2016

Coisas que as mães não dizem (ou se esquecem de dizer...)

As coisas que a mãe nunca diz são as melhores. 

A minha, por exemplo, esqueceu-se de me dizer que ser mãe deverá ser a profissão mais difícil do mundo. A mais exigente e, ainda assim, gratificante. A mais cansativa e, contudo, que nos enche de energia. A mais irritante e, no entanto, para a qual temos mais paciência. Também se esqueceu de me avisar que, com a maternidade, viriam secas valentes. Não falo dos desenhos animados repetidos à exaustão, das músicas das quais só elas conseguem gostar, dos bonecos que vestem e despem para apanharmos roupa pela casa - logo nós que nos recusamos a apanhar roupa do chão seja de quem for... Nesta secas incluem-se passeios e viagens que, de outra forma, jamais faríamos. O pior é que gostamos. Fazemos por prazer, mesmo reclamando a maior parte do tempo...

Por ela fui à Disney, espreitei a parada das personagens por baixo do braço de um pai com o filho às cavalitas enquanto me equilibrava com ela... nas minhas cavalitas. Por ela entrei numa diversão que me deixou enjoada para, no fim, me dizer que queria voltar à Torre Eiffel. Para a ouvir responder, quando lhe perguntam o que mais gostou em Paris? De subir à Torre Eiffel! Para limitar a Disney a um balão do Mickey e umas orelhas da Minnie...

Eu deveria saber.

Who cares about Disney quando estamos na cidade (supostamente) mais romântica do mundo?

Não contente, repeti a brincadeira levando-a ao Winter Wonderland, esperando uma boa meia hora (ironia pura...) para patinar numa pista que só aparentemente é de gelo, ouvindo-a, então, dizer que é divertido mas que é uma pena a pista ser falsa, porque não é de gelo. Não. Eu não estive em pé rodeada de pessoas incapazes de manter a distância para o vizinho da frente (sou só eu a implicar com aquele estranho tipo de pessoa que não entende que há uma espécie de espaço que não deve ser invadido, que nos separa da pessoa à nossa frente na fila?); ver cabelos a brilharem ao sol e conseguir perceber-lhes as três (ou quatro, vá...) tonalidades das tintas que tem, já teve ou ainda irá ter; ou aqueles que estão na fila para patinar no "gelo" e aspiram a andar na roda gigante (que é apenas assim mais ou menos grande, ou seja, pequena)...

Eu não fui mãe para isto. Ou fui? A minha esqueceu-se de me contar os pormenores. Estes pormenores. Como também tive de chegar à idade adulta para perceber a razão pela qual, por vezes, bufava pela casa afirmando entre dentes "quem me dera ter nascido homem": Também se esqueceu de me explicar que temos de trabalhar o dobro, porque acumulamos o trabalho - aquele a que chamam trabalho pago - com o resto - que não é pago e nos rouba horas intermináveis - enquanto vamos entrando na competição da mãe perfeita que faz bolos para a festa da escola, que tem sempre tudo pronto e impecável para levar para as actividades de férias ou que nunca se atrasa. Da mulher espectacular porque continua a ter tido no sítio, da profissional incansável, da qual invejam o segredo para conseguir alcançar todos os objectivos, da mulher apaixonada que leva o seu maridinho ao colo com mimo, da amiga presente e da filha perfeita. 

É só um bocadinho que eu já volto. Vou ali ser uma mulher real (imperfeita) e avisar todas as mães para não se esquecerem destes... pormenores...

O direito a...

Ser criança.

Viver em paz.

Ter abundância. De afectos. Pão na mesa.

Ir à escola e fazer escolhas. 

O direito de não reclamar os nossos direitos. De ser mulher, ser tratada enquanto tal e não pedir licença ou desculpa baseada em limitações de género fora de prazo. De fazer escolhas, das assumir, de usar o corpo como bem entendermos e deixar o amor fluir. Independentemente do género, das convenções sociais ou do que nos queiram impor.

O direito a ter direitos. É só isso que quero para ela ♡

Eu empreendo, tu empreendes, eles empreendem!

Há pessoas a quem chamam estúpidas que acreditam nessa suposta verdade. A quem chamam burras e que desistem de aprender. Depois, há outras que reconhecem as suas capacidades e dificuldades, aprendem a viver com as segundas, e a melhorar as primeiras, para atingirem o sucesso. Estava a ler sobre a Connect to Success, uma rede para mulheres que procura ajudá-las a atingirem a liderança em cargos de topo, quando percebi que a sua criadora era Kim Sawyer, a embaixatriz dos EUA em Portugal. Kim sabe do que falo. Sofre de disgrafia, uma dificuldade de aprendizagem que poderia ter arruinado o seu percurso. Apenas a motivou a fazer mais e melhor. Acredita, por isso, que a auto-confiança é fundamental para ultrapassar os obstáculos, sendo o maior, aquela voz interior que nos diz que não somos capazes.

Vera. Georgina. Ana. O que têm em comum estas três mulheres? Pouco ou nada, com excepção da coragem de enfrentarem essa voz interior que as impedia de avançar.

Num mundo dominado por grandes corporações, empresas multinacionais que garantem a homogeneidade do consumo, surpreendem os pequenos negócios, as ideias simples iguais a tantas outras com a diferença de serem... únicas. Hoje, o que diferencia um negócio não é a promessa que se faz, mas a concretização, dia-dia, dessa promessa, tratando cada cliente com proximidade, dando-lhe importância e usando o segredo dos negócios que replicam mundialmente a sua fórmula: garantir a qualidade - sempre - e a cada momento que o cliente contacta com a marca. 

O que transforma pequenos negócios em grandes sucessos é a paixão de quem está na origem da ideia, a dedicação que um projecto pessoal exige e o prazer que cada novo empreendedor retira dessa mesma dedicação. Não conheço muitos empreendedores mas sei que, para além da ideia ou da motivação para fazer, há sempre a paixão por aquilo que se faz. 

São assim as pessoas que hoje vos apresento.

Não conheço a Ana há muitos anos mas sei há quantos se apaixonou por uma ideia - a sua - e o esforço que tem feito para a concretizar. Tudo começou numa Pós-Graduação em Marketing Musical, a paixão pela música e a noção de que o turismo musical existe e faz sentido. Há quem viaje pela música e a Ana decidiu que iria servir essas pessoas. Depois de um mestrado em que testou a ideia, o projecto ganhou forma. Enfrentou a burocracia, concorreu a apoios financeiros, envolveu-se e tornou-se empreendedora. A Go For Music é uma realidade e, se não conhecem, é porque estão cá dentro e não viajam para ouvir música. Quem quer conhecer Portugal já o pode fazer associando o prazer da visita ao da música, uma vez que a Ana constrói pacotes de viagens em associação com eventos e festivais de música. Já a Vera largou tudo o que não a fazia feliz para descobrir que tem essa capacidade - única - de dar de si aos outros, ajudando-os na sua recuperação. Vivia quase feliz na expectativa constante de dar o salto, de encontrar aquilo para que se tinha preparado. Formada em marketing e com uma experiência que cruza diferentes experiências, foi na massagem ayurvédica que se encontrou e que também encontrou quem perceba que a Vera tem A capacidade ( não apenas capacidade para) de lhes lavar a alma. Entrega a sua energia para relaxar e equilibrar a dos outros. Único. Foi então que percebeu estar no caminho certo, continuando a sua formação. Transformou a sua sala num espaço acolhedor para receber quem precisa de uma massagem ayurvédica, reflexologia ou shiatsu. Continua a sua formação, sempre disponível para receber e poder dar. Quando já tiver mais do que uma técnica que possa realizar, vai procurar espaços onde possa exercer de uma forma freelancer. Dona do seu tempo a cuidar do bem estar dos outros. Numa outra perspectiva, a Gi (que já aqui falei), na versão FotoGInica capta o melhor de cada um de nós, e do mundo que observa, com uma grande angular. Não nasceu fotógrafa mas fez-se fotógrafa à medida que as imagens iam ganhando relevância na sua vida. Não fechou uma porta para abrir a outra. Foi gradualmente mudando o seu perfil profissional. Não abdicou da segurança de um emprego e esperou que os filhos estivessem independentes para (re)tomar as rédeas da sua vida. Tem a sensibilidade necessária e aprendeu a dominar as ferramentas para que nada a impeça de registar exactamente aquilo que quer. Ou que pensamos estar a ver... Da mesma forma, o Caco decidiu mostrar-nos o outro lado do que está à vista: criou uma agência imobiliária que conta a história de cada casa e dos seus proprietários, enquanto desafia as regras do mercado: vídeo, comissões e tratamento personalizado, assim é a promessa da De Home uma nova imobiliária no mercado lisboeta que poderia ser apenas mais uma. Não será. Como não é o sushi da Sushi at Home, que equivale a dizer o sushi do Lourenço, Martim e João, três amigos que adoram sushi e que um dia decidiram partilhar essa paixão com o mundo. Em casa ou no trabalho, a sushi@home entrega-nos sushi maravilhoso minutos antes da hora combinada. Nunca falham e o sabor é sempre surpreendente, com menus que combinam sushi tradicional com sushi de fusão a preços tão bons quanto o sushi que nos entregam.

