2015

Louca na mesa. Lady na cama.

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Não é assim, mas eu adaptei. Preconceito à parte, a canção do Marco Paulo conta a história do maior desejo de todos os homens: a boa na cama que também é bem educada. Esqueceu-se de acrescentar ao pacote o efeito mãezinha: a louca na cama que é uma lady à mesa e engoma as camisas a preceito.

Porque, no fundo, é isso que procuram. É para isso que servimos. Ou foi para isso que nos educaram: a garantir o bem estar dos nossos meninos. E quem garante o nosso? Porque quando se habituam a isto, querem sempre mais até ao ponto em que desaparecemos ou nos fartarmos. 

Não somos todos iguais, mas somos muito parecidos. Eles e elas. Quando eles encontram a louca na cama esquecem o resto, até ao momento que precisam de uma canja. Mal da louca se não fizer uma boa canja. Deixa de ser a louca na cama e passa a ser apenas mais uma louca na cama. Em rigor não é assim. Eu sei e vocês também. Mas é um bocadinho assim. Porque nos educaram desta forma. Eles brincam às guerras e elas às casinhas. E, nas casinhas, o Ken é sempre sedutor e a Barbie sempre seduzida. Gosto de ser seduzida, não preciso que os papéis se invertam em absoluto. Até porque, ao longo do tempo foram aparecendo muitas mães como eu, que os educaram a ser independentes e a fazer a canja para elas. Que não precisam de ser loucas. Basta apenas que sejam ladies com uma pontinha de loucura. Gosto de um homem que hesita na escolha da camisa. Que tira uma para vestir e opta por outra. E que não deixa a primeira em cima da cama à espera que se arrume sozinha. Porque não arruma. Ou que não deixa traços e objectos espalhados pela casa, com meias aqui, sapatos ali para, depois, perguntar onde estão as chaves do carro. Ela não tem de saber. Ele que procure. Também.... Não te custava nada! - é a frase que invariavelmente ouvimos.

Não, de facto não custa nada. Custa apenas a diferença entre o momento em que cada um trata de si e o outro, em que um trata de todos. Dos que não sabem cuidar-se e dos que, sabendo, preferem ser cuidados por outrem.  Não resulta. Passa de prazo. Mais cedo, ou mais tarde, acontece uma de duas coisas: a louca na cama passa a ser a louca na mesa. Vira a mesa, deixa de ser uma lady e grita a plenos pulmões. Ou cede na loucura, despeja os copos e os pratos no lava-loiças para, furiosamente abrir a água, deixar escorrer, gastar mais detergente do que é necessário, deixar a loiça secar no escorredor e ficar com uma neura constante cuja origem deixou de ser capaz de identificar.

Quando - e se - me detenho a pensar na - serão nas - razão pela qual nós, mulheres, aceitamos partilhar a vida com vocês, homens, fico muitas vezes sem palavras. Porque não há palavras que o expliquem. Serão certamente decisões de miúdas novas, inexperientes, apaixonadas pela vida e a ideia de viver, sem a menor noção do peso e do significado de cada uma das palavras. Boy meets girl, they fall in love and stay together. É tão bonito, no cinema. Poderia ser, na vida real, não fossem eles - aqueles a quem num determinado momento da nossa vida decidimos incluir na nossa vida - dependentes mimados.

E nem sempre a culpa é das mãezinhas e da ideia maternal de protecção dos seus queridos meninos. É da sua natureza serem uns valentões que não vertem uma lágrima, mas que se portam como crianças numa relação, na partilha do espaço e da vida a dois. Apenas aí porque, no resto, pode ser perfeito. Haja amor.

Men's Roles in a Gender Equality Perspective (ICS)

Men's Roles in a Gender Equality Perspective (ICS)

Na dura realidade em que o dinheiro se conta, existe essa penosa tarefa a que chamamos, exactamente, tarefa. A qual - no caso, as quais - os queridos meninos, seja lá qual for a mãezinha, entendem que não lhes compete. Existem. Vivem aqui e connosco. É mais do que suficiente. A nós compete o resto, incluindo a canjinha quando estão com febre. Mas não. Isto de termos mais deveres e menos direitos tem de acabar.

Até porque isto nos impede de avançar. mesmo que tenhamos melhores resultados escolares e sejamos altamente qualificadas, não deixamos aliviar a pressão social em torno do papel da mulher. Nisto, boa parte da culpa é nossa.

"Se há que encontrar um culpado, é a própria sociedade. As mulheres sentem-se pressionadas, não só pelos companheiros, mas também pela sociedade e pelas empresas. É dado como certo que elas terão maior responsabilidade com os filhos e com a casa", garante Pamela Stone, professora de Sociologia na universidade de Hunter e uma das autoras do estudo ao "El País".

Parte da nossa insatisfação com a carreira resulta desta culpa e a culpa não é deles.  É nossa porque os deixamos colocar a carreira em primeiro lugar. Foi assim que nos ensinaram. Pode, mas não tem de ser assim. Ou pelo menos, sempre assim.

Não é esta a guerra dos sexos. A guerra dos sexos é mais divertida por reflectir o conflito global entre homens e mulheres.

A luta de poder da qual saímos, invariavelmente, a perder. Mas, da qual, não desistimos.

Marie-Sophie Tékian:  https://unsplash.com/mstekian

Marie-Sophie Tékian: https://unsplash.com/mstekian

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#girlspower #gender #equality

Outras leituras:

Policy Brief: Homens, papéis masculinos e igualdade de género |LER|

What’s life like for women around the world in 2015? |LER|

 

Foi Natal

Dizem que o Natal é o tempo da família. De partilha, de amor e generosidade. Acho que esse é - será (ou talvez seria) - o tempo de todos os dias. Mas não é isso que vejo. Nem nos dias, menos ainda no Natal, dominado por um consumismo exacerbado em que dar significa dar algo e não dar de nós. Dar atenção, carinho, amor. Dar algo a alguém que precisa ou dar algo que alguém precisa passou, há muito, ao dar porque "tenho de lhe dar alguma coisa", com sabonetes, velas ou meias à mistura que ninguém quer comprar e menos, ainda, receber.

Não é isto, o Natal. Nem pode ser apenas isto, o Natal. Mas também não pode ser o Natal que agora vi, com lojas de pronto a vestir abertas até à uma da manhã, em noite de consoada, e um mar de gente nas ruas, enchendo a praça mais movimentada que alguma vez conheci, tornando impossível a circulação.

Times Square na noite de Natal estava repleta de turistas e outros que não sei quem eram. Às oito da noite os teatros encheram, antes disso o movimento nos restaurantes estava imparável e, depois, não faltavam pessoas a circular entre os vários pontos da Broadway. Os carros circulavam com (extrema) dificuldade. As pessoas também. Os odores, intensos, dos hot dogs, pretzels, pipocas, amendoins doces, halal food e outras especialidades que desconheço mas cujo cheiro é inconfundível, misturavam-se com a babel de sons, misturando línguas e sotaques como numa antes ouvi. Aqui, é difícil perceber quem são os locais porque a maioria não é daqui e, por isso, o global assumiu-se local, mesmo não o sendo. Há de tudo e a qualquer momento, porque a cidade não dorme. Descansa, algures na madrugada, sem cair à cama, para, pela manhã fresca, acelerar com todas as suas forças pelo Central Park, correndo, patinando ou circulando de bicicleta.

Outro dia começou, continuava a ser Natal e continuou a vida em modo "Natal turístico", com o comércio de porta entreaberta, restaurantes e afins repletos de clientes cheios de vontade de um Brunch ou uma refeição gordurosa, que misture as tradições europeias com as ideias da cozinha norte-americana. A maior parte das lojas preparava aquele que é conhecido como "second Black Friday", a 26 de Dezembro, dia em que as lojas, todas, reabrem portas para vender o que sobrou do Natal, com preços que chegam a descer 60%. É o mercado capitalista a funcionar, com o consumo estimulado não sei de que forma, garantindo um Starbucks em cada esquina e lojas multimarca que apresentam tanta - ou maior - variedade do que as inúmeras ruas repletas de comércio de toda a natureza.

São mais de 10 milhões numa área menor do que Portugal, com o mesmo número de habitantes. Isto quer dizer muitas coisas e quer, sobretudo, mostrar que ser grande não quer dizer que se seja grande coisa que é, exactamente, o espírito actual do Natal.

NYC é grande em todos os sentidos, mesmo o da coisa. Com (algumas) qualidades e (poucas) virtudes, NYC não dorme nem deixa dormir, expande-se em altura, luz e movimento a cada vez que a visitamos. Não é sempre Natal em Nova Iorque mas, não fossem as luzes exuberantes, as montras de produção sofisticada e os pinheiros preparados para serem fotografados e nem parecia Natal...

Philly, you got me.

Não é difícil apaixonar-me por uma cidade. Grande em dimensão e expressão, dinâmica e movimentada, exuberante e com requintes de rebeldia? Gosto. Polvilhada de cultura, gentes, sons, cheiros, sabores, cores e diferenças em relação ao de todos os dias? Adoro.

