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Green isto, Green aquilo. Em terra de cegos quem é Green é rei?

Não creio que tenhamos, todos, de virar veganos, mas sei que tudo apela ao consumo, algo que sim, precisamos refrear, aproveitando o que já temos e recorrendo a formas diferentes de fazer as coisas, recuperando práticas simples, evitando reciclar. Como assim, evitando reciclar, essa prática que nos venderam nos anos 90 como solução?

São cada vez mais os sinais de mudança em direcção ao futuro. Se é certo que a vida na Terra se gere por períodos, com extinções em massa que permitem a evolução e diversificação dos diferentes grupos de organismos, também é certo que o período que se avizinha nos poderá extinguir a nós ou, na melhor das hipóteses, criar um contexto que torna muito difícil a nossa permanência no planeta. Há evidências que tornam afirmações como esta são demasiado óbvias para serem ignoradas.

Podemos aceitar e agir para atrasar o inevitável - quem sabe até evitar - ou ignorar e esperar que não nos toque a nós - mesmo sabendo que vai acontecer - ou, simplesmente, procurar contribuir para melhorar o estado das coisas. É o que muitas marcas e figuras públicas estão a fazer, num processo claro de adopção de novas práticas ou, quem sabe, num aproveitamento da onda verde para fazer mais uns cobres. A verdade é que não temos como saber onde começa e acaba a verdadeira intenção dos que, publicamente, defendem um novo sentido para a nossa vida, modos de vida e hábitos alimentares, menos ainda como perceber se as grandes marcas não estão a aproveitar-se do medo de um futuro muito negro para lançarem a esperança através da criação de produtos e de uma comunicação que defende o Planeta. Não sabemos. Fala-se cada vez mais abertamente da forma como a reciclagem é apenas uma panaceia para um mal maior enquanto nos alivia a consciência e afasta o lixo da vista. O greenwashing é outro dos temas quentes do momento e, nós por cá, sem saber onde começa e acaba a verdade.

Sabemos, no entanto, que no Árctico os ursos polares fazem cada vez mais quilómetros para procurarem alimentos e que se aproximam de cidades para encontrarem comida; a base militar de Alert registou, em Julho, temperaturas nunca vistas de 21 graus centígrados (temperatura habitual é de 6 graus) e os cientistas, um pouco por todo o mundo, gritam perigo. O gelo no Árctico está a derreter muito mais depressa do que o previsto e tal, associado a outros factores, pode significar, a curto prazo, que, aqui em Portugal, deixamos de ter praias e que o cenário geral se aproximará das características do Norte de África. Agora imaginem-se a viver permanentemente em Marraquexe, essa cidade linda, na qual talvez não estejamos preparados para viver todos os dias.

Kim Kardashian, suposta rainha dos tablóides virtuais, anunciou recentemente a sua decisão de substituir todos os seus casacos de pele, ao mesmo tempo que tem vindo a promover uma alimentação vegan nos media sociais, à semelhança do que outros famosos vêm fazendo: da Baywatch Pamela Anderson ao Terminator Schwarzenneger, passando por Jaden Smith (filho de Will Smith), Jason Momoa, o Aquaman, a recente teen crush Billie Eilish ou a já não tão jovem Miley Cirus, que afirma não ter filhos enquanto não salvarmos o mundo. Os tempos são de mudança, como escreveu Pamela Anderson numa carta endereçada a Kardashian em 2017, apelando à sua consciência a favor dos animais. A Prada anunciou que vai deixar de usar pele de animais e já há algum tempo que a Adidas se vem posicionando como a marca desportiva mais amiga do ambiente, com vários produtos feitos a partir de plástico reciclado, incluindo a sua parceria com a designer activista Stella McCartney.

Até que ponto tudo isto é, também, poder de comunicação? Não sei, mas sei que, apesar de um óbvio aparente apelo ao consumo de algumas marcas e celebridades, numa lógica que substitui o plástico por outros materiais e a carne e os lacticínios por outros ingredientes (a propósito, um vídeo de vacas adultas que pisam relva pela primeira vez, depois de uma vida confinadas ao estábulo para produzirem leite), interessa perceber que há, nestas marcas e celebridades, um ponto em comum: o reconhecimento das alterações climáticas e da necessidade de mudarmos o nosso estilo de vida. Contudo, não creio que tenhamos, todos, de virar veganos, mas sei que tudo apela ao consumo, algo que sim, precisamos refrear, aproveitando o que já temos e recorrendo a formas diferentes de fazer as coisas, recuperando práticas simples, evitando reciclar. Como assim, evitando reciclar, essa prática que nos venderam nos anos 90 como solução?

Como os famosos, é tempo de abraçar a causa, (re)aprender, porque esta coisa de sermos amigos do ambiente passa muito por abandonarmos velhas práticas para adoptarmos as práticas velhas ou seja, formas antigas de fazer as coisas que o consumismo desenfreado das últimas décadas nos fez achar que não valiam nada. Valem. Muito disto começa por dizer 'não': não à necessidade de comprar mais - roupa, móveis e objectos, produtos de beleza e limpeza -, de usar palhinhas para beber sumos ou caipirinhas, de comprar com embalagens e aceitar sempre mais um saco de plástico à saída da loja, de comprar novo e a estrear - porque segunda mão é coisa de pobre -, de deitar fora sem arranjar - porque é mais barato comprar novo. Às vezes é. Outras vezes não há quem arranje ou não há peças de substituição. Precisaremos mesmo daquilo que se estragou?

Pensar como antigamente pode ser um princípio, mesmo quando é mais barato deitar fora e comprar novo, recorrendo a práticas mais conscientes e sustentáveis que são, na verdade, uma forma mais feliz de vivermos a vida, muitas vezes gastando menos, ao contrário do que se apregoa.


Photo by milan degraeve on Unsplash


A causa somos todos nós

Escrevo, todas as semanas, um texto de rajada para a newsletter urbanista. Sempre original e fruto do momento ou da semana, é feito sem grande reflexão, sem ponderar as implicações das minhas palavras ou a auto-censura que resulta dos comentários tontos que existem nas redes sociais e, sobretudo, nos sites de notícias nos quais também publico as minhas ideias. Ali, só está quem quer e desses, só abre, para ler, quem tem vontade. E fico sempre muito feliz quando vejo que a maioria carrega no botão para espreitar o que tenho eu para mostrar naquela semana. Já são muitas semanas e muitas partilhas, algumas com respostas maravilhosas de quem subscreve.

Obrigada por isso.

Hoje partilho, aqui os dois últimos textos porque estão relacionados e são uma espécie de continuação, muito embora não os tenha escrito com essa intuição. Na verdade, poderia passar horas a falar-vos sobre motivação e propósito de vida, acrescentar uns quantos jargões bonitos de mindfulness e terminar com o poder da meditação mas a verdade é que, na maior parte dos dias, a maior parte de nós acorda de manhã sem saber muito bem o que aqui anda a fazer. 

Eu também.

Um dia entrei numa espiral de desespero por não saber quem era, o que queria ou o que aqui andava a fazer. Estava tudo certo e eu queria colocar tudo fora do lugar. Talvez não estivesse assim tão certo. Percebi, entretanto, que estava mesmo tudo certo, estava era fora do lugar para eu arrumar. Confuso? 

O propósito de vida, de forma global era aquele, o veículo para lá chegar é que me estava a decepcionar. 
Muda-se o veículo e pronto. 
Novamente, não, porque é mais fácil falar do que fazer. Há muitos veículos, ou seja, muitas formas de lá chegar e a grande questão coloca-se exactamente a esse nível, porque muitos deles também estão certos mas, como no amor, há sempre um que está mais certo do que os outros. Pensamos na maior parte das vezes que temos de fazer uma grande introspecção (check!), de ir ao nosso eu mais profundo (check), de procurar ajuda (check), de experimentar (check) de... enfim, isto para dizer que não faltam opções, mais ou menos espirituais, mais ou menos esotéricas para nos ajudar a encontrar o tal propósito (cena macro da nossa vida) e o veículo para lá chegar (a cena micro, o que fazemos e como fazemos no dia-a-dia) mas at the end of the day (sorry mas esta expressão bate à légua a nossa, no final das contas) tudo se resume a estarmos felizes e, por vezes, procuramos incessante e insistentemente para, depois, percebermos que esteve sempre ali, à frente dos olhos ou que, não tendo estado mesmo à vista, temos de estar disponíveis para ouvir os outros e, através das suas reacções, perceber o nosso caminho.

Oiçam e observem, porque os que nos rodeiam - ou aplaudem nesse palco gigante chamado social media - mostram-nos muito mais do que, por vezes, estamos disponíveis para ver. 
Pensem nisso.

No entretanto, uma reflexão sobre o tema tempo, novamente para a Maria Granel, que leva a cabo uma campanha para promover uma vida mais sustentável e com menos desperdício. Juntei-me à causa, primeiro sobre o poder do não (não, obrigada), depois sobre as compras a granel e hoje, sobre DIY ou seja, fazermos coisas que poderíamos comprar. Escolhi falar do meu shampoo porque notei diferenças reais na cabeleira e porque outros notaram essa diferença mas, sobretudo porque num ano logisticamente desafiador, com viagens constantes entre o centro de Lisboa e a linha de Cascais, o maior desafio foram últimas 4 semanas, com a vida empacotada em malas e caixotes, dividindo-me entre uma casa que não estava pronta e outra que, sendo minha de coração, não é a minha casa. Nestas semanas, obviamente que o DIY shampoo não foi prioridade e sim, a diferença é notória quando uso um shampoo “normal”, de supermercado. Com embalagem. Com parabenos. Com tudo aquilo que nem sabemos o que é e que faz parte da nossa vida. Para o bem. E para o mal. 

Dormi esta noite na minha casa. 

Por isso, o tema é o caminho. Porque para chegarmos a algum lado na vida não temos um Google Maps actualizado ao segundo com a melhor opção de rota. Na vida vamos descobrindo o melhor caminho, o melhor shampoo, a melhor granola que parece difícil mas é tão fácil de fazer.

Por isso hoje, pensem no tempo que ocupam a fazer coisas que não precisam fazer e no tempo que vos pedem para roubar à vossa vida. 

Sempre fui uma pessoa de causas, tantas que nem sabia bem como as abraçar, porque sempre me interessei por muitas coisas, muito eclética e sempre gostei de ver, fazer, conhecer coisas diferentes. Isso, numa era moderna e caótica como a que vivemos, é um problema, porque nunca, como agora, precisámos tanto de nos encaixar para nos definirmos e deixar que nos definam. 
Hoje não chega ser (nunca chegou mas agora piorou) temos de o parecer, mostrando ao mundo quem somos e o que fazemos. 
Sempre assim foi, só mudou a escala dessa apresentação: nas redes não chega sermos aquilo que realmente somos porque na fluidez dos dias modernos sermos uma e muitas coisas cria a cacofonia de que se falava nos tempos da torre de Babel. 
A Maria é da cozinha sem glúten e a Joana é raw, a Francisca prática yoga e a Antónia mostra o seu macramé. O mundo já não tolera a Mónica que usa glúten e faz tudo em crú, pratica yoga e faz macramé nos seus tempos livres. Somos levados a escolher apenas uma coisa para comunicar, caso contrário não conseguimos que ninguém nos ouça. Nunca, como hoje, as tribos foram tão coesas e fechadas, logo agora que o mundo permite, de verdade, abrir portas ao mundo.

