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#weekendmood todos os dias? Herdade da Matinha.

Todas as histórias começam com era uma vez mas, desta vez, não só não havia vez como não havia verbo. Aquela vez era única e, por isso, não era uma vez, era essa vez, fora do tempo porque, naquela que é apenas uma vez, o tempo parou. Sabia que era meio dia, ou hora de almoço, pelo sol a pique, a queimar a pele dos braços que arrastavam um saco de viagem demasiado pesado para um tempo fora do tempo. Tinha esse terrível hábito de precaver todas as impossibilidades e carregar o saco até ao limite do que o fecho permitia. Chegou e apaixonou-se. Olhou o horizonte e viu o verde sem fim. Caminhou até à entrada e sentiu que havia chagado a casa, naquela que não era a sua casa mas que adoptou imediatamente como sendo também, a sua casa. Assim é a Herdade da Matinha. 

Podia falar durante horas sobre a Herdade da Matinha sem me repetir porque a principal característica de locais como este é a forma como nos envolvem para nos fazerem apaixonar. Fui a convite da própria Herdade e estou pronta para regressar. Agora. Com ou sem bagagem.

À chegada, senti que parei no tempo, que entrei numa outra dimensão. Aqueles três quilómetros que separam a Herdade da estrada principal fazem a diferença, cortando a ligação ao mundo urbano, apressado e disfuncional ao qual pertencemos. Na Herdade o tempo é outro, mais lento, como se o aqui e o agora se fundissem num só para criar um tempo fora do tempo. Tudo é mais calmo e devagar na Matinha. Essa, é a sua maior vantagem, obrigando-nos a esquecer o ritmo rápido que caracteriza a vida urbana. O objectivo é esse, mesmo quando o serviço se atrasa ou o consideramos vagaroso. Não é. Há uma diferença em relação ao mundo real que se chama vagar. Não tem preço. Somos nós que estamos demasiado acelerados, como se o amanhã teimasse em não chegar, sem tempo para apreciar o presente. Isto é tão verdade quanto quase me ter entediado num pachorrento e demorado passeio a cavalo, até perceber que o melhor desse momento foi exactamente a oportunidade de não olhar para o relógio, deixando-me ir, ao ritmo da passada compassada do cavalo que me transportava. O cenário era simples e o objectivo ainda mais: cavalgar descontraidamente pela natureza que circunda a Herdade da Matinha.

Perdi o Norte, entre árvores e veredas, confiante no treino dos cavalos que nos levariam de regresso à Herdade, pelos trilhos que percorrem diariamente. O sol ainda estava alto, mas já não se escutavam as cigarras ao calor. Não se escutava nada, na verdade e, essa, foi a minha primeira percepção: para além dos cascos dos cavalos no terreno, nada mais, apenas nós e o imenso silêncio da natureza. Durante o tempo na Matinha, não ouvia o som dos carros e autocarros, ao longe, dos aviões a passarem em direcção ao aeroporto ou os ruídos que estão constantemente presentes na cidade. Entre o silêncio e o silêncio profundo, só os sons naturais do meio ambiente, à nossa volta. 

É este o princípio da Herdade: tempo, paz e espaço. A implantação da Herdade no terreno simula a evolução, crescendo ao longo dos anos, com área diferentes entre si, muito bem delimitadas. Os quartos organizam-se em diferentes grupos, separados entre si, dando a sensação de que existem várias herdades dentro da mesma Herdade. Grande, sem ser enorme, sem nos perdermos ou caminharmos sem fim como nos resorts de pulseirinha, nos quais muitas vezes nos perdemos nos percursos mais simples. Na Matinha há uma zona principal, como se fosse a casa de uns amigos, áreas distintas de quartos, um bar que serve a piscina, a piscina, agricultura e animais, cavalariças e, crème de la  crème, o espaço de yoga e massagem.

As refeições, ao ar livre, são um momento inigualável. O tempo ajudou, aquele calor suave, sem brisa que nos faz procurar uma sombra para sentir a temperatura primaveril perfeita, sem mosca sou mosquitos e com o azul do céu a acompanhar.