Philly não é exactamente assim, mas é um bocadinho assim. Antiga, com história, parte da história e berço da história dos Estados Unidos há muito que queria espreitar as ruas e sentir-lhe o pulso. Oscilando entre o novo e o velho, o passado e o presente, Philadelphia não é um must see, mas é um worth going to. O tempo foi curto para tudo, merecia mais horas para explorar os detalhes do que ficou por ver e fazer.  Encaixada entre um rio e outro, a cidade é tanto virada para dentro e para fora, ou seja, para o rio e para si própria, concentrada no centro social, cultural e artístico. Junto a um rio corremos e remamos. No outro, aproveitamos o ar e o espaço, as pessoas e o tempo.

No centro há tudo à distância que os pés alcançam. Crianças num ringue de patinagem e adultos que se encantam com mercados de Natal dominados por árvores nórdicas, iluminadas ao pormenor. Ruas cheias de gente com mais ou menos estilo, tantas no estereótipo norte americano quanto as que estão no extremo oposto. Ruas com lojas iguais a tantas outras e outras tantas diferentes, próprias do local, provando que o global nos invadiu sem, contudo, matar o local. Porque verdadeiramente local são os cheesesteaks, únicos até nos Estados Unidos. Provei dois. O mesmo sabor, ainda que um deles tenha revelado maior cuidado na confecção e, portanto, maior qualidade. Melhor sabor.

Estas são umas macro sandwiches cheias de carne de vaca cortada em tiras muito fininhas, grelhada ao ponto e com um molho cujo sabor não sei descrever, mas que é daqueles de lamber os dedos. Chegam embrulhadas num papel, comem-se à mão, lambuzam-nos e lambuzamo-nos enquanto acompanhamos com batatas fritas e limonada. Único. Para comer uma vez. E recordar para sempre como a mais awkward sandwich ever.

No quarteirão da Avenue des Artistes para além da arte e da música há lojas, restaurantes e bares, uma movida pouco parecida com a nossa, em Lisboa ou Madrid, mas que tem, também, a sua piada. Lá mais em baixo na Passyunk Av. encontramos o mundo à mesa, com uma oferta gourmet apenas equivalente em cidades como Londres. Mas é também lá mais abaixo, na mesma cidade que a Little Italy se enche de cor com cannolis e outras especialidades italianas, lojas de queijos com fila muito além da porta, venda de café que cheira mesmo a café, talhos centenários e outras tantas lojas agora dominadas por latinos e chineses. Uma torre de babel, portanto, como são, em boa verdade, os Estados Unidos da América.

O mar

Down there, the Atlantic

Down there, the Atlantic

Este artigo nada tem a ver com o mar, mas nada mais me ocorre quando estou há várias horas a sobrevoá-lo.
Ia escrever uma nova frase quando reflecti melhor porque, de facto, não viajo muito. Desloco-me muito, quase sempre para os mesmos locais, durações curtas e incisivas, bagagem de cabine, rapidez e leveza nas pernas. Não é isto, viajar. E, porque raramente viajo, feita turista, carregada de bagagem e tempo a perder, contamino todos à minha volta com estes hábitos eficientes, embora terríveis para quem não os tem. Ou quem não precisa deles. Sobram para mim as escolhas, os detalhes dos produtos de higiene, as dobras na manga  da camisola, a separação entre o essencial, o acessório e aquilo que gostávamos mas abdicamos.
Viajar é abdicar para conquistar. Abdicar dos que ficam para nos concentrarmos nos que vão, do que temos ou gostamos para ficarmos com o que realmente importa, porque a mala é só uma. Há sempre mais um par de calças ou sapatos. Aqueles que deveriam ter ficado para garantir o lugar dos outros que encontramos e nos deixam a bagagem a ponto de não fechar.
Viajar é perder para ganhar. Perdemos tempo na ida mas conquistamos um outro tempo que não tem preço, aquele que só quem vai conhece, porque voltamos sempre mais do que fomos. Mais abertos ao mundo, tolerantes, capazes de apreciar o que antes não víamos. Porque ainda não havíamos visto. Experientes, repletos de novos sabores, que conhecíamos apenas dos filmes.
Viajar é mais do que isto e começa no momento em que pensamos ir. As escolhas são múltiplas e infindáveis. Já não nos limitamos a comprar um bilhete e uma estadia, levamos daqui um roteiro que esteve nos livros e passou a estar no bolso.

A internet mudou o que fazemos e como fazemos, mudando principalmente a forma como viajamos. Procuro o hotel e quero saber o que dizem os outros sobre as instalações e o pequeno almoço, coloco-me na rua, à porta, para concretizar a sua localização, defino roteiros em função dos locais que quero visitar, sabendo que demoro 10 minutos a pé de um ponto ao outro e selecciono, ao detalhe, onde janto, criando pequenas experiências gourmet que antes eram quase impossíveis. Havia sempre quem pudesse recomendar mas, agora, sei quais são os restaurantes e joints que quero visitar porque os encontro num mapa, com fotografias e descrições. Perde-se na descoberta, no local, ganha-se tempo e a (quase) certeza de que vamos comer bem. Estou a caminho de um daqueles locais com pouca reputação gastronómica, por ter adoptado a gastronomia de outros, criando uma nova, um pouco indiferenciada. Mas estou, sem dúvida, cada vez mais a transformar as minhas viagens - aquelas longas, com tempo e mala de porão - em pequenos roteiros gourmet, para descobrir os detalhes que fazem a diferença. Saboreá-los.

Com o tempo que os turistas têm.

Chapéus há muitos...

Empregos há muitos, seu palerma. Trabalho é que não.

(adaptado da deixa de Vasco Santana, "chapéus há muitos seu palerma", no filme A Canção de Lisboa)

O mundo está cheio de cunhas e favores. Portugal não é excepção. Não me espanta. Nem me choca. É da natureza humana preferir quem conhecemos a procurar no mercado quem, de facto, tenha as competências para uma tarefa. Um amigo adapta-se. Um desconhecido, não sabemos. Mas isso não pode justificar tantas situações em que a amizade e os laços familiares se sobrepõem à competência profissional ou as escolhas que se fazem em função desses laços, abdicando dos mais competentes para deixar, na empresa, os que nos são próximos, ou próximos de quem nos lidera. Acontece aqui. Ali. Acolá. Não tenho dúvidas. Mas também sei que aqui, esses laços se tornam dominantes enquanto lá, os laços apenas prevalecem na dependência da competência profissional, numa cultura de responsabilização em que a culpa não morre solteira. Até podemos entrar pela porta dourada e de mãos dadas a alguém mas, se o resultado for mau, largam-nos da mão e abrem-nos a porta para sairmos.

O desemprego entre nós é alarmante. Sobram empregos e faltam trabalhos quando, toda a vida, ouvi dizer que havia quem procurasse um emprego e não um trabalho. Acho que não precisarei explicar o trocadilho. Na verdade, não há empregos nem trabalhos e, os que há, estão lá fora. Contactei várias pessoas para me contarem a sua história e todas elas, que saíram do país para trabalhar, explicam o mesmo: faltam oportunidades...

Foto by: Camila Damásio   miladamasio.com

Foto by: Camila Damásio miladamasio.com

Conheço-os a todos há tempo suficiente para saber que não são desistentes mas, antes, persistentes. Que amam o seu país de coração e que se lhes cortou o coração perder a luz de Lisboa, a vista para o Atlântico, a brisa do sul que sopra no Verão, para abraçarem essa saudade que é, no fundo, a essência portuguesa. São portugueses e tornaram-se cidadãos do mundo por força de circunstâncias várias, que se resumem numa frase: não conseguem aqui, o que alcançaram ali. É apenas triste, nada mais. A incompetência não é deles porque lhes reconhecem mais competência do que aqui. A incapacidade também não é deles, porque se enchem de orgulho perante as capacidades que demonstram, aos outros, dia-a-dia. A oportunidade, também não a criaram, mas encontraram-na num outro contexto. Conhecendo-os como conheço, perdemos nós. São amigos, ex colegas de faculdade, ex colegas de profissão, ex alunos. São ex qualquer coisa mas nunca serão ex-cluídos da minha vida porque os respeito e admiro demais para que isso algum dia aconteça. Com maior ou menor proximidade, a empatia não se explica, sente-se, da mesma forma que alguns laços nunca chegam verdadeiramente a perder-se, mesmo que estejamos em lados opostos do mundo. São eles e elas cujo nome não irei revelar. Pensem apenas que poderiam ser qualquer um de nós. Com a diferença que não somos. Porque estes não tiveram medo, não esperaram. Fizeram-se à estrada.

Se, por um lado, a crise motivou o desbravar de novos mercados, numa aventura por terras de Vera Cruz, por outro, o apelo do desconhecido para descobrir a excelência da ciência levaram-nos para, acredito, nunca mais voltarem. Um dia, os negócios  pararam para um amigo que sei, não sabe estar parado. Não conjuga o verbo, adoptando antes qualquer outro sinónimo de movimento. E mesmo criticando a cultura pouco honesta e sincera donpaís em que se encontra, consegue crescer e prosperar, num país grande em todos os sentidos, bem diferente de um outro, pequeno, governado por políticos fracos e desonestos, afirma.

O género feminino domina a selecção: eles são apenas três, no seio de muitas elas. Um terá ido por amor, sem ser por arrasto, num absoluto desgaste com o que tínhamos para lhe oferecer. Nós, nada. Ela tudo. E uma paixão linda de se ver. E viver. Juntos já ficaram sem passaportes num albergue perdido num país de Leste, já perderam telefones num outro paralelo sem nunca se perderem. De si e dos seus objectivos.

A partida esteve-lhe sempre no horizonte. Deixou escapar uma oportunidade e fez questão de não perder a segunda, incentivada, também, pela situação de crise que o país vivia (ou vive?) na altura. Saiu para estudar, já está a estagiar numa organização de dimensão imensa e nada a impede de voltar. Mas não quer. Talvez um dia, mas não sabe, e vive a magia que os vintes lhe permitem.

Lá longe, muito longe, a uma distância de várias escalas e a probabilidade de vários dias de viagem, ela encontrou o que sempre procurou e que lhe foi recusado aqui. Sentia-se em dívida para com um país que lhe proporcionou uma experiência única, e fez por retribuir. Mas foi mal aproveitada. Ou interpretada, não sei. Melhor, foi aproveitada ao limite do absurdo. Cansou-se. Já tinha partido uma vez e não foi difícil olhar o horizonte e voar. Andar pelo mundo é algo que não tem de fazer parte de nós mas que facilmente passa a ser algo nosso. Afastou-se da família, dos amigos, dos colegas que lutam diariamente para melhorar as condições de trabalho numa área com um elevado capital social, de extrema relevância social e, no entanto, desprezada há décadas. Admite: a vontade de uma vida mais estável a nível profissional e pessoal, de conseguir aplicar e valorizar as nossas competências e de seguir as nossas aspirações em países que nos acolhem de braços abertos, falou mais alto. Gritou. Disso, não tenho dúvidas.

Vivia uma vida em que a vida não existia para lá do trabalho, o que equivale a dizer que não vivia. E decidiu viver.

Outros dois, ele e ela, seguiram de mãos dadas para poderem viver. Porque aqui sobreviviam entre contas e facturas, pagamentos por conta e outras abjecções que impedem tantas empresas de empreender. Sentem falta de tudo, menos do que os levou a partir. Pensam voltar, provavelmente quando forem velhinhos, porque são daqueles que a vida juntou até velhinhos. Lá, estão bem, um com o outro, com os olhos postos cá e o tempo que cá não tinham para apreciar o lado bom da vida. Mesmo teimando que o bacalhau não tem igual ou que a água do mar tem outro sal, aprenderam a deitar sal para acabar com o gelo e a congelar uma lágrima que por vezes quer saltar. Lá, estão a viver o sonho que aqui não passava disso mesmo: um sonho.

E é, também esta, a razão de ser de outros que partiram. Para estudar, para conhecer, pela proposta que resulta em algo que os valoriza. Porque aqui se sentiam, tantas vezes, desvalorizados. Se uma decidiu prosseguir um mestrado lá fora, para se internacionalizar, outra optou por um MBA. Ambas encontraram oportunidades que não esperavam. Uma procurou a verdadeira mistura, numa cidade conhecida tanto pela reputação académica, como pela tolerância e diversidade de nacionalidades. Continua por lá e não me parece que volte. Não antes daquilo se esgotar. E, aquilo, não se esgota. Eu sei. Já a outra, para voltar teria de encontrar, aqui, o que lhe ofereceram, ali. O que é pouco provável. O mesmo aconteceu num outro caso, em que ele, cansado da falta de reconhecimento e da ausência de brilho dos media em Portugal, da pequenez das empresas, foi brilhar num outro contexto e país. Lutou por uma esmerada educação e atingiu posições de relevo antes da idade certa. Talvez fosse cedo demais. Talvez não soubessem que não era nem cedo, nem demais. Injustiças ao final do mês também o empurraram para os braços de outros que o reconhecem e valorizam, pagando-lhe de acordo com a sua experiência e qualificações. Novamente, lá. Novamente, perdemos nós. Como também perdemos por aqueles que as empresas cá, enviam para lá, porque simplesmente crescem tanto que deixa de haver lugar na hierarquia para os acolher. Somos um país pequeno. Talvez demasiado pequeno para o brilhantismo de alguns. Não é à toa que a nossa história é, também, uma história de viagens, migrações e emigrantes.

Instagram. Us and them.

Comecei por sorrir. Depois, comecei a rir. A seguir soltei uma valente gargalhada quando me vi ao espelho. Já não me lembro do último cappuccino que bebi sem antes, o ter fotografado. Mea culpa. O melhor de tudo, quando um vídeo destes nos confronta com os nossos próprios vícios é conseguirmos sorrir quando ele - o Instagram husband que, na verdade, é só husband e não nos fotografa propositadamente para um artigo sobre o tema - nos diz que o cappuccino está lindo. E afirma, em seguida, num tom interrogativo, se não o vamos fotografar. Não íamos. Porque tínhamos fotos de cappuccinos que chegariam para alimentar a conta do Instagram durante um mês sem voltar a beber um cappuccino; porque controlamos razoavelmente as vezes que o impedimos de comer (ou beber) para fotografar; porque decidimos estar de folga; porque não nos estava a apetecer. Porque. E, perante a interrogação, exclamativa, puxamos do telefone para, habilmente, escolher o ângulo e fotografar mais um cappuccino. Esta é, para mim, a melhor cena do vídeo. Porque admito já ter feito a mesma figura, impedindo a outra pessoa de comer, para fotografar. Porque está bonito. Porque poderá ser útil. Porque sim, passou a ser mesmo assim. 

 De resto, a caricatura é mesmo isso, uma caricatura que procura levar-nos à razão, pelo absurdo das situações. Homens pendurados em escadas à procura do melhor ângulo? Fotografias em sequências infindáveis por causa de uma bandeira? Não. A fotografia do nada, a qual ele tem, obrigatoriamente, de amar? Menos ainda.

Dependendo da abordagem e do método, no Instagram ou em qualquer outro site desta natureza, devemos depender apenas de nós, com alegres colaborações. Sujeitar o nosso sucesso a quem nos fotografa é injusto e, por vezes, cruel.

A fotografia de hoje aconteceu. E, por isso, tem graça e valor. Fui apanhada a fotografar o cliché da estação do Oriente: os arcos em metal, com o reflexo da luz do sol. Uau... Que original.... No entanto para quem, como eu, viaja mais de avião do que de carro, e mais ainda do que de comboio, teria a sua graça. Por isso, escrevo sobre o tema.

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Os maridos do Instagram vieram substituir as viúvas do golf, as solitárias do surf ou qualquer outro tipo de categoria que associe um casal a um hobbie. O dele. Não só o Instagram contribui para inverter os papéis como, de certa forma, os posiciona como durante muito tempo nos pocisionaram a nós: um acessório de uma relação centrada neles. Esta inversão não estará correcta mas, efectivamente, quem boa cama faz, nela se deita. Pese embora uma relação dependa de respeito e equilíbrio, não lhes faz mal nenhum sentirem, de quando em vez, que são o nosso selfie stick pessoal, inimitável é insubstituível. Mesmo que seja, apenas, para as fotos do Instagram.

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Brooke Cagle  

Brooke Cagle 

Parece tudo menos aquilo que realmente é: isso. Esse reduto da liberdade feminina. Esse prazer único que, só quem as tem, sabe o que significa. Sem sutiã. Sem aros. Almofadas. Algodões. Sintéticos. Presilhas. Alças. Só pele e roupa em cima. Liberdade total. Mesmo que abanem. Mesmo que tal signifique algum desconforto, não há prazer maior do que aquele movimento tão nosso, de despir as mangas da camisola, colocar uma mão atrás das costas, voltar a vestir as mangas e, com a outra mão, puxar o sutiã que sai pela lateral da camisola como se fosse um intruso. Segue-se um suspiro em silêncio ou aquele movimento que também só nós sabemos fazer: ajeitar o sutiã. Na sua ausência, celebrar o momento de libertação, movendo ombros e omoplatas de forma muita rápida e em sincronia, como se estivéssemos a dançar.

Não é, mas o sutiã pode ser entendido como uma grilheta e a sua ausência a libertação final da mulher. Quantas vezes olhamos para um homem adivinhando-lhe os mamilos? Outras tantas pensando, em surdina, que bem precisaria de um sutiã. E nada acontece. Nem ouvem comentários lascivos nem estão a pôr-se "a jeito". Para quem não sabe ou prefere ignorar, o corpo é, todo ele, uma zona erógena. Os mamilos masculinos também.

