sei-o porque, também há pouco tempo, revelaram-me que transformaram essa frase numa hashtag que usam entre eles, com a qual fizeram uma imagem de capa para o seu grupo de trabalho no Facebook.

Afirmei-o e repito as vezes que forem necessárias porque há coisas com as quais não podemos continuar a pactuar. Na altura, a questão respeitava ao preço das tarifas dos transportes públicos, o mau serviço, e as greves constantes que prejudicam o normal funcionamento das organizações. As m*rd*as são também outras, como o marketing dos brindes e das amostras que rendem likes mas não pagam contas a ninguém, dos eventos para ver e ser visto, nos quais não vemos verdadeiramente ninguém, com marcas a acharem que estão a comunicar. Não estão. Estão a mostrar um certo glamour bacouco que as posiciona exactamente nesse contexto pouco relevante dos sites de redes sociais, que pode vender no imediato, esfumando-se rapidamente...

É o Big Brother dos tempos modernos em que estamos todos de olho no outro, medindo quem vê o quê, onde e quando, ao mesmo tempo que puxamos os cordelinhos das marionetas, manipulando as supostamente fiáveis métricas do digital.

Alinhar com a tendência, quando discordamos, equivale a aceitar mais um estágio não remunerado, porque atrás de nós estão outros 30 a pedir por favor para ficarem, ou a deixar as coisas tal como estão só porque dá trabalho mudar.

Tenho a terrível sensação de que se zangaram as comadres e se estão a descobrir as verdades, algumas tão raras que parecem mentira. São cantinas que dão comida que nem aos porcos deveria servir, um organismo público que repentinamente muda de morada ou cenas raríssimas que deveriam servir o bem comum. Ouvimos as notícias mas, muitas vezes, andamos por aí a fazer de conta que não sabemos, porque dá menos trabalho do que levantar a voz e apontar o dedo a quem está errado. E esses, vão continuando, na confortável segurança de uma certa impunidade que decorre da insegurança e preguiça dos outros. Se eu podia escrever um texto bonitinho ignorando estas m*rd*as todas? Podia. Mas pactuarmos com isso é perpetuar um estado de coisas que nos levará a uma sociedade cada vez mais podre e individualista.

Não quero - não queremos - isso.

Vivemos numa democracia que facilmente se corrompe por vestidos e camarão. Ser corrupto é mau mas, pior, é a corrupçãozinha de vão de escada (ou de quiosque), de quem leva para casa os clipes ou os rolos de papel higiénico. Não terá sido isso mas creio que ninguém irá esquecer as pérolas deste caso que envolve vestidos, spa’s, gambas e outros pequenos luxos. A Raríssimas, criada com essa nobre missão de partilhar experiências, promover, divulgar e informar sobre pessoas raras, com doenças raras, é uma IPSS que recebe milhões de entidades públicas e outro tanto de associados e mecenas, pelo que não se percebe como chega a esta mediocridade que acrescenta letras ao nome de família ou um título académico ao nome próprio.

Sou contra julgamentos prévios, especialmente em praça pública, naquela lógica do dia-a-dia da polémica irracional, dos ódios de estimação que demonstram mais imbelicidade do que conhecimento na matéria. Mesmo perante a velha máxima de que onde há fumo, há fogo, tento sempre dar o benefício da dúvida mas, neste caso, parece-me particularmente difícil. Se o caso das Raríssimas me incomodou? Tanto quanto a vocês. Mas, antes falar sobre ele, importa perceber que isto - tudo isto - é apenas a ponta de um iceberg maior do que podemos imaginar e que estamos todo a bordo do Titanic.

Salve-se quem puder?... O melhor é #NãoPactuarComEstaM*rd*

Foto: Annie Spratt

O António é uma fraude

Para os que decidiram ler, imaginando que iria falar sobre o nosso Primeiro-Ministro, não desistam. Não é sobre nenhum político em particular é, antes, sobre um ilustre desconhecido que, como tantos de nós, procura a felicidade. E uma conta bancária recheada.

 

Para reconhecer a felicidade é preciso conhecer o seu contrário, para darmos valor ao melhor que a (nossa) vida tem. Num país com os problemas estruturais que Portugal tem, ficamos muitas vezes limitados ao que conseguimos ver à nossa volta e que é tudo menos a ideia de felicidade.

 

 

Portugal é um país remediado que se dá ares de rico. E, como ele, também o António faz por isso, com a casa vistosa que é do banco, o carro espampanante que também é do banco, as roupas de marca que são da empresa de cartão de crédito, a escola privada, caríssima, paga sabe-se lá como, o ginásio da moda com a mensalidade (quase) sempre atrasada e a lista de supermercado que inclui muitos produtos de marca branca (não pela sua qualidade mas pelo seu baixo preço) e salsichas (porque os miúdos adoram!…). As origens do António são humildes e sempre preferiu ser conhecido pelo filho do senhor doutor do que pela empregada do médico cardiologista das Avenidas Novas. Criado entre meninos ricos, cedo aprendeu os seus jeitos e trejeitos, recusando adoptar a postura dos que lhe deram origem. Por ele, a mãe trabalhou horas a mais para pagar a Universidade privada e, por ele, sempre se escondeu entre a multidão. O António empregou-se numa multinacional, casou com uma menina de bem, também filha de um senhor doutor bem posto na vida. Decidiu viver uma vida de aparências que começa logo de manhã, quando desfaz a barba, veste a roupa cuja etiqueta esconde - nunca é da mesma marca da dos seus colegas endinheirados - e leva os seus filhos ao colégio. Tão preocupado com aquilo que deveria ser, esqueceu-se de ser e, por isso, não sabe quem é. Não pensa muito nisso, confundido uma certa apatia com cansaço, um apontamento de frustração com ansiedade ou a insegurança com a necessidade de ajudar o próximo. No supermercado, aceita encher um saco de papel do Banco Alimentar contra a Fome.

 

 

Todos conhecemos um António, que vive de aparências, mas também conhecemos uma Maria e a sua pobreza envergonhada. Ou uma Joana que é realmente pobre, fazendo parte das estatísticas daqueles 23% que vivem em situação de pobreza e exclusão.  