O que têm em comum estas histórias? 

A paixão. A vontade de fazer algo diferente. De servir as pessoas garantindo-lhes serviços de qualidade. Estão a começar - ainda que o sushi@home esteja em pleno crescimento - e espero que este artigo os lembre que é importante continuar!

 

Go for Music

Vera Sant'Ana

FotoGInica

De Home

Sushi at Home

Empreender

empreendedor | adj. s. m.

em·pre·en·de·dor |ô| 

adjectivo e substantivo masculino

Que ou aquele que empreende; que é animoso para empreender; trabalhador; amigo de ganhar a vida (traçando empresas novas).

 

Esta semana é dedicada ao empreendedor que há em nós. 

O empreendedor é aquele que empreende e empreender significa levar a efeito. Ou seja, fazer. 

Já empreendi muitas coisas, embora não seja a empreendedora no sentido que habitualmente damos à palavra. Não desenvolvi uma start up, não criei uma empresa ou um negócio de sucesso, donde, não sou empreendedora. Mas já criei e levei a efeito cursos e conferências, ideias que se transformaram em projectos que outros agarraram e continuaram, lancei sementes que nasceram, cresceram e floresceram ou, simplesmente, morreram. Lei da vida. Por isso, sei bem o que é empreender, embora nunca tenha perdido muito tempo a pensar no conceito ou no seu significado. Parece que entretanto tudo é empreededorismo, que todos precisam de criar uma start up, de encontrar um mentor e de se envolver numa incubadora por auto-afirmação. Não é. Um mentor ajuda. Uma incubadora talvez.  Acima de tudo, é necessária uma força interior que incubadora nenhuma pode dar para levar alguma coisa a efeito. Por isso (e por muito mais mas especialmente por isso), respeito muito quem decide mudar de vida e aventurar-se num novo estilo de vida ou, mais arrojadamente, decide empreender uma nova vida, dedicando-se à criação de um negócio. Assim o fizeram vários amigos sobre os quais vou falar esta semana, não sem antes mostrar alguns detalhes sobre empreendedorismo...

Sobre as contas, essa também pode ser uma questão que nos impede de avançar: para além do medo associado à mudança, o rendimento deixa de ser fixo e definido no tempo (talvez por isso tantos desempregados consigam uma energia extra para criarem o seu próprio negócio), pelo que manter o foco e deixar de lado tudo o que nos possa distrair do nosso objectivo será fundamental. E que objectivo?

É importante sabermos o que não queremos para nos concentrarmos no que vamos conseguir. Funciona para as relações pessoais e, mais ainda para este tipo de relação a longo prazo que estabelecemos connosco e o negócio que queremos desenvolver. Supondo que queremos ganhar dinheiro, convém que seja a fazer algo que não nos cansa, não nos desgasta e nos dá um prazer tal que nos faz sair da cama mesmo depois de não termos dormido a pensar nos detalhes de algo que ficou por resolver. E andar todo o dia cheios de energia, de sorriso no rosto, seguros de que estamos no caminho certo. Significa que nunca mais estaremos de trombas na fila do autocarro para ir trabalhar, mas também significa que temos de estar conscientes das dificuldades, de que não conseguiremos fazer tudo sozinhos - que não temos de o conseguir - acima de tudo, seremos capazes de superar os obstáculos - muitos - e manter o pensamento positivo.

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O que fazer, para empreender? Muito.

Ter vontade, perceber que essa vontade não resulta de factores circunstanciais e saber o que se quer. Para além disso, ser capaz de criar um valor acrescentado e vender a nossa ideia como se o mundo terminasse amanhã. Não termina, mas convém pensar que sim.

Há quem pense muitas vezes que agora é que vai ser, que vou largar tudo e montar o meu negócio. Nada mais errado. Todos temos vontade de evasão de quando em vez, de mandar tudo às urtigas e começar de novo. Contudo, importa pensar muito bem nas razões que nos levam a querer mudar. Se estão relacionadas com desânimo em relação à situação profissional actual ou se tal acontece porque nos apetece mais perseguir o chefe à paulada do que ir trabalhar, talvez a solução não seja uma mudança. Ou, pelo menos, uma mudança tão drástica. É preciso, antes de mais, relativizar as situações e revertê-las a nosso favor. Se não o conseguirmos fazer quando está alguém a pagar-nos, como o conseguiremos fazer estando sozinhos para garantir a nossa subsistência? A mudança só acontece quando estamos preparados para ela e, antes disso, há todo um caminho que o karma nos obriga a percorrer para garantir que há sustentabilidade na decisão que tomamos. Sim, por mais que o queiramos ignorar, nada acontece por acaso, cruzamo-nos com as pessoas certas no momento adequado e tudo o que acontece neste processo tem uma razão de ser. É preciso explorar. Não apenas o mundo e os potenciais negócios mas também a nossa individualidade. Ao contrário do que se pensa, o empreendedorismo pode ser muito solitário, obriga a auto-motivação porque ninguém nos pede contas e a liberdade para gerir o tempo pode ser ameaçadora.

No entretanto, porque empreender é coisa séria de gente grande, depois de sabermos exactamente o que vamos fazer, há uma ferramenta muito importante: modelo de negócio. É neste ponto que muito falham porque se concentram demasiado no que lhes diz o coração e pouco - ou  nada - nas leis do mercado. É determinante gostar, mas não chega estar apaixonado para uma relação resultar, correcto? Por isso, temos de ter um alvo em mente, a quem vamos servir através de uma promessa que lhe vamos fazer. Definimos, então, uma estratégia com objectivos e um plano de acção. É importante conhecermos a nossa audiência - aquelas pessoas que eventualmente irão comprar o que tivermos para vender - avaliando a dimensão desse alvo, bem como o grau de relevância da nossa oferta. É que se não for relevante para eles, não vão seguir-nos, amar-nos, comprar o que estamos a desenvolver. Temos de pensar numa lógica de missão e serviço, um compromisso que se estabelece com um conjunto de pessoas a quem temos algo para dar e que tudo farão para apoiar o nosso crescimento. São eles que nos vão partilhar as publicações e tornar a comunicação viral. O viral não acontece porque nós queremos, mas porque eles - o alvo - permite que aconteça. A seguir, fazemos a dança da chuva e esperamos que a magia aconteça.

Incubadoras de Lisboa

Incubadoras de Lisboa





 

Porrada nelas, pá

Hoje é o Dia Internacional Pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Há tanto para dizer, mais ainda para fazer...

Quando decidi escrever sobre este tema debati-me com uma discussão interna sobre aquilo que nós - que não somos vítimas de violência  e independentemente das estatísticas - consideramos ser violência. Alarguei a discussão aos meus alunos no ISCSP e pedi-lhes um contributo que hoje partilho. Contributo esse que em muito superou as minhas expectativas, culminando numa amostra de 298 jovens, maioritariamente mulheres entre os 19 e os 24 anos, numa relação. O que também vai ao encontro das estatísticas, uma vez que as vítimas são maioritariamente do sexo feminino.

Portanto, de que falamos quando falamos de violência numa relação?  Falamos de tudo o que atente contra a integridade física e psicológica do outro. Da falta de respeito à humilhação, passando pelo controlo excessivo e obsessão, a manipulação e agressividade são formas de violentar o outro. No limite, a agressão física. Sobre a pior forma de agressão numa relação, destaco esta resposta:

Não considero, pois se há violência não pode haver relação

As bofetadas geram unanimidade. Para 99% das pessoas que responderam a estas perguntas, dar uma bofetada é um acto de agressão física que deve ser repudiado, o mesmo acontecendo com gritos quando há diferença de opiniões (78%) ou, pior, quando alguém nos agarra pelo braço para nos forçar a aceitar as suas opiniões e ideias. Para 99% destas pessoas, isso é violência.

A roupa também gera consenso, uma vez que, para quem participou nesta recolha de opinião, a frase "não saio contigo à rua se levares essa roupa vestida" é sinónimo de violência, como expressam os valores das respostas.

© Francisco Silva (estudante de media digitais, ISCSP)

© Francisco Silva (estudante de media digitais, ISCSP)

Da mesma forma, a intrusão na nossa privacidade também é considerada uma forma de violência. Perguntar "quem é" quando o telefone toca, vasculhar o correio electrónico, o telefone, perfis sociais ou o computador é visto como uma acto intrusivo e, por isso, violência, como indicam os números.