Não foi à toa que (supostamente) as mulheres queimaram sutiãs. A luta das mulheres pelos seus direitos é longa e agudizou-se por altura da Segunda Guerra Mundial quando foram chamadas a substituir os homens, transformando a luta pela liberdade numa bandeira que ainda hoje, embora de forma mais discreta, persiste. O icónico momento em que decidiram queimar sutiãs foi mais simbólico do que pirómano, quando em 1968 as activistas do Women's Liberation Movement nos Estados Unidos sairam à rua para expor a opressão contra as mulheres, bem como a exploração da beleza feminina. Cansadas das conotações que lhes estavam (estão?) associadas, decidiram que era tempo de mostrar que poderiam ser mais do que donas de casa e mães de família, da mesma forma que toda a parafernália que destaca a beleza feminina (sutiãs, saltos altos, cintas, rolos de cabelo, pinças e afins) foi deitada à rua para deitar por terra os estereótipos. Não chegou, e hoje, continuamos a depender de uma série de artimanhas para realçar a (natural) beleza feminina. 

Muitas não queimaram sutiã nenhum, mas decidiram sair à sua sem sutiã o que, para a altura, terá sido mais do que uma acção simbólica para apoiar este movimento pelos direitos das mulheres. Terá sido uma provocação como ainda hoje é tantas vezes considerada. Uma mulher sem sutiã está a provocar, está a dar nas vistas, foge à normalidade que é tapar as maminhas. Muito embora às vezes apeteça mesmo sentir a liberdade de não ter nada que as segure. Mesmo que estejam tapadas. E o Inverno, lembra a Mashable, tem essa vantagem: as sobreposições escondem o que muitos consideram semi-obsceno e que é, simplesmente, o corpo da mulher.

 

48 coisas e nenhuma mentira

Para além destas, há mais. Muitas mais. Tantas quantas a imaginação quiser. Gosto particularmente das que têm a ver com a beleza e o corpo feminino, como se uma mulher bonita tivesse culpa de o ser, ou uma mulher considerada feia o seja, realmente. Um homem tem sempre outros atributos. Raramente é objectivamente feio. Menos vezes ainda, criticado por ser atraente. E nunca mal considerado por ser galanteador. Porque se galanteia, é porque ela é bonita. E boa. Tesuda. Uma brasa. Gira que até dói. Cheia de estilo. Se for inteligente e sorrir, um homem não tem como resistir. E a culpa é dela. Porque se não fosse assim, o galanteador não se lhe dirigia. Get a grip!

Afinal, "estava apenas a cumprimentar-te". Pois.

Há formas e formas de nos cumprimentarem e sim, sabemos quando esse cumprimento tem segundas intenções e não, não temos de nos derreter por cada um que nos aparece, ou aceitar todos esses "cumprimentos". Estamos, também, no direito de os ignorar. De não retribuir, de não nos deixarmos afectar por eles. Ou de os ouvir, sorrir e seguir, esquecendo-os (a eles e ao elogio). Por incrível que vos possa parecer, aprendemos a lidar com isso, cada uma à sua maneira. Sem que nos afecte demasiado o ego.

"És tão bonita". E então? Há algo que queiras acrescentar em relação àquilo que sou, ou ficamo-nos por aqui? Na verdade, há roupas que não devemos usar porque vão "distrair os rapazes". Curiosamente, eles, os rapazes, podem vestir-se como quiserem. Com excepção dos limites do bom senso, códigos de etiqueta e pudor pessoal, cada um - homem ou mulher - deve poder vestir-se como entender sem que isso leve ao típico "vestida assim, o que esperavas". Não tenho de esperar nada porque tenho o direito de usar calções, saias curtas ou decotes se assim o entender. É muito cansativo passar a vida a escolher a roupa em função de todas as determinantes (local, ocasião, estado do tempo, diferentes actividades que teremos ao longo do dia, humor e conforto), incluíndo outra, subreptícia, sempre presente e nunca enunciada, que elimina das escolhas qualquer elemento que possa, eventualmente, provocar. E que nos faz, tantas vezes, voltar a pendurar no roupeiro algumas peças de roupa. Umas porque mostram demasiada pele, outras porque são justas, outras porque... Não queremos que nos identifiquem como uma "p***" mas também não gostamos de parecer "virgens puritanas" a vida toda. Simplesmente "o que tinhas vestido" condiciona e determina muito do que acontece, mesmo quando o "que tinhamos vestido" nada tem a ver com aquilo que eles, os rapazes, são capazes de ver. Mesmo de gola alta e calças compridas. Até assim, podemos estar "a pedi-las".

Não, não estou a ser "emotional" e menos, ainda, "histérica", pese embora me apeteça dirigir ao mundo pedindo desculpa por existir e ser mulher, enquanto lhe grito que "não estou a chamar a atenção". Mas isso faria de mim uma "bitch" que é sempre "mal humorada". Ou mal interpretada. E garanto, mesmo "naqueles dias", não nos deixamos controlar pelas hormonas. Curiosamente, hormonas essas que conduzem o comportamento masculino na maior parte do tempo, fazendo-os comportarem-se como o vídeo enuncia. Não é à toa que não nos dizem que "pensamos com a cabeça de baixo"...

Depois, exigem-nos um pequeno esforço para sermos "bonitas" ou um "sorriso" porque nos tornaria mais belas. O paradoxo em cada instante, entre o facto de sermos atraentes e, portanto, disponíveis, ou a necessidade de nos tornarmos mais bonitas só porque sim. Para podermos receber os tais "elogios" que na maior parte do tempo são quase perseguições, porque se subentende que, por não sermos desagradáveis, estamos a retribuir. Não estamos. Não queremos é passar parte do tempo a mandar-vos àquele sítio. Porque isso é feio. E cansa.

Depois, há todo um outro conjunto que só nos faz chorar de tanto rir: as bebidas alcóolicas, a quantidade de comida, o desporto. A nossa determinação que mete medo aos meninos da mamã e a cereja no topo do bolo: olhamos o mundo como ele é, com direitos e deveres iguais, a objectividade nas palavras e nas acções para imediatamente nos perguntarem "és... tipo... feminista?!". Não... Deveres iguais, direitos iguais. Agora lava a loiça que eu cozinhei o jantar. Sem "treinos" porque nenhuma mulher quer viver com um animal amestrado que precisa de ser "treinado" para fazer o que, naturalmente, deve fazer. E isso, não é "dar uma ajuda", porque se a lógica é a da "ajuda", tal significa que a responsabilidade é nossa. E não é. É de ambos. Tal como todas estas frases também são, em boa medida, responsabilidade nossa, mais que não seja porque as ouvimos ao longo da vida e as aceitamos...

 

Método. Moderno. Com resultados à antiga...

Compreendo quem não acorda cedo para sair de casa e fazer desporto. Mas não tenho dúvidas quanto ao impacto que estes dois actos, profundamente relacionados, têm no nosso dia-a-dia.

É um sacrifício sair da cama num dia frio e cinzento.  É... Tão grande que não serão poucos os que saltam diversas etapas na manhã por mais cinco minutos debaixo dos lençóis. Que se atrasam por aqueles cinco minutos. Que, durante meses, abdicam de um começo de dia com exercício. Depois, correm para compensar a inércia...  

Uma manhã que começa com movimento é melhor. Saltar da cama, abrir a gaveta da roupa de desporto, alinhar as peças em função do exercício, garantir a proteína e hidratos para melhorar os resultados,  caminhar até ao MSBStudio para uma hora na barra. O método não falha.

Não é ginástica. Para isso não faltam ginásios apetrechados. Não é cross fit que também já há de sobra. Nem um grupo de fitness, treino funcional, um clube de corrida ou uma escola de dança. Para qualquer uma das últimas hipóteses não faltam opções. Algumas dignas de (muito) respeito e das quais gosto muito. Tudo, em dias, e momentos diferentes. No entanto, uma opção que nos ensine mais sobre movimento e postura, que através desse trabalho vá criando uma maior consciência do nosso corpo e das suas características, ao mesmo tempo que ficamos com um corpo (mais) feminino, definido e tonificado, maior flexibilidade e força? Não tenho dúvidas de o ter encontrado com o método da Mafalda que, finalmente, decidiu assumi-lo em pleno quando reformulou o plano de aulas do MSBStudio, consolidando-o como um daqueles locais modernos com trabalho e resultados à moda antiga...

Aqui, não há ginástica. Embora o esforço seja igual. O empenho é equivalente e os resultados, melhores. Há técnica, que se aprende e re-aprende diariamente. Há conceitos explorados à exaustão e entusiasmo que, apenas quem está, entende. Há dor, daquela que gostamos de sentir, dos músculos a esticarem, a alongarem, a darem sempre um pouco mais. A barriga que queima, os gémeos que gritam, os braços que inexplicavelmente aguentam mais uns segundos. As costas ganham uma definição digna de revista, sem músculos a sobressair, mas tonificados como nunca antes estiveram. Os pés ganham milímetros sempre que se esticam, o pescoço cresce. As mãos, os dedos e cada pormenor das suas extremidades ganham outra beleza. Porque é de beleza que se trata. Como já uma vez afirmei, o treino da Mafalda é mais artístico do que qualquer outra coisa. E a arte, por definição, é bela.