Para desfrutar de tudo isto precisamos de tempo. Experimentei um pouco de tudo, num ritmo que não é o da Herdade, para aproveitar cada um deles intensamente. O melhor estaria reservado para o fim, para ler um livro ao fim do dia, depois de um pôr do sol incrível (é este o adjectivo da moda, não é?) no alpendre do quarto, virado para o espaço natural à volta da Herdade que se estende até onde a vista alcança. 

Na Matinha, descansar é a palavra de ordem mas, acredito, o melhor será o que conseguimos aprender nessa aparente obrigação porque, à distância daquele que é o nosso dia-a-dia, há uma forte probabilidade de questionarmos o que andamos a fazer, em cidades sobrelotadas, ruidosas e poluídas, cumprindo objectivos que nos impõem e sobre os quais raramente reflectimos, procurando cumprir para, depois, nos autorizarmos um momento para repousar. Já pensaram na razão pela qual sentem, tantas vezes, essa urgência em descansar, desligar e reiniciar?...

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Herdade da Matinha | Características 

A Herdade da Matinha é um hotel de charme, localizado em plena Costa Alentejana, na Aldeia do Cercal, que ocupa mais de 100ha de montado e um total de 22 quartos. Neste refúgio é possível montar a cavalo, ter aulas de yoga, ajudar na horta, fazer massagens, praticar surf, fazer caminhadas ou picnics em família. 

Os almoços (sopa, prato principal e sobremesa) são servidos entre as 13h e as 15h (19€). Os jantares (jantar completo inclui entradas, prato peixe, prato carne, sobremesa – 32€) são servidos às 19h30 e às 21h

Valores quartos: Quarto duplo a partir de 85€ em época baixa ou 200€ em época alta (variável mediante época do ano e disponibilidade).

Reservas - reservas@herdadedamatinha.com

 

Danish Pastry Shop

Sou daquelas pessoas que nunca foi de copo meio cheio ou meio vazio. Ou está cheio ou está vazio. Meio termo é, simplesmente, assim assim. E o assim assim é, isso mesmo, assim assim... Por isso, quando me perguntam se gosto de rádio, raramente digo meh porque o meh, não faz muito sentido. Ou gostamos ou não gostamos. Ou está frio ou está calor. Ou chove ou não chove. Tudo o que fica nesse meio é, simplesmente, aborrecido e indefinido.

Talvez por isso goste tanto da Escandinávia que é, por definição, um local frio, de certa forma inóspito - em todos os sentidos da palavra - mesmo no ponto de vista social e cultural. Talvez, também por isso, seria tão enigmático e

Por outro lado, também gosto muito do calor africano e, principalmente, sul americano. Abaixo do Equador, para definir melhor.  Mar do Norte ou mares do sol. O que está no meio é... assim-assim. Uns dias quente, outros dias frio, difícil de definir. Outros dias é suposto estar quente e está só assim assim quente. Nós por cá somos muito isso: a terra do assim-assim... do vamos andando, vamos indo...

Também talvez por isso fiquei tão satisfeita quando ouvi o nome: Danish Pastry Shop. Os dinamarqueses raramente fazem por menos. Ou assim-assim. Como escandinavos que são, ou é ou não é. E, a pastelaria dinamarquesa, é: doce, ornamentada, rica e saborosa. Na verdade, não posso dizer que goste destas iguarias porque são bastante doces. Contudo, há algo na alimentação dinamarquesa e, em geral, na forma como se come no Norte da Europa que me agrada. Como em tudo na vida, também a alimentação é muito hygge e lagom, particularmente ao almoço, baseado em fatias de pão recheado com tudo o que possam imaginar. Os almoços fazem-se, normalmente, com sandes compostas às podemos também chamar sandes gigantes, não pelo tamanho mas pelo volume, por aquilo que se lá coloca dentro. E, uma sandes daquelas, é mais do que suficiente para deixar uma mulher satisfeita, acompanhada de um sumo natural e, eventualmente, quem sabe, de uma cookie e um chá, logo a a seguir.