 

 

Portugal não tem muitas riquezas naturais e não explora devidamente as que tem. Faz um investimento esquizofrénico na formação e educação e, por isso, tem muita mão de obra barata e, outra, extremamente qualificada, para a qual não tem empregabilidade, entregando-a a outros países, que a valorizam. Somos pela igualdade desigual, com uma taxa de ascensão social muito baixa e lideranças no mínimo, duvidosas. Os favores, cunhas e compadrios são culturais e pouco contribuem para o desenvolvimento do país. A meritocracia existe, mas pouco, a favor de hierarquias imutáveis e pouco credíveis. Temos tanto um primeiro sector moribundo, com milhares de pessoas sem colocação, como uma websummit que deslumbra, ao mesmo tempo que deixa um rasto de inspiração e motivação para fazer o mercado mexer. Não nos falta capacidade para empreender - temos, aliás, inúmeros exemplos recentes e ao longo de toda a história - mas falta-nos aquilo que tenho feito um esforço enorme para aprender: a cultura do pitch sem vergonha, porque não é vergonha nenhuma valorizarmos as nossas capacidades e competências, cobrando pelo trabalho realizado. Sim, o trabalho intelectual, tal como todos os outros, também se paga, para que não cheguemos à terceira idade como ⅕ dos Portugueses, com reformas miseráveis, mesmo que tenhamos, como os jovens que entraram em 2016 no mercado de trabalho, de trabalhar até aos 68 anos. E, a ser, que seja a fazer aquilo que gostamos, independentemente das aparências e do que estas possam representar.

Sustentável está na moda. Ainda bem. 5 marcas a não perder!

Para mim, a moda e a roupa que vestimos deve ser algo que nos faz sentir bem, que é sofisticada e arrojada, que nos faz sonhar e transpor essa idealização para o mundo real, mesmo quando estamos com um estilo muito normal. Mas podemos fazer isto tudo de forma mais cuidadosa, minimalista e consciente. Falar é importante, mas fazer algo para contrariar a tendência também.

Dizemos muitas vezes que o mundo está a mudar mas, na verdade, são várias velocidades em simultâneo. Na moda também, especialmente porque vamos ganhando consciência de que não podemos continuar a comprar 5 tshirts a 1 euro cada uma. 

Tenho perdido algum tempo a informar-me sobre o tema e, mesmo que continue a vestir peças que, sei agora, não são sustentáveis ou éticas, o meu plano é alterar isso. Para começar, compro menos e escolho melhor.

Esta é a segunda indústria mais poluente. E para quê?... Durante muito tempo as marcas mais sustentáveis tinham um design duvidoso, normalmente tão óbvio que se tornou num estilo em si mesmo. Há, contudo, designers empenhados em mudar a nossa concepção de moda sustentável, a.k.a. feia, produzindo de forma amiga do ambiente, respeitando os direitos dos trabalhadores e criando peças muito atraentes.

Tudo começou quando a Casa Pau Brasil decidiu apresentar em Lisboa vários designers e criadores brasileiros. Para quem não conhece, a Casa Pau Brasil, na rua da Escola Politécnica, em Lisboa, é uma concept store com o melhor do Brasil contemporâneo.

Nesta visita os meus olhos fixaram-se de imediato numa mesa de madeira, meio rústica e artesanal que nos lembra de imediato a infância e a natureza que vibrava, simultaneamente de cor e alegria, com umas bolsas, pequeninas, lindas de morrer... Tive de tocar, sentir a textura (acetinada e, pensei, maravilhosa!) para perceber de que se tratava. Não fiquei indiferente ao crochet e achei a ideia do acabamento em metal uma inspiração urbana que faz destas, mais do que simples malinhas em crochet. São peças intemporais, de design puro e com um fecho de metal que realmente fecha, não como muitas vezes acontece, com imã que não agarra...

Em entrevista ao urbanista a marca levantou o véu sobre alguns pormenores que fazem a diferença, como o facto de serem totalmente transparentes no que respeita ao modo de funcionamento da cadeia de produção da moda de uma forma geral. A marca Catarina Mina desenvolve peças em croché com base no trabalho de crocheteiras residentes no Ceará. Nunca antes tinha ouvido a palavra e, confesso, não sabia que crocheteira poderia ser uma profissão. Pode. A Catarina Mina permite reinventar o artesanato, transformar horas de trabalho em produtos de design, bonitos e bem acabados. O nome da marca - desenganem-se se pensam que é o nome da sua criadora - é inspirado numa personagem histórica da nossa região nordeste. Catarina Mina foi uma bela e inteligente escrava do séc. XVIII, que se transformou em uma mulher muito influente e uma latifundiária muito rica.

Enquanto percorria as imagens da marca no instagram percebi que usavam uma hashtag muito específica, #umaconversasincera, sobre os processos e custos de produção. Esse aspecto fez-me apaixonar pela marca porque é algo único. Quis, por isso, perceber se os clientes reconhecem essa transparência ou se compram "porque é bonito". Na verdade, a Catarina Mina acredita que cada vez mais atitudes como esta estão a ser bem recebidas pelos consumidores, que entendem a necessidade da construção de uma sociedade com mais transparência e conversa sincera. A conversa prova que ainda temos muito o que aprender para construir um mundo mais sustentável.  

Depois da Catarina Mina, cruzei-me com uma marca que expõem, em cartazes, os custos de produção, embalagem e distribuição, apresentando, consequentemente, o preço e o lucro em cada peça.  Isto é que é, pensei. Estavam no Organii Eco Market e cativaram-me com a simplicidade da comunicação e das suas camisas e tshirts. Brancas e azuis. Brancas e verdes. Apenas isto.

E ISTO, quer tanto fazer referência à expressão que quer dizer que assim é que se faz como ao nome da marca que produz tshirts e camisas para homem. Querem ser independentes da cadeia da indústria e da pressão da moda criando, por isso, peças simples e intemporais, sem se vergarem às tendências do momento. São uma marca cheia de estilo, portanto. Para além da transparência, usam algodão orgânico (certificado GOTS), produzido na Turquia. Tudo o resto fazem aqui, em Portugal. Vendem directamente ao cliente para o preço ser bastante mais acessível. E não é que estes três gajos de Lisboa conseguiram? Isto é muito bullshit free e contra a ditadura da moda que cria colecções dentro da colecção e cápsulas e… bullshit, na verdade. Para ser perfeita, a ISTO deveria fazer peças femininas porque o conceito da marca tem de passar a servir também, às mulheres...

Rapidamente conclui que Portugal há já bons exemplos de inovação, produção sustentável e muito estilo. Será o caso do atelier de tecelagem manual Maria Descalça que produz sacos, bolsas, malas e carteiras a partir de sacos de plástico. Trata-se de um projecto que recupera a antiga técnica da tecelagem para reutilizar o plástico, dando-lhe uma nova utilização. Numa altura em que, literalmente, nadamos em plástico, a Maria Descalça sozinha, não irá mudar o mundo e recolher todo o plástico, mas nós podemos dar o nosso contributo escolhendo usar as suas criações.

O processo é lento e manual, transformando os sacos de plástico em tiras muito finas, todas do mesmo tamanho, que servem de fio para a tecelagem. A versão final assume formas diferentes, o forro é feito com capulanas, o que lhe dá um toque verdadeiramente diferente e especial. A marca está disponível no próximo fim de semana no Winter Market Stylista.

Quando há, mais ou menos um ano, tornei pública a minha decisão de não voltar a usar sapatos, passei a estar mais atenta a coisas novas para usar nos pés. Percebi que me tornei refém de marcas muito confortáveis mas, também, pouco éticas. Não me sinto satisfeita com isso mas não tinha, ainda, encontrado uma marca de ténis que me satisfizesse completamente. Gosto do nome, do modelo e das cores. Gosto principalmente do princípio: produção nacional e artesanal. Feitos cá no burgo, com reconhecimento internacional e venda em diversos países, a Freakloset reinventa os clássicos e permite a personalização total de cada par, adaptando-se ao estilo de cada um. Os sapatos personalizam-se e vendem-se online ou no showroom da marca, em Lisboa.

Também para os pés e num estilo completamente diferente, bastante mais arrojado, descobri a MDMA shoes que reinventa os clássicos sapatos de vela. Porquê?

São um clássico intemporal que todos reconhecemos e que, por isso mesmo, merecem ganhar uma nova vida, mais irreverente. O objectivo da marca é ter um impacto mínimo no meio ambiente e, por isso, a MDMA reutiliza e recicla materiais para produzir os sapatos. Depois de vários anos a trabalhar na indústria do calçado, Sara Pignatelli percebeu que era tempo de mudar e de produzir sapatos de melhor qualidade, com menor impacto ambiental. A chegada aos trinta anos fez a ficha cair a Sara, que percebeu que tinha de mudar. Comprometeu-se a nunca mais criar moda que não fosse sustentável. Tatuou a ideia no braço e decidiu colocar a palavra sustentabilidade na moda. Nasceu a assim a MDMA, sapatos que maximizam a ideia de arte e minimizam o desperdício. Soa melhor em inglês (minimize damage, maximize art) e foi em Londres que tudo começou, com coleções limitadas: um mínimo de 3 e nunca mais de 100 sapatos do mesmo modelo, que vende online para todo o mundo com uma estratégia única, porque os materiais impedem que cada sapato seja exactamente igual. A produção é nacional e, embora nos tenha explicado que há sempre o apoio de maquinaria na produção de calçado, sim, podemos afirmar que a marca tem uma produção de carácter artesanal.

Descubram-na aqui.

 

 

 

 

 




 

 

 

 

 

Adoramos fait divers

Dizer que há uma semana que não há uma notícia que se aproveite na comunicação social é demasiado mas, na verdade, têm sido tantos os fait divers que, se queremos estar informados temos de ser nós a procurar, escapando às não-notícias, evitando as alcoviteiras dos sites de redes sociais ou ignorando as parangonas que são apenas isso, grandes títulos sem qualquer conteúdo.

Colaborar com órgãos de comunicação social e, simultaneamente, criticar a sua actuação pode ser entendido como o contrário do que é suposto, uma vez que, já dizia Pinto Balsemão, numa revista que pertence a um grupo açucareiro não se escreve que o açúcar engorda...

Esse é o mal deste e de outros países, com estruturas corrompidas e subservientes que atiram areia para os olhos de quem quer saber mais. O fenómeno não é novo, agudizando-se na era da comunicação digital, com a multiplicação das fontes, a degradação da certeza e a fragmentação das audiências.

Lembro-me de uma professora me explicar que o fait divers seria um facto ou assunto pouco importante e de, na mesma altura, me questionar sobre a razão pela qual seria alvo de notícia. A inquietação persiste, especialmente agora que os maiores repositórios de fait divers - Facebook e afins - se transformam numa espécie de fonte para a produção de notícias. Fica a nota: o que acontece no Facebook não fica no Facebook mas devia. Este espaço, algures entre o público e o privado, é o novo ponto de encontro para as conversas de café e, ainda que uma conversa de café possa vir a transformar-se numa relevante notícia, essa é a excepção e não a regra. Entre o filho do Ronaldo ou a crispação em torno do Panteão, morreram mais pessoas por causa da legionella e ainda mais no terramoto no Irão. No centro do país a rádio faz directos para que a miséria de Pedrogão e a desgraça que assolou o centro do país não sejam esquecidas; jornais anunciam - discretamente - a subida do preço das portagens e ainda não percebi, exactamente, o que faz o Presidente da Colômbia em Portugal. Não esqueçamos a greve dos professores, o caso Tecnoforma, a seca e o aumento das temperaturas… Isto para dizer que, ao contrário do que agora se diz, se queremos estar informados, temos de procurar as notícias. Aquilo que vem ao nosso encontro são clickbaites, links atractivos para gerar tráfego, baseados nessa infinita curiosidade humana em espreitar a vida dos outros, ou incendiar discussões. Estéreis.

Num esforço para descomplicar a realidade cria-se um certo vazio de conteúdo; a guerra das audiências produz conteúdos iguais, editam-se os noticiários em tempo real, considerando o que faz o canal do lado ou interrompendo as notícias quando começa o bloco de publicidade; a necessidade de cliques faz do nada algo viral e deixa bloggers, vloggers e podcasters no centro da discussão, como alternativas mais ricas ainda que, tantas vezes, recheadas de outros fait divers, esses pseudo-calmantes naturais, num país que toma demasiados comprimidos: para dormir e para se manter acordado. Anda, por isso, um bocado atordoado.

 

Fotografia: @benwhitephotography

3 motivos para me apaixonar pelo novo i3

Quem me conhece sabe que gosto de conduzir e quem me conhece bem sabe que sempre tive uma condução destemida, masculina, quase agressiva sem, contudo, nunca colocar em causa a minha segurança e a dos outros. Com o tempo fui-me controlando, pensarão... Na verdade foi o medo que me controlou porque as multas acumularam-se até aprender. Até perceber que sem carta de condução é pior do que com carta e devagar. Sempre tive o pé pesado e nunca me identifiquei com carros automáticos ou eléctricos porque sempre os considerei fáceis demais ou pouco estimulantes. E sim, conduzir pode ser um prazer e um desafio, quando engatamos uma segunda e fazemos o motor roncar, quando curvamos passando de uma quarta para terceira e daí rapidamente para uma segunda, segurando o carro naquele equilíbrio entre o poder da aceleração e da contracção do motor. Faz suspirar...

Hoje conduzo de forma diferente não sem, de quando em vez, puxar pelo motor. Contudo, habituei-me a manter as rotações no limite das 2 mil e quinhentas em velocidade cruzeiro, a controlar o consumo através do computador de bordo e, principalmente, a estar atenta aos limites de velocidade, radares escondidos e viaturas descaracterizadas. Já não é tudo à grande para garantir a carta no bolso e consumir o mínimo combustível possível, porque continuo a conduzir um veículo a gasóleo e sei que estes são os que mais contribuem para a poluição atmosférica. Por isto, quando a BMW apresentou o i3 fiquei curiosa e, quando me disseram que o arranque era semelhante ao das scooters, quis muito experimentar. 

Desta experiência com o #bmwi3, o bólide eléctrico da BMW, destaco3 aspectos principais:

O arranque. O arranque. O arranque.

Na verdade, há muito mais do que isso. O arranque surpreende e a velocidade dos 0 aos 100 deixou-me, de imediato, a pensar... temos carro. O facto de não ter mudanças garante atenção total na aceleração e controlo do veículo, parecendo que estamos a conduzir um carro de corridas. Curva nas horas, que é como quem diz, as rotundas não têm segredos para o i3. Quem conhece a marca sabe que facilmente um BMW dá de traseira, ou seja, a tracção atrás não facilita quem não conhece a condução destes carros, especialmente em dias de piso escorregadio. No caso do i3, ainda que a estrada estivesse seca, parece-me que se aguenta melhor do que os seus comparsas menos sustentáveis. E este é o segundo aspecto que mereceu 5 estrelas: este carro eléctrico é totalmente sustentável (produção/utilização), não emite ruído e dá para umas quantas voltas na cidade (200km). A condução é extremamente prática, com uma posição de condução muito confortável e excelente visibilidade. A mim deu-me a sensação de que conhecia o carro desde sempre, quer ao nível das dimensões, brecagem e visibilidade para estacionar. 

O sistema desenvolvido pela marca, chamado one pedal feeling, foi o único aspecto que obrigou a alguma adaptação (nada que ao fim de meia dúzia de quilómetros não estivesse controlado) porque, no momento em que levantamos o pé do acelerador, o motor trava suavemente, diminuindo de imediato a velocidade e carregando a bateria.

O habitáculo tem espaço, o tablier é vasto, dando aquela velha sensação de estarmos protegidos pelo motor, como nos carros mais antigos. A bagageira é uma surpresa e está ao nível de veículos maiores, num formato amplo e rectangular que garante espaço de arrumação o que, para um citadino, é uma grande vantagem.

Em conclusão? Tenho pena de não o ter trazido comigo para casa porque o disparo na aceleração, a condução ao estilo dos filmes de ficção científica, o espaço e o conforto, bem como o facto de ser totalmente verde são mais do que 3 razões que me deixaram apaixonada.

Paradise Lost

A manhã começou como começam as segundas-feiras desde que o yoga passou a fazer parte da minha vida: com um conjunto de inspirações e expirações, posições assim-assim acrobáticas e asanas que servem para muito mais do que fotografias bonitas no instagram, ainda o sol estava a nascer. Depois, já com a casa só para mim, sento-me na mesa de madeira da cozinha, a rádio a tocar em fundo, nova inspiração para abraçar o modo web summit em que me encontro esta semana não sem, contudo, sentir vergonha do mundo em que vivemos. Os Panama Papers abriram uma caixa de Pandora que nos deixava adivinhar que o pior estaria para vir. Uma parte chegou, entretanto, ao estilo paradise, mostrando que o paraíso é mesmo só para alguns...

Culpo a tecnologia por tudo isto. Não me refiro aos computadores, telefones ou aos sites de redes sociais, as primeiras opções que nos invadem quando a palavra tecnologia entra na discussão mas, antes, à tecnologia enquanto dispositivo que media a experiência humana, o artefacto cultural que nos define enquanto sociedade. A história da vida humana é também a história da nossa relação com a tecnologia e a forma como esta se foi tornando ubíqua, criando uma rede aberta que organiza a economia mundial em torno de redes globais de capital, gestão e informação. É a globalização no seu melhor, com a universalização das suas consequências políticas e económicas, às quais ninguém escapa.

O paradoxo está instalado com o melhor e o pior da tecnologia a assolarem-nos simultaneamente. Os papers do paraíso e o evento que estimula o desenvolvimento tecnológico acontecem em simultâneo. Coincidência?

Um evento como o Web Summit garante conteúdo que preenche páginas e páginas de jornais e poderia ocupar os noticiários do início ao fim. Estou a tentar perceber o que fazer e como me organizar para encontrar as pessoas certas e ouvir o que é  mais relevante. Trata-se de um programa complexo, repleto de boas escolhas, com um conjunto de pequenos eventos associados que farão qualquer um ficar cansado só de olhar para a agenda desta semana. Sinto-me como um miúdo numa loja de brinquedos em dia de aniversário, sem saber o que escolher ou a quem dar atenção. Tudo começou com um grupo no Facebook que se estendeu para o WhatsApp e que já me levou a silenciar as notificações desta aplicação. São 200 women in tech que se apresentam, fazem perguntas e combinam coisas num sistema caótico de mensagens que, creio, apenas as mulheres conseguem entender. Na caixa de correio entram constantemente novas mensagens, a maior parte delas confirmando eventos que subscrevi e nos quais planeio participar. A agenda está oficialmente cheia e ainda tive a brilhante ideia de lançar o repto para descobrir histórias pessoais da relação destas mulheres com a tecnologia. Já fui a muitas conferências, mas nunca a nenhuma assim, que se estende oficialmente pela cidade e noite fora, com 120 bares a juntarem-se à festa. Segundo consta, é no night summitque tudo acontece, porque se estabelecem relações num ambiente mais descontraído. Pago para ver milhares de pessoas todas juntas, interagindo no Bairro Alto ou na rua Cor-de-Rosa... Vou concentrar-me nos eventos que acontecem durante o dia. Diz-me a experiência que, depois de um dia inteiro a entrevistar, ouvir conferências, interagir no Twitter sobre as mesmas, espreitar as notificações no WhatsApp, sobreviver ao caos do metro ou do trânsito, nada melhor do que terminar o dia com uma sessão de yoga que também faz parte do calendário. Para Quarta-feira o problema repete-se, com um final de tarde repleto de eventos associados ao Web Summit que é, afinal, muito mais do que uma conferência, assumindo-se como um catalizador de encontros e negócios. 

Lisboa recebe, novamente, o maior encontro mundial de tecnologia e, entre talks, grupos e eventos dentro do evento, não somos capazes de ver a árvore na floresta. Estamos dominados por um panóptico que nos dá a ideia de uma dimensão maior do que a que temos e que, por isso mesmo, nos impede de ver o mundo - a realidade - tal como ela é. Efectivamente, achamos que pela tecnologia o mundo se amplia à medida que se torna mais pequeno quando, na verdade, estamos cada vez mais limitados. Mesmo que pareça que, por via das ferramentas tecnológicas, ninguém escapa ao escrutínio, tudo seja possível de descobrir e divulgar, só sabemos que se quer que seja descoberto, de acordo com os interesses do momento. Já o deveríamos saber. Como também deveríamos saber que dinheiro chama dinheiro e que os gestores de fortunas tudo fazem para as aumentar, mesmo que fugindo aos impostos. Os paraísos fiscais são o lugar perfeito para esconder grandes fortunas, e servem tanto para guardar dinheiro, como para o lavar ou esconder, evitando impostos ou perguntas inconvenientes. A mim dá-me uma enorme vontade de os mandar a todos para um certo paradise lost e não pagar nem mais um cêntimo ao Estado. Seja ele qual for. Mas, se sair daqui para qualquer outro lugar, mudam os papers e o paradise é o mesmo, verdade?

FOTOGRAFIA: Étienne Beauregard-Riverin

Livros e mais livros. Para ler e para ouvir...

Conhecem a Lei do Eterno Retorno?

Acredito que tendemos a repetir as nossas vivências, como Nietzsche descreveu, num jogo de sentidos em que as diferentes faces da mesma realidade se alternam. A filosofia de Nietzsche é complexa. A minha ideia é bastante mais simples, porque acredito que repetimos, quase à exaustão, o que já conhecemos, fugindo deliberadamente da mudança, para nos queixarmos permanentemente, reclamando que nada muda. Mesmo quando muda. Sim, é confuso e esquisito mas, na verdade, o eterno retorno é apenas uma metáfora para outro comportamento muito mais simples, porque regressamos sempre onde fomos felizes.

Aprender a dizer “não” é uma arma potente que devemos usar para nos guiarmos em função do que é melhor para nós, o que nem sempre corresponde ao que os outros pensam. Quando conseguimos compreender isso, tudo se torna mais claro e, simultaneamente, a vida (o destino, as coincidências ou o universo a trabalhar a nosso favor… como preferirem...) encarrega-se de nos mostrar o caminho, oferecendo-nos mais do que nos interessa e menos do tal “supostamente ideal para nós”...

Tudo isto para dizer que no último ano e, especialmente nos últimos meses, coisas maravilhosas têm acontecido, têm entrado pessoas fantásticas na minha vida e regressado tantas outras que “a vida”, ou seja, trabalho e manias de incompatibilidades, foram afastando. Tanta conversa  para vos contar que estou muito feliz por ter voltado à rádio, para fazer companhia à Carla Rocha todas as Sextas-feiras, nas manhãs da Renascença, por estrear um novo podcast com a Helena Magalhães, ávida leitora e mulher de opinião, para falarmos exactamente sobre os livros que andamos a ler e, last but not least, por regressar à a uma equipa que sempre me fez feliz e junta a palavra rádio com a palavra rock. Se isto não é uma espécie de eterno retorno, não sei o que será!...

Como explicar o podcast que hoje estreamos as duas? Não se explica. Foi uma daquelas ideias à qual nem dei hipótese de amadurecer. Enviei-lhe uma mensagem. Ela aceitou. E gravámos. Na verdade não foi bem assim porque fiz uma piada parva com os resumos das Publicações Europa-América e ela pensou que eu estava a falar a sério... como assim eu não li Os Maias, Helena?... E poderia ter sido o fim de uma belíssima amizade. Mas não foi e já temos dois episódios de uma coisa nova à qual chamei bookcast, porque não me ocorreu um nome melhor para juntar livros e podcast e, nisto, a língua inglesa bate-nos aos pontos. Preparem-se, portanto, para coisas sobre as quais nunca tinha ouvido falar, como um lobisomem que afinal é bonito, não sem antes dar baile à Helena sobre a mãe do Harry Potter que agora assina Robert Galbraith. E não, não foi sobre a história do Cuco ou a fantasia de Hogwarts. Foi, obviamente, sobre coisas tão simples como a escolha deste pseudónimo, porque é essa a minha missão: o lado pragmático da vida. Enquanto a Helena vos enche de sonhos e histórias de amor, eu vou fazer-vos apaixonar por tudo aquilo que a vida tem para nos dar...

Fiquem por aí que o melhor ainda está para vir...

Adultério à parte, somos todos #metoo

Passou-nos ao lado o Information Overload Day, o dia do excesso de informação. O que tem este dia a ver com um acordão ou uma hashtag? Aparentemente, nada. Na verdade, tudo. Neste excesso de comunicação, falamos cada vez mais e comunicamos cada vez menos. O acordão está no topo da actualidade no Facebook, esse reduto último da realidade ficcionada e da verdade aparente.

Este não é mais um artigo de opinião sobre o acordão do Tribunal da Relação do Porto. O que está escrito na página deste acordão em circulação nas redes faz sentido? Não faz. Se pode representar um retrocesso à Idade Média? Pode. Até os Bispos portugueses já lamentaram publicamente as referências incorretas ou incompletas à Bíblia.

A Internet é uma ferramenta que precisamos aprender a usar para comunicar. Caso contrário, é apenas uma torre de Babel, um imenso palco para julgamentos sumários e linchamentos colectivos. O mundo está cheio de ruído e, no contexto online, o ruído é ensurdecedor.  O Information Overload Day serve para nos recordar que, demasiada informação não informa, e que o acesso não produz, necessariamente, conhecimento. Se pensarmos na forma como os sites de redes sociais, as notificações, o correio electrónico, telefonemas  e mensagens tomaram conta do nosso dia-a-dia, numa presença ubíqua, facilmente concluímos que precisamos reconsiderar a importância destas pseudo-conversações no Facebook.

O assédio e a violência estão envoltos numa grande vergonha, auto-comiseração, culpabilização e depreciação. Alyssa Milano pediu às mulheres para partilharem a hashtag #metoo se tivessem sentido na pele algum tipo de assédio sexual para que, desta forma, existisse alguma noção da magnitude do problema. A hashtag foi partilhada mais de 17 mil vezes no Twitter nas 24 horas que se seguiram à publicação da mensagem, mais rapidamente do que alguma vez aconteceu. O caso Weinstein e o acórdão do Tribunal da Relação do Porto são temas mais complexos do que a mera luta dos sexos quer fazer parecer, representando um contexto de juízos de valor inconsequentes, enormes desigualdades ilegais suportadas por uma conivência com um machismo latente. Weinstein usou e abusou do poder que tinha. Por cá, um triângulo amoroso acabou muito mal, com o corno e o outro a darem cabo dela. Parece uma cena de Hollywood. O verdadeiro filme é, no entanto, o filme noir da violência em Portugal, deixando agressores em pena suspensa, com reincidências de final infeliz. Importa, portanto, questionar tudo o que falha na sociedade para que isto aconteça.

São as mulheres mais instruídas as que menos sofrem actos de violência porque são também estas, as que têm maior independência financeira. Voltamos à informação e ao conhecimento, bem como  à forma como podem ser factores diferenciadores na nossa vida, quer para interpretar e pensar criticamente as mensagens em circulação, mas, sobretudo, para nos colocar num patamar de independência que nos protege de potenciais assédios e agressões. O nível educacional também está relacionado com a violência porque a força é um argumento, na ausência de outros argumentos. Dentro de dias Portugal recebe um mega evento de tecnologia, no qual as mulheres não estão sub-representadas, e que tem uma política concreta anti-assédio, definindo-o de acordo com princípios simples: comentários que reforcem as estruturas dominantes relativas à identidade de género, orientação sexual, deficiência, aparência física, raça, idade, religião, intimidação, stalking, registo de imagem ou som não consentido, contacto físico desapropriado ou contacto de cariz sexual indesejado, não são toleráveis no Web Summit.

Do ponto de vista do equilíbrio do programa, se olharmos para os oradores principais do Web Summit, verificamos que há poucas mulheres mas, se observarmos o programa no seu todo, as mulheres estão presentes em inúmeras sessões e domínios. No que respeita a participantes verifica-se uma diferença de 10% a mais para os homens. A este nível, a organização desenvolve, há dois anos, uma iniciativa para a promoção da igualdade de género, com a oferta de 14 mil bilhetes para mulheres, com o apoio da booking.com. A iniciativa já deu resultados e a percentagem de mulheres a participar no evento cresceu 42% nestes dois anos, transformando-o no evento global de tecnologia mais equilibrado em termos da relação entre homens e mulheres.

A área da tecnologia tem sido dominada por homens ao longo dos tempos e há uma tentativa genuína da maior parte das grandes empresas para atrair profissionais do sexo feminino. Este processo  resulta, também, de uma maior literacia tecnológica por parte das mulheres, do seu investimento na educação e desenvolvimento de conhecimentos de carácter tecnológico que, seguramente, contribuem para evitar que, acordãos como aquele de que tanto se fala, sejam escritos. A adjectivação da sentença, em torno das acções dela, sem adjectivar as deles, explica muita coisa. De acordo com a Lei, nada deveria ser justificação para morrer à paulada. Ou será? Talvez acharmos que sim (ainda) explique os números da violência contra as mulheres em Portugal, independentemente do que a tecnologia possa fazer por nós.

FotografiaMatheus Ferrero

A key que faltava: fogos.pt

Lá atrás no tempo, bem atrás no tempo, cabeças rolaram para que o indivíduo pudesse ser mais do que isso, assumindo-se como figura central numa sociedade cujas hierarquias se transformaram. Hoje, raramente pensamos no significado que tem esta possibilidade de escolhermos quem nos representa na tomada de decisões e que, consequentemente, conduz, à distância, parte do nosso destino. 

A cidadania ativa é um conceito que está presente, ainda que pouco ativo, perante o paradoxo que a própria democracia em si representa: podemos escolher mas não sabemos o quê, ou como escolher, e há muito que deixámos de compreender o verdadeiro sentido da soberania popular porque, afinal, eles fazem o que querem.

Nem sempre são necessárias crises ou cataclismos, mas momentos como o que vivemos atualmente em Portugal fomentam a ação, mesmo dos que se deixaram encantar pelo laisser faire, laisser passer que também a revolução francesa implementou. O João Pina — ou @tomahock no Twitter — não deixa andar e faz. Criou um site que "dá baile" às autoridades competentes na matéria e que, na noite de Domingo, esteve perto de crashar por força do número de acessos para acompanhar os incêndios em Portugal.

Programador de profissão, criou o fogos.pt em 2015, numa altura em que a informação sobre os incêndios era disponibilizada em PDF. Arcaico, mesmo para aquela altura. Bem sei que compilar e apresentar informação complexa, de uma forma simples para o utilizador, é uma das tarefas mais difíceis na estrutura de uma página web mas, se um programador, sozinho, faz um fogos.pt, o que andam as organizações do setor a fazer?

Estrategicamente, pouco, e no momento que importa, ainda menos. Também sei que a webtem sido a última das preocupações de organizações desta natureza, mas é urgente absorver o choque tecnológico e adaptarmo-nos às características da sociedade em que vivemos. A génese do site resulta de uma conversa entre amigos, que desabafavam sobre a necessidade de acederem à informação de forma simples e rápida.

Com umas linhas de código, @tomahock começou a resolver o problema, apresentando a informação de forma direta, facilitando os processos. Poucos cliques. Como deve ser a comunicação em contexto digital. O site fogos.pt usa a informação disponibilizada pela ANPC, disponibilizando-a online, na aplicação iOS e Android, com sistema de notificações e alertas, ao mesmo tempo que comunica através do site, das redes sociais e do correio electrónico.

Para quem acha que tudo isto é simples, não é. Programar um site ou uma aplicação móvel não é a mesma coisa e a criação de aplicações para sistemas operativos diferentes também implica conhecer linguagens diferentes, bem como a aquisição de licenças para as publicar na AppStore e Google Play. No processo, @tomahock admite usar algumas algumas ferramentas da comunidade, mas foram todas programadas e desenvolvidas por ele, com o objetivo de ajudar quem, no terreno, precisa de informação em tempo real.

  Primeiras linhas de código do fogos.pt (10/08/15) @tomahock

 Primeiras linhas de código do fogos.pt (10/08/15) @tomahock

Tudo começou há três Verões e, ao longo deste tempo, o site tem sido optimizado (SEO) para direcionar para o fogos.pt as pesquisas no Google relativas a incêndios. No passado domingo foram mais de 10 mil acessos simultâneos ao site, ultrapassando os limites de pageviews do site.

Uma vez que este está associado ao Google Maps que, por sua vez, associa os acessos para cada visitante do fogos.pt, tal significa que, quanto maior o número de acessos ao mesmo tempo, maior o número de solicitações à Google, até ao limite da quota disponível para este site. O acesso paga-se (e bem!) e, na noite de Domingo, @tomahock apelou à comunidade para disponibilizar acessos, através de outras contas, para manter o site a funcionar. O Twitter revelou-se uma máquina de comunicação solidária com centenas de keys (acessos) diferentes, alguns dos quais criados por pessoas que foram, propositadamente, criar (e aprender a fazer, porque estamos num domínio de “developers” que não é o mesmo que criar uma conta no Gmail) estas keys para ajudarem a manter o site ativo. Estamos a falar de cidadãos que se envolvem, que se mexem e, com isso, contribuem para uma sociedade melhor.

Estou — estamos, creio — grata por existir um João Pina que dedica parte do seu tempo a ajudar os outros, provando que há mais na tecnologia para além de utilizadores fanáticos de Facebook e que esta, como qualquer arma ou ferramenta, tem um potencial enorme para melhorar a vida em sociedade.

No entretanto, a própria Google apercebeu-se da situação e ampliou os limites da conta do fogos.pt. Se isto não é mobilização pela tecnologia, e esta ao serviço do bem, não sei o que será.

Agora vão e aprendam a criar keys, em vez de passarem o tempo a espreitar e comentar a vida dos outros nos sites e redes sociais. Nunca se sabe quando pode ser preciso ajudar...

Lisboa TOP 10: os dez novos locais saudáveis. Ou quase...

É óbvia a tendência do saudável, da importação de modas e da adopção de tendências que em outros locais são apenas velhos hábitos. Estamos a redescobrir a alimentação, adoptando novos hábitos que incluem sementes e alimentos que, aqui em Portugal, nunca valorizamos. A dieta mediterrânea é excelente mas a pressa do mundo moderno adulterou-a. Em resposta, fomos buscar inspiração a outros locais do mundo, reinventando formas de comer com prazer.

Nos últimos tempos, a popularidade de Lisboa tem permitido crescer a oferta cosmopolita, a par com a oferta de novos locais com conceitos que, até há bem pouco tempo, quase tinham público. Fui descobrir alguns desses novos locais. Para a próxima revisito os que já vão tendo presença no urbanista, para uma lista completa dos locais mais veggie friendly, super healthy e muito cool.

Para maior realismo, as fotos não estão editadas e não foi usado nenhum filtro.

NALU BOWLS

Ericeira

Esplanada (resguardada do vento)

Importação do conceito balinês das taças de fruta, perfeitas para antes ou depois do surf, razão pela qual o franchising abriu na Ericeira...

As bowls juntam um smoothie de frutos (ou legumes como os espinafres) a mais frutos e granola, com côco ou sementes...


BOWL LISBOA

Cais do Sodré

Um espaço duplo, muito pequeno, que à noite é bar e durante o dia vende saúde em formato de taças com smoothie e fruta. Têm a opção com papas de aveia e a lista de ingredientes é muito variada, tornando a escolha difícil, simplesmente porque são todas muito apetitosas e, na realidade, muito boas.


THE THERAPIST

Lx Factory

Sentei-me virada para a sala e, para além da comida, apetecia-me tudo o resto, inclusivamente juntar pessoas para uma sessão de Pilates. O espaço transmite calma e bem estar, os livros aconchegam-nos e a sopa é divinal.

O bolo de chocolate cola-se aos dentes e é por isso que (também) é tão bom!


DEAR BREAKFAST

Santos

É isso mesmo. P E Q U E N O - A L M O Ç O todo o dia. Todos os dias. Só falta servirem o pequeno-almoço na cama. Tem sofás de veludo azuis confortáveis, cuidado no atendimento, sumos retemperadores e ovos. Muitos ovos! O pão das torradas merecia um upgrade mas, tirando isso, é tudo bom.


CASA 55 | MERCEARIA E PÃO DE QUEIJO

Santos

Sabem aquelas surpresas tão surpreendentes que vos deixam surpresos? Essas mesmo. Acontecem quando vamos a passar na rua sem esperar encontrar o que procuramos. E ao que procuramos é um pão de queijo honesto, quente e saboroso, num local despretensioso com aquele swing que tem no Brasil. É isso. É a casa 55, em Santos que tem um pão de queijo delicioso e ainda é uma mercearia onde também podemos comprar alguns produtos brasileiros. 

Sobre pão de queijo... também fui ao Chamego mas não gostei. O atendimento é lento e o pão de queijo não surpreende...


HEIM CAFÉ

Santos

São estrangeiros e isso nota-se nos pormenores. É o melhor brunch desta selecção, pelo preço, variedade da oferta e porque se pode comer todos os dias. O brunch é como o pequeno-almoço ou seja, é quando uma pessoa quiser. E eu não sou de saltar refeições...


FRUTARIA

Rua dos Fanqueiros

Se vão a pensar que vendem fruta, esqueçam. A fruta faz parte do menu, incluída nas bowls, sumos ou outras opções. O brunch é muito completo e o preço compensa em relação às outras opções da carta. Ganha o prémio simpatia no atendimento sendo um daqueles locais aos quais apetece mesmo voltar. E comer!


MARIA LIMÃO

Graça

Fica ali para os lados da Graça e a localização não é óbvia. A simpatia conquista-nos o coração e a qualidade do que serve ganha a nossa atenção. Não tinha fome mas ainda assim não sobrou nada... Destaque para as tostas com abacate, as papas de aveia e o chá de hortelã a saber mesmo a hortelã...


SORBETINNO

Chiado

A história desta gelataria merece ir para o podcast urbanista porque nasce de um desejo de fazer mais e diferente. Pedro Simas é, digamos, meu colega e decidiu fabricar gelados. Professor e InveStigador de virologia na Universidade de Lisboa, encontrou na bioquímica a fórmula certa para produzir o melhor gelado de pistachio que já comi. E olhem que já provei muitos, normalmente doces ou pastosos. Este, da Sorbetinno, é perfeito, porque é sorvete (não tem leite), sabe a pistachio e é pouco doce. Uma leveza que se derrete na boca. O chocolate é Valrhona o que, só por is, faz toda a diferença porque também é dos melhores sabores a chocolate que já provei...

Em conclusão:

A melhor bowl é da Nalu Bowls que vence na textura e temperatura. As da Bowl Lisboa estavam muito geladas, embora a combinação de sabores seja mais variada, requintada e sofisticada. As bowls da Frutaria são boas mas, ou a taça é muito grande, ou o conteúdo é pouco. Creio que a taça é grande demais...

O melhor brunch, no que respeita à relação qualidade, variedade e preço é do Heim Café. Também ganha em luminosidade e, apesar do espaço ser pequeno, é bastante acolhedor.

A Maria Limão tem apenas um problema, uma vez que, por estar em frente à uma escola, ganha em movimento para perder em sossego. Merece uma segunda hipótese, ao fim de semana, para provar as panquecas. O serviço no Chamego desilude e o pão de queijo não é fabuloso, ficando longe, em termos de textura, consistência, sabor e tamanho do pão de queijo da Merceria 55.

Uma das melhores sopas que já comi está no The Therapist, cujo único problema não é a comida mas o local em que se encontra, pela falta de estacionamento. Com paciência vale a pena. Especialmente para os amantes de bolo de chocolate...

Quem gosta de um pequeno-almoço a qualquer hora têm não um mas O local ideal, com uma decoração simples, sóbria e sofisticada, música escolhida a dedo e uma tranquilidade que nos faz querer voltar para ler ou trabalhar enquanto tomamos o pequeno-almoço. Às três da tarde... 