Sugar rush

Tenho comido muito. E bem. Sabores intensos, misturas improváveis e o eterno cheiro do mar. Carne que de derrete temperada com alho e limão. Muito alho. E muito limão. Pão que parece bolo sem se afastar do sabor mais tradicional do pão cozido a lenha, com manteiga a derreter. Manteiga e alho, numa combinação única, impossível de reproduzir. Bolo do caco. Bolo levedo, um pão redondo que combina farinha, açúcar, ovos, manteiga, leite, fermento e sal e que, tal como o bolo do caco, se tornou trendy. O bolo do caco, feito com farinha, batata doce, fermento, água e sal é ainda mais conhecido, embora ambos sejam uma moda importada dos Açores e da Madeira para os hamburguers, pregos e sandes do continente. 

Poderia - talvez devesse - continuar a escrever sobre os arquipélagos e a sua gastronomia. Mas vou (quase) mudar o tema. Quando me cruzei com esta entrevista de Jamie Oliver Paris estava demasiado presente. Talvez mesmo urgente. Sentada numa qualquer cadeira de um qualquer aeroporto, esperava um vôo que deveria ter ido para Paris e acabou num outro destino. Mas isso, vocês já sabem |ler|. Hoje, quando retomei o tema da alimentação, poderia ignorar e avançar em direcção à comida e ao açúcar. Afinal, Dezembro é todo ele tempo de frio e comida que nos aquece a alma. Com muita farinha e açúcar. Mas não devemos retroceder e ignorar que este estado de alerta e emergência que não é mais do que um atentado ao nosso modo de vida, uma tentativa de nos subjugar ao medo, paralisando-nos.

Também poderia - talvez devesse - continuar a escrever sobre tudo o que nos afasta da humanidade, tudo o que atenta contra aquilo que no fundo somos. Seremos? Não deixo de reflectir sobre isto. Há muito que a sociedade se tornou egoísta a ponto de se preocupar mais consigo do que os outros sem, contudo, perder de vista o rumo, unindo-se por causas como esta. O problema, parece-me é existirem causas demais por termos criado demasiados problemas, fruto da ganância e incapacidade para antecipar as consequências das nossas acções. Temos um passado de luta pela sobrevivência e não perdemos todos os resquícios desse tempo em que dependíamos da força e tenacidade para sobreviver. Em defesa da liberdade ou simplesmente no que à alimentação diz respeito.

Contava o Oliver que tinha feito 40 anos, este ano. Eu também. Foi mais uma razão para ler esta entrevista. Tal como o Jamie, tenho vivido um período fascinante. E porque os 40 são o tal número redondo de que também Jamie Oliver fala, olhei para trás e projetei-me para a frente, porque não sou de ficar parada no presente. Ou em qualquer outro tempo. Dizia ele que tinha começado a escrever um livro, quando o meu estava já na editora para revisão. Acrescentava que tinha percebido que as vidas mais longas e mais felizes nada tinham a ver com "o que a cultura ocidental nos faz pensar que precisamos". Pois...

Há 40 anos não tínhamos nos supermercados 20 metros de cada lado de prateleiras cheias de cereais merdosos. Tínhamos uma série de pequenos-almoços simples que eram bastante equilibrados. Isso mudou.
— Jamie Oliver

Adiantei-me ao Jamie e fiz isto (pensar sobre) antes de celebrar os 40 para os começar já com a perspectiva de que me estaria a ser dada uma segunda oportunidade. De viver e pensar. Vivemos os 20 muito intensamente e os 30 na urgência de afastar os 40. Quando estes se aproximam, ou os ignoramos, como fomos ignorando quase tudo até aí, ou paramos para pensar no que andamos por aqui a fazer. Fiz isso, sem aquela subserviência ao nosso propósito de vida ou qualquer outra tendência de transcendência, esoterismo ou excentricidade. Com o pragmatismo que me caracteriza sentei-me e pensei. Caminhei e pensei. Viajei e pensei. Corri e pensei. Dancei e (tentei) pensar. Fiz tudo o que sempre fiz, mas reflecti. Separei o trigo do joio. Tornei-me mais exigente, tolerante e, no entanto, intolerante comigo e os outros. Sobretudo com a minha opinião sobre as coisas e as pessoas, perdendo em influência o que ganhei em auto-consciência. Quando sabemos o que gostamos e o que queremos, sabemos melhor o que rejeitar ou aceitar. Se estivermos bem com a nossa consciência, tudo nos parece mais simples, consequente. Coerente. 

Os hidratos de carbono não são maus, o problema é que a maior parte das pessoas não percebe que uma lata de Coca-Cola é um hidrato de carbono. Não percebem que as bebidas açucaradas são hidratos de carbono, e a maior fonte de hidratos de carbono na nossa dieta vem dos refrigerantes. Pensam que é da massa e do pão
— Jamie Oliver

Há muito que embarquei na jornada das #healthychoices porque estas me permitem alguns #guiltypleasures. Não sou, nem conseguirei ser, obsessiva em relação à alimentação (ou ao que quer que seja) mas há coisas que simplesmente... Não. Já não. Independente do que os que me rodeiam possam dizer ou pensar. Coerência. Informação. Acção. Como o Jamie.

Nasceste para isso. Não queiras mais...

As Sufragistas  

As Sufragistas  

 Tu és mãe. Minha mulher.

Foi para isso que nasceste.

E se eu não for apenas isso?

Nenhuma de nós é apenas isso. Nenhuma de nós nasceu para ser mulher de alguém e não pode ser (apenas) a maternidade a definir-nos.

Frases como estas poderão derrubar mulheres pouco inteligentes.

Mas não existem mulheres assim.

A história pode prová-lo. E, as que existem, acabam por seguir a maioria quando se torna incontornável que é essa a razão.

As Sufragistas

As Sufragistas

Quero crer que não as há. Submissas, acredito. Medrosas, ingénuas e com um certo grau de ignorância? Também. Incapazes de perceber que ainda somos humilhadas, desprezadas e mal tratadas? Impossível. O mundo tornou-se tão igual que também eles sofrem com a desigualdade. A diferença é que nós temos uma longa história de luta por direitos que deveriam, à partida, ser iguais e que, apesar de serem, ainda não são.

Não são porque a sociedade enferma com um dos seus maiores problemas e que é o de não pensar pelos seus próprios meios, considerando sempre o que pensam os outros para tomar as suas decisões. Para definir como será a sua vida.

Este juízo comum impede-nos, muitas vezes, de reflectir para opinar e tomar uma posição. Silencia-nos mesmo quando, no íntimo, concordamos - ou tendemos a concordar - com o pensamento da minoria.

Fui ao cinema. Não poderia perder as Sufragistas. 

As Sufragistas

As Sufragistas

Não sei o que dizem os críticos e, sinceramente, não me interessa. Não se se esteticamente o filme é uma obra prima, se a narrativa tem alguma debilidade, se as interpretações são boas ou se a história está bem contada. Um filme não tem de ser apenas o filme em si, mas aquilo que representa para cada um nós e o que a história, em si mesma, pode representar.

Esta, representa mais do que aquilo que nos mostram. Representa uma luta que ainda agora começou. E que, parece-me bem, está para durar.

 

Entre (III)

Nos Açores ouvi as mais encantadoras histórias sem, contudo, se tratarem de estórias de encantar. Na Horta, que todos conhecem pelo Peter Café Sport descobri a história de um espaço feito de pequenas estórias dos que cruzam os mares. Esses aventureiros, como ficam conhecidos no Faial. Tudo começou no século passado, uma loja de produtos artesanais que depois também vendia bebidas. Que cresceu para passar  a ser uma espécie de entreposto para navegadores e que se assumiu como Peter por razões que apenas o coração pode conhecer.

O Peter nunca se chamou Peter mas foi assim que se tornou conhecido. A história, contou-me pessoalmente José Henrique, o seu filho e a terceira geração a conduzir o espaço mais famoso do oceano Atlântico, no qual o bife e o gin&tonic fazem as honras da casa. Acima de tudo, o que distingue este Peter é a amabilidade acolhedora com que nos recebe, mesmo tendo atravessado o mar num avião. Isso não importa para quem se orgulha da sua história e gosta de a partilhar.

Há muito que não conversava com alguém com apontamentos de história tão interessantes, com tantos pequenos segredos e detalhes como o José Henrique, actual proprietário do Peter Café Sport e do museu Scrimshaw (*) cujo espólio depende unicamente de uma seleção estética feita ao longo do tempo.