© Andreia Neves (estudante de media digitais, ISCSP)

© Andreia Neves (estudante de media digitais, ISCSP)

Estes jovens reiteram as minhas opiniões sobre a noção de violência entre duas pessoas, e que esta não é apenas física. Sobre a violência invisível, que também destacaram, reparem nesta afirmação:

É a que é invisível, que não deixa marcas físicas. É quando um dos membros submete qualquer tipo de vontade e caminho pré-definido na vida do seu parceiro. Este pára de viver uma vida “sua” para ser uma extensão da vontade da outra, e creio que isso seja uma forma de violência. Quando não se deixa a outra pessoa atingir as suas ambições, vontades e potencial

Não há violência melhor ou pior. Todas as formas de violência são consideradas negativas por estes jovens que estão bastante conscientes do que é, ou não, aceitável numa relação. Contudo, resta saber se, quando nos toca, sabemos como reagir, como limitar e terminar o processo que, como demonstram as estatísticas da APAV, tende a arrastar-se entre 2 e 6 anos.

Os números da APAV falam por si e ficamos quase sempre imóveis, deixando acontecer. Da mesma forma, raramente intervimos na relação daqueles que são vítimas, mesmo quando acontece em público. Foram várias as histórias partilhadas durante os dias em que recolhi informação, com jovens que contavam, escandalizados, já ter assistido a situações de violência entre namorados sem que ninguém interviesse. Houve quem, ao intervir, tivesse sido também ameaçada sem que mais ninguém tentasse ajudar...

Que sociedade é esta e em que pessoas nos tornámos quando consideramos que bater no outro, pressionar, manipular, desprezar ou diminuir são atitudes aceitáveis? Não só seria positivo que mais mulheres começassem a pensar como a super mulher, explicando, não por palavras mas também, por acções, que respeito é bom e nós gostamos.

Caracterização socio-demográfica

Idade

Género

Quem está numa relação

Se uma mulher incomoda muita gente...

Nos E.U.A a excitação relativa aos candidatos presidenciais turvou bastante a percepção real do contexto real e do que poderia acontecer. Que aconteceu. Muitas mulheres  ficaram decepcionadas com os resultados e outras tantas ainda mais decepcionadas quando perceberam que, afinal, mulheres votaram em Donald Trump. Quisemos acreditar nos finais felizes... 

A vitória de Hillary não teria sido uma vitória da candidata mas da igualdade de oportunidades e a representação da mudança social. Que afinal não muda, apesar da mudança evidente no percurso feminino, ao nível educacional e profissional, com consequências para o contexto social e político. Contudo, o mundo mudaria por termos uma mulher na presidência dos E.U.A.?

Não necessariamente. O simbolismo seria fundamental mas jamais determinaria o ainda longo caminho que há a percorrer ao nível das políticas públicas que garantem direitos iguais, remunerações equivalentes, acesso à educação e cuidados de saúde para todas as mulheres.

Um estudo recente da Independent Women's Forum revela que as mulheres valorizam aspectos que garantam um equilíbrio entre a vida profissional e a família, da mesma forma que esperam uma remuneração que corresponda à responsabilidade das suas funções.

Entre outros aspectos:

  • trabalho igual, salário igual
  • flexibilidade laboral (horários, por exemplo)
  • política da empresa relativamente à igualdade de género

Por outro lado, o estudo Women in the Workplace 2016 traça o perfil da mulher no mundo empresarial americano. Resultado de uma parceria entre a organização LeanIn.Org e a McKinsey & Company, procura fornecer informação para promover a liderança feminina e fomentar a igualdade de género no mercado de trabalho. Os resultados mais recentes demonstram que as mulheres têm menos oportunidades para ascender na carreira e são muitas vezes preteridas no processo de selecção para cargos de direcção, da mesma forma que também não são incluídas nas iniciativas que visam a promoção das suas carreiras. O que é o mesmo que dizer que nos lugares de topo das empresas há poucas mulheres. Portanto, mudou o mundo, há mais mulheres com graus académicos de nível superior, as mulheres passaram poder exercer profissões que antes lhes estavam vedadas mas chegar ao topo continua a ser difícil. Chama-se glass ceiling, aquele tecto invisível que ninguém quer ver mas que está lá. Been there... More than once...

Porque razão importa discutir e alertar para este tema? Porque, apesar da mudança, ainda anão há igualdade de género nas empresas, ao nível do emprego da remuneração, da liderança e cargos de direcção, entre outros aspectos, na articulação da vida profissional, pessoal e familiar. E se, por vezes me atrevo a pensar que o acesso à educação está garantido, são elas mais vezes as grandes prejudicadas, pelo que é um tema que deve continuar no topo das nossas preocupações.

Em Portugal há mais mulheres licenciadas do que homens mas a participação da mulheres nos órgãos de decisão continua inferior e a sua dedicação à família continua a ser superior, responsáveis por mais 232 minutos de trabalho doméstico em relação aos homens. Com isto, ainda tem de haver tempo para fazer tudo igual aos homens, mesmo com todas as estatísticas contra nós.

O relatório de 2016 da PwC (Mulheres em Portugal | Onde estamos e para onde queremos irrevela que 48% da população activa é do sexo feminino e que é nas empresas mais novas que há mais mulheres em cargos de direcção, verificando-se o inverso nas empresas mais antigas (com mais de 20 anos). Não somos um exemplo do nível do emprego a tempo parcial ou dos apoios à natalidade (e não faltam histórias de quem abdica da maternidade pela estabilidade ou possibilidade de progressão na carreira) e, no que respeita à igualdade salarial também não somos exemplo, com uma diferença de 15,7% entre a remuneração dos homens e das mulheres.

Se uma mulher na presidência de um país como os Estados Unidos iria mudar o panorama? Tenho algumas dúvidas. Mas seria, seguramente, um marco importante. Não sendo, é uma forma de nos fazer acreditar que ainda há muito para fazer e que cada vez mais as mulheres precisam unir-se nas suas diferenças para, juntas, alcançarem mais: liberdade, diversidade, igualdade e respeito.

LEAN IN = lean on?

Lean on me
When you’re not strong
And I’ll be your friend
I’ll help you carry on
For it won’t be long
Till I’m gonna need
Somebody to lean on
— Bill Withers

Quando oiço a expressão Lean In não consigo deixar de ouvir o refrão a ecoar... Lean on me... uma canção antiga da qual certamente muitos ainda se lembram...

E porque faço esta associação? Porque o motto o Girls Lean In é motivar as mulheres mais jovens a arriscar e assumir cargos de liderança. E se podemos lean on me, tal significa que podemos lean on each other, que é também o motto das Chicas Poderosas, as convidadas do encontro deste mês do meet up Girls Lean In.

Para quem não conhece, o Girls Lean In é um encontro mensal que junta, na última Quarta-feira de cada mês, mulheres empreendedoras para partilharem as suas histórias e motivar outras a avançar.

Sem medo(s).

Porque, ao contrário do que pensamos, o insucesso só nos faz aprender e melhorar. Se é certo que nos deita abaixo, dá vontade de chorar pelos cantos, nos faz pensar que somos verdadeiramente incompetentes, por outro lado, um conjunto de insucessos prepara o sucesso porque mais do que saber o que, ou como fazer, é importante saber o que não fazer.

Tudo começou com uma Ted Talk (Sheryl Sandberg, 2010) que motivou muitas pessoas a partilhar as suas histórias. Sheryl decidiu juntar as diferentes vozes num livro chamado Lean In: Women, Work and the Will to Lead.

Por isto, se querem inspirar-se sobre o que não fazer, se querem saber coisas que nos empurram para o sucesso, fazer networking e passar m fim de tarde entre mulheres (e homens) que pensam que a igualdade é o caminho a seguir no mercado de trabalho e lean on, apareçam amanhã às 19h30 na Fábrica de Startups (Rua Rod. da Fonseca, 11, Lisboa). Vou lá estar com a chica (super) poderosa Teresa Morais e a (ainda mais) inspiradora Filipa Larangeira. Vocês não vão querer perder isto.

E, se não puderem fazer mais nada, assistam ao vídeo no final deste artigo e inspirem-se...

Inscrevam-se (e apareçam!)

23 de Novembro | 19h30 | Fábrica de Startups

Rua Rodrigo da Fonseca nº11, Lisboa

 

 

 

Primeiro a Cristina. Quem é a senhora que se segue?

Comecei por pensar que este seria mais um tema de cordel, de exploração do tema Cristina Ferreira para gerar cliques. Contudo, esta crónica  publicada na revista Sábado fez-me procurar melhor e ir além dos cabeçalhos made in CM que se espalham como fogo num palheiro no Facebook. 

Cristina Ferreira publicou um livro.

Chama-se "Sentir". Até aqui, o habitual, num contexto de edição em que os livros se sucedem em catadupa. No livro, expõe. Expõe-se. Denuncia. Coloca o dedo numa ferida (sempre) aberta. De tal forma que a boçalidade não se cala acusando-a de tudo. Desde a tentativa de imitação, passando pela invenção, até à sua popularidade conquistada horizontalmente. Que homens o façam choca-me. Mas que mulheres acusem outra mulher disso mesmo não me choca, ou surpreende, porque muitas mulheres são assim mesmo: mais invejosas do que solidárias. Independentemente de nos identificarmos (ou não) com a Cristina Ferreira, de gostarmos do seu trabalho ou da forma como este tem sido ultimamente substancialmente promovido, que vantagem para nós, mulheres, em reforçar a ideia de que fez por merecer ou que sim, obviamente que teve de haver alguma conotação sexual na sua ascenção. 

Fui propositadamente a uma livraria folhear o livro. Ler as passagens que estão a fazer correr tinta. Solidariedade feminina, empatia e a certeza de que não será em vão, mesmo que possa ser o clique que fará vender livros. No entanto, sobre este assediozinho quase diário, dos sorrisos e insinuações, quem nunca? Sobre este comportamento paternalista que nos trata como se fossemos pequenos bibelots, quem nunca? Sobre os elogios e os olhares, sobre as sugestões e os convites só aparentemente inocentes, quem nunca? Sobre as frases directas que nos encostam imediatamente à box eliminando-nos a reacção e o tom pespineta que nos caracteriza, quem nunca? Sobre as sms, os tweets, os comentários aos posts, as mensagens de e-mail, os corações no instagram que sabemos não significarem "fixe pá, gostei da tua publicação", quem nunca? Sobre as pessoas a quem dizemos delicadamente thanks, but no thanks que continuam a insistir escondendo-se atrás do conceito de amizade, quem nunca? Sobre os comentários à roupa, como se estivéssemos nuas, quem nunca? Sobre as estratégias dissimuladas relativas ao trabalho, à promoção no emprego, à perspectiva de um novo emprego ou de mais um cliente, quem nunca? Sobre a pressão quando dependemos de algo que apenas aquela pessoa pode dar para continuarmos o nosso caminho ou terminar uma tarefa, quem nunca?

São mais os homens que fazem isto do que os outros que, mesmo sentido o corpo a ferver têm o respeito necessário pela mulher com quem estão a interagir evitando comportamentos e atitudes despropositadas. São mais os homens que acham que podem tudo do que os que aceitam que não podem nada. São mais os que não percebem que um sorriso é apenas delicadeza ou educação. São mais os que se consideram o sexo forte que pode tudo. Por isto, para aqueles que ainda nos olham como objectos, para os que se intimidam com mulheres inteligentes e as tratam como se fossem burras, para os que acham que a mulher tem a dízima a pagar para poder trabalhar, percebam uma coisa: na maior parte das vezes vamos dizendo que sim até ao limite do aceitável e do possível, porque sabemos o que acontece se dissermos que não, porque queremos concretizações sem discussões ou pressões. De qualquer tipo. Outras tantas estamos concentradas no trabalho que temos para fazer ignorando os vossos discretos avanços. No resto do tempo não estamos mesmo interessadas. E, no que sobra, não queremos mesmo nada com vocês, como a aliança que trazemos no dedo normalmente quer dizer. Percebem? Acabou o tempo da secretária para todo o serviço e da subalterna a quem podem apalpar o rabinho redondinho. Também acabou o tempo em que dizemos que sim porque temos medo de perder este jogo de poder. Temos o poder de dizer não.

No hard feelings, ok?

 

Porto

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Gosto do Porto porque não é cidade de meias palavras ou meio termo. Só podemos gostar. Especialmente hoje, mais bonita e dinâmica do que alguma vez a vi. Conhecida por ser cinzenta e escura, a cidade vibra com as pessoas que enchem as ruas e os cafés, com uma energia muito própria. Diz quem sabe que são as gentes do Norte que a fazem assim. Chove mas isso não impede ninguém de sair à rua, de jantar, circular na baixa e dar uma vivacidade a este lugar que se diz cinzento, sem verdadeiramente o ser.

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O tom escuro da pedra de alguns edifícios não faz sombra às ruas que se iluminam com os sorrisos e a simpatia de quem sabe receber. Os prédios recuperados, as casas velhas que parecem novas, a revitalização de ruas e praças faz o Porto estar mais próximo de uma cidade do Norte da Europa onde nem o mau tempo ou o frio escondem o sorriso das pessoas com quem nos cruzamos. O atendimento nas lojas, nos cafés e restaurantes ou nos hotéis é acolhedor, fazendo-nos esquecer que lá fora o céu ameaça chuva. A forma como nos recebem faz-nos ignorar a chuva forte que teima em cair. O burburinho das gentes nos cafés transforma este local aparentemente triste numa cidade cosmopolita da qual não apetece sair.

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Há anos que não visitava o Porto e senti, finalmente, que o Porto está diferente. Melhor. Com turistas que o animam sem os serviços para turista nos turvarem a vista e sem que, nós que não somos locais, mas queremos pensar que sim, sejamos alienados por uma postura para inglês ver.

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Não trazia expectativas, para além de acreditar numa Fnac cheia de mulheres interessadas em saber como podem ser mais poderosas. De facto, num contexto em que nos ligamos cada vez mais facilmente uns aos outros é cada vez mais difícil mobilizar pessoas em torno de uma causa comum. Somos reticentes, desconfiados e comodistas. Mas não há melhor forma de acabar uma tarde de sábado do que percebemos que ainda é possível passar do virtual para o mundo real, arrastando outras pessoas em torno de ideias que só pela mobilização conjunta podem passar à acção. Falo do encontro Bisturi Talks que trouxe as Chicas Poderosas ao Porto, movimento do qual me orgulho de fazer parte. Miúda a Miúda. Assim de faz o caminho. Tal como uma cidade não se revitaliza num dia, também a sociedade não muda para aceitar (mais e) melhor o papel da mulher, abandonando a subalternização a que esteve submetida durante tanto tempo. O tempo é de mudar. As nossas cidades, tornando-as mais atractivas, dinâmicas e modernas, arrastando a sociedade nesse processo para juntos, evoluirmos sem possibilidade de retrocesso.

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5 horas (III)

@cathrynlavery

@cathrynlavery

Ainda a questão das 5 horas...

Porque para quem trabalha apaixonadamente 5 horas não são nada e, para quem se arrasta para o local de trabalho, 5 horas são uma eternidade.

Em alguns casos - por exemplo quem trabalha no atendimento ao público - as horas estão negociadas à partida, entre o part time e o full time. Há inúmeros casos que provam que a regra, em si, é de difícil aplicação. Contudo, na generalidade, é possível. Há ainda exemplos para os quais será uma questão de mudança de mentalidade, relativa à forma como encaramos o trabalho. 

Para quem quiser aplicar a regra, momentos mortos, falta de concentração, distracções e actividades paralelas têm de ser eliminadas. Para mim, o dia começa cedo para terminar igualmente antes da hora. A hora de começar determina a hora a que terminamos. Independente do ritmo de cada um, é preciso dormir o número de horas que garanta concentração e capacidade de trabalho. Comecemos pelo princípio: 

Desligar todos os aparelhos electrónicos ou deixá-los fora do quarto (modo avião só é válido se, quando o activarem, não voltarem a tocar no telefone até à manhã seguinte), criar um ambiente propício ao repouso, com a luminosidade e temperatura ideal. Dormir para acordar com as energias devidamente repostas. Tomar um bom pequeno almoço, que inclui proteína, hidratos e vitaminas. Uma bica e um croquete não alimentam ninguém, mas pão de cereais não refinados, sumo de fruta, cereais integrais, aos quais ainda juntamos café ou chá serão melhores opções para garantir energia e capacidade de concentração.   

Durante este período podemos ir consultando as notícias e espreitando as novidades nos sites de redes sociais. Rever a lista, elaborada no final do dia anterior, com tudo o que é preciso fazer nesse dia. Estabelecer (ou re-estabelecer) prioridades. Praticar exercício físico. Em casa, uma caminhada na rua, jogging ou uma passagem pelo ginásio. Tudo o que obrigue o corpo a mexer, a serotonina a libertar-se, a adrenalina a aumentar e o cérebro a oxigenar. Ligar o computador, desligar as notificações, baixar o volume da campainha do telefone e começar a trabalhar, com uma bebida quente (ou fria) a acompanhar, música (a playlist Urbanista é um bom começo), rádio ou uma selecção de podcasts para as próximas 5 horas...

Não sou solteira. Mas, se fosse, também (não) gostava...

Na sexta-feira celebrou-se o Single's Day, ou dia do solteiros. E se há coisa que os solteiros, mais ainda as solteiras, conhecem é a pressão social para se casarem...

A pressão social incomoda-me. Há muito tempo era só um bocadinho. Agora incomoda muito. Pressão?... Para casar. Para ter filhos. Para ter um emprego estável. Para mudar de carro quando nasce um filho. Para encontrar "o tal". Para sermos aquilo que esperam de nós sem esperarem que sejamos exactamente o que somos. Como somos. 