Foi por isso que fiquei tão curiosa com a Danish Pastry Shop. Na apresentação deste novo espaço em Queijas, aprimoraram-se nos doces que nos apresentaram, iguarias maravilhosas de fotografar e saborear. O que me despertou verdadeiramente à atenção foram os croissants, que são feitos à verdadeira moda francesa, isto é, não sabem a manteiga nem se desmancham quando lhes tocamos. São folhados, são leves e estaladiços mas tem sabor de massa folhada e, sobretudo, têm sabor do chocolate que lá está dentro, um chocolate suíço escolhido pelo chef da Danish Pastry Shop com elevadíssima qualidade. O mesmo para o pão, tem vários tipos, com farinhas pouco refinadas, preparadas em moagem de pedra o que lhes dá uma textura bastante diferente da que conhecemos das farinhas utilizadas para fazer o pão. São também produzidas com uma levedura feita na própria Danish Pastry Shop, uma levedura natural o que intensifica o sabor do pão. Há, inclusivamente, um pão feito com levedura de cerveja que tem um sabor muito característico, único e que, seguramente, não será do agrado de todas as pessoas. Têm também pão de sementes, repleto (repleto mesmo, não aquela amostra por cima) de, adivinhem...  Sementes! 

Na Danish Pastry Shop também há brunch e há, sobre tudo um cuidado na selecção dos ingredientes, na preparação dos alimentos, na apresentação e na forma carinhosa como nos recebem, dando a sensação de estarmos em casa. Nota dez na cotação urbanista  

O terraço mais bonito de Lisboa existe: chama-se Ferroviário

Podia começar por vos contar a história deste espaço, mas nada disso interessa quando o Ferroviário é tudo isso mas é muito mais do que história. É, muito provavelmente, o terraço mais bonito de Lisboa e arredores e é, seguramente, o espaço exterior que eu teria se eu tivesse uma casa com um espaço exterior, um terraço ou um jardim. Admito que fiquei com alguma inveja, aquela inveja(zinha) que apelidamos de 'inveja da boa', quando cheguei ao Ferroviário. A verdade é que sim, gostaria de ter um espaço exterior na minha casa com tanto verde como o Ferroviário tem; bambus como o Ferroviário tem e móveis de jardim em verga, que eu tanto gosto, e que o Ferroviário também tem. Porque no mundo ideal não chove nem faz frio e, mesmo quando faz, o cenário continua a ser bonito. Como no Ferroviário.

O Ferroviário não é apenas isto.

O Ferroviário é tropical, tem vista para o Tejo e é, ainda, um espaço fechado que pede festas e concertos intimistas durante os dias frios e escuros de Inverno. É o Ferroviário e, por isso, este espaço interior, que poderia ser igual ao de tantos outros bares, volta a ser diferente porque... é o Ferroviário e o Ferroviário é bonito, sofisticado, tem muito estilo e um quarto de banho que pede selfies.

Para além disto, o Ferroviário tem um cocktail  simplesmente divinal, digo eu que não bebo. Chama-se Santa Apolónia e tem a quantidade de álcool na medida certa, uma conjugação de sabores que se sente, aprecia e não se questiona, mesmo para quem, como eu, não bebe álcool. Tem bons vinhos e a carta promete.

O Ferroviário é um espaço simplesmente espetacular. Digo-o não porque o visitei em dia de festa de apresentação mas porque já estava apaixonada antes de lá chegar, com as fotografias que têm publicado na conta de instagram.

Este é o espaço ideal para namorar, levar aquela pessoa tão especial que queremos transformar em namorado (ou namorada), impressionar o friend with benefits, porque tem cantos e recantos nos quais é possível dar aquele beijinho na orelha provocador ou, simplesmente, falar ao ouvido. É ótimo para conversar, tem espaços ideais para um grupo de amigas e é muito bom  - ou mais do que perfeito - para um reunião de negócios ao fim da tarde, daquelas descomplexadas, despretenciosas e com tudo para correr bem. É ótimo para ficar a trabalhar e é, sobretudo, perfeito para escrever uma história de amor. É seguramente para lá que irei inspirar-me e escrever muitos dos textos que irão ler nos próximos tempos, aqui no urbanista. 

Nota-se muito que me apaixonei? Ainda bem que não faço notícias, não é?... ♡

Candy Crush: o museu dos doces em Lisboa

A novidade em Lisboa chama-se The SweetArtMuseum e pode ser uma história de felicidade em formato açucarado...  

Lisboa está na moda, é (dizem) um lugar feliz e, por isso, a partir de 31 de Maio recebe o The SweetArtMuseum (SAM),  uma espécie de Charlie da Fábrica de Chocolate, mas sem o ar maníaco de Willy Wonka.

Por muito surreal que possa parecer, o primeiro museu pop-up e digital da Europa, poderá deixar-nos água na boca, enquanto confundimos um mundo imaginário com a realidade.

No espaço do museu, em Marvila, vão poder nadar em marshmallows na SplashMallow Pool, babarem-se com os chupas gigantes (que rodam!) da CandyWash Room e ainda sentir um cheirinho a férias (com um “ligeiro” toque a açúcar) dos gelados da Ice Cream Land e pensar naquele -#throwback Verão. Já. 

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No The SweetArt Museu, a única regra é dizer sim à felicidade. Mas ser feliz deveria implicar também fazer os outros felizes, e foi exatamente nisso que os mentores do projeto, Carlos Santos e Hugo Silva, pensaram quando definiram que por cada entrada no museu seria doado 1 euro à Terra dos Sonhos. A culpa do açúcar a mais reverte a favor de uma causa de sonho.

Como se tudo isto não bastasse, vai haver ainda uma loja que vende merchandising oficial e um App gratuita na qual, para além de puderem comprar os bilhetes, também podem de visitar o museu através da realidade aumentada. 

O urbanista é pela vida e alimentação saudável, sem fundamentalismos e com direito a uma excepção mas, principalmente, diversão. Para os que ainda se rendem ao prazer do açúcar, nada temam: apesar de ser tudo em plástico também vamos poder comer. Os 20 euros do valor da entrada transforma-se em degustações de doces exclusivos ao longo da visita, a melhor definição de realismo no The SweetArtMuseum, que certamente, nos fará viajar no tempo para terminar o dia de forma mais doce...

(texto produzido em conjunto com Inês Queirós, estagiária urbanista) 

Estilo é liberdade para escolher: 12 marcas muito fashion e muito sustentáveis

Ontem foi o dia da Terra, aquele dia em que celebramos a #MotherEarth com umas quantas hashtags e uns gifs divertidos, enquanto pensamos que poderíamos fazer mais. Enquanto isso, mais gases são libertados para a atmosfera, mais plástico é atirado ao mar, fazemos slurp numa palhinha e ficamos mais dois minutos no duche só porque sim.

na manhã seguinte abrimos o armário e continua o desfile, desta vez sob o argumento de que as marcas mais amigas do ambiente têm, na maior parte dos casos um design muito duvidoso ou que as que não exploram mulheres e crianças por uma malga de arroz são muito caras.

Permitam-me que vos diga, de forma directa que este pensamento resulta de ignorância, a mesma que eu sofro quando penso comprar alguma peça de roupa e não sei distinguir o trigo do joio, ou seja, as marcas recorrem a métodos de produção sustentáveis sem abdicar do estilo e preço acessível. Dizem algumas pesquisas científicas que a maior parte dos consumidores prefere não saber, fazendo associações muito negativas em relação aos que se preocupam com a sustentabilidade e a ética no mundo da moda. São os esquisitos, consta. Wake up call: do alto dessa moralidade está uma profunda - confortável -  ignorância sobre a vida de crianças exploradas para fazerem as vossas (e as minhas) #statementshirts. 

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Esta é também a semana do Fashion Revolution Week, um evento de moda sustentável, integrado no movimento global Fashion Revolution, um movimento de criadores e amantes da moda que acreditam que é possível manter o estilo sem explorar ninguém ou contribuir para a destruição planeta e, por isso, defendem uma mudança radical - revolucionária - na forma como usufruímos a roupa que vestimos. Porque,em boa verdade, todos temos de vestir alguma coisa. Por isso fui procurar e, uma vez que comprar online é um hábito cada vez mais comum, aqui fica uma (pequena) lista:

E se, além de comprarmos constantemente roupas novas, pensássemos em alternativas para as que temos? Comprar em segunda mão, alugar peças para ocasiões especiais, revirar o roupeiro colocando as peças que raramente usamos no topo, escolher peças que não usamos para vender, trocar ou dar-lhes uma nova forma. Como? Trocando roupa com amigos, personalizando algumas peças de roupa tornando-as mais trendy, costurar as nossa peças de roupa (ou pedir às amigas com jeitinho...).

Para quê, perguntam vocês, se temos tantas opções a baixo custo? 

Eis alguns números, escolhidos aleatoriamente: 

757 litros de água = 285 banhos

= um par de jeans

2720 litros de água = água para beber durante 3 anos

= uma camisa

10,5 milhões de toneladas = 30 x o peso do Empire State Building

= roupa deitada ao lixo nos E.U.A.

 

I rest my case.

Encontramo-nos no Fashion Revolution que começa já dia 23 de Abril?

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Tea time?...

Para além desta luta constante contra os vários tipos de preconceito e contribuir para nos olharmos ao espelho gostando um bocadinho mais de nós, uma das premissas do urbanista é a de apoiar novos negócios, especialmente os nacionais e, mais ainda, se contribuirem para a mudança. Se a isso aliarmos o facto de se basearem em produtos naturais, ainda melhor.

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É o caso da Queen Catarina Tea, da empresa Natural Concepts, uma spin-off da Universidade do Minho que cria produtos 100% naturais baseados em plantas aromáticas e medicinais, nomeadamente, as infusões (para perceberem a diferença entre chá e infusão, consultem este artigo)  criadas com base em quatro fragrâncias: oriental, floral, amadeirado e fresco.

A marca enviou-me uma caixa de uma edição limitada do Chá da rainha (Queen Catarina’s Tea) que corresponde a uma mistura do chá Puh-erh com o sabor da laranja nacional e o aroma da canela e que vos transportará para o universo enigmático do chá que os Portugueses apresentaram ao mundo. Isso e a compota de laranja, a very british marmelade que D. Catarina de Bragança levou para o Reino Unido, juntamente com o seu hábito de beber chá.

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É seguramente, a altura ideal para sentar e degustar uma caneca de chá enquanto esticamos as pernas no sofá, tapados com uma manta quente para uma maratona de séries na televisão, ouvir os podcasts urbanista ou, simplesmente, ler um livro. Sobre livros está para breve mais um podcast e posso contar-vos já que a minha escolha mais recente é esta e fala sobre a importância do silêncio na nossa vida…

 

O sorriso de um filho não tem preço

Nunca me assumi como especialista na matéria e, talvez por isso, sempre que escrevo sobre o mercado de trabalho o faça com de coração aberto. Acabo de me cruzar com um artigo, já antigo, do Expresso, que revela exactamente o que venho afirmando ao longo o tempo: a escravatura moderna, a produtividade e o excesso de horas que passamos a trabalhar. O volume de trabalho excessivo, os outros que não cumprem as suas funções (ou as desempenham de forma insatisfatória prejudicando o fluxo dos processos de trabalho) ou porque, simplesmente, fica mal ser eficiente.

Quando, em França, se institui que depois do horário de trabalho não se consulta o correio electrónico, nós por cá continuamos a insistir no erro de empurrar com a barriga as tarefas que nos desagradam, a interromper o trabalho por tudo (e por nada), a adiar decisões em reuniões que, como diz a frase que circula em memes e fotografias inspiracionais, poderia ter sido um e-mail. A tecnologia não veio facilitar grande coisa. Aumentou a velocidade, e capacidade de produção, libertando-nos para fazer mais. Não necessariamente melhor.

Há vários estudos sobre o tema revelando que trabalhamos mais horas do que deveríamos e que se instituiu o (péssimo) hábito de levar trabalho para casa: porque podemos, estamos sempre conectados e, porque, ligações VPN simulam o sistema a que temos acesso no escritório.

Que bom.

Também sabemos que exemplo vem de cima, ou seja, são as chefias (provavelmente aquelas que chegam depois das 10h) que impõem verticalmente que as horas sejam dilatadas além do horário de trabalho. E aceitamos porque?...  Temos medo de perder o emprego.

Pois. O tal "deixar de fumar" de que falava a semana passada. Lembram-se?

Acontece que este fumo passivo nos está a matar: dormimos menos e, por isso, corremos maior risco de doenças cardiovasculares mas, também, exaustão, ansiedade e depressão. Para quem tem filhos, a falta de paciência é o denominador comum. Normalmente não são eles os terroristas. Somos nós que, na nossa indisponibilidade, fazemos deles pequenos terrores quando, afinal, só querem o nosso amor e atenção. Contudo, sem trabalho, não há pão. Apenas amor.

Terrível equação.

Nest quadro destacam-se os jovens, mal pagos e sem grande esperança no futuro. Muitos estão em situação de desemprego ou emprego precário. Todos os que conheço se queixam disso, dos estágios que vão acumulando, das ofertas com contratos irregulares e baixos salários. Dividem apartamentos e pouco lhes sobra para uma vida confortável. Continuam, quase aos trinta anos, a depender dos pais. Outros escapam-se lá para fora, provando que o problema não são eles, as suas capacidades ou formação mas um sistema muito dúbio de contratação e distribuição dos rendimentos nas empresas.

Depois temos os que foram despedidos numa vaga qualquer de downsizing , a par com os que ganharam coragem e largaram tudo para procurarem uma vida melhor. Não procuram mais dinheiro, nessa lógica que a sociedade instituiu de que precisamos de mostrar o nosso sucesso com base naquilo que possuímos mas a sensação de missão cumprida.

Talvez por isso existam tantas novas formas de trabalhar: os que optam por deixar as grandes empresas para se tornarem empresários em nome individual - os freelancers e empreendedores modernos -, os que agarram nas suas economias e começam a fazer o que os apaixona: do turismo à alimentação saudável, não faltam exemplos. Há, ainda, quem reaprenda a organizar as suas prioridades e transforme o que sempre lhe deu prazer para ocupar os tempos livres numa ocupação remunerada. A seguir aparecem pessoas com influência digital e grande sentido de oportunidade que reúnem estes novos pequenos empresários no mesmo espaço. Com a magia da comunicação estratégica, transformam aquilo que poderia ser apenas um ponto de encontro de pequenas marcas num happening muito cool, repleto de projectos que queremos mesmo conhecer. A seguir chegam marcas maiores e agarram na ideia para a levar ao mainstream, chegando a cada vez mais pessoas. O próximo acontece dentro de dias, no início de Março, e reúne dezenas de marcas portuguesas - que existem sobretudo nas redes sociais - para apresentarem fisicamente os seus produtos.

A ideia não é nova mas corresponde, de certa forma, à tendência de recuperação de práticas antigas: nós sempre tivemos feiras e mercados. Actualmente têm mais estilo, posicionando-se como a cena urbana mais trendy do momento. O Blog da Carlota começou há cerca de 5/6 anos quando Fernanda Ferreira Velez decidiu começar a retratar o dia-a-dia da filha Carlota. Criou o Mercadito da Carlota, com marcas maioritariamente portuguesas que vai apresentando no blog ao longo do ano. Numa lógica semelhante, o Market Stylista, organizado pela blogger Maria Guedes, resulta da sua inspiração no Coolares Market, para criar um espaço no qual as marcas nacionais, que já promovia no seu Blogue Stylista, pudessem contactar com o público.

 

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© Luis Neto

Algo semelhante acontece no próximo sábado, no Mercado NiT, no Lx Factory, em Lisboa, seguindo a lógica de transição da revista do digital para novas plataformas, e da criação de um ponto de contacto entre marcas e o seu público, muitas das quais são já habituées nestes mercados. Ou markets. As palavras estão em inglês para o texto ser propositadamente mais cool e promover a ideia que Obama protagonizou: yes we can. Podemos sim, melhorar a nossa vida fazendo mais com menos. Porque o tempo - mais ainda o sorriso de um filho - não tem preço e a nossa inspiração para a mudança pode muito bem estar num destes mercados.

Fonte da imagem de capa