Na Frutaria as panquecas são absolutamente deliciosas e os sumos, se lhes retirarmos o gelo, são combinações perfeitas de sabor e vitaminas. Finalmente, um dos melhores gelados que já comi, acompanhado por um crepe leve e saboroso está na Sorbetinno.

Nome de código: 'vagas'

Publiquei aqui e aqui uma espécie de desabafo sobre o mundo em que vivemos. O mundo é um lugar estranho. Hoje penso que, pior do que estranho, é confuso e enganador. 

No Twitter, alguém se descuidou e escreveu #LasVagasShooting tornando a hashtag, errada, numa vaga sobre Las Vegas. E porquê? Porque já não somos nós (se é que alguma vez fomos...) a decidir o que é relevante para nós nas notícias. Por cá, a sèrio ou a brincar, só dá #PassosCoelho para uma notícia que se resume ao facto de não se recandidatar à liderança do PSD. O resto será comentário político. Passemos à frente. Mas não passamos porque o trending se instalou na cabeça das pessoas que já não são capazes de ir além do que o algoritmo lhes dá.

No caso de Vagas - Vegas, na verdade - trata-se de um erro involuntário de alguém que twittou sobre o que aconteceu em Las Vegas, que o próprio Twitter transformou numa tendência e que muitas pessoas seguiram sem questionar. Este problema não é novo. No caso, não é grave, mas poderia ser propaganda mal intencionada. Revela sobretudo a forma como nos colocámos nas mãos de uma inteligência artificial altamente eficaz mas incapaz de estabelecer relações com a realidade... real.

Como são definidos os tópicos mais populares?

O processo é aparentemente simples e resulta de uma combinação entre o número de tweets relacionados com um determinado assunto. O algoritmo relaciona hashtags semelhantes e determina que o tema é tendência, escolhendo a hashtag mais usada. Mesmo que está tenha uma 'gralha'...

Tal acontece porque, para ser eficaz e isento, não tem intervenção humana comprovando que, apesar de tudo, ainda precisamos de um segundo olhar sobre o mundo para definir o que os outros devem ler... Confirma sobretudo a necessidade de sabermos mais, sermos cada vez mais curiosos e perspicazes, para podermos ir além do que nos dá a espuma dos dias. O mural dos sites de redes sociais - qualquer um deles - não corresponde exactamente ao mundo real e, menos ainda ao que por lá se passa. É tempo de todos entendermos isso, conhecendo as suas características e ferramentas.

Para os geeks da coisa e os que trabalham com tecnologia, de hoje a um mês vai haver festa rija em Lisboa: mais uma edição do Web Summit. Para os outros, continuarão as 'vagas' que deveriam ser 'vegas' e que não dão tempo para serem questionadas. É tempo de trazermos a tecnologia, as suas características e efeitos sociais, para o centro da discussão. Eventos eventos como este deveriam ser de carácter obrigatório, usando os meios tradicionais para explicar aos utilizadores que, aquilo que têm nas mãos, bem como a informação que diariamente lhe entregam, é a maior arma alguma vez concebida e que pode servir tanto para o bem, como para o mal...

 

Acreditar. Em quê?

O mundo é um lugar estranho.

A manipulação sempre existiu e, aliás, a história do século XX é, também, a história da manipulação política e mediática. Lá atrás no tempo os fascistas foram pródigos na forma como conseguiram instituir um pensamento único, commumente aceite. Ou quase. 

Havia censura, interferência e controlo. Hoje pensamos que não. Efectivamente não sabemos até que ponto estamos, também, a ser vítimas de um fenómeno que não conhecemos na globalidade, que nos tolda a visão e condiciona a forma de pensamento. Por consequência, a opinião. 

Só vejo o que quero ver e apenas aquilo que os algoritmos pensam que eu quero ver. O que, em boa medida, faz como que não veja quase nada. Não quer isto dizer que antigamente era melhor, porque as fontes de informação eram mais reduzidas e controladas, quer apenas dizer que convém pensar sobre aquilo que nos colocam à frente dos olhos.

Sobre a Catalunha, Asange diz e com razão, que este é um momento de conflito moral e político, que opõe a Espanha com reminiscências de Franco a uma Catalunha moderna e à cidade de Barcelona, internacional e altamente digital. Uma cidade dos tempos modernos, portanto. Contudo, o que por lá se passa é tudo menos moderno porque a repressão é a forma mais arcaica de conter as ideias. 

Nos Estados Unidos, essa nação (supostamente) avançada com mais prémios Nobel da história - este ano recebeu mais um, para três investigadores que se dedicam a estudar o ciclo circadiano -  é também esta a nação que anda ao contrário em relação à licença de porte de arma, entregando-as a qualquer um. Quantas pessoas já morreram, no mundo, porque outra decidiu sair de casa, de arma em riste, e desatou a disparar sobre tudo o que mexe? Há mais malucos nos E.U.A. ou o facto do lobby das armas ser poderosíssimo cria malucos prontos a disparar? Os tempos do Far West não foram propriamente bonitos, se pensarmos na forma como as armas instalaram uma cultura de poder pelo fogo. Já deveria ter terminado há muito tempo. Este massacre prova que o que acontece em Vegas não fica em Vegas porque, simplesmente, falha num ponto fundamental da existência humana, a segurança e integridade física. Não admira, portanto, que tantos se mudem para Lisboa. 

Por cá, neste município, como em tantos outros, o Far West é outro, menos perigoso porque não é à lei da bala, mas igualmente preocupante pela sua demência. Ou esquizofrenia. A primeira não tem cura, apenas tratamento para alívio dos sintomas e declínio progressivo. A segunda é socialmente penosa. A doença mental é sempre alvo de estigma social. Em qualquer dos casos, o mundo não vai bem. As nossas autárquicas são disso um bom exemplo e, mesmo que a abstenção tenha diminuido, ainda há muitas pessoas a quem a política nada diz e sobre a qual nada têm a dizer. O que, por si, também é preocupante. Ou não, porque verdadeiramente alarmante é o circo mediático e político, a falta de ideias, as propostas que cheiram a mofo e as discussões sem alma, ideologias requentadas e candidatos que acham que, pelo facto de existirem, são uma alternativa. A quê? A quem? É triste chegar à mesa de voto, olhar para o boletim e não relacionar os nomes com as campanhas. Significa o imenso vazio e a distância entre emissores e receptores de uma comunicação que fez tudo menos passar uma mensagem. A prova de que tudo isto é muito poucochinho são vitórias retumbantes que indignaram os indignados do Facebook que, normalmente, não fazem mais do que publicar uns memesalusivos ao tema do dia. O que também é muito pouco. Talvez por isso, de meme em meme, ou de gif em gif, os menos maus vão levando vantagem. O que é tudo, menos bom.

 

Imagem: @drossthethird