Até um determinado momento espera-se que sejamos solteiras. Depois questionam-nos a opção, tentando descobrir-nos um namorado (que não temos), questionando, quando temos, a razão pela qual não o apresentamos à família. Questionam-se sobre a sua origem e características. Questionam-nos sobre as suas intenções - e as nossas - achando que por não ser sério, é questionável. Questionando a importância dessa relação quando, na maior parte das vezes, nem nós (ou eles), temos a exacta noção dessa importância. Que nem queremos ter, porque isso equivale à caricatura do primeiro encontro em que um deles fala sobre filhos e casamento. Nem sempre é um deixa andar ou um deixa ver. Por vezes é apenas o que é. No questions asked. No strings attached.

Se depois desse momento continuarmos solteiras, então é porque não conseguimos encontrar "o tal" ou porque não levamos as relações a sério. Somos isto e aquilo. Vamos ficar para tias. A palavra solteirona emerge no horizonte como uma nuvem muito cinzenta que se poderá abater sobre nós. So what?!... No caso deles, levantam-se as suspeitas. Se tem amigos próximos, ou muitas amigas sem se envolver com nenhuma delas, está o caldo entornado porque deve ser gay. Como se o mundo desabasse. Na família a dúvida persiste, mesmo que ele negue. São precisas provas para os acalmar. E quanto maior a família mais temos de os apaziguar. Os jantares e encontros com os primos, que são sempre um exemplo, ou uma desgraça pior do que a nossa, as festas de Natal com os tios que nos agarram a bochecha - mesmo quando já não temos idade para isso - perguntando sobre namoros e emprego, soltando suspiros e o eterno "no meu tempo..."

O tempo é o nosso, não deles, e não há familiar que verdadeiramente o entenda. A não ser aquela tia rebelde, a quem olham meio de lado considerando-a algo hippie ou esquisita, a tia modernaça que nos deu um cigarro às escondidas ou aparou outros golpes quando precisámos. A que nos fita à mesa suspirando sem suspirar, sabendo exactamente o que pensamos porque ainda agora, muito tempo depois dos seus vintes, continua a ouvir os comentários que não quer, respondendo - sempre - o que não querem ouvir. A irreverente, portanto. Um arrepio de gente. Solteirona, claro está.

Se optarmos por estar numa relação, começa a conversa do casamento, enquanto a mãe vai mentalmente preparando o enxoval que a proibimos de fazer, e o pai olha de alto abaixo aquele gajo que lhe vai roubar a filha. Não querem saber o que pensamos, preferem pensar que aquele é que é, mesmo sabendo que aquele não é, e nunca será. É apenas o que está, naquela altura. Em seguida contabilizam-nos as relações questionando se não será (já) demais porque vai sendo tempo de assentar. Sentamo-nos pela exaustão da pressão mas não desistimos de fazer o que queremos. E, também nós, pressionamos. No sentido contrário, claro está.

Até que, do nada, anunciamos que vamos casar. A família em êxtase até ao potencial rebuliço de um eventual divórcio ou a alegria do primeiro filho. Não sem antes pressionarem - uma vez mais - em relação à casa e sua decoração, organização de gavetas, móveis demasiado modernos e outros pormenores. Na gravidez, o que devemos ou não fazer. Comer. Comer. Comer. A criança nasce e todos sabem o que fazer, como se a maternidade não tivesse qualquer ponta de intuição. Quando engravidei, mais do que me perguntarem sobre a barriga, perguntaram-me se não ia mudar de carro. Na primeira vez não entendi, nem soube o que responder, porque me parecia óbvio que tal não seria necessário. Nos 30 segundos que medeiam a pergunta e a resposta percorri todos os elementos relevantes, relacionados com a idade, segurança e características do automóvel e continuei sem atingir. Foi então que apontaram para o veículo, afirmando que tinha 3 portas... Tenho uma amiga que criou 3 filhos num carro com 3 portas até ao limite do espaço. Trocou quando lhe foi possível. Especialmente, quando a segurança assim o exigiu e o espaço se tornou exíguo. Com ela, percebi que era desnecessário trocar de carro quando nasce uma criança. Estamos, aliás, mais protegidas do frio e da chuva porque entramos com a criança no carro para lhe apertar o cinto, passando para o lugar da frente directamente. Obriga a uma certa ginástica. Mas ginástica é o que todas as mães fazem a partir do momento em que nasce um filho. No harm done.

A pressão não acaba aqui. Depois do primeiro, a pressão para nascer o segundo. Porque precisa de um irmão. Porque... Porque...

Também não acaba a pressão relativa à nossa relação e o que fazemos dela. Sejamos casados ou solteiros, há sempre alguém, a quem não perguntámos nada, que acha que sabe o que é melhor para nós. Cada relação é o que é, com características únicas que cada um - dos dois - saberá gerir. Na verdade, sabemos sempre o que é melhor para nós. Mesmo que, aparentemente, não seja...

Teoria do caos

Não gosto de inércia. Menos ainda do cão que ladra e não morde. Aquela atitude de protesto sem consequência. Admiraram-me os americanos nas eleições sem, contudo, me sentir verdadeiramente surpreendida. Surpreendentemente sim, a reacção de quem, obrigado a aceitar a vitória, não se deixa derrotar. Ou pelo menos, de quem, no calor do momento, prefere planear a acção, arregaçar as mangas e manter-se à tona de água até o temporal passar. Muitos americanos saíram à rua em protesto, mesmo sabendo que esse protesto nada irá mudar. Hoje percebo que não se ficam por aqui. Pacificamente estão a tentar unir-se em torno de uma causa comum: a defesa de todos os que o actual presidente dos Estados Unidos da América ousou ameaçar, marginalizar, ostracizar e humilhar durante a sua campanha eleitoral. Não faltam apelos no Twitter para a reunião em torno de uma causa comum. Porque a vida é feita de causas. Temendo a perseguição planeiam gerir o medo, derrotando o ódio, através do amor. Porque continuamos a acreditar que o amor acaba sempre por vencer. É assim nas histórias de amor que nos contaram. Pode ser também assim na vida real. Basta deixarmos.

© Anders Held

© Anders Held

© Anders Held

© Anders Held

Na rua, nas redes, nas conversas, as pessoas indignadas e eu sem saber exactamente o que escrever. Sei o que pensar. Acima de tudo, sei que demasiadas vezes nos interessa a política alheia. O que se passa na terra dos outros. Será assim ou estarão hoje todas as terras e contextos interligados?  Neste caso, há curiosidade, interligação, com razão. Afinal, a Teoria do Caos é mesmo assim, pois quando uma borboleta bate as asas em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque. E Nova Iorque, com ou sem borboleta, está ao rubro.

Teoria do caos no seu melhor?

Esta é uma nação enorme, no que respeita à dimensão e população, para ser ignorada e pode, por isso, controlar directamente o que acontece em todo o mundo. Afinal, a borboleta não está em Tóquio...  Os E. U. A. são uma potência militar, política e, economicamente, controlam muito do que se passa aqui, deste lado do oceano. Juntamente com a borboleta de Tóquio, dominam a economia mundial. Se por um lado as pessoas não aceitam um Presidente com um all day bad hair day, por outro deitam lágrimas de crocodilo em relação a Mrs. Nasty e começam já a aplaudir a senhora que se segue, prevendo-se que passe de 1ª Dama a all mighty dama.

Não sei - não sabemos - o que acontecerá amanhã mas sei que os primeiros 100 dias de Trump serão, no mínimo, muito pouco consensuais. Também sei que Michael Moore, que tem por hábito colocar o dedo na ferida e rodar para ver o circo pegar fogo, mostrando os meandros do poder e da sociedade americana, já se manifestou. O que quer sempre dizer qualquer coisa...

Continuemos a vida e a viver, pensando que não nos deixaremos derrotar. Pelo menos, não assim. Hillary tornou-se aparentemente a candidata perfeita porque não se desbragou como o fez Trump. Sempre tive dúvidas sobre a sua auréola e basta olhar para a evolução da comunicação em torno desta candidata para perceber que estava longe de ser perfeita. Não que Trump o seja. Muito longe disso. Adjectivar os "ismos" deste candidato transformado em Presidente é desnecessário... Contudo, a sua vitória é, apesar de tudo, útil. Serve para nos recordar que o mundo muda, mas não muda assim tanto. Que se vai alterando, mas não tão depressa quanto gostaríamos. Se Hillary tivesse ganho, muitos aspectos relativos ao papel da mulher na sociedade poderiam mudar. Por imitação, as suas acções nos Estados Unidos seriam seguidas atentamente por outros países, provocando um lento efeito de osmose. Na verdade, o que temos agora é um retrocesso. Ou a ameaça desse retrocesso. Uma cabeleira alaranjada que atenta contra a de qualquer mulher. Mas pode ser, também, entendida como uma notificação para continuarmos, sermos cada vez mais unidas e fortes - coisa que não somos, estarmos atentas àquilo que se passa no mundo - que não estamos, para pressionarmos a evolução do mundo.