A sua narração visual levou-me atrás no tempo, situando-me num Faial centenário, no tempo da instalação de cabos submarinos, caça à baleia e em que este era um dos mais importantes portos do mundo. Não faltavam navios, companhias inglesas, alemãs e norte-americanas que criaram um movimento de gentes e ideias, bem como estórias de baleeiros e da importância da caça à baleia para a economia local. O Peter, que sempre ajudou o pai no negócio e também trabalhava num navio estacionado no Faial para reparação durante a II Guerra Mundial, na verdade era Português e não se chamava assim. Tornou-se conhecido como Peter por ser parecido com o filho do comandante do navio no qual trabalhava. A saudade, juntamente com a aparência do jovem José transformou-o em Peter a pedido do comandante. Para a vida. Enquanto Peter, ajudava o negócio familiar tendo-o transformado naquilo que é hoje: um ponto de encontro e de apoio aos navegadores. Começou por tentar ajudar os que aportavam e que, por razões de saúde não podiam abandonar os veleiro antes de um atestado de saúde ser certificado pelo médico local o qual, por razões que se entenderão, só se deslocava ao Porto quando navios cheios de gente aportavam. Pobres navegadores que chegavam a estar semanas ancorados sem poderem vir a terra. Verdadeiro percursor do marketing de serviços e do marketing relacional, era o Peter quem os ajudava, visitando-os e assegurando ao médico que estariam de boa saúde, levando-lhes os atestados assinados e carimbados, convidando-os igualmente a conhecerem o seu café e oferendo ajuda pararesolver qualquer problema mecânico ou técnico na embarcação. Ligava pessoas entre si e passou a ser a posta restante na ilha, transformando a forma de comunicação entre navegadores, bem como com os que estavam em terra. As cartas passaram a ser enviadas para o Peter Café Sport e o painel superior do balcão ficava recheado de recados, para transmissão de mensagens entre navegadores. Único. Brilhante.

Hoje, a sua relevância para a comunicação no mar é menor, mas não desprezível. Continua a ser o ponto de encontro que sempre foi, com bifes tenros como nunca antes comi, um creme de batata doce de raspar o prato e o gin que dispensa qualquer comentário...

Resta apenas perceber a designação Sport, que tem uma explicação muito simples. Influenciado por ingleses e norte americanos, foi Peter o percursor do desporto na ilha, como adepto e praticante, razão pela qual também esse aspecto da sua vida ficou reflectida na designação deste local, mais pequeno do que imaginamos e, no entanto, enorme na sua dimensão, estendendo-se, por via marítima, a todo o globo.


(*) Scrimshaw é a arte de gravar imagens nos dentes de cachalote, num processo minucioso que exige precisão e abstracção para trabalhar em negativo, ou seja, os traços que são gravados no marfim serão depois cobertos de tinta. O que permanece branco será o contrário daquilo que estaríamos a ver sem tinta. Complexo? Sim, até para explicar. Mas não para apreciar, porque a colecção merece ser vista ao vivo.


Entre (estórias dos Açores)

ENTRE (I)

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido. Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

ENTRE (II)

Fui aos Açores mas, de todo, conheço os Açores. Se comparados a uma grande metrópole, nada acontece nas ilhas. Marasmo total. Mas os Açores estão a mudar e para além de uma dinâmica própria, revelam um novo arrojo, com um certo movimento artístico e cultural. Sem o roteiro incessante de Lisboa, acontecem coisas nos Açores, provavelmente de forma mais selectiva, demonstrando que as ilhas não são apenas o verde dos pastos e as vacas que os circundam. Na verdade, nunca vi tantas vacas, mesmo não tendo fotografado nenhuma, e nunca vi um verde tão verde. Há vacas por todo o lado, pastando calmamente, tão perto e tão longe do bulício da vida moderna.

Os Açores estão modernos, sem os aspectos negativos que a modernidade aporta. Sem a pressa das grandes cidades, o barulho das coisas ou a interferência que este ritmo nos impõe. Estranhamente, apeteceu-me ficar. Não para sempre, porque o sempre é longe demais, mas deixar-me estar só porque sim. Porque também senti que os Açores poderiam precisar de mim, como eu senti precisar desta calma e afectividade que aqui encontrei. Não me admira que grandes vultos da literatura nacional tenham raízes aqui ou que figuras actualmente relevantes no panorama internacional, resultado da emigração, sejam açoreanos de alma e coração.

Há algo aqui que não encontrei em nenhuma outra região do nosso país a qual, lamento, não sei explicar... Não sei se resultará da insularidade, da distância, da dimensão de cada ilha ou da relação entre essa dimensão - pequena - e a grandiosidade que aparentam as ilhas que visitei. Ouvi das estórias mais bonitas de sempre, conheci pessoas cuja simpatia excedia a obrigação e vi locais que não têm equivalente. Não podem ter. Não há outro verde assim.

Elogiar refeições em Portugal é comum, mais ainda nas ilhas, especialmente, nos Açores.

Peixe fresco que sabe a mar, legumes com um sabor intenso e carne que se desfaz na boca. Tudo verdade. Não hesitaria em voltar para um roteiro gourmet. A proximidade entre as pessoas é maior, típica de localidades pequenas em que todos se conhecem e a recepção a quem vem de fora excede todas as expectativas. Não é uma simpatia forçada pelo negócio mas antes pelo prazer de bem receber. De mostrar o que tem de melhor cada local e dar a conhecer as especialidades da casa, que não encontramos no continente.

Provei uma mistura de cerveja e laranjada da qual terei muitas saudades. Nem a cerveja é a mesma e muito menos encontrarei a laranjada Melo Abreu.

As lapas, que já temos em Lisboa, são outras. Mais frescas e carnudas. Sabor melhorado. Comia-as a cada refeição. Sem hesitar. As cracas... Um pouco do mar à mesa, extraídas da rocha são mesmo um pedaço de mar porque o que se come está em pequenos buracos, o que quer dizer que a apanha implica estar debaixo de água para partir pequenos pedaços da rocha. Único, sem dúvida. Cozinhadas com a água do mar que se bebe,  para provarmos isso mesmo: o sabor do mar. Que não é o mesmo que engolir um pirulito quando mergulhamos.

Experimentei peixe que não conhecia e legumes cozinhados ao vapor num papelote de alumínio, provocando uma experiência de sabores e texturas que se apenas entendem na sua intensa suavidade. Descobrir é bom, mas descobrir guiados por aqueles que conhecem o local permite-nos navegar no encantamento da descoberta. Temperadas com alho e limão, acompanhadas com batata doce e arrematadas com canela, as refeições nos Açores despertam-nos os sentidos, levam-nos de volta a tradições perdidas e estimulam o nosso imaginário em torno da ideia de felicidade na imensidão do mundo e do oceano.

Apetecia-me voltar já e repetir, agora.

ENTRE (III)

Nos Açores ouvi as mais encantadoras histórias sem, contudo, se tratarem de estórias de encantar. Na Horta, que todos conhecem pelo Peter Café Sport descobri a história de um espaço feito de pequenas estórias dos que cruzam os mares. Esses aventureiros, como ficam conhecidos no Faial. Tudo começou no século passado, uma loja de produtos artesanais que depois também vendia bebidas. Que cresceu para passara ser uma espécie de entreposto para navegadores e que se assumiu como Peter por razões que apenas o coração pode conhecer.

O Peter nunca se chamou Peter mas foi assim que se tornou conhecido. A história, contou-me pessoalmente José Henrique, o seu filho e a terceira geração a conduzir o espaço mais famoso do oceano Atlântico, no qual o bife e o gin&tonic fazem as honras da casa. Acima de tudo, o que distingue este Peter é a amabilidade acolhedora com que nos recebe, mesmo tendo atravessado o mar num avião. Isso não importa para quem se orgulha da sua história e gosta de a partilhar.

Há muito que não conversava com alguém com apontamentos de história tão interessantes, com tantos pequenos segredos e detalhes como o José Henrique, actual proprietário do Peter Café Sport e do museu Scrimshaw (*) cujo espólio depende unicamente de uma seleção estética feita ao longo do tempo.

A sua narração visual levou-me atrás no tempo, situando-me num Faial centenário, no tempo da instalação de cabos submarinos, caça à baleia e em que este era um dos mais importantes portos do mundo. Não faltavam navios, companhias inglesas, alemãs e norte-americanas que criaram um movimento de gentes e ideias, bem como estórias de baleeiros e da importância da caça à baleia para a economia local. O Peter, que sempre ajudou o pai no negócio e também trabalhava num navio estacionado no Faial para reparação durante a II Guerra Mundial, na verdade era Português e não se chamava assim. Tornou-se conhecido como Peter por ser parecido com o filho do comandante do navio no qual trabalhava. A saudade, juntamente com a aparência do jovem José transformou-o em Peter a pedido do comandante. Para a vida. Enquanto Peter, ajudava o negócio familiar tendo-o transformado naquilo que é hoje: um ponto de encontro e de apoio aos navegadores. Começou por tentar ajudar os que aportavam e que, por razões de saúde não podiam abandonar os veleiro antes de um atestado de saúde ser certificado pelo médico local o qual, por razões que se entenderão, só se deslocava ao Porto quando navios cheios de gente aportavam. Pobres navegadores que chegavam a estar semanas ancorados sem poderem vir a terra. Verdadeiro percursor do marketing de serviços e do marketing relacional, era o Peter quem os ajudava, visitando-os e assegurando ao médico que estariam de boa saúde, levando-lhes os atestados assinados e carimbados, convidando-os igualmente a conhecerem o seu café e oferendo ajuda para resolver qualquer problema mecânico ou técnico na embarcação. Ligava pessoas entre si e passou a ser a posta restante na ilha, transformando a forma de comunicação entre navegadores, bem como com os que estavam em terra. As cartas passaram a ser enviadas para o Peter Café Sport e o painel superior do balcão ficava recheado de recados, para transmissão de mensagens entre navegadores. Único. Brilhante.