De volta às causas, tantas que gosto de abraçar e que escolhi comunicar, integrando-as numa ideia só: a de vivermos em paz connosco, escutando o mundo lá fora, com o filtro necessário para essa paz e tranquilidade que merecemos. Em consciência e conscientes do que viemos ao mundo fazer e que, tantas vezes, custa tanto a descobrir. 

Não sei se sabes o que aqui vieste fazer, que causas queres abraçar ou se as abraças a todas mas uma coisa é certa: a causa que abraças passam a definir, para o mundo, a pessoa que tu és. As minhas estão todas aqui, numa semana de urbanista na Nitfm que fala de surf e diversidade, de sustentabilidade, feminismo e ecologia, mesmo quando parece que estou a falar de tudo, menos a causa que abraço.

Os episódios das coisas, pessoas e músicas maravilhosas estão na NiTfm, todos os dias e os desta semana ficam, também aqui:


nitfm.pt/noticias/aruanas/

nitfm.pt/noticias/daracara/

nitfm.pt/noticias/casapaubrasil/

nitfm.pt/noticias/boundisurfsessions/

Querida fast fashion e fast tudo: cansei...


Na moda, cansei dos padrões que se reconhecem à distância,

dos cortes iguais em todas as marcas,

dos tecidos pingões e costuras mal acabadas,

das fibras e tecidos que não servem para o frio ou calor.

Cansei dos modelos tingidos de sangue suor e lágrimas de alguém sem outras opção para ganhar a vida,

dos vestidinhos que são todos camiseiros com cinto,

das tendências sempre iguais que se renovam entre estações e a cada estação,

de andar igual e mal vestida,

da moda que é andar de igual.

Cansei, não sem antes questionar o que fará uma pessoa trabalhar numa loja por uma média de 700€ brutos, com horários rotativos que podem começar às seis da manhã e acabar às onze da noite - que nunca são mesmo à hora certa porque sabemos que há sempre um cliente de última hora - e, todos os dias, aturar clientes chatos e tarefas rotineiras, chefes que não compreendem o significado da palavra e perspectivas futuras que não ultrapassam o valor das contas a pagar ao fim do mês?

As contas a pagar.

Essas que nos limitam o raio de acção, que nos conformam perante um cenário que é injusto e que, ideologias políticas à parte, está à vista que consolida desigualdades.

Para o caso não interessa a loja - ou a marca - porque todos sabemos que o retalho é um negócio esmagador: esmaga fornecedores tornando-os dependentes, esmaga preços para monopolizar o sector, esmaga pessoas que trabalham por um valor muito abaixo do valor de mercado. A rotatividade, nestas lojas, é enorme, fruto de condições de trabalho precárias, um enorme desequilíbrio naquilo que se entende por equilíbrio trabalho-família, pouco reconhecimento e baixos níveis salariais. Acresce que, na maior parte dos casos, as funções levam à estagnação intelectual, atentam contra a ergonomia no trabalho e o bem estar individual.

Pensaremos nisso, quando estamos de cartão na mão, prontos para pagar? Não. Comprar faz-nos sentir bem, liberta endorfinas, contribui para a sensação de pertença e ajuda ao processo de validação social do qual estamos todos muito dependentes. Sem crítica ou julgamento porque o fenómeno ataca a todos, contudo, a informação está disponível, os modelos industriais de produção que nos garantem este preço tão simpático têm custos enormes para o nosso modo de vida global - a poluição que produzem e o desperdício que estimulam - e bem estar individual, seja que quem faz parte desta espiral empregadora, seja de quem abdica daquilo a que chamamos consciência e continua a comprar. Note-se que comprar todos compramos. Há uns que compram mais, compram a mais e compram sem propósito. É isso que podemos mudar.

A culpa é das empresas?

Também, mas não só. A culpa também é nossa, porque procuramos a melhor relação qualidade preço sem nos preocuparmos com a forma como o produto foi produzido, como chegou até nós, que impacto social e ambiental pode ter, com o atendimento ao cliente, bem como que condições profissionais e de vida têm aqueles que nos servem. Numa loja com funcionárias que dobram roupa num processo infindável e clientes que desarrumam sem respeitar o trabalho dos outros, à caixa do supermercado e ao seu bip incessante, há gigantes da moda, construção, mobiliário, electrodomésticos e electrónica, empresas e marcas para as quais deveríamos olhar de outra forma, tentando perceber várias coisas, a primeira das quais se precisamos mesmo comprar aquilo e fazê-lo naquela loja, se podemos abdicar ou escolher o equivalente nacional, de preferência local que, tantas vezes, está a uma distância que podemos fazer a pé, perto de casa e longe dessas áreas a que chamam zonas comerciais e que, numa lógica liberal, dão emprego a muita gente mas que, bem vistas as coisas, só estimulam uma sociedade de consumo que tende a desmoronar, perpetuando um modelo social que é tudo menos fixe.

Por isso, cansei.

Desamor: o tempo para ter tempo acabou e a nossa relação com o mundo está por um fio

Há muito que venho defendendo a  ideia de retrocesso, muitas vezes associada à alimentação e a necessidade de uma vida (mais) saudável.

As nossas avós não conheciam panrico ou panike, coca-cola ou ice tea. Também não tiravam selfies nem perdiam horas nesse desporto chamado scroll down que simula o real e nos atira para um mundo de fantasia. Nesse tempo vida não era melhor mas era diferente, em sintonia com aquilo que, ainda hoje, entendemos como vida. Realmente, havia privação e fome no tempo da Guerra e durante o Estado Novo, realmente havia censura e muita ignorância científica mas a ideia de adoptar uma despensa parecida com a das nossas avós não quer reproduzir o que a técnica veio melhorar mas, apenas, recuperar práticas antigas, dos ingredientes sem embalagens e dos produtos não processados. Procura, igualmente, dar resposta à crescente necessidade de adoptarmos um estilo de vida mais simples porque, mesmo que teimemos em ignorar, tudo à nossa volta nos diz para parar, escutar e olhar, como antigamente, nas passagens de nível. Quem é que ainda se lembra das passagens de nível e do tempo que perdíamos sempre que a passagem fechava para o comboio passar? Será que perdíamos tempo ou estávamos apenas a respeitar o tempo das coisas? Estaremos melhor, agora, com estradas sobrepostas, pontes e viadutos que desviam o trânsito para o comboio passar, fazendo-nos ganhar tempo para depois os ocuparmos com banalidades ou, pior, a trabalhar, porque sim, cada minuto conta?

O nosso estilo de vida está a matar-nos, a vida desenfreada nas grandes cidades esgota-nos e os dispositivos electrónicos que nos acompanham, definindo o nosso dia-a-dia, contribuem para esse estado de permanente ocupação, como se estarmos assoberbados em tarefas nos tornasse mais eficiente sou fosse sinónimo de sucesso. Lamento: não é.

Volto ao início e ao tempo das nossas avós porque, nesse tempo, havia algo que desapareceu e que condiciona totalmente as nossas escolhas: o tempo.

O tempo - e a falta dele - limita as escolhas:

  • Comemos mal porque não temos tempo para preparar refeições equilibradas

  • Compramos mal porque vamos apressadamente ao supermercado que está aberto até à meia-noite, facilita a vida de quem trabalha até tarde obrigando outros a trabalhar em turnos rotativos com poucas folgas, alguns dos quais sentados na mesma

    posição durante horas para que, nós, os que trabalhamos muitas horas possamos comprar os essenciais a desoras. Faz sentido? 

  • Escolhemos mal porque não temos disponibilidade para procurar marcas amigas do ambiente e embarcamos naquela postura apressada perante a vida em geral e a nossa em particular, evitando pensar.

  • Reutilizamos pouco porque não sabemos como dar uma nova vida às nossas roupas e objectos que fazem parte da nossa vida, porque se tornou mais fácil substituir do que arranjar ou recuperar. Principalmente, mais barato, o que diz muito sobre métodos de produção e um sistema profissional baseado em baixas remunerações.

  • Circulamos de carro porque é mais rápido do que a pé ou transportes públicos (90% das vezes é mesmo) em cidades sobrelotadas e pouco pensadas para receber pessoas.

A lista continua e tudo se resume a algo sobre o qual perdemos, totalmente, o controle: a noção de tempo. De pouco adianta dissertar sobre o estafado “arranjarmos tempo”, “fazer disto uma prioridade”, “tornar um elemento da agenda”... Bullshit. Também já sabem e sabem melhor do que eu que, no dia em que quiserem mesmo ter tempo, arranjam-no. Até lá andam apenas a arranjar desculpas.

O tempo é finito e nós andamos a brincar com essa finitude, enquanto encavalitamos mais uma coisa na agenda e enquanto vamos placidamente aceitando mais uma reunião que poderia ser um e-mail. A frase não serve apenas para imprimir em bases de rato ou canecas com as quais passeamos chá ou café lá no escritório. Que seja um mantra e que nos faça voltar ao tempo das passagens de nível, e ao clássico:

pare

escute

e

olhe

Queridas marcas, isto é tudo uma questão de saber contar uma história.

Queridas marcas: é assim que se faz: curiosidade,  sentido de oportunidade, cuidado no estabelecimento da relação e... sorte. Muita sorte. Ou, como se costuma dizer, não é sorte, é trabalho.

Hoje vou falar-vos de uma marca que não precisa de mim para nada mas que percebeu que, mais importante do que aquilo que se diz, é a forma como se diz e eu gosto de boas histórias e de dizer o que penso. Digo sobretudo que chega deste jogo do gato e do rato, da insinuação de engate e do jogo em que fazemos todos de conta que as marcas aparecem no feed do instagram, no blog ou em qualquer outro formato por mero acaso. A hipocrisia instalada começa por colocar marcas no feed para que as marcas percebam que estamos disponíveis para que essas mesmas marcas nos abordem. Afinal, é tudo tão autêntico e genuíno, mal não fará ser pago para comunicar um produto ou serviço que efectivamente faz parte da minha vida ou, no mínimo, receber produto para isso. Mas as marcas raramente pagam. Porque pagar envolve todo um outro nível de relação e investimento mais complexo.

As marcas estão atentas e entre os milhões de pessoas que o fazem, começaram, lenta e gradualmente, a juntar à sua lista pessoas cujo perfil faz match com a a identidade, o posicionamento e a missão da marca. O jogo continua com sorrisos e piscadelas de olho, numa nova hipocrisia que nos faz sorrir à marca quando esta nos envia amostras ou convida para um evento. A marca sorri de volta e considera-nos no orçamento de marketing: experimentação. Da mesma forma que há promotoras no supermercado que nos dão a provar um novo queijo, na era digital, as marcas enviam produto para que algumas pessoas possam experimentar e, se tudo correr bem, dizer maravilhas da marca. E as pessoas dizem, porque sabem que as relações dependem de confiança que demora a construir, e que, depois da amostra, virá a embalagem e, quem sabe, depois disso algum acordo financeiro. O que todas estas pessoas envolvidas se esqueceram é que a publicidade é uma técnica de comunicação paga da qual se conhece o emissor. Tudo o resto entra nesse domínio nublado e cinzento da promoção, em que as partes cinicamente coçam as costas uma à outra numa relação que vai crescendo ao longo do tempo mas sem nunca dar em nada. É como aquele gajo que telefona sempre às quatro da manhã a pedir colo. Ou outra coisa.

Hipocrisia da grande porque o que as marcas querem é fazer parte da nossa vida e nós, deste lado, com blogs e vlogs e podcasts e instagram queremos mesmo é receber alguma coisa pelo tempo que dedicamos à causa, sempre que cedemos tempo e espaço para colocar uma marca na nossa história. Do lado de lá, querem ser falados, revistos e comentados com o menor investimento possível, caindo no ridículo de enviar produto a uns e pagar pela comunicação desse produto a outros, convites para a festa e envio de imagens dessa festa a quem não recebeu o convite, num circuito em que todos se conhecem e falam uns com os outros, trocam impressões e continuam, cinicamente, à espera do seu lugar ao sol. Restam alguns que nada temem porque não fazem disto modo de vida e que escancaram as portas para deixar a luz entrar num sistema que começa, devagar, a tornar-se mais justo, coerente e profissional. Porque sim, dos dois lados já se percebeu o ridículo da coisa.

Então porquê a Siggis?

Mesmo (agora) fazendo parte da liga dos grandes, a Siggis continua a ser uma marca com uma história para contar. Continua a ser inspiradora e a ter cuidado na forma como chega a cada um de nós. Para vocês será sempre mais uma marca no linear do supermercado mas, para mim, vai ser sempre a marca que um gajo teimoso decidiu criar, que levou ao colo até ao momento em que percebeu que poderia chegar mais longe, que me fez acreditar que iria dar muito trabalho mas que poderia fazer sentido criar a minha própria marca de granola se eu assim o quiser. Mas tenho de querer muito e com todas as minhas forças, dedicando-me de corpo e alma a essa granola, como ele fez para criar este skyr, um produto parecido com o iogurte mas que não é iogurte, é leite fermentado quase sem açúcar e usando ingredientes naturais. Na apresentação da marca, Siggi demonstrou, com factos, o que faz o seu skyr ser diferente e convenceu-me. Depois experimentei e o sabor é realmente diferente, para melhor. Por isso sim, não só o produto é bom como a história é relatable. Siggis poderia ter continuado sozinho mas percebeu que, para levar este produto a mais pessoas, não teria de ceder no princípio mas, apenas, encontrar uma forma de acelerar os processos.  Encontrou uma rampa de lançamento para se atirar à Europa e cá está, com o seu icelandic inspired skyr que continua a saber melhor e mais natural do que os outros que já provei. Por isso mas, também, porque ele me inspirou, dou-lhes espaço e talvez por isso, também me tenham escolhido para os ajudar a passar a mensagem. Pode ser apenas mais um skyr mas eu, que evito ao máximo produtos lácteos, abro uma excepção para este, porque é do Siggi, aquele fulano desbocado, com o coração na boca e a boca na verdade, que conheci quando a marca veio apresentar-se a Portugal. 

eco fashion que é só assim-assim eco

No dia mundial do ambiente, o que fazemos nós para melhorar o ambiente em que vivemos?

Na maior parte dos casos, nada.

O alerta está amplamente divulgado, nas notícias, nas imagens que circulam na rede, no facebook e restantes sites de redes sociais. Contudo, alguns de nós continuam a ignorar a mensagem. Porquê?

Na verdade não tenho resposta a esta questão e imagino que serão mais os que acreditam verdadeiramente nada poderem fazer, como se o fim estivesse determinado e dele não pudéssemos escapar. Talvez não possamos mas, qual colibri na floresta que arde, mais do que aliviar a nossa consciência individual, serão muitas pequenas acções que poderão fazer a grande diferença.

O mundo está a arder e o fogo alastra rapidamente. Os estudos sobre o efeito das alterações climáticas (Climate Code Red) multiplicam-se, na proporção das notícias sobre o tema, numa espécie de alerta global sobre o que está a passar-se nesse imenso ecossistema natural chamado planeta terra. Tal como uma compulsão alimentar, não conseguimos parar porque já não sabemos viver de outra forma: sem o conforto do automóvel para as grandes e pequenas deslocações diárias, sem o ar condicionado para nos aquecer ou refrescar, sem uma enorme variedade de produtos que contribuem para o nosso bem estar mas são altamente perigosos para o meio ambiente, alimentando, também compulsivamente, um conjunto de indústrias que consomem recursos que, em muito pouco tempo, nos farão muita falta. O mesmo não podemos dizer da maior parte dos produtos que estas indústrias vendem os quais, na maior parte dos casos, não fazem falta nenhuma:

Precisamos mesmo de mais uma Tshirt que custa menos de 5€ e que não dura, sequer, uma estação?

Provavelmente não, mesmo quando contamos tostões até ao fim do mês, porque o princípio é sempre o mesmo: o barato sai sempre mais caro porque tem, por regra, menor qualidade e, consequentemente, resiste menos à passagem do tempo, ao excesso de lavagens e aos químicos usados nesse processo. No reino da fast fashion, a.k.a. Grupo Inditex, que é como quem diz, Zaras e suas congéneres, as diferentes marcas assumem uma postura cada vez mais verde mas que, continua a apelar ao consumo. O processo de mudança e defesa do meio ambiente não depende da compra de produtos feitos com materiais reciclados mas de uma atitude mais consciente que compra menos e melhor, ou seja, que compra produtos feitos a partir de materiais naturais e duráveis. Cientes de que o consumidor conhece cada vez melhor os seus métodos de produção e modelos de negócio altamente questionáveis, multiplicam os seus esforços para atrair os consumidores, incluindo os que as foram abandonando em busca de soluções mais eco friendly, impactando, simultaneamente, os que não abdicam da visita semanal à loja para ver (e comprar) novidades. As campanhas conscious, com roupas produzidas em massa, a baixo custo, invadiram as montras mas será que são assim tão conscientes do seu impacto ambiental?

As notícias sobre o tema são muito idênticas: começam por explicar que a indústria da moda, a seguir à do petróleo, é a que mais contribui para a poluição [mais] para depois apresentarem a nova colecção da H&M, feita com materiais sustentáveis e amigos do ambiente, os brilhos ecológicos de Verão da Primark ou a maquilhagem com embalagens de plástico reciclado, bem como a tentativa da Benetton para usar algodão 100% sustentável.

O gigante sueco da moda, a par com as restantes marcas, anda nisto há tempo suficiente para saber o que fazer e há muito que começou a trabalhar a sua mensagem para parecer melhor e mais amigo do ambiente aos olhos do consumidor. Há uns anos o The Guardian [ler] falou sobre uma medida da empresa, para recolher uma tonelada de roupa para reciclar. A questão é que se a marca produz uma tonelada de roupa em 48 horas, então a tonelada de lixo que se propunha a reciclar iria demorar muito mais do que 48 horas a ser usada. Seriam necessários 12 anos. Visto assim, parece muito diferente.

A questão da roupa resolve-se facilmente se nós, consumidores, quisermos: basta deixar de comprar ou, para começar, comprar menos. Muito menos. Trocar, comprar em segunda mão, recuperar (onde estão as máquinas que apanhavam malhas nas meias de vidro?...). Depois, comprar de forma mais consciente e pensar no que estará a ganhar quem produziu o algodão, quem cortou o molde e quem fabricou a Tshirt que nos custou 1,99€. Quanto vale uma hora de trabalho na indústria de produção das marcas de roupa no Bangladesh?

Como afirma uma das mais famosas criadoras de moda, Vivienne Westwood, buy less, choose welll, and make it last (compra menos, escolhe e fá-lo durar), para o bem de todos nós.


Private Rooftop Garage Sale

Vens?

Quero convidar-te para algo muito especial: partilhares comigo um processo de mudança, de novas formas de viver e ver a vida. Alinhas?

Inspirei-me na Bea Johnson, na Marie Kondo e outras especialistas em sustentabilidade, arrumação e felicidade, para perceber que tenho muito mais do que preciso e, por isso, é tempo de dar uma nova vida - ou morada - a roupas, sapatos, malas e acessórios, móveis, discos e livros, litografias e acessórios para a casa.

Acredito na mudança como um processo e o meu está em curso há já algum tempo, culminando nesta espécie de regresso a casa: ao original e tradicional, aos tecidos e formas, aos conceitos e locais onde já fui feliz e não sabia, recuperando hábitos, práticas, ideias e conceitos que fui abandonando e que são, de facto, aquilo que tão bem me caracteriza: a praia e o mar, a bicicleta para me deslocar, o cão para afagar, a rádio para comunicar, a família ali tão perto, a outra família, do coração, mesmo ao lado, novas paixões que abraço com todas as minhas forças: a alimentação saudável e natural, recuperando uma difícil relação que é hoje a melhor de sempre, por ser mais consciente, criativa e informada; a fotografia, uma paixão latente à qual nunca dei a devida atenção e o yoga, essa prática mágica que mudou a minha vida para melhor.

Quero, por isso, convidar-te a fazeres parte desta mudança: vou fazer uma private rooftop garage sale e conto contigo para escolheres algumas coisas para ti.

Os preços começam nos 0€ e, para cada peça ou objecto comprado, ofereço um Cd de música. Para qualquer compra acima dos 10€ ofereço um Cd e um livro.

Passa a palavra e aparece com um amigo porque se juntaram a mim outras pessoas nesta venda de garagem num último andar:

Alguém que tem roupas lindas compradas um pouco por todo o mundo (especialmente no Oriente), uma marca de acessórios de cabelo e outra de pratos artesanais, por isso tem tudo para ser espectacular.

Vou ter música boa a tocar, uma vista excelente para fotos instagramáveis e sorrisos para distribuir!

Domingo, das 13:00 às 19:00 num lugar secreto no centro de Lisboa.

Vens?

Beijos urbanistas, Paula

10k. Now what?

Gosto muito da ideia de viver e aprender e, sobre este número, há muito a dizer…

10k é muito mais do que 10 mil seguidores, é um ponto de chegada e partida, um objectivo que se cumpre e o desafio de continuar um caminho que se renova a cada dia. Cada dia é diferente e também eu vou mudando com o tempo.

O urbanista começou de forma interessada e interesseira, para explorar um nicho que estava, na verdade, saturado, e desenvolver um caminho que não era o meu mas que, na altura, eu queria que fosse:

Paula Cordeiro, versão (lifestyle) blogger.

A história recua a 2014, quando comecei a pensar nisto e decidi que aquele seria o primeiro dia do resto da minha vida. Na verdade, olhando as imagens, começa mais cedo, com uma fotografia de um cruzamento de linhas de eléctrico, esse ícone da cidade de Lisboa que me despertou para a necessidade de percebermos a linha que queremos seguir. Aquela imagem perseguiu-me durante semanas. Depois, cortei o cabelo, um corte assim-assim radical, bastante curto.

Todos sabemos o que significa uma mulher cortar o cabelo. Meses mais tarde decidi passar a deslocar-me de scooter porque Lisboa começava a tornar-se caótica, sempre quis andar de mota e porque sim. Tinha três funções diferentes, e muito exigentes, em três organizações e locais diferentes, que me obrigavam a, no mesmo dia, estar em três pontos diametralmente opostos da cidade. Era quase esquizofrénico e eu não o percebia, nem quando, apressadamente, ia dar um medicamento à minha filha e ela me pedia para tirar uma fotografia. Foi também nessa altura que assumidamente me re-apaixonei pela rádio e decidi que o mundo inteiro deveria sabê-lo. Vivi durante anos emprestada a um outro universo e a rádio chamava por mim. Era tempo de voltar. Em 2014, quando o urbanista começou, estava em força na Europa, qual embaixadora da rádio portuguesa, participando em grupos de trabalho e conferências, tornando-me importante quando cá dentro poucos sabiam quem eu era.

Depois de ter sido a primeira mulher e a mais jovem no cargo de provedora do ouvinte, fui também a primeira a ser reconduzida no cargo, o que me fez explodir de orgulho, adiando, uma vez mais, o meu projecto urbanista. Fui a Marrocos, vi cores que nunca tinha imaginado e percebi o que queria para mim, encontrei a imagem do sítio onde queremos estar, mas não sabia como lá chegar. Fiz quarenta anos e percebi que a vida me estava a dar uma segunda oportunidade para ser (verdadeiramente) feliz, para não me limitar ao que parece e me focar naquilo que realmente importa: o ser em vez de parecer. Sorri. Muito, como se fosse uma despedida e nunca pensei que o caminho fosse tão duro. Queria estalar os dedos mas o som não se ouvia. Viajei demasiado, quase sempre sozinha, para depois ser capaz de voltar a casa. Foram momentos determinantes, de introspecção e percepção que aqui, no nosso dia-a-dia é impossível conseguir. Há quem vá para Índia encontrar-se. Eu andei pelos céus da Europa durante vários anos, mais intensamente neste período, transformei-me numa viajante irritantemente metódica, que analisa a fila na segurança antes de escolher onde vai depositar as suas cangalhadas, tirar o cinto, os sapatos e o casaco para depois seguir viagem. Trabalhei muito (demais) e percebi, à força, o significado da palavra limite. Era provedora e outras coisas, tiraram-me fotografias lindas e aconteceram coisas maravilhosas mas não era eu.

Também era mas, não.

O que mais desejava resumia-se a uma imagem entre tantas, na qual me fixava sempre que me sentia a perder o rumo. Perdi-o, muitas vezes. Editei mais um livro e senti que precisava saber quem era. Procurava-me, abusando do meu corpo, experimentava muitas coisas e acabava sempre por voltar onde já tinha sido feliz sem perceber o caminho. Fiquei doente muitas vezes, recuperei outras tantas, li livros e falei com pessoas. Continuava sem saber dizer não, mesmo quando já sabia o que não queria. Quase me deixei convencer por uma certa burguesia empedernida, aquela com a qual gozava na adolescência e para a qual olhava de lado na idade adulta. Poderia transformar-me naquilo que criticava? Olhava para algumas fotografias que ia tirando e não me reconhecia, num misto entre a pessoa que já não era e a que não queria ser, rodeava-me de palavras, ideias e imagens, para me inspirar. Tornei-me peça de museu e via constantemente onde queria estar sem saber como lá chegar.

Mudei radicalmente a minha alimentação e foi então que mudei tudo. Pelo meio conheci os Açores e foi ali, numa sala velha de janela aberta para o mundo que percebi o meu caminho.

Há sempre um momento e o meu foi onde tudo começou: um estúdio de rádio à moda antiga, mais analógico do que digital que me permitiria comunicar de forma orgânica e autêntica, sem os subterfúgios que o digital permite, ou a superficialidade da sofisticação.

Em Junho de 2016 ensaiei a primeira postura de yoga, sem a consciência que tal exige. Novo caminho. Procurei tudo o que era orgânico e natural, cortei novamente o cabelo, fotografei-me de jeans e all star. Esta sou eu e esta é a profissional que vão ter. Comecei a ser mais eu e a não pedir desculpa por isso.

Dediquei-me ao pilates de corpo e alma, estava em forma mas não estava feliz e adiava o urbanista porque… RTP e a ideia de que a provedora - professora não pode ser blogger.

Na verdade, eu não queria.

Nesse Verão passei 4 horas num supermercado. Li todos os rótulos, escolhi ao pormenor, depois agarrei-me a uma prancha e fiz-me às ondas. Estes foram mesmo os primeiros dias do resto da minha vida. Agosto de 2016.

Cansada de estilo e estilo de vida, percebi que era, outra vez, tempo de mudar. Foi a primeira vez que juntei fruta e pão, que transformei legumes num smoothie, comecei a minha re-educação alimentar.

Queria paz. O treino que fazia já não me completava. Ensaiava, novamente, posturas de yoga, sem sucesso. Nada mais fazia sentido, só fazer o que me dava prazer. Precisei ir a Amsterdão para o perceber.

Voltei a Lisboa e fiquei doente. O corpo sabe sempre enviar-nos sinais, se estivermos disponíveis para os receber. Andei mais uns meses a deixar andar, a pensar no que me apetecia mesmo fazer, e a fazer o que me diziam para ser. Deixei de ser provedora, já não era nem pró-reitora nem coordenadora. Lentamente abandonava a consultoria internacional.

Agora é ia ser, porque não queria ser blogger mas sim podcaster, continuar a ensinar tudo o que aprendi da melhor forma que sei, inspirar e ser inspirada.

Todos os dias.

Conheci pessoas maravilhosas, razão pela qual o urbanista se transformou num programa de rádio sobre pessoas, coisas e músicas maravilhosas, numa rádio que pode tudo, até ser maravilhosa.

Depois de uma vida num contexto profissional masculino e masculinizado, aprendi que as mulheres podem (mesmo) ser as nossas melhores amigas: juntei-me a chicas #mara, conheci abraços únicos, outros grupos e tribos, juntou-nos a voz do coração. São muitas, hoje, provando que somos nós que vamos mudar o mundo. São amigas para a vida e outras que não fotografei, mais as de sempre que nunca me abandonam. Tornei-me mais segura e confiante, tolerante e paciente. Passei por todas as fases, incluindo a que não aceita m*rdas e a que manda o mundo dar uma volta. Fiz t-shirts e tive ideias improváveis, voltei a deixar crescer o cabelo para o cortar no meio termo. Abracei o yoga e um estilo de vida minimal, descobri cabelos brancos e fui a Cuba perceber que há muito de Hemingway em mim (contudo, com o mesmo homem ao meu lado para todos os livros que escrever) e foi ali, em isolamento total do mundo, rodeada de amor e da família, que o yoga mudou a minha vida. Abandonei preconceitos que me limitavam e abracei as minhas convicções, certa de que, se soubermos onde queremos chegar, encontraremos o caminho.

O resto já sabem, foi mesmo rumo aos 10k, com técnica, método e paciência.

Estou grata, não apenas pelo número e o que isso representa no instagram, para validação e notoriedade mas, principalmente, pelas muitas pessoas bonitas, e sem filtro que este percurso me trouxe, provando que, afinal, aquilo que supostamente sempre esteve errado e, diziam, me impedia de atingir os meus objectivos - a minha timidez e dissimulada introversão - era o caminho certo para lá chegar porque, se assim não fosse, eu não faria um podcast, não me esconderia atrás do microfone para me descobrir, descobrindo outras pessoas, nem usaria o mesmo microfone como ferramenta de auto-ajuda e crescimento pessoal que serve, também, para ajudar os outros. Obrigada.

 

O que tem o fim do mundo a ver com o estado da nossa pele? Tudo.

Todos sabemos mas custa acreditar: o mundo está (mesmo) a atingir o limite da sua capacidade de auto-preservação e regeneração. Por vezes sinto-me uma espécie de paladino da desgraça em relação ao tema mas a verdade é que chega de empurrar com a barriga.

São muitas as notícias  dedicadas ao relatório da ONU sobre biodiversidade, baseado na pesquisa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que refere as espécies de animais e plantas em perigo de extinção. É um novo cartão vermelho ao nosso estilo de vida. A próxima espécie a extingir-se pode ser a nossa e levar garrafas para o vidrão já não chega.

Creio que a mensagem da sustentabilidade não passa, ou passa de forma deficiente, por uma razão muito simples: comunicamos quase sempre de forma abstracta, generalizando as consequências e o que, no futuro pode acontecer. Se pensamos numa perspectiva individual, o que tem o fim do mundo a ver com o estado da nossa pele? Tudo.

A pele é o orgão mais extenso do corpo humano, a nossa primeira barreira contra as agressões externas e o que, indirectamente, também contribui para manter o  equilíbrio do nosso organismo. Borbulhas, vermelhidão, pigmentação, pontos negros, pontos brancos, pele seca ou demasiado oleosa… os problemas não terminam. Ontem estive num evento em que se falava de alergias e da nossa pele e percebi que, apesar de existirem múltiplas afecções da pele relacionadas com questões hereditárias ou genéticas, o maior problema é o nosso estilo de vida.

À nossa alimentação, apressada e descuidada, junta-se a uma outra correria que nos leva de casa ao trabalho sem respirar no percurso, mas inspirando muita poluição e contraíndo grupos musculares que deveriam começar o dia relaxados. Depois, entramos num ambiente pseudo-asséptico, controlado por máquinas que não filtram ou renovam o ar. Absorvem-no, secam-no e podem colocar alergéneos em circulação.

Na maior parte das empresas, as janelas estão continuamente fechadas o que quer dizer que nem o ar do ar condicionado pode sair nem o ar exterior, que não sendo puro, pode entrar, traduzindo-se em elevados níveis de dióxido de carbono e um ar pouco saudável. Da mesma forma, a exposição diária da nossa pele e sistema respiratório a este tipo de ambiente provoca bloqueios no sistema de defesa natural do trato respiratório e das pestanas, deixando estas mucosas de actuar como filtro dos microorganismos. Acresce que a falta de manutenção dos sistemas de ar condicionado pode acrescentar a existência de pólen, ácaros, fungos e bactérias que entram em contacto com a nossa pele. Quando ontem  pessoas diferentes referiam problemas diferentes e demonstraram estar em ambientes semelhantes, a minha resposta mental foi apenas uma: sai daí, nem que tenhas de mudar de empregou ou profissão.

Contudo, não mudamos, seja por impossibilidade, falta de vontade ou necessidade do rendimento. Gostaria mas não tenho solução para quem gostaria de mudar de vida e menos ainda para os problemas do mundo mas sei que as radiações solares e a poluição afectam gravemente o estado em que se encontra a nossa pele e, consequentemente, o nosso organismo. Nós, mulheres, fazemos de tudo contra as borbulhas e imperfeições e, principalmente, maquilhamos o problema com as mais recentes inovações. Somos também nós quem tem maior capacidade para  mudar o mundo, sabiam?

Ao longo da história, o papel da social da mulher tem sido definido num segundo plano. Somos  biologicamente mais fortes e resilientes. Os números não mentem: estamos em maior número nas Universidades, vamos ganhando terreno no mercado de trabalho e em cargos de decisão. Em casa, continuamos a trabalhar mais do que eles mas também somos nós a tomar as principais decisões de consumo e a influenciar todas as outras.

Fala-se de uma revolução silenciosa e do poder da energia feminina para recuperar o equilíbrio no mundo... Pensemos nas mais recentes protagonistas: são jovens mulheres prontas para assumir o seu papel no processo de transformação social, por força de uma mudança na orientação das nossas vidas e da forma como as vivemos, procurando um propósito relevante, a razão pela qual cá estamos e o que aqui andamos a fazer. Por isso, mulheres e raparigas, o tempo é nosso e seremos nós a implementar a mudança. Começando lá em casa, começando pelas decisões mais básicas. Cuidar melhor do mundo, para que não seja necessário cuidar da pele. São produzidas mais de 120 mil milhões de embalagens por ano para produtos de cosmética. Estamos a falar de embalagens de plástico que incluem muitas vezes uma caixa de papel e celofane para embrulhar, numa diversidade de plástico que não chega a ser reciclado por desconhecimento ou preguiça. No Wc temos muitas vezes um pequeno caixote no qual despejamos de tudo um pouco, lixo que acaba no aterro sem ser reciclado. Ring a bell?...

O que vamos fazer?

  1. se é a mulher a tomar as principais decisões de compra, pode decidir comprar menos e melhor, fazer escolhas de compra sustentáveis e estar atenta ao pormenor - e nós, mulheres, temos essa capacidade única de analisar os detalhes: local e métodos de produção, comunicação da marca e relações laborais, publicidade e o que esta pretende transmitir. Nada nos pode (continuar a) escapar.

  2. gerir melhor o tempo e colaborar - e nós, mulheres, somos verdadeiras malabaristas da gestão: do tempo, das responsabilidades e da vida, no geral. Deixemos para depois o que pode ser adiado e deleguemos para nos envolvermos mais e melhor em causas maiores, dando o nosso contributo para dar voz ao que precisa de ser alterado. Falemos. Alto, para que possamos ser ouvidas.

  3. Ter voz é adoptar uma posição - e nós, mulheres, somos peritas nisso. Chega de nos mantermos em silêncio e em segundo plano, vamos ser activistas, mesmo que no sofá, e passar a mensagem a quem nos rodeia, mais informadas sobre o que verdadeiramente importa porque informação é poder e, da mesma forma que conseguimos descobrir tudo sobre o mais recente thread de sobrancelhas, também podemos dedicar a nossa atenção ao que podemos fazer para tomarmos decisões mais  informadas, participar em grupos de voluntariado ou contribuir, directa, ou indirectamente, para a causa de protecção do ambiente.


Como o vamos fazer?

É de beleza que hoje se fala por isso, pensemos nas pequenas mudanças que podemos introduzir no nosso quotidiano, alterando, por exemplo, o sabonete líquido por um vegetal, como o castile soap, que é multifunções, ou optar por um sabonete em barra. O mesmo para o shampoo que podemos fazer em casa,  recorrer ao shampoo sólido e sem embalagem [um exemplo | outro exemplo], e escolher marcas que já usam uma embalagem que substitui apenas a parte que contém o produto (Rituals, Lush e Kiehls’ por exemplo), aplicando o princípio a outros produtos que podem ter embalagem de vidro ou alumínio (pode ser reciclado e reconvertido indefinidamente). Na impossibilidade, colocar as embalagens no caixote correcto e trocar o nosso caixote por um que nos permita separar o lixo no Wc. Para a higiene diária dos dentes existem opções biodegradáveis de fio dentário e escovas de dentes que podem transformar-se num outro objecto, como é o caso das que a The Bam and the Boo produz. Também não precisamos limpar diariamente os ouvidos e, quando o fazemos, podemos usar a ponta da toalha depois do duche, da mesma forma que podemos substituir as cotonetes para os pormenores da maquilhagem por outras, de papel ou bamboo, simplesmente, enrolar um pequeno tecido de algodão numa pequena peça de madeira ou bamboo (ou usar canto do dedo e da unha…). Para limpar o rosto há opções que dispensam discos de algodão. Para quem não os dispensa, há uma opção maravilhosa de algodão que podemos usar muitas vezes. São extremamente suaves, podem ser usadas dos dois lados e lavadas na máquina: os discos desmaquilhantes em algodão bio. Finalmente: olhar os rótulos e conhecer as marcas, dando prioridade às que têm políticas de produção sustentável, as que usam ingredientes de produção sustentável, as que sabem como poupar água e as que são quase 100% naturais, eliminando os químicos da sua composição. Como na roupa, está completamente nas nossas mãos, na informação que procuramos e nas escolhas que fazemos. O preço não pode ser tudo, até porque, em última análise, quem sofre é a nossa pele…

Breve história do colibri hipócrita que teimava em tentar mudar o mundo: 5 verbos que fazem a diferença na nossa vida

Escrever é sempre uma catarse e, por muito que qualquer escritor afirme que nada daquilo é sobre a si, quem escreve tem sempre a mesma história nas suas infinitas abordagens, ângulos e pormenores. Mesmo quando pensa que não. 

Escrever também é um acto de coragem, a dos introvertidos que usam a palavra escrita para fazer passar a sua mensagem. Vocês não sabem mas há muito de Brené Brown em mim, que estudei a rádio e a este meio me dediquei, da mesma forma que a Brené se dedicou a estudar e trabalhar a vulnerabilidade: pela sua própria fragilidade e timidez.

Talvez por isso estou sempre a escrever, mesmo quando não estou. Faço longos romances e artigos que nunca chegam a ver a luz do dia porque ainda não inventaram forma de registar o nosso pensamento de forma automática. E é por isso que vos escrevo, porque nesta jornada de tomada de consciência em relação a uma vida mais natural, livre de plástico e de químicos, há muitos momentos em que estou a escrever apenas na minha cabeça, quando me sinto hipócrita por defender uma coisa e acabar trazendo mais uma embalagem para casa. Há dias, no supermercado, não consegui ignorar este diálogo interior, fruto desta tentativa de viver melhor, deixando uma marca menor da minha presença que, depois, se traduz em muito pouco.

- a sério?!... vais mesmo levar isso?... 

Tanta coisa com a alimentação e a pegada ecológica e agora vais comprar uma papaia que veio do Brasil por via aérea?...  Não sabes que se deixarmos de comprar deixam de exportar?... não te preocupas com o ambiente?... Estás a ser egoísta, a ceder a um impulso...  Estás a esquecer-te que isso deve estar cheio de antibióticos?...


- eu sei. É só hoje...

- isso diz quem usa palhinhas... 

 

- Tenho tantas saudades... Já não compro uma papaia desde Agosto, isso deve significar alguma coisa, não? 

 

- não. 

 

A consciência é f*dida.

Sai da loja com uma papaia que demorei a comer. O objectivo era retirar-lhe parte do interior, rechear com iogurte e beterraba, granola e kiwi. Porque sim.

A cada vez que abria a porta do frigorífico, olhava para a papaia, lembrava-me disto tudo ao mesmo tempo que tentava repetir em silêncio que, mais do que ter uma pessoa a fazer uma vida perfeita sem lixo é preferível ter mil pessoas a dar o seu melhor para produzir menos lixo. Será?

Tento todos os dias e falho muitas vezes, mesmo comprando de forma mais consciente, pegando em roupa nas lojas que não chega a sair do saco para ser devolvida porque é fast fashion, pedindo ajuda a quem sabe, experimentando novo produtos ou receitas, mudando hábitos e esperando que um dia o mundo acorde para a calamidade em que nos encontramos, mascarada de mudança climática. Da chuva gelada ao sol de trinta graus vão dois dias e isso deveria ser suficiente para percebermos que algo está errado. Na Antártida uma comunidade de Pinguim Imperador desapareceu. Nos Pirinéus o aparente granizo é plástico e contamina o ar e a água. A deflorestação na Amazónia cresceu 54% desde que Bolsonaro chegou ao poder e em Moçambique as chuvas estão a abrandar mas não há precedentes para o impacto do ciclone da mesma forma que Montreal, no Canadá, está em estado de emergência devido a inundações. Continuamos a confiar na sorte porque só acontece aos outros, até ao dia em que nos vai bater à porta.

Porque o mundo está (mesmo) a mudar e muito depressa, quero poder passar a comprar morangos a granel sem ouvir o comentário de que são muito frágeis ou sem ter de ir a um mercado de produtores bem longe do sítio onde moro. Poupo no plástico mas gasto combustível e aumento as emissões de dióxido de carbono e azoto. Nunca estamos bem, não há a opção certa e voltar à idade da pedra na verdadeira acepção da palavra é apenas uma ideia parva. Pensar que as grandes cadeias e marcas podem ser mais honestas e menos gananciosas para que, com o seu poder económico, em vez de esmagarem pequenos produtores e os tornarem dependentes para escoar a produção, obriguem outras marcas a eliminar as embalagens de plástico, da mesma forma podem contratar mais recursos humanos para garantir que frutos e legumes são cuidadosamente manuseados para serem entregues ao cliente, em vez de os protegerem, garantindo que o cliente se serve a si próprio sem interferência de um funcionário. Também gostava que a mercearia ao fundo da rua fizesse a diferença, que não fosse propriedade de uma dessa grandes cadeias de supermercados... Gostava, principalmente, que estivéssemos todos mais conscientes dos factos, para acreditarmos que, rejeitando algumas práticas comuns que nos prejudicam a todos e adoptando outras, podemos contribuir para a mudança. Porque sim, na sua hipocrisia, um colibri pode contribuir para a mudança.

Eis algumas medidas simples que podemos adoptar no nosso dia-a-dia, que servem tanto - verdade seja dita - para nos aliviar a consciência, como para dar um contributo para a mudança e a protecção do meio ambiente. 

Circular | Comprar | Aprender | Experimentar | Partilhar 

Circular: menos de automóvel, partilhar as viagens mais vezes e, sempre que tenhamos mesmo de conduzir, circular mais devagar, fazer menos acelerações à campeão. Todos somos campeões, não precisamos de o mostrar na estrada. 

Comprar: menos, procurar alternativas com o que já temos, tentar trocar coisas com os amigos e, nós adultos, podemos muito bem evitar o fast fashion. Para quem tem miúdos a crescer ao ritmo das ervas daninhas será difícil porque o ritmo de substituição das peças de roupa é muito intenso e o custo das mesmas elevado. Tentar trocar e doar a roupa, passar aos irmãos e aos amigos pode ser uma forma de amenizar o problema. 

Aprender: coisas novas porque na maior parte das vezes as nossas atitudes e comportamentos resultam de pura ignorância. Eu não sabia que o vinagre de cidra de maçã era um excelente amaciador de cabelo. Aprendi. Experimentei. Apaixonei. Também fui aprender a fazer shampoo em casa. Uma busca simples na web resolveu-me o problema e mostrou-me um admirável mundo novo de opções com o que já tinha na despensa. 

Experimentar: sem medo de falhar porque estamos juntos no processo. Aprender uma coisa nova supõe que a consigamos implementar no nosso dia-a-dia e só lá chegámos experimentando. O que é o pior que pode acontecer se o vosso shampoo caseiro não ficar perfeito? Deixar o cabelo mal lavado e terem de voltar ao shampoo normal. E o melhor? Nunca mais terem de comprar shampoo. Já pensaram na poupança, nas vantagens e no benefício? 

Poupamos dinheiro porque o shampoo não é barato. O investimento nos ingredientes  para fazer um shampoo é maior mas estes duram muito tempo. Poupamos o meio ambiente porque produzem menos espuma e a maior parte dos ingredientes usados é livre de químicos que poluem os oceanos. Deixamos de estar dependentes de grandes corporações cujo fim único é o lucro. Controlamos os ingredientes, alterando percentagens em função das características do nosso cabelo e temos o prazer de fazer algo por nós e para nós. Há lá melhor satisfação do que essa? 

Partilhar: o que fazemos e as dúvidas que temos porque do outro lado há respostas e ideias. Acreditem: senti-me parva ao perguntar onde poderia encontrar morangos e frutos vermelhos a granel, mas recebi várias dicas muito úteis. Da mesma forma sinto-me insegura ao escrever este texto e senti-me muito estúpida ao partilhar os vídeos sobre o shampoo que fiz, ao estilo “ninguém quer saber”, “ninguém te perguntou nada” e, pior, “deves achar-te muito por isso, quando há milhares de pessoas que o fazem há imenso tempo”. Enchi-me de Brenée Brown e c*guei no que os outros pensam porque eu comecei agora, posso ir atrasada mas não vou tarde porque ainda há esperança. Do outro lado do ecrã, pediram-me a receita.

Afinal, vale ou não a pena partilhar?

Agora critiquem-me à vontade por causa de uma papaia mas ficam a saber que não estou de consciência tranquila…

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O tempo não volta atrás e nós vamos perder o comboio...


Há muito que venho defendendo a ideia de retrocesso, muitas vezes associada à alimentação e à necessidade de uma vida (mais) saudável. As nossas avós não conheciam panrico ou panike, coca-cola ou ice tea. Tirando o facto de que havia privação e fome no tempo da Guerra e durante o Estado Novo, a ideia de adoptar uma despensa parecida com a das nossas avós procura recuperar práticas antigas, dos ingredientes sem embalagens e dos produtos não processados. Procura, igualmente, dar resposta à crescente necessidade de adoptarmos um estilo de vida mais simples porque, mesmo que teimemos em ignorar, tudo à nossa volta nos diz para parar, escutar e olhar, como fazíamos antigamente nas passagens de nível.

O nosso estilo de vida está a matar-nos, a vida desenfreada nas grandes cidades esgota-nos e os dispositivos electrónicos que nos acompanham, definindo o nosso dia-a-dia, contribuem para esse estado de permanente ocupação, como se estarmos assoberbados em tarefas nos tornasse mais eficientes ou fosse sinónimo de sucesso. Lamento: não é.

A palavra mudança está na ordem do dia, seja numa perspectiva individual, em busca de um propósito de vida, ou de grupo, relativa aos nossos comportamentos. Há uma certa urgência na mudança para evitar que sejamos consumidos pelo aparente idílio social que projectamos assente em estacas de madeira que estão, rapidamente a apodrecer: individualmente, nunca se venderam tantos ansiolíticos e anti-depressivos como agora [ler], o stress é a doença crónica do século. A combinação dos dois factores provoca apatia, uma falta de sentimento que nos torna indiferentes a tudo o que acontece à nossa volta. Vivemos mas é como se não estivéssemos lá, sem energia e vontade, prisioneiros de algo que não sabemos identificar. Talvez esta apatia, que o uso intensivo da tecnologia tem feito crescer, explique o nosso desinteresse por aquilo que está a acontecer no planeta, num aparente descrédito pelos factos que estão à vista de todos.

“Se for só eu a fazer, não adianta” é a maior mentira que dizemos e Greta Thunberg está aí para o provar.

O mundo está triste, falta paixão, falta (re)apaixonarmo-nos pela vida para quereremos fazer mais. Estamos defraudados, desiludidos, de coração partido, razão pela qual mantemos o foco na negatividade, desvalorizamos o nosso potencial e ignoramos, como diz a miúda de quem o mundo fala, que nunca somos demasiado pequenos para fazer a diferença. Greta tem discursado em diferentes assembleias e parlamentos, apresentando estimativas que prevêem o fim da nossa civilização. Baseia-se sempre em factos científicos, difíceis de refutar, a não ser pela apatia que invadiu muitos de nós.

Ingénuos como só na adolescência conseguimos ser, os jovens sairam à rua e ficou tudo na mesma, afirmou recentemente Greta Thunberg, a miúda sueca que está a inspirar o mundo a mudar. A sua presença impactante, palavras directas e mensagem simples deixam qualquer um sem resposta e os jovens continuam a fazer greves estudantis por todo o mundo para que os governantes percebam a dimensão do problema.

Resta agora actuar.

Em Portugal, os jovens vão voltar a sair à rua no dia 24 de Maio, juntando-se ao movimento internacional #SchoolStrikeForClimate, iniciado por Greta. Se vão mudar o estado das coisas? Não sei. Mas sei que também eu quero fazer a diferença, à minha maneira e à minha medida, comprando menos ou não comprando fast fashion, escolhendo produtos a granel, fazendo o meu próprio champô - porque afinal é mais simples do que parece [exemplos] -, recorrer ao vinagre de sidra para substituir o amaciador de cabelo (e resulta!), usando vinagre para limpar a bancada da cozinha evitando que a espuma e os químicos dos detergentes cheguem ao mar, mudando para uma casa energicamente mais eficiente, porque é mais pequena e com mais luz solar, mais perto dos transportes públicos que me permitem deixar o carro à porta ou implementando medidas (ainda) tão pouco habituais como a compostagem.

Se cada um de nós adoptar, pelo menos, uma destas medidas, não me digam que não vale a pena…


Imagem de capa:  Markus Spiske 

Comer pelo prazer, chorar porque comemos. A montanha russa de emoções que a comida nos dá

Novamente, tudo começa assim, sem esforço, com a naturalidade mais natural que se possa imaginar. Conhecemo-nos no instagram e percebi imediatamente que tínhamos algo em comum: denunciava-nos o boné americano, pouco usual entre as mulheres como acessório statement, mas que define parte da nossa personalidade. Isso e a alimentação saudável. Não precisámos de mais para perceber que poderíamos juntar esforços, ideias e receitas. Temos ambas a abordagem keep it simple à vida e à alimentação. Mais para quê?

A Filipa é açoreana e vive na Noroega. Eu sou lisboeta com espírito escandinavo. Ela dá no ferro e levanta pesos, eu dedico-me à leveza de corpo e mente que o yoga nos dá. Ela é chef e health coach, eu tenho apenas ideias para comer bem sem ter muito trabalho. Por isso, juntámos as nossas vozes e ideias neste episódio do urbanista na NiTfm no qual partilhamos as nossas experiências, cruzamos opiniões e aproveitamos para falar sobre esse segredo bem guardado: a forma como as emoções dominam a nossa relação com os alimentos, as razões que nos levam a comer sem parar ou o que nos faz sentir parte do #team batatas fritas ou do #team chocolate e doces... tudo neste episódio com a Filipa Semião!

O trabalho: a maior das ironias da vida moderna e um exemplo contra a corrente

Ironia das ironias, a ironia maior do episódio urbanista desta semana está a passar ao lado da maior parte das pessoas que me escrevem, reconhecendo-o como um episódio cheio de graça porque, realmente, a Madalena Abecasis tem uma forma única de nos mostrar o mundo.

A ironia de que hoje vos falo também a mim passou despercebida até reparar num aparente pormenor deste episódio, sem o qual não haveria episódio: este é, afinal, sobre a ironia do trabalho moderno.  

Ficando em casa de baixa de maternidade e com pouco para se ocupar, deu largas à imaginação e em menos de nada estava na mira de Cristina Ferreira, que a levou para a sua nova casa, nas manhãs da SIC. No entretanto, já a pequena Júlia tinha nascido, já Madalena tinha voltado ao trabalho numa grande empresa e já o tinha abandonado em prol de uma causa maior: a sua paixão pela moda. Este é o primeiro aspecto que interessa, porque trocou aquilo que tantos ambicionam, um lugar estável numa grande empresa, por um trabalho multi-funções na sua área de experiência numa pequena empresa. Foi então que largou tudo isso para abraçar a sua outra paixão, dedicando-se à família e à sua capacidade única de comentar o quotidiano com um sarcasmo absolutamente maravilhoso. 

O que quer isto dizer?

De forma muito simples, quer dizer que somos, a maior parte de nós, umas grandes bestas quadradas, agarradas ao pouco que temos, sem coragem para dizer não e seguir um sonho.

Eu sei. 

Onde está o balão de oxigénio que paga as contas? 

Não está e não tem de estar, sabem porquê?

Porque enquanto pingar, por pouco que seja, por pior que possa ser, não temos disponibilidade (sobretudo mental) para darmos tudo pelo nosso sonhos. E sabem como e quando percebi isso? 

Quando o Fernando Esteves, que já esteve no urbanista, me contou que largou tudo, que tinha poupanças para viver durante 1 ano e que, depois disso, ou o seu projecto ganhava asas ou o pior dos cenários transformar-se-ia em realidade. Foi também isso que lhe deu a disponibilidade, a vontade e a tenacidade para dar tudo para o Polígrafo acontecer. Hoje, muito pouco tempo depois da nossa conversa, o Polígrafo já está, também, na SIC.  

O que aprendemos com o Fernando e a Madalena?