Se ganhou, alguém votou em Donald Trump. Já sabemos que muitas mulheres votaram no vencedor porque não se identificavam com Hillary, vista como a candidata do sistema e, por isso, longe de ser a candidata ideal. Era, para muitos, o menor dos nossos males, uma porta aberta (ou entre-aberta) para as questões da igualdade e diversidade. Mas não era garantia da mudança. Não estou a defender Trump. Nem os votos em Trump. Mas temos de entender que um reality show é um reality show, no qual ganha o concorrente mais controverso. Ganha sempre aquele sobre quem recaem as atenções, abafando, no caso, a política nacional, mantendo-nos afastados daquilo que mais directamente nos afecta. Também temos a nossa política de cordel, os nossos momentos altamente romanceados, transformados numa novela que optámos por ignorar ao longo das últimas semanas. Em relação às nossas, as séries americanas são mais populares por alguma razão...

Há um ano estava de viagem marcada quando atacaram Paris. Se os terroristas impediram uma reunião porque as fronteiras foram fechadas, não impediram, contudo, a realização do maior encontro mundial na área da rádio, meses depois. Se pensámos e repensámos a questão? Sim. Se decidimos manter a localização planeada e já anunciada? Sim. Mantivemos a nossa decisão e, apesar de tudo, tivemos casa cheia. Foi um dos maiores RadioDays Europe - talvez mesmo o maior - que esteve para ser cancelado por causa do que aconteceu em Paris. Não tem comparação mas, se agora, como antes, baixarmos os braços, assobiarmos para o lado ou nos rendermos, estamos a ceder ao medo. Trump não é um terrorista. Mas mete medo, razão pela qual muitos americanos já saíram à rua protestando contra a sua ideologia...

Tramp, though not TRUMP.

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Everything happens for a reason. I'm still wondering the reason why this happened. 

Podia limitar-me a escrever esta frase. Todos ou, pelo menos, uma grande parte, iriam entender. 

A manhã começou igual a tantas outras.  

Um som irreconhecível, ao longe, muito longe que subitamente se torna familiar... Uma mão que alcança um botão para o silenciar. O ritual de enroscar, mimar, virar e pensar que são apenas mais cinco minutos. Sentir o corpo a recusar-se, a deixar-se embalar no quente confortável... Mais cinco minutos e sabemos que não são apenas cinco. Uma coragem que nos chega não sabemos de onde. O corpo estica-se. Espreguiçar. Abrir os olhos. Sair da cama com os olhos semi cerrados. Lá fora amanhece. Céu cinzento. Estrada molhada. Movimentos que se repetem, acções voluntárias que conhecemos de cor. Depois, na mesa, as notícias. Na rádio as palavras que se sucedem sem dizerem o que queremos. Subitamente. A frase inquestionável. Continuamos como se nada fosse. Como se não nos afectasse. É impossível ignorar. Tentamos manter a normalidade e comentamos a vitória de Trump. Não estamos surpresos, embora queiramos pensar que sim. Estamos siderados embora queiramos reagir. Aconteceu o que sabíamos que provavelmente iria acontecer e que preferimos pensar que jamais poderia acontecer. 

He didn't beat the odds. He managed the odds. 

Como numa relação que está morta, tentamos ignorar os sinais, mesmo quando sabemos serem reais. Como a fast food da qual tantos querem fugir sem lhe conseguirem resistir. Como aquela shameless selfie que nos pode arriscar a vida mas que não desistirmos de conseguir.

A nossa atracção pelo abismo vem de uma necessidade humana de enfrentar os nossos medos mais profundos, de nos testarmos e avaliarmos. Como as crianças, de esticar a corda ao limite a ver se parte. Sabemos que irá acontecer mas teimamos em não acreditar que será assim.

Convencemo-nos de que seria uma mulher a ocupar a presidência dos Estados Unidos da América. Afinal, a evolução social e cultural da sociedade iria nesse caminho, não é? Depois do Obama, uma mulher. Depois de uma mulher, um homossexual. Depois? Não pensámos nisso. Como também nos esquecemos de observar  o mundo e ouvir as suas vozes, revolta e lamentos. Na Turquia, na Hungria, em toda a Europa... Radicalismo que nos ataca e se entranha como um atentado à democracia. Governos inesperados que se formam aqui e ali. Coligações e interacções nas quais jamais iríamos apostar.

Ninguém sabe o que virá a seguir. Não só pela imprevisibilidade que lhe está associada, como pela inexperiência em matérias políticas sérias. É rude, não tem filtro. Talvez por isso tenha cativado um machismo velado que ainda existe na nossa sociedade tão supostamente pró-feminista. Não é. Parece. O mesmo se aplica ao racismo. Aos imigrantes. Somos todos iguais até ao momento em que é mesmo preciso acreditar que somos. 

Para além de ser um bully, um rebelde fora do sistema, Trump é também espertalhão. Não fez mais do que aproveitar as fragilidades de cada um de nós, pavonear-se sem conteúdo ou substância enquanto debitava frases feitas que ecoam como aquelas musicas más que nos ficam no ouvido dias inteiros. Apelou e usou as brechas abertas pelo próprio sistema, cavalgando em cima das tendências, dos gritos de revolta. Não deu voz a ninguém nem será a voz dos oprimidos porque os ignora. Situou-se na zona de sombra que a maior parte dos políticos quer ignorar por ser a mais difícil. Apanhou-lhe o jeito e foi repetindo a receita até chegar à Casa Branca.

E não é que chegou? 

 

 

UNPLUG

Lembram-se do OFFLINE de sábado passado?

Para além da necessidade de ficarmos desligados, do inglês offline, há outra ideia que defendo e que, hoje, parece absurda: chama-se desligar o telefone, do inglês, unplug.

O iPhone tem uma funcionalidade maravilhosa chamada "do not disturb/não incomodar" que serve exactamente para que não nos incomodem. Para nos deixarem em paz. Apenas recebemos telefonemas dos números que estão na nossa lista de favoritos - vocês têm essa lista definida, não têm? - Todas as outras chamadas são silenciadas, bem como as mensagens. Tudo continua a funcionar, mas apenas os favoritos nos conseguem, de facto, contactar. E se está nos favoritos é porque tem direito a interromper a qualquer momento...

Defendo o direito a não sermos incomodados. A termos o telefone ligado para emergências ou (os favoritos) sem corrermos o risco de telefonemas profissionais interromperem o nosso final de dia (ou o fim de semana).

"Mas podemos perder alguma oportunidade, assim!..."

"Como fazemos se for algo realmente importante?..."

"Há coisas que não têm hora!..."

"Com a minha profissão/responsabilidade não posso..."

São questões que já me colocaram quando comentei a minha decisão de utilizar o do not disturb. Programei-o para se auto-activar diariamente a partir de uma determinada hora e, agora, nem me lembro que tal acontece... 

@imore

@imore

Para todas as questões colocadas a minha resposta é sempre... é uma opção. Porque se for verdadeiramente importante quem está do outro lado insiste. Envia uma sms ou um e-mail. Tenta novamente, no dia seguinte. Quem nos quer contactar não desiste porque às oito da noite não lhe atendemos o telefone. Se for realmente importante está nos favoritos e se não está, é porque não é, DE FACTO, importante, apenas profissionalmente relevante. Se não nos contactaram durante o horário laboral, então poderá (terá de) esperar. As coisas têm hora e cabe-nos a nós tomar essa decisão. Impedir que o trabalho invada a nossa vida privada tomando conta de tudo como se não houvesse ontem ou amanhã. Da mesma forma que o trabalho tem valor, não o podemos desvalorizar com a excessiva disponibilidade que hoje nos exigem, como se o telefone fosse uma janela sempre aberta para a nossa mesa de trabalho. Não é, mesmo que o número seja profissional (e pago por uma empresa). Não posso, argumentam alguns, ao que respondo sempre com um incisivo "porquê?". Não entendo a razão pela qual, subitamente, nos deitamos e acordamos olhando para o telefone, verificando mensagens ou o e-mail, como se às sete da manhã, ainda enrolados nos lençóis, se resolvesse alguma coisa...

Um dia decidi que o telefone ficaria fora do quarto. Acabaram-se as piscadelas de olho ao Instagram ou ao e-mail que nos retiram horas de sono e a atenção do que é importante. Contudo, voltei a trazer o telefone para a cabeceira. Uso uma aplicação que me regula o sono, indicando-me a hora exacta a que devo acordar. Regrei-me e, apesar do telefone estar à cabeceira, está em modo avião para não perturbar. É um despertador.

Na ubiquidade e excessiva presença da tecnologia precisamos traçar limites. Criar definições concretas do que fazemos e como fazemos, não deixando que aquele dia excepcional volte a tornar-se a regra. A interferência com a esfera pessoal e familiar pode arruinar cada um desses contextos e prejudicar seriamente o profissional.