Hoje, a sua relevância para a comunicação no mar é menor, mas não desprezível. Continua a ser o ponto de encontro que sempre foi, com bifes tenros como nunca antes comi, um creme de batata doce de raspar o prato e o gin que dispensa qualquer comentário...

Resta apenas perceber a designação Sport, que tem uma explicação muito simples. Influenciado por ingleses e norte americanos, foi Peter o percursor do desporto na ilha, como adepto e praticante, razão pela qual também esse aspecto da sua vida ficou reflectida na designação deste local, mais pequeno do que imaginamos e, no entanto, enorme na sua dimensão, estendendo-se, por via marítima, a todo o globo.

(*) Scrimshaw é a arte de gravar imagens nos dentes de cachalote, num processo minucioso que exige precisão e abstracção para trabalhar em negativo, ou seja, os traços que são gravados no marfim serão depois cobertos de tinta. O que permanece branco será o contrário daquilo que estaríamos a ver sem tinta. Complexo? Sim, até para explicar. Mas não para apreciar, porque a colecção merece ser vista ao vivo.

Entre (II)

Fui aos Açores mas, de todo, conheço os Açores. Se comparados a uma grande metrópole, nada acontece nas ilhas. Marasmo total. Mas os Açores estão a mudar e para além de uma dinâmica própria, revelam um novo arrojo, com um certo movimento artístico e cultural. Sem o roteiro incessante de Lisboa, acontecem coisas nos Açores, provavelmente de forma mais selectiva, demonstrando que as ilhas não são apenas o verde dos pastos e as vacas que os circundam. Na verdade, nunca vi tantas vacas, mesmo não tendo fotografado nenhuma, e nunca vi um verde tão verde. Há vacas por todo o lado, pastando calmamente, tão perto e tão longe do bulício da vida moderna.

Os Açores estão modernos, sem os aspectos negativos que a modernidade aporta. Sem a pressa das grandes cidades, o barulho das coisas ou a interferência que este ritmo nos impõe. Estranhamente, apeteceu-me ficar. Não para sempre, porque o sempre é longe demais, mas deixar-me estar só porque sim. Porque também senti que os Açores poderiam precisar de mim, como eu senti precisar desta calma e afectividade que aqui encontrei. Não me admira que grandes vultos da literatura nacional tenham raízes aqui ou que figuras actualmente relevantes no panorama internacional, resultado da emigração, sejam açoreanos de alma e coração.

Há algo aqui que não encontrei em nenhuma outra região do nosso país a qual, lamento, não sei explicar... Não sei se resultará da insularidade, da distância, da dimensão de cada ilha ou da relação entre essa dimensão - pequena - e a grandiosidade que aparentam as ilhas que visitei. Ouvi das estórias mais bonitas de sempre, conheci pessoas cuja simpatia excedia a obrigação e vi locais que não têm equivalente. Não podem ter. Não há outro verde assim.

Elogiar refeições em Portugal é comum, mais ainda nas ilhas, especialmente, nos Açores.

Peixe fresco que sabe a mar, legumes com um sabor intenso e carne que se desfaz na boca. Tudo verdade. Não hesitaria em voltar para um roteiro gourmet. A proximidade entre as pessoas é maior, típica de localidades pequenas em que todos se conhecem e a recepção a quem vem de fora excede todas as expectativas. Não é uma simpatia forçada pelo negócio mas antes pelo prazer de bem receber. De mostrar o que tem de melhor cada local e dar a conhecer as especialidades da casa, que não encontramos no continente.

Provei uma mistura de cerveja e laranjada da qual terei muitas saudades. Nem a cerveja é a mesma e muito menos encontrarei a laranjada Melo Abreu.

As lapas, que já temos em Lisboa, são outras. Mais frescas e carnudas. Sabor melhorado. Comia-as a cada refeição. Sem hesitar. As cracas... Um pouco do mar à mesa, extraídas da rocha são mesmo um pedaço de mar porque o que se come está em pequenos buracos, o que quer dizer que a apanha implica estar debaixo de água para partir pequenos pedaços da rocha. Único, sem dúvida. Cozinhadas com a água do mar que se bebe,  para provarmos isso mesmo: o sabor do mar. Que não é o mesmo que engolir um pirulito quando mergulhamos.

Experimentei peixe que não conhecia e legumes cozinhados ao vapor num papelote de alumínio, provocando uma experiência de sabores e texturas que se apenas entendem na sua intensa suavidade. Descobrir é bom, mas descobrir guiados por aqueles que conhecem o local permite-nos navegar no encantamento da descoberta. Temperadas com alho e limão, acompanhadas com batata doce e arrematadas com canela, as refeições nos Açores despertam-nos os sentidos, levam-nos de volta a tradições perdidas e estimulam o nosso imaginário em torno da ideia de felicidade na imensidão do mundo e do oceano.

Apetecia-me voltar já e repetir, agora.

Até depois do fim

Pensei uma, duas, várias vezes antes de publicar este texto. Não tem imagem. Infografia, elementos multimédia. Tem apenas as palavras que escrevi naquele momento. Porque em momentos assim, não consigo falar. Articular uma palavra. Remeto-me ao silêncio. Escrevo. 

Publico porque esta será a única forma de poder fazer duas coisas: homenagear um amigo; dizer-vos que a vida é para ser vivida, que todos os momentos contam, que temos de encontrar o nosso propósito, vivê-lo intensamente e não aceitar não sermos felizes. 

O que hoje publico não tem qualquer revisão ou edição. Porque não se podem editar sentimentos ou escolher palavras quando os queremos exprimir.

 ao meu amigo que morreu

 num momento, tudo muda. A frase está esgotada, por ser verdade. Num instante estamos a rir e a discutir o futuro. No outro...

Toca o telefone. Vindo de quem vem, esperamos coisas boas. Perguntam-nos se estamos sentados. É algo em grande e estão a fazer suspense. Não era. Era grande, a má notícia. Não há forma correcta de dizer que um amigo morreu. Que teve um acidente vascular cerebral fulminante. Não há reacção. Palavras. Nada. Nada serve para responder. Não há resposta. Não há reacção. Não há forma de descrever, por gestos, palavras ou expressão o que sentimos nesse momento. É o chão que nos sai dos pés quando estamos com os pés no chão. É o mundo que pára enquanto, à nossa volta, tudo continua a acontecer. É um sinal com uma mão, olhos no chão e voz descompassada que faz com que quem está ao nosso redor perceba que algo aconteceu. É não acreditarmos porque não se acredita numa coisa assim. É não conseguirmos processar o significado técnico do que nos dizem, porque sabemos o que significa a morte. Quando morre um grande amigo, morre um pedaço de nós. Todos temos amigos mas uns, são mais amigos do que outros. Não precisamos falar todos os dias porque não deixamos de ser amigos. Neste momento em que só quero o meu amigo de volta, estou a imaginá-lo deitado, inanimado, corpulento mas sem forças, o rosto alegre sem expressão, com tubos que o ligam à vida, adesivos e agulhas que o tornam ainda mais humano do que alguma vez foi.

Todos os filhos da P*** são fantásticos quando morrem, mas este não só não encaixava na definição como era mesmo fantástico. Filho da P*** só por morrer sem pedir autorização, mais nada. Tinha defeitos. Todos do mundo. Mas era uma pessoa muito especial para mim. Mesmo que estivéssemos no registo do "depois falamos", "liga-me", "temos de combinar", eu sei que estávamos à distância de um telefonema e que um "preciso de ajuda" jamais ficaria para depois. Fomos tão próximos que parecíamos namorados mas éramos, na verdade, dois irmãos. Daqueles que se esgadanham e chamam nomes um ao outro, porque gostam e se respeitam genuinamente. Mesmo quando parece que não. Lidámos como soubemos com as ciumeiras dos namorados e namoradas que não entendiam que poderíamos ser bonitos e não nos sentirmos atraídos um pelo outro. Fomos a prova de que um homem e uma mulher podem ser só amigos. Foi isso que formos desde o dia em que nos conhecemos e, por isso, foi tão bom. Foram anos e anos de aventuras, cumplicidades e segredos. Como eu ficava lixada quando não tinhas tempo para ouvir os meus lamentos sobre os gajos que me atormentavam. Valeu-me a tua mãe, fiel conselheira, que me ouvia sempre que não estavas em casa. Quantas vezes nos deixávamos ficar, entre apontamentos e trabalhos a comer os crepes da minha mãe ou o pão com chouriço do meu pai. Não fosses tu, nunca tinha ido à rádio. Àquela rádio, naquele dia. Não fosses tu empurrar-me porta dentro, mentindo com quantos dentes tinha, afirmando que estavam à minha espera e que queriam conhecer-me... Nunca teria lá ido e, provavelmente, não seria quem sou. Como não estar grata por isso? E por tudo o resto que me deste, as gargalhadas e parvoíces. A paciência para aturar as tuas vaidades e manias. Coisas que só os amigos entendem ou toleram. Mesmo que nos tenhamos afastado sob o argumento de que a vida é assim, andámos sempre perto, debaixo de olho para sabermos se o outro estaria bem. Porque sempre foi isso que quisemos um para o outro, independentemente dos nossos caminhos profissionais não se cruzarem. E agora? És mesmo estúpido. E desta vez não consegues fazer-me rir.

Até já. Adeus é demais.

Entre

Sou mestre em visitas relâmpago a cidades e destinos onde apetece, sempre, ficar mais tempo. E, por isso, volto. Ou permaneço na saudade do desconhecido.

Ponta Delgada

Ponta Delgada

Aterrei várias vezes em Ponta Delgada sem nunca ter saído do aeroporto. Sempre achei que este seria o destino cliché que as fotografias oferecem. Não é. As fotografias não conseguem mostrar a beleza natural de um arquipélago sabiamente equilibrado entre a mão do homem e a força da natureza.

Há hotéis, restaurantes e cafés maravilhosos, estradas que nos levam rapidamente de um ponto ao outro, enquadradas por um verde tão natural que é impossível reproduzir e as tradições que teimam em permanecer nos mais pequenos detalhes.

Furnas

Furnas

Não ficaria aqui eternamente mas despertaram em mim a vontade de ficar - que é raro - para me dedicar ao que mais gosto na vida, sem pensar nas limitações do exíguo mercado, da distância ou do impacto que o mar tem na vida e na moral de uma população que, eventualmente, não conseguiria viver de outra forma. De um lado, a Europa, do outro, os Estados Unidos, quase possível de ver ao longe, para onde emigraram tantos açoreanos ao longo da nossa história.

Louvre Michaelense

Louvre Michaelense

Nem o continente nem o outro continente dominam o horizonte mas influenciam a vida destas gentes tão simpáticas e especiais. Há muito que não me sentia tão bem recebida. Há muito que não repetia cada pormenor das refeições ou que me deixava ficar, sentada, num espaço que é tanto loja como bar ou cafeteria. Assume-se como uma mercearia com preços tão justos que nos fazem pensar nos disparates que sítios feios, nas grandes cidades, nos pedem por um chá. É um híbrido moderno, requintadamente antigo, com música tradicional portuguesa a tocar baixinho, que nos surpreende no centro de Ponta Delgada.

(continua) 

Chiq? Não!! Da Chick!

Palácio Foz

Palácio Foz

Os grandes, são sempre grandes. Os que se espera que sejam grandes raramente desiludem. Foi o caso de Benjamin Clementine que, na Sexta-feira, foi enorme. Maior do que si próprio, gigante na humildade e na voz que encheu não só o Coliseu mas os corações de quem o ovacionou até às lágrimas. Mas são igualmente grandes muitas das promessas que se fizeram ouvir em duas noites cheias de grandes surpresas e grandes pequenos concertos, palcos improvisados que fazem do espectáculo, um espectáculo maior. Salas intimistas e cheias de história que deveriam, mais vezes, dar lugar à cultura e encherem-se de vida, como aconteceu nestes dois dias em que locais como a Sociedade de Geografia, o Palácio Foz ou a casa do Alentejo mexeram como raramente mexem. Assim foi Castello Branco. Genuíno. Ele, o violão, a sua voz, as palavras de amor e o detalhe dos acordes simples, mais bonitos que o rococó de uma sala por natureza fria, que derreteu suavemente com a voz quente deste brasileiro que não engana, um estilo clássico-moderno que ecoou em Lisboa e que apetece (vai apetecer) sempre ouvir.

Castello Branco

Castello Branco

O Vodafone Mexefest é também palco de miúdas giras que invadem uma piscina e agitam uma audiência morna. Gira, mesmo, foi só uma...

Da Chick aqueceu à medida que o ritmo acelerou, a ponto da audiência levar os braços ao ar em movimentos compassados, ritmados com a força do funk electrónico que animou um tanque inicialmente vazio, mas que encheu mais do que alguma vez esteve, clapping hands as they love to party. Isto é Da Chick no seu melhor, sem erros, com um tom que lhe é característico e que faz desta, uma artista pronta a encher outros palcos. Super. Atitude ao máximo. Audiência ao rubro.

Numa outra sala, cheia de história, faltou tempo às emoções psicadélicas que nos transportariam, em definitivo, para o universo de um certo imaginário alternativo cabo-verdiano. Foi mais psicadélico do que Cabo-verdiano. Não necessariamente o que eu esperava. Sai e continuei, mexendo aqui e ali, ainda entoando o refrão das duas que ficam sempre que ouvimos Da Chick, agitando-me ao ritmo de uma fest que, sem dúvida, mexe a baixa lisboeta.

Cachupa Psicadélica

Cachupa Psicadélica

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Benjamim

Benjamim

Hipsterland...

Há música. E, depois, há Música. Sem chegarmos à erudição, mas saindo do marasmo dos acordes gastos ou das fórmulas repetidas à exaustão. E, então, podemos ouvir música. Apreciar umas cenas que gente que percebe de acordes e de computadores produz para desafiar os seus, e os nossos limites. Da compreensão e do prazer. Porque a música não precisa entender-se para se apreciar. Aquilo entra-nos no corpo, invade-nos e deixa-se ficar. Deixamo-nos ficar. Como se explica o sucesso do fado fora de Portugal? Não entendem. Sentem. Também podemos sentir outros estilos e ritmos, artistas que se desengonçam em palco desalinhando o seu fancy pseudo-silk-pajama em tons champanhe para nos fazer viajar numa electrónica que nada tem de desengonçada e nos mostra novos caminhos daqui até LA. Que fazem experiências em palco, gravando a voz da audiência para criar algo único. Porque cantamos em coro mas nunca a nossa voz chega ao palco e, jamais, os sons guturais que fazemos ao gritar por um artista puderam transformar-se em música. Gira e da boa.

Putos em cima de um palco a tocarem como gente grande, misturando novos e velhos acordes para criar algo que até podemos já conhecer mas que soa melhor, ali perto do psicadélico sem, contudo, lá chegar, ou abandonar a pop.

Old school moderno? Benjamim Clementine. Um regresso ao passado sem sair do presente, numa fórmula que nunca imaginei ser possível, misturando uma voz única com um piano melodioso e uma bateria poderosa, just a man que não é, de todo, apenas isso. É mais do que música. Pode ser aquilo que quisermos, até podemos não estar a ver, desde que saibamos ouvir....

Benjamin Clementine

Benjamin Clementine

Benjamim Clementine  

Benjamim Clementine  

LA Priest

LA Priest

Ducktails

Ducktails

É música? Mexeu.

Quando mais esquisito mais eu gosto. Quanto mais pop mais eu danço. Quando mais difícil, mais eu insisto.

Umas mexem à primeira. Outras implicam uma segunda ou terceira... Insistência para aprender a gostar. Outras, nunca chegam a mexer. A música é assim. Mexe e faz mexer. Essa sublime capacidade de ser mais do que aquilo que está a tocar, criando contextos diferentes em cada momento e em cada um de nós. Difícil é não ouvir música.

Desconfio sempre dos que afirmam não gostar de música. Respeito os que não conhecem e procuro dar-lhes a conhecer. Aborrecem-me os que ignoram. Não sei explicar a razão pela qual gosto tanto de música. Faz parte daquelas coisas que não se explicam ou têm de explicar. Produz dopamina que nos aumenta a sensação de prazer. Por isso, não entendo os que dizem não gostar desta sensação de prazer. Mesmo que musical.

Oiço, danço, canto. Por favor páre de ler quem não o faz porque, daqui até ao fim, o texto vai mexer. Com a música. Como a música! 

Não faltam eventos musicais, concertos e festivais. Esta semana Lisboa mexe ao som da fest que a Vodafone e a Música no Coração organizam. Não é um evento, mas também não é um festival, menos ainda um concerto, porque são vários, em diferentes pontos da baixa da cidade. Este, que é o seu maior defeito - as localizações - é também a sua maior virtude, porque nos faz descobrir locais que, de outra forma, passariam despercebidos. Melhor ainda, mostra-nos música nova, tão nova que às vezes a descoberta começa quando os primeiros nomes são anunciados, cruzando fronteiras, estilos e épocas numa linguagem única, que é a linguagem musical. Novo é bom, descongestiona a alma, introduz sons que antes ignorávamos e que correspondem à ansiedade do novo. Do inesperado.

Inesperados são também alguns dos locais por onde vou passar na Sexta e no Sábado, para ouvir Tó Trips (Sociedade de Geografia), LA Priest ou Villagers, Roots Manuva (estação do Rossio), Ducktails ou Benjamin Clementine, terminando a noite num tanque, para dançar ao som de San Holo (Tanque), agitando uma piscina sem água. Vou à Casa do Alentejo para ouvir Selma Uamusse e mergulho outra vez no tanque para um som muito funky e muito electrónico de Da Chick para, depois, continuar a pairar com Nicolas Godin (ex-Air). O Palácio Foz  não voltará a ser o mesmo depois de ouvirmos Cachupa Psicadélica. Nem o Tanque, que irá, certamente, abanar ao ritmo da electrónica africana do colectivo Meu Kamba Live. 

 

 

#music #love #VodafoneMexeFest