Fácil: os sonhos não podem ficar por realizar porque viver uma vida a trabalhar para (apenas) pagar contas deixa-nos infelizes e todos queremos sentir esse prazer que se chama satisfação pessoal. Para além disto, o ritmo da vida moderna está lentamente a matar-nos, seja pelo excesso de poluição à nossa volta e das suas consequências para a nossa saúde e bem estar, seja pelo facto do sistema social em que nos encontramos, que privilegia o sucesso material em detrimento da satisfação real.

O que quero dizer é que nada do que sentimos que resulte da relação que estabelecemos com bens materiais é real porque não se traduz num sentimento efectivamente forte e duradouro. A obsessão - que começou há muito tempo e hoje atinge proporções que nos prejudicam a saúde mental - por uma definição de sucesso medida em bens materiais tem vindo a destruir a nossa capacidade de abstracção. Nesta cultura do Eu, anónima e solitária, estamos demasiado preocupados com a forma como os outros nos percebem. Focamo-nos no irreal, definimos expectativas e metas inalcançáveis, ignorando o verdadeiro valor daquilo que se tornaram os pormenores da vida e que são, na verdade, aquilo que a vida tem de melhor. Essas abstracções filosóficas baseadas no sentir são a base da nossa noção de ser que o objectivo em ser o melhor, o mais famoso ou o mais rico tem destruído. Uma vez suprimidas as necessidades básicas, as necessidades de realização pessoal passam a assumir maior importância e como hoje não pensamos muito sobre o que de mais básico existe, concentramo-nos - erradamente - nessa realização pessoal sem antes percebermos o conceito de pessoa, ou seja, quem somos. Na ausência de definição de um propósito de vida, mantemos as aparências recorrendo ao que o dinheiro pode comprar para, novamente, sermos os melhores ou termos algo diferente dos outros. Ficamos esgotados. Simultaneamente, nas empresas, pouco importa se estamos bem ou mal, desde que estejamos, numa cultura desumana em que o bem estar financeiro das organizações se sobrepõe ao dos seus funcionários. A insegurança económica e laboral contribui para que estes funcionários aceitem ambientes tóxicos, más condições de trabalho e relações contratuais injustas, condicionados por uma oferta e procura de emprego muito desajustada, que deixa os profissionais das várias áreas numa situação submissa muito pouco digna. É aceitar. Ou aceitar, dar tudo sem questionar para, muitas vezes, acabar por perder tudo.

Como mudar?

Dizer não pode não ser solução pela tal necessidade económica de sobrevivência mas há muito que podemos fazer: dizer talvez, renegociar, renunciar, praticar o desapego para precisar de menos, organizar e gerir bem o tempo, definir prioridades e, se preciso, reinventar-se, como fez o Fernando e a Madalena.

Temos, principalmente, de reaprender a viver, abandonando essa necessidade de poder, fama, dinheiro ou reconhecimento para dar o salto, apesar da insegurança. O facto é que somos ensinados a sustentar a casa e a família, a termos independência financeira mas e quando para além de pagarmos contas, não há mais nada?

 

Terapêutico: muito mais que saudável é poder curar

Sabemos que alimentação é a base da nossa saúde mas não pensamos nisso vezes suficientes e lá vamos entupindo as veias, o fígado, o baço e outros órgãos com uma alimentação descuidada, apressada, pobre em nutrientes e rica em ingredientes negativos. A isso juntamos as muitas horas que passamos sentados, outras tantas inactivos, um scroll permanente nos social media e elevados níveis de stress porque o trabalho isto e a vida aquilo…

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É o que acontece a muitos de nós e quase me aconteceu mim. Aconteceu o quase, que é um enorme sinal de STOP antes das consequências graves aparecerem. Não contente com a primeira red fala ainda foi à segunda e depois parei para pensar no que andava a fazer, não sem antes o médico que conheço há mais anos me entregar uma prescrição cuja descrição se absteve de explicar dizendo para tomar sem questionar e acrescentando que, para além daquilo eu deveria simplesmente pensar no que andava a fazer. E pensei.

Já a Joana Teixeira, proprietária, mentora e tudo mais no Therapist, conta uma história diferente porque foi quando as consequências de um estilo e vida altamente apressado e desequilibrado se manifestaram que percebeu que tinha um problema. E resolveu-o. À sua maneira: pragmática, objectiva mas muito apaixonada.

Encontrou na medicina alternativa o que a medicina tradicional não tinha para oferecer e na alimentação a solução que muitos procuram e não encontram. Depois fez o que eu nunca (ou ainda) não tive coragem de fazer e criou aquilo que hoje conhecemos por Therapist, que começou por ser um plano para um Lx Factory da saúde e é hoje um espaço de alimentação saudável, terapias alternativas e partilha de conhecimento.

Gosto dela, falamos a mesma linguagem, somos sonhadoramente ambiciosas e pragmaticamente apaixonadas pela ideia de divulgar os benefícios de uma vida e alimentação saudável a todos com quem nos cruzamos. Eu, pela palavra, ela, sentando as pessoas à mesa e dando-lhes a provar combinações improváveis que resultam em pratos altamente deliciosos e extraordinariamente saudáveis. Tanto que podem curar. Ou contribuir para tal. Foi pela alimentação que a Joana curou um problema de saúde e foi, também pela alimentação, que eu me livrei do meu. Se isto não é o poder da comida, não sei o que será. Escutem a história toda e conheçam o Therapist, o projecto mais saudavelmente cool de que há memória!


Ser mulher é ser agente de mudança. As mulheres vão mudar o mundo.

 O mundo, como o conhecemos, está a implodir e nós continuamos preocupados com a superficialidade do dia-a-dia, as pequenas ofensas e as grandes conquistas. A nossa vida. Sabemos, contudo, que o mundo está em turbulência e quase nos obrigamos a estar gratos por aquilo que temos, porque sabemos que outros não têm, mas ficamos só mais um minuto no duche porque sabe mesmo bem.

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A Venezuela e Moçambique são os mais recentes exemplos do tumulto que nos assalta porque, em breve, quer o problema da economia e da sociedade, quer o problema das intempéries exageradamente exageradas vão estar aqui, junto à nós, impedindo os tais dois minutos a mais no duche. Já pensou nisso?

Publicado no Sapo24 [LER]

urbanista: o regresso a casa

A vida organiza-se em ciclos e quase tudo nasce, cresce e morre. Há, contudo, coisas na nossa vida que por mais que as tentemos “matar”, resistem. Assim é o urbanista.

Pensei durante meses no projecto e, dias depois de o criar, convidaram-me para permanecer  num cargo que, não sendo incompatível, sofria com o preconceito em relação à palavra blogue...

Os  dois primeiros anos do urbanista foram discretos, a testar modelos e fórmulas. Fui a primeira mulher no cargo de Provedora do Ouvinte, a mais jovem no cargo até à data, pelo que não havia urbanista que suplantasse esse orgulho e responsabilidade perante a rádio, os ouvintes e os seus profissionais.

Depois, assumi o urbanista de corpo e alma, sem esse estilo ingénuo de quem cria o seu espaço na rede para explorar a sua criatividade ou poder expressar-se. Acreditem ou não, isto de ser professor universitário também exige muita criatividade para conseguir estar actualizado, ensinar e informar de forma dinâmica. Com melhores (ou piores) avaliações por parte de alguns alunos, até poderia desistir mas há uma certa rebeldia que me faz continuar a querer dinamizar o pensamento, a abstração e a capacidade crítica dos que sentam nas minhas aulas. E é por isto que, apesar da minha vida profissional tomar muitos rumos diferentes, mantenho-se sempre na universidade, porque aprendo todos os dias.

Estarei sempre grata por isso.

No urbanista, é tempo de mudança. Dediquei-lhe três anos, o último ano e meio de forma intensa, com projectos e acções muito diversificadas. Cresci muito e aprendi outro tanto: na relação com as marcas e as agências, nos truques e pormenores do instagram, no adeus ao Facebook e tantos outros aspectos que me enriqueceram como pessoa, tornando algumas das minhas aulas mais interessantes (acho).

O Urbanista começou por ser um laboratório de experiências, transformou-se num podcast do qual me orgulho e que, não tendo chegado a número 1 do iTunes, foi parar ao Sapo 24, à Rádio Renascença e, finalmente à NiTfm.

Como não ficar feliz?

A mudança é simples: menos texto e mais áudio, diariamente, na NiTfm, entrevistando pessoas com histórias para contar. Em paralelo, mais histórias, porque o projecto tem vindo a transformar-se numa nano-empresa de storytelling, trabalhando com pessoas e marcas para contar a sua história nos social media. E nunca estive tão feliz como agora, juntando a palavra à voz e à fotografia, nessa missão de contribuir para um mundo melhor.

Abraço com todas as forças este desafio editorial na Nitfm porque, ao contrário do que me perguntaram há dias, não sei se quero fazer rádio a sério: o que é isso, de fazer rádio a sério?

Rádio online? Mas não queres fazer rádio a sério?... - disseram-me.

Como se a rádio online não fosse a sério ou, pior, uma rádio ainda mais a sério, por ser o presente da rádio. Estou feliz e é isso que importa.

Há um ano estive quase para acabar com o urbanista. Duas jovens pediram-me para fazerem um estágio. E continuei. Cresci em número de seguidores até ao dia em que o instagram decidiu mudar as regras do jogo. Foi também, nessa altura, que cresceu o número de subscritores no site, no podcast e na newsletter, provando que o instagram é só a ponta do iceberg.

(s*ck it Zuckerberg)

Obrigada a quem está desse lado, que acompanha este percurso que agora vai ter, cada vez mais sol e luz, plantas e verde, mar e ondas e uma abordagem descomplicada à vida para, juntos, sobrevivermos ao caos urbano.

O urbanista, as coisas maravilhosas e uma vida mais outdoor...

O mundo está cheio de pessoas, coisas e ideias maravilhosas. Ter decido focar a minha atenção nas pequenas maravilhas que me rodeiam foi uma excelente decisão, em parte, culpa do primeiro entrevistado desta nova vida do urbanista - antes “apenas” como podcast, agora como programa de rádio e podcast - o Ivo Canelas e da forma magnetizante como me fez pensar em todas as maravilhosas.

Escolher pessoas que mudam de vida sem olhar para trás ou pessoas com uma história inspiradora nunca foi novidade e, depois do urbanista, outros podcasts surgiram com uma abordagem semelhante. A verdade é que, de forma inconsciente, procurava pessoas que me inspirassem, para obter respostas para uma necessidade de mudança que cresceu dentro de mim a ponto de se tornar quase insuportável.

Foi então que abracei a ideia de que não temos de mudar de vida mas sim, de mudar a forma como vivemos a nossa vida. Mudei, gradualmente, aspectos sobre os quais nunca havia reflectido e que tinham grande impacto nos meus níveis de stress, satisfação pessoal e profissional, bem como no meu bem estar e da minha família.

Na verdade, estava a tentar ajudar os outros quando, na verdade, quem precisava de ajuda era eu. Mesmo estando a mudar as tais coisas pequeninas e que, juntas, são coisas enormes, havia mais a fazer. Toda a inspiração que aparentemente transbordava - que dizem que ainda transbordo - era, na verdade, uma tentativa, por vezes falhada, de me auto-motivar e inspirar. Uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade e a realidade é esta: depois destas pequenas mudanças, terão de vir as grandes mudanças, para as quais temo não estar preparada. Nunca estamos...

A vida encarrega-se sempre de nos apresentar as pessoas certas no momento exacto e não, nada acontece por acaso. Não terá sido acaso a decisão de fazer um podcast com entrevistas que me permitiu ampliar horizontes e conhecer pessoas novas todas as semanas, da mesma forma que não terá sido coincidência o monólogo “todas as coisas maravilhosas” ter estreado na semana de lançamento do urbanista na NiTfm.

O Ivo não sabe, mas estou-lhe grato e, mais ainda, a quem me permitiu fazer esta primeira entrevista. A ideia de coisas maravilhosas colou-se a mim de tal forma que segui esse caminho, passando a fazer os convites com o coração, independentemente da razão, escolhendo pessoas ou coisas em função do que estas me transmitem. Talvez por isso, encontrei, nas últimas semanas, pessoas incríveis as quais, com uma palavra ou uma frase, produzem um impacto enorme que também me empurra para essa mudança ou confirma que é este o caminho. Sei que outras pessoas maravilhosas estão por aí e quero muito descobri-las.

Foi o que aconteceu com o entrevistado desta semana: não só tem o mesmo nome de um grande amigo, como o seu projecto pessoal tem o nome da minha praia preferida de sempre (e de todas as que conheço, o Guincho), mas também se dedica a reinventar uma peça de lixo indiferenciado: os fatos de surf. Maravilhoso!

Conheçam o João Lourenço e a Guincho Outdoor, uma empresa que é também um projecto de vida que pretende ter impacto social e deixar o mundo um lugar melhor. Maravilhoso ♡

As Velhas mais Bonitonas do pedaço estão de volta ao urbanista e mais novas do que nunca!

Numa semana de rescaldo do Dia da Mulher, e das discussões em torno do tanto que ainda falta fazer para atingirmos a igualdade em tantas áreas da nossa vida, pensei que este seria um corolário do empoderamento feminino que este projecto de pintura tão bem representa mas, entretanto, a televisão privada portuguesa decidiu estrear dois programas concorrentes - e igualmente deprimentes -, que colocam em causa tudo o que o dia 8 de Março representa.

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No episódio urbanista desta semana não falamos sobre isto mas abordamos questões tão importantes como a de nos sentirmos bem na nossa pele e de como isso pode mudar a nossa vida, ao mesmo tempo que a Maria Seruya, a artista que dá vida a estas Velhas, explica a importância de nos focarmos no que é mesmo importante para conseguirmos concretizar projectos (e com isso sermos remunerados pelo nosso tempo, trabalho e investimento).

Obrigada Maria e vivam as Velhas Bonitonas

 

Mulheres exaustas, sacos de pancada, sonham com a liberdade ou a diferença entre fazer e ajudar. Assim são (estão) algumas portuguesas.

Os números da violência não mentem e apesar de 13 mulheres já terem morrido desde o início do ano, só não somos todas no título porque, felizmente, nem todas levamos porrada. Contudo, a pressão a que estamos sujeitas, a par com uma certa violência psicológica e intelectual, fruto de um machismo enraizado e dos tectos de vidro que nos fazem (quase sempre) remar contra a corrente é outra forma de levar porrada. Deles e especialmente delas, conservadoras que acham que isto de ser feminista (até) pode manchar a reputação de uma mulher. Assim, por todas as mulheres e em nome de muitas mulheres, cansei*.

A personagem de Clarisse Falcão (Mulheres, Porta dos Fundos) cansou de receber o que desejava. Nós estamos cansadas de fazer por ter sempre a despensa recheada, o cabelo e as unhas arranjadas, enquanto mantemos as aparências de uma carreira de sucesso às custas de um esforço altamente desvalorizado. Chama-se carga mental e ninguém sabe muito bem o que significa.

isso da carga mental…

O mais recente estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos revela que precisaremos de cinco a seis gerações para chegarmos a uma distribuição equilibrada das tarefas domésticas. Este trabalho de que raramente se fala é um dos maiores factores de pressão da mulher moderna porque ultrapassa - em muito - quem faz o quê, concentrando-se na preocupação em garantir que aparece feito. Há sempre uma percentagem superior atribuída à mulher sobre “as coisas a fazer” ou seja, a gestão doméstica, para que todas as necessidades familiares sejam satisfeitas. E quando não são? Quando a (merecida) pausa de uns é a permanente ocupação de outros?

Cansei, porque afinal eles trabalham sempre mais do que nós e o esforço de ir buscar os filhos à escola é um sacrifício que põe em causa o seu trabalho. O deles, nunca o nosso. Cansei de ouvir que se acabou o leite, como se apenas eu, que sou mulher, tivesse a responsabilidade de (re)abastecer a despensa. Cansei de ouvir que é preciso lavar a loiça ou engomar. Cansei de arrumar e colocar as almofadas no seu lugar como se apenas eu me sentasse no sofá. Na verdade, raramente acontece, sentar-me no sofá. Cansei de pensar nas refeições, de imaginar pratos diferentes, de planear a lista das compras, de ir ao(s) supermercado(s) - porque nunca se resolve tudo no mesmo local - de escolher e ficar na fila para pagar, de carregar os sacos, de arrumar a despensa, cozinhar e ainda ouvir criticas em relação às opções ou ao sabor. Cansei. 

“porque não pedes ajuda?”

Porque não tenho - não temos - de a pedir. O verbo - o princípio - está equivocado.

Há uma diferença muito concreta entre fazer ou ajudar: fazer é realizar, executar, agir com determinados resultados enquanto ajudar significa contribuir para que outrem faça alguma coisa. Sabemos a que outrem o verbo se refere, verdade?

Os números são claros: o mesmo estudo da Fundação Manuel dos Santos, com uma amostra de 2428 mulheres entre os 18 e os 64 anos, residentes em Portugal, demonstra que a mulher  ocupa 5h48m do seu dia com tarefas domésticas. Contas feitas, se trabalhar 8h e perder 2h em deslocações... ainda lhe sobra muito tempo, não é? Não.

O mesmo estudo revela ainda que estamos infelizes com o trabalho e que o emprego ideal iria permitir a conciliação do tempo para nos dedicarmos à família mas, também, para termos tempo para nós porque esse tempo - o tempo para cuidar de nós (e não falo de vaidade feminina mas de algo tão simples como dormir horas suficientes) é ocupado a trabalhar e, por isso, estamos exaustas. Eles vão responder que estão na mesma, que a pressão para os resultados é enorme e que não podem dar-se ao luxo de se dedicarem mais à família ou aliviar essa carga mental que tanto pesa sobre as mulheres sob pena de serem prejudicados no emprego. Verdade. Sem dúvida que é verdade, o que agrava, ainda mais, a situação.

e quando eles não podem fazer, quanto mais, ajudar?

Pouco adianta a cada mulher exigir maior equilíbrio ou instaurar uma pequena guerra doméstica para que ele assuma mais tarefas ou o seu planeamento, se ambos estiverem profissionalmente assoberbados para garantir que as contas são pagas. Há uma grande diferença entre o workaholic que se dedica por amor e o que trabalha disfarçado de workaholic porque tem um volume excessivo de tarefas ou acumula funções. E é, no fundo, isto que está errado.

Marcos Piangers diz, e com razão, que precisamos definir uma lista de prioridades e dizer não a tudo o que der para recusar porque, acrescenta, pode ser que a gente nunca fique rico mas tanta gente trabalha como condenado e também não fica. O problema é esta escravatura da camisa branca que não garante fortuna mas também não permite uma vida emocional, intelectual e espiritualmente digna. Nenhum tipo de escravidão, mesmo que (quase) voluntária, é digna.

Eles também estão cansados . O risco de burnout é cada vez maior. Se eu escrevesse o texto no masculino, também muitos deles estariam exaustos não apenas com o trabalho mas com a pressão da masculinidade perfeita ou do machismo que limita muitos homens em assumir frontalmente a defesa dos princípios feministas, especialmente no que à família diz respeito. Precisamos de colaboradores mais felizes em cada empresa e de empresas que respeitem a noção de tempo. Talvez a criação de incentivos fiscais para horários de trabalho adequados às necessidades dos indivíduos, considerando os ritmos familiares, possam incentivar à mudança, ao mesmo tempo que poderão contribuir  para melhorar a mobilidade na cidade. Horários diferenciados podem  ter consequências muito positivas para a vida de todos nós, da mesma forma que a criação de medidas que permitam mais formas de teletrabalho também possam ajudar.

Como mulher, cansei de ser quem marca consultas e leva os meninos ao médico quando estão doentes. Parece que a minha vida profissional pode ser colocada em suspenso porque o pai tem de trabalhar. Lamento. O pai tem de ser pai. 

Cansei, principalmente, de aguentar todas as bolas no ar, num desempenho profissional próximo do malabarismo e que, no final das contas, continua a ser mal pago, com um vínculo precário.

trabalho igual, salário igual?

Sobre a igualdade salarial, o mês de Fevereiro anunciava mudanças porque as empresas têm, agora, de demonstrar publicamente que os salários são definidos com base em critérios objectivos mas nós sabemos que, apesar das intenções, há muitas formas de manter o desequilíbrio enquanto as mentalidades não mudarem.

Cansei. Cansei mesmo de ser mulher e, por isso, de achar que consigo fazer isto tudo. Cansei, principalmente, de ouvir mães e avós dizerem-nos que afinal não temos de que nos queixar porque ele até ajuda em casa. Senhoras: se eles decidiram partilhar uma vida não têm de ajudar, têm simplesmente, de fazer pois se vivem aqui e sujam, devem limpar; se comem, têm de comprar, quem sabe até, cozinhar; se querem roupa nas gavetas e armários, pois têm de a lá colocar. Ajudar não chega.  O mundo mudou, nós e as nossas relações também. No trabalho exigem-nos o mesmo - normalmente um pouco mais - do que a eles, a remuneração que recebemos - muitas vezes inferior pelo mesmo trabalho - é fundamental para o equílibrio da economia doméstica pelo que não é tempo de ajudar mas sim de fazer. E se cada um fizer a sua parte, o mundo será um lugar melhor.

 

“homem não dá para confiar não! Cansei, não vou dar corda não…” é uma paródia com Clarice Falcão ao simbolismo do que tantas mulheres desejam: um conto de fadas no qual ele se apaixona, nos trata bem e pede em casamento…

Viver sem plástico na cidade: já é possível? Não.

Armei-me em repórter para a NiT e passei uma semana a recusar plástico em todas as situações de consumo. O resultado resume-se a duas questões:

- sim, estamos conscientes que o plástico vai acabar por acabar com isto tudo

- não, ainda não há muitas alternativas, especialmente no grande consumo  

Descobri, ainda, aberrações e grandes disparates que podem ler aqui