@imore

@imore

Já fui assim. Já mantive o telefone sempre ligado. Já antendi telefonemas "importantes" a desoras, já aguardei o retorno de uma chamada a meio do jantar. Porque, do outro lado, estava alguém cuja agenda não lhe permitia ter aquilo a que chamamos "horário". Porque excepcionalmente precisei da sua resposta para dar seguimento ao meu trabalho. São excepções. Não defendo fundamentalismos. Um dia percebi que era demais. Que o que fazia sentido não era isto e que temos de começar por algum lado. Continuo a aceitar uma ou outra excepção. No geral, o trabalho tem horas, as urgências são no hospital, o que é importante manter-se-á importante na manhã seguinte e sim, as coisas têm hora e todos podemos - temos o direito - à nossa individualidade, espaço e privacidade.

 Por isso defendo o direito a desligar. Acima de tudo, o direito a não atender o telefone a partir de uma determinada hora. Primeiro regrei a utilização dos sites de redes sociais, especialmente no que respeita à resposta às mensagens. Depois o e-mail e, finalmente, o telefone. Está nas nossas mãos aceitar que a tecnologia nos domine, ou aprender a dominá-la...

About misconceptions (mal entendidos)

The pressure to fit into an uncomfortable mound #BeingHuman #HeForShe @edgarramirez25

A video posted by #HeForShe (@heforshe) on

@heforshe The pressure to fit into an unconfortable mound #BeingHuman #HeForShe @edgarramirez25

@heforshe The pressure to fit into an unconfortable mound #BeingHuman #HeForShe @edgarramirez25

Para ver e ouvir até ao fim.

Gosto de homens (ponto, mas ainda mais dos) que conseguem perceber que esta coisa de ser feminista não se relaciona em nada com manias de gajas que acham que sabem mais do que os outros, que têm a mania, que odeiam os homens ou as outras mulheres. 

Quando falamos de feminismo, estamos principalmente a falar de direitos. Quando falamos de género, falamos de igualdade. Nenhum é exclusivo das mulheres, muito embora, na maior parte dos casos, respeite às mulheres. Porque, por exemplo, ganham menos trabalhando o mesmo número de horas, com as mesmas responsabilidades; se dedicam mais horas ao trabalho doméstico e a cuidar da família. Porque estão limitadas no acesso à educação. Porque estão sub-representadas na política, na economia, nos negócios. Não vale a pena ser exaustiva. O engano está em pensar que a questão da igualdade e dos direitos é exclusiva das mulheres. Pode haver maior pressão sob as mulheres e serem muitas mulheres a levantar a voz contra a desigualdade. Na verdade, acredito na igualdade a na defesa desses direitos. Para homens e mulheres. Dizem que é ser feminista. Pois que seja. Mas também levantaria a minha voz para defender a situação contrária, como alguns homens fazem, lembrando que a desigualdade não é uma questão de género.

5 horas (II)

Há uma semana escrevi um artigo sobre este drama que é trabalharmos mais do que deveríamos (devemos) apelando a uma tendência que aponta para uma jornada de 5 horas. Experimentei e resulta. Contudo...

Não é verdade que cheguem cinco horas para um dia de trabalho, pela simples razão que não inclui, nessas cinco horas, todo o trabalho não remunerado que está associado ao trabalho remunerado e o outro, aquele que também nós, ignoramos, e que não é dedicado a momentos de lazer.

As compras no supermercado, a fruta na frutaria, o pão na padaria, os chinelos para a natação que é preciso trocar, o documento que é preciso ir entregar, o pagamento das propinas, o gasóleo para o carro andar, a preparação de refeições e o tempo na cozinha, a roupa lavada e por lavar... Os detalhes da vida que nos ocupam tempo e que, na maior parte dos casos, sobram para quem, na família, tem mais tempo. Quem tem profissões liberais. Quem trabalha em casa. Quem, não tendo uma profissão liberal, pode fazer a gestão do seu tempo. Quem optou pela regra das cinco horas...

Se, contudo, excluirmos estes pequenos detalhes selvagens que nos interrompem dois aspectos importantes: o trabalho e o descanso, as cinco horas podem chegar, desde que sejam geridas de forma eficiente. Há contudo, muita injustiça neste processo, porque há quem trabalhe 8 + 5 horas e nem assim o trabalho chega a estar concluído. Imagino quem trabalhe por objectivos, por conta própria ou que tenha a seu cargo a gestão de clientes. Que os visite e se desdobre entre reuniões. Não há tecnologia que garanta que o trabalho de follow up se faça sozinho, que as encomendas e sua efectiva gestão se processe sem intervenção humana. Que ocupe o seu tempo depois das reuniões ou do tempo passado com clientes tratando... "do resto"... Lembrei-me também de profissionais ligados ao ensino e ao exercício físico os quais, depois de um par de horas (normalmente 5 ou mais) a dar aulas, ainda precisam de tempo para a sua rotina de treino (dar uma aula não equivale a fazer uma aula) e preparação de aulas. Ou correcção de trabalhos, acompanhamento de alunos, esclarecimento de dúvidas... Nestes casos as 5 horas são uma mera ilusão...

Também dizem que "quem corre por gosto não cansa" e isso também não é verdade. Cansa. Mas não desmotiva, o que é diferente. Orgulho-me de poder trabalhar onde quiser, facto que se vira frequentemente contra mim. Porque estou em casa e poderia (acrescentem o que quiserem porque começa sempre com "ter feito qualquer coisa que nada tem a ver com o meu trabalho") ou porque tive o privilégio de usar o computador portátil e trabalhar numa esplanada virada para o rio (esquecem-se de que tive de acelerar o ritmo porque a deslocação também conta para o total das 5 horas), ou porque posso fazer o que quiser e trabalhar quando me apetecer. 

Não é assim. Não ter horários, obrigações ou definições específicas obriga a uma capacidade de organização, resiliência, concentração, responsabilidade e auto-realização que nenhum procrastinador tem. Nada contra. Também já fui lavar tachos para evitar uma ou outra tarefa e coloquei a pesquisa sobre a melhor forma de limpar janelas à frente de algumas actividades realmente importantes, para as concretizar no último momento, com o relógio em contagem decrescente. Quem nunca?...

É substancialmente mais fácil ter um horário e local de trabalho definido do que a liberdade de escolher trabalhar no gabinete da faculdade, no da RTP ou em casa. Também facilita saber exactamente que tarefas nos estão adjudicadas para aquele dia, do que ver crescer a lista de afazeres sem aparente solução. Depois do que escrevi na passada Segunda-feira arrisco-me a ser tomada por uma grande mentirosa. Que não sou.  Porque as cinco horas são, de facto, contra tudo e contra todos, e para a maior parte das profissões, possíveis. Para a semana explico-vos como...

@nolanissac

@nolanissac

OFFLINE

Escrever sobre uma decisão de desligar tudo numa plataforma exclusivamente online pode parecer estúpido, mas não é. Sim, estou a convidar-vos a desligarem. TUDO. A largarem este texto, a desligarem as notificações, a deixarem o telefone esquecido algures em casa e aproveitarem a vida. Essa que acontece para lá de qualquer ecrã (televisão inlcuída) e está cheia de riscos mas, também, coisas boas para viver.

Esta ideia não é nova. Já experimentei várias vezes, normalmente em períodos de férias. Nos restantes dias, confesso, não são raras as vezes em que estamos a conversar à mesa, depois da refeição, e o smartphone é utilizado como ferramenta de apoio para suportar afirmações ou ideias, com pesquisas no Google, exemplos, procurando vídeos ou imagens. Com apontamentos que explicam conceitos complexos ou simplesmente para consultar o dicionário e explicar palavras difíceis. Será portanto, o equivalente às enciclopédias que antes usávamos. Espero… Prefiro pensar que sim, quando, na realidade, não é.

It’s Friday evening. The smells of rosemary chicken and freshly-baked challah fill the house. My daughters, 3 and 9, sigh as I gently detach the iPads from their laps. One by one, our screens are powered down. My husband, Ken, is usually the last holdout, in his office, madly scrambling to send out just one last email before the sun sets. Then he unplugs too. We light the candles, and sit down to a sumptuous meal.
— Tiffany Shlain

A ideia já é antiga mas voltou à baila. Da mesma forma, o apelo para um certo regresso ao offline, libertando-nos das redes e as crianças dos aparelhos electrónicos faz parte de uma cultura que defende uma utilização regrada da ubiquidade tecnológica, dos aparelhos electrónicos e digitais que nos rodeiam. Em 2013 a Tiffany Shlain contou-nos sobre este hábito que entretanto se institucionalizou na sua família, desligando todos os aparelhos electrónicos à Sexta-feira para os ligar novamente 24 horas depois, no sábado ao fim do dia. Apenas o telefone fixo fica disponível.

Tudo começou porque Tiffany sentiu necessidade de dedicar total atenção ao seu pai, nos momentos bons, fruto da sua degeneração cerebral, resultante de um cancro no cérebro. Desligava o telefone. Isso e a implementação do National Unplugging Day levaram-na, juntamente com o marido, a criar esse momento em que desligam. Semanalmente e não apenas uma vez por ano. O tempo parece que estica, porque naturalmente, naquelas 24 horas as solicitações e distracções são menores, consequentemente, a atenção e foco no que é verdadeiramente importante aumenta, da mesma forma que as endorfinas são libertadas com esta sensação de liberdade e de um ritmo mais lento, que se contrapõe à excessiva acelaração, conectividade e notificações constantes da nossa sociedade actual.

I feel more grounded and balanced. We try to be as unavailable as possible, except to each other and our children. I feel like a better mother, wife and person.
— Tiffany Shlain

Às vezes sabe bem desligar. Entrar numa espécie de modo zen para nós e aqueles que são importantes para nós. Sem selfies ou actualizações de estado nos sites de redes sociais. Sem espreitar o que publicam os amigos, sem ler as notícias ou o email. Apenas nós. Os que são importantes para nós. O dia de hoje já começou. Que tal aplicar a regra e começar hoje, ao fim da tarde? Fica o desafio… Até já.

@CopenhagenCoffeeLab where they have this laptop/smartphone free table ♡

@CopenhagenCoffeeLab where they have this laptop/smartphone free table ♡

5 horas

As pessoas mais produtivas têm hábitos que as revistas, sites de notícias e plataformas motivacionais repetem à exaustão. Uma delas é começar cedo, a outra é eliminar o dispensável. E todos sabemos que essa é a parte mais difícil. Ou serão as partes?...

Tenho para mim que a procrastinação acontece porque passamos demasiadas horas no local de trabalho. Sim. Demasiadas horas.

Reparem: quando deixam andar e vão adiando uma tarefa não se esforçam para a executar e concluir antes do prazo? Não é nesses momentos que desligam notificações, colocam o telefone sem som e se concentram no que é, de facto, relevante (i.e., terminar a tarefa)?

A maior parte das pessoas afirma que trabalha melhor sob pressão e que, por essa razão, arrasta, até ao limite do aceitável, a execução de muitas tarefas. Contudo, também sabemos que sob pressão a concentração pode atingir picos mas a capacidade de análise diminui, bem como a eficácia de revisão e reflexão. Simplesmente porque deixa de haver tempo para isso e nos concentramos na conclusão da mesma. Inspirada por alguns relatos de empresas que diminuíram o número de horas do dia de trabalho, aumentando a produtividade, rentabilidade e satisfação dos empregados, decidi iniciar uma experiência: 5 horas.

Vocês sabem que sou uma espécie de freelancer - embora empregada por conta de outrem - que, na maior parte dos dias define o seu horário. O meu trabalho depende de concretizações (não necessariamente objectivos) os quais, com excepção de momentos presenciais definidos, podem realizar-se aqui ou quem qualquer parte do mundo. Por isso, auto-motivação, organização e responsabilidade definem boa parte dos requisitos para estas funções. Boa parte das quais também não tem horário definido para a sua realização. Porque sou eu a definir o que faço, quando e como faço, decidi fazer uma experiência e aplicar a regra das cinco horas. Faço 4 horas + 1 hora. E não é que resulta?

Em duas horas consigo, por vezes, fazer o mesmo que faria em quatro horas com interrupções, passagens pelos sites de redes sociais e muita conversa desnecessária. Eliminando o que não contribui para a realização da tarefa, espantem-se, a tarefa conclui-se mais depressa. Para quem está num open space é difícil ignorar os colegas que nos abordam, que desafiam para mais um café ou qualquer outra distracção. Não é impossível. O truque dos auscultadores e a palavra "não" (porque agora não posso interromper ou porque não me apetece) funciona e deve ser usado.

Alguns vão perguntar "para quê se tenho de cumprir as 8 horas que estão definidas?!"

Para aumentar a nossa satisfação pessoal e profissional, para nos sentirmos mais realizados e, consequentemente, mais felizes. Porque nas horas que sobram (3 horas) podemos fazer as compras lá para casa, pagar as contas, comprar roupa ou simplesmente ver as montras. Podemos estudar, passear qual voyeurs, ouvir música ou, porque não, criar um blog! 

5 horas. Para vivermos melhor!

Regras de ouro para chegar ao topo

@goian

Há várias regras mas, para mim, as mais importantes são, de facto, as mais simples:

liberdade

autonomia

raciocínio

dinamismo

Ter tempo livre e liberdade para pensar. Experimentar várias coisas tomar decisões, ao mesmo tempo que abandonamos o sedentarismo que nos persegue. Serve para as crianças e os adultos. Sem a pressão dos resultados, o excesso dos trabalhos de casa ou a agenda preenchida. A competitividade exacerbada ou a fraca educação cívica,  o pouco tempo para brincar e as limitações à individualidade. Géneros à parte, categorias e medidas para definir o que fazemos e como fazemos. Brincar cansa. Mas cansa muito mais não poder brincar. Por incrível que possa parecer, tudo começa na infância. Na escola...

Os Finlandeses sabem-no há muito tempo e Moore descobriu-o recentemente. Este é um documentário que dá vontade de mudar de país. Especialmente para quem está nos E.U.A.

Praise YouTube onde encontramos excertos de tudo o que precisamos. Mesmo o que preferimos ignorar!...

Aprender a QUERER. Para PODER.

Querer é poder, sempre ouvi dizer. Na verdade, sabemos que entre querer e realmente poder há um número infindável de verbos que nem sempre se conjugam no futuro. O presente é duro, cruel, interpõe-se entre o que queremos e o que podemos. Derrota-nos. Derrotamo-nos?

Sim. Derrotamo-nos. Porque a capacidade para sonhar e concretizar depende apenas de nós. Com portas abertas ou fechadas, nãos à mistura, o sim que tanto desejamos, que teima em demorar.

Elas inspiram-me. Fazem-me acreditar. Porque é preciso acreditar para conseguir. Pensarmos que sim, que somos capazes, que todos os impedimentos em que acreditamos são, na realidade, estratégias inconscientes que nos impedem de ver largo e longe. Ao contrário de uma certa cultura individualista e competitiva, as #chicaspoderosas são pela partilha de conhecimento e competências, pela ajuda mútua, pelo estabelecimento de relações que vão fazer com que todas (todos porque é completamente inclusivo, ainda que pensado por mulheres e para mulheres) possam crescer. 

O tempo não é de ficar confortavelmente sentado no sofá (alguma vez foi?!). É de arriscar, abraçar o mundo porque este está, finalmente, aos nossos pés, mesmo que o queiramos ignorar.

Não ignorem. Apaixonem-se e vão atrás do que querem. Antes dos outros estamos nós. Antes de nós, nada. Aceitarmos o que somos para que os outros nos aceitem. Como?

(proibido começar a dizer baixinho "ah, sim, pois isso é muito bonito e tal...")

#1: saber o que queremos

Parece fácil mas não é. Implica aprender a dizer não mesmo antes de começarmos a ouvir não. Se soubermos o que não nos realiza, o que não nos motiva, o que não nos faz feliz, então sabemos - mesmo que pensemos o contrário - o que queremos. Muitas vezes o processo é complexo, demorado, difícil e, por isso, será objecto de um artigo exclusivo sobre o tema.

#2: ir atrás (do que queremos)

O primeiro passo é o mais difícil. Para conseguirmos dar esse passo, depois de sabermos o que queremos concretizar temos de verbalizar. Contar a alguém a nossa ideia, projecto ou objectivo. Explicar a quem nos pode ajudar, ou simplesmente, motivar, o nosso plano. Sem medo da cópia,  das imitações, sem o pânico de que nos roubem a ideia. Porque todas as ideias podem ser copiadas. O que não quer dizer que sejam iguais.

#3: não desistir

Estar sempre focado no objectivo final. Pode ser um novo emprego, uma mudança de rumo profissional maior do que a mudança de emprego, realizar algo ou, no foro pessoal, dar início a qualquer processo. Ou coisa. Não sei se será válido para encontrar um novo amor. Mas... tudo é possível. Vale chorar, gritar e arrancar cabelos quando a frustração nos invade. Por isso é tão importante ter um pacer (running buddy) que nos ajuda a não desmotivar. Ou nos passa os lenços de papel e diz que devemos evitar a comparação com os outros, ignorando igualmente o suposto sucesso que encontramos no Facebook. Tudo começa do nada, e nada depende apenas de nós, pelo que estabelecer e manter uma rede de relações pode ser a solução para muitos dos nossos aparentes problemas. Ajudar para ser ajudado. E garanto que o que damos, recebemos em dobro. Não é karma. É mesmo assim. Isso, e comemorar todas as pequenas vitórias. Por mais insignificantes que possam parecer, ajudam a concretizar aquela grande vitória que pretendemos alcançar. Keep going!