urbanista

#vacay ou o elogio da hashtag mais importante das nossas vidas

Comecei a ler um livro que diz que devemos ir de férias antes de termos vontade, ou seja, antes de estarmos de tal forma exaustos que as férias parecem uma miragem, ao longe e, sobretudo, antes dessa exaustão nos impedir de apreciar o melhor das férias. Atire a primeira pedra que não passa (ou perde) os primeiros dias de férias semi-inerte, sem vontade de nada, dormindo horas infindáveis em qualquer lugar ou posição, ignorando, por completo, o cenário paradisíaco em que (talvez) se encontra ou, simplesmente, não sendo capaz de abandonar o sofá lá de casa. Pior do que o cansaço é a incapacidade para gerir os seus limites e, ainda pior, é ficarmos cansados dias depois de termos regressado porque, simplesmente, fazemos o trabalho de quatro, estamos desmotivados ou no chamado beco sem saída...

Com excepção de quem não pode escolher as datas das suas férias, o ideal é dividi-las ao longo do ano para gerir as pausas e recuperar forças.

Contudo, o problema não é parar, menos ainda a impossibilidade de vivermos permanentemente em férias. O problema é o ritmo a que nos submetemos, mesmo quando não queremos, porque a regra agora, é esta: rapidez, eficiência, produtividade e multi tarefa. Somos todos assim, assoberbados entre o trabalho que temos de fazer e o que escolhemos completar, horas intermináveis sentados em cadeiras desconfortáveis, parados a acumular calorias para depois corrermos (literalmente) à pressa numa passadeira, como hamsters na sua rotina diária. Vamos ao ginásio gastar calorias que temos a mais pelas horas que ocupamos nessas tarefas que se limitam a fazer mexer os dedos, olhando para o ecrã de um computador. Precisamos contrariar todos os erros que o nosso estilo de vida, pessoal e profissional, nos obriga a cometer. Sabemo-lo mas continuamos a insistir no erro porque já não sabemos viver de outra forma, hiperactivos e freneticamente ligados a algo que nem sabemos bem o que é.

Por outro lado, no Elogio da Lentidão, o neurocirurgião Lamberto Maffei diz que o nosso pensamento lento - o estado natural do cérebro - é posto em causa, anulando a capacidade de reflexão, agindo por instinto e de forma imediata, tomando as piores decisões. Fala também nesta cultura da solidão porque se trata de uma consequência da tecnologia e não apenas do foro sociológico. O cérebro, perante o excesso de estímulos visuais, desenvolve mais o pensamento rápido e as emoções, diminuindo a linguagem falada e as funções racionais.

Ring a bell? Pois ring.

Evitamos conversar, trocando mensagens porque é mais fácil, sem pensarmos no que isso, verdadeiramente significa. Quem não acompanha é implacavelmente colocado à parte, independentemente da idade. Novos e velhos têm de alinhar nesta ligação hiperactiva mas, na verdade, de qualquer das formas, acabamos sozinhos. Regresso, por isso, a um livro de que gostei muito e sobre o qual já falei, chamado o silêncio na era do ruído, porque é preciso menos barulho na nossa vida, reintroduzindo aquilo que mais nos assusta: a capacidade de ficarmos sozinhos com os nossos pensamentos para, dessa forma, sermos capazes de apreciar o mundo lá fora sem ignorar o melhor que o mundo tem: o nosso próprio mundo.

G'anda pinta!

Em português de Portugal a expressão respeita a algo muito fixe. Altamente. Mesmo bom. Pinta, em português do Brasil, pode ser um sinal na pele. Por duas razões, é sobre sinais que vos vou falar.

A Mariana Mendes é uma miúda cheia de pinta e com uma enorme pinta. Dito assim parece uma redundância. Não é, porque soube fazer daquela que poderia ser a sua maior fraqueza a maior virtude. A Mariana nasceu com um sinal no rosto que é impossível de ignorar, a ponto de nos fazer apaixonar por essa sua característica única. 

A Mariana tem um rosto muito bonito, um sorriso maravilhoso e um olhar que nos penetra. Viram a pinta? Claro que viram, ignorando a pinta que lhe pinta parte do rosto. É esse o segredo para qualquer defeito que possam ter no vosso corpo. Raramente é defeito e, normalmente, é característica. Mesmo que nós não o vejamos assim. Desta vez sei do que falo. Não tenho uma pinta assim e não, não sei o que é ter um sinal de nascença que me cobre parte do rosto. Mas sei o que é ter o corpo coberto de pintas. Umas apareceram antes de ter a real noção do meu corpo, outras foram aparecendo ao longo da vida. Nos últimos anos aparecem cada vez mais, sempre no final do Verão. Já retirei três sinais nas costas pelas razões que imaginam. A mim. Aquela pessoa que se esconde do sol, que não aguenta o calor na pele e, principalmente, que detesta as pintas que pintam o seu próprio corpo.

No tempo dos meus pais não havia informação. A protecção solar era um chapéu na cabeça e uma t-shirt. Essa coisa da hora de maior calor era apenas isso, uma parte do dia em que nos recolhíamos porque o sol estava forte. Quando eu era criança já havia informação, o sol já era perigoso mas, provavelmente, ninguém ligava muito.. Sei que fui sempre a adolescente a quem perguntavam se ainda não tinha ido à praia. E, talvez por isso, fiz alguns disparates na tentativa de contrariar algo que não se altera: o nosso código genético e a capacidade de actuação da melanina. Mas eu não sabia e tentei. Até que me cansei,  fartei-me de me esforçar, assumindo a minha ausência de cor como a minha cor. Na mesma altura o mundo acordou para os perigos da exposição solar e eu percebi que já tinha feito umas quantas asneiras que se pagam anos mais tarde. Eu já comecei a pagar... 

Estamos no final Julho, de um Verão nórdico, perfeito para quem, como eu, não deve expor-se ao sol e, pensando no calor que há-de chegar, vou chamar-vos à atenção para o óbvio: o cancro de pele. Observem a vossa pele e os vossos sinais. Irregularidades, formatos estranhos ou simples alterações de cor são sinais de alarme. Protejam-se. Protecção solar é fundamental!!

Comecei tarde mas não dispenso os cuidados com a pele, especialmente a protecção. O bronze carregado é apenas isso, um exagero e não é necessariamente bonito. Há muito tempo que uso a mesma marca para me proteger que, recentemente, teve o cuidado de procurar os seus fiéis seguidores e a simpatia de me enviar um cabaz de Verão digno de referência, especialmente porque os produtos são mesmo bons e adaptados às diferentes necessidades da nossa pele, incluindo algo maravilhoso que me deixa com um aspecto saudável, mesmo nos dias em que estou visivelmente cansada: um creme de protecção FPS 50 que inclui BB cream com cor! Pelo que sei, há mais pessoas a usar este pequeno segredo da La Roche Posay que também estão rendidas como eu. Melhora o aspecto, uniformiza, não é gorduroso e funde-se na pele para se transformar na nossa própria pele, protegendo ao mesmo tempo que nos deixa lindas! Ao final do dia, com ou sem sol: limpar, limpar, limpar, hidratar e regenerar a pele. Na imagens estão os meus preferidos para os cuidados da pele, quase todos naturais, cruelty-free e, sobretudo,  adaptados à minha pele e necessidades. Não vão em cantigas ou sigam modas. pensem pela vossa cabeça, informem-se, oiçam o vosso corpo - no caso, observem bem a vossa pele - e procurem o melhor para vocês. La Roche Posay acompanha-me há anos na protecção solar mas na limpeza e hidratação do rosto estou rendida a outras marcas.

A forma como o sol afecta o nosso corpo está ligada a vários factores, incluindo idade, sensibilidade da pele, ambiente e condições de exposição. Desde queimaduras superficiais até ao cancro de pele, a sobre-exposição ao sol pode ter efeitos a curto e longo prazo que são impossíveis de evitar. As queimaduras solares ou o eritema solar são o sinal óbvio da exposição excessiva a raios UVB e não, não é bronze. É a acção da melanina numa protecção da pele em reacção ao ataque que os raios solares provocam. Percebem a razão pela qual algumas pessoas fazem alergia ao sol, com pequenas borbulhas vermelhas? 

Os raios UV irradiam a superfície da Terra diariamente: 95% são raios UVA e 5% são raios UVB. Entre eles, os raios UVA longos representam 75% da radiação total.  E?

Quanto mais longos os raios UVA, mais profundamente estes penetram na pele e podem causar danos irreversíveis que vão desde a alteração da pigmentação (ou pontos negros!) a alergias e intolerância, foto envelhecimento e envelhecimento prematuro.

É isso que querem para a vossa pele? Também me parece que não ♡

 

 

O novo part-time a tempo inteiro: procurar casa

Todos sabemos que procurar um novo emprego é um trabalho a tempo inteiro mas, o que ninguém sabia, é que isto de procurar uma agulha num palheiro - perdão - procurar casa, ou seja, um imóvel habitável, em Lisboa, com um preço aceitável, é tarefa para nos tirar anos de vida, ocupando dias inteiros, contribuindo, claramente, para diminuir os (já baixos) índices de produtividade nacionais.

Desde que descobriram a luz de Lisboa e outros predicados da cidade que o caos se foi, lentamente, instalando: as ruas da baixa foram ganhando outros negócios, lojas e pessoas, o Chiado foi gradualmente aumentando a sua já importante importância, tornando-se cada vez mais difícil circular, a cidade foi dando sinais de renovação, prédios velhos e devolutos foram sendo transformados em hotéis de charme, as habitações foram-se adaptando para receber os visitantes e, quando demos por isso, Lisboa quase não era nossa, com os moradores dos bairros very typical literalmente despejados para a margem sul, as lojas desses mesmos bairros a fecharem para dar lugar a negócios hipster e toda a cidade a entrar numa lógica demasiado trendy que só me faz lembrar a crítica de Eça de Queirós que, nesta infame ânsia de sermos modernos, há muito que deixou de ser obrigatório para os mais novos não tendões sequer, a partir de agora, obra de referência, ficando à escolha de cada professor, a leitura deste autor. Se eu fosse professora escolhia O Primo Basilio. Porquê? Porque me apeteceria, ora essa. O que se aprende? A ler, bom português e adultério.

No jogo do vale tudo para ser mais fácil, este também é válido.

Eça, na sua infinita capacidade de criticar o óbvio que escolhemos ignorar foi capaz de caricaturar a cidade - e o país - à luz das sua piores características, que perduram até hoje: a ambição e ganância, a pequenez do pensamento, a imitação constante de uma lógica burguesa falida, a superficialidade e ignorância da classe política, sua débil oratória reproduzida à exaustão por um jornalismo incompetente, interesseiro e pouco independente... As afirmações não são minhas e, contudo, não encontro, hoje, diferenças em relação a esta análise da sociedade portuguesa do século XIX. Na verdade, tal como na altura, não gostamos de nos confrontar com o retrato do país real, perdemos-nos habitualmente pela espuma dos dias e das pequenas conquistas que fazem deste um aparente grande país quando, na verdade, temos pés de barro que, a qualquer momento, se podem partir. Para além destas características intrínsecas, existem outras, de carácter estrutural que representam muito bem uma certa falência de valores morais de que Eça também falava.

Somos gananciosos e gostamos do dinheiro fácil, mesmo que seja a extorquir o vizinho.

É o que está a acontecer um pouco por todo o país, com particular incidência em Lisboa e arredores. Há os que desistem, mudando-se de armas e bagagens para a Costa da Caparica, por exemplo, os que abandonam o centro e escolhem Benfica, e os que regozijam aumentando exponencialmente os preços da habitação porque sabem que, com os preços inflaccionados no centro da cidade, as zonas mais próximas do centro tornam-se extremamente interessantes e as outras, nas áreas limítrofes, altamente apelativas. Amadora e Odivelas estão em altas, como nunca se viu. Na linha de Cascais a nova Universidade mudou as regras do jogo, mesmo para casas que se situam em Alcabideche, a 15 quilómetros de Carcavelos.

Se a isto juntarmos o facto de que não há construção nova - ou há muito pouca - e a que existe é de luxo, a situação para os que querem - ou precisam - mudar de casa é preocupante. Com agentes imobiliários desesperadamente à procura de imóveis para vender, batendo às portas, deixando folhetos ou fazendo contactos de todas as formas imagináveis, o mercado do arrendamento de longo prazo torna-se absolutamente instável, com contratos de um ano e rendas que a maior parte das famílias não pode pagar, a ponto da Câmara Municipal de Lisboa estar a lançar um novo programa de reconversão de escritórios da Segurança Social para apartamentos destinados a famílias de classe média e do próprio Presidente da República já ter interferido, impedindo os despejos aos mais vulneráveis.

As histórias hilariantes de cafofos colocados no mercado imobiliário a preço de pequenos palácios sucedem-se e quem procura casa nesta altura tem sempre um exemplo engraçado para contar entre amigos. A pergunta "então, já arranjaste?" torna-se inevitável para uma resposta que é sempre a mesma, entre o "nada decente" ou "nada que possa pagar". Os dias passam, o trabalho acumula-se, as noitadas também, misturamos nomes de sites e de agentes imobiliários, recebemos dezenas de mensagens e parece que nada acontece. Sim, estou nisto há tempo suficiente para conhecer as regras do jogo e saber que anda meio mundo a enganar outro meio, outros a quererem ganhar dinheiro sem esforço e uns quantos sortudos que fazem de uma herança um esquema para enriquecer.

Até já, vou só ali ver mais uma casa.

 

FOTO de capa: Alexandra Gorn

 

As férias dos miúdos e, sim, o regresso às aulas

6 ideias para as férias e 3 dicas (muito) importantes para aplicar antes de Setembro

Estamos em meados de Julho, as férias começaram, na maior parte dos casos há duas semanas, e só pensamos no que (lhes) fazer durante os próximos dois meses... 65 dias... 1560 horas ou, se pensarmos na média de horas em que estão acordados, teremos uma média de 900 horas para os ocupar de forma interessante. Só de pensar nisto fico cansada e, talvez por isso, este ano entreguei-me nas mãos do acaso, esperei para ver e vou decidindo quase dia-a-dia. Chama-se “confiar nos avós” e é o melhor que podemos fazer. Para eles e para nós. Para quem não pode, ou prefere manter os miúdos em actividades durante o Verão, algumas ideias e um obrigada muito especial a um blogue cujo autor desconheço mas que está sempre actualizado e que já foi um grande #lifesaver mais do que uma vez, reunindo informação sobre atelier de férias para crianças.

Até aqui planeava cuidadosamente as férias da #lovelyrita porque, se há coisa que me incomoda é pensar que não fazem nada nas férias ou, pior, que continuam a ir à escola, mesmo se a escola tem um conjunto de actividades dentro e fora de portas. O contexto é o mesmo, as pessoas também. As férias devem ser um período de crescimento, descoberta e aventura. Já experimentei actividades na água, como vela e surf, actividades no campo, no Monsanto e, sobretudo, actividades artísticas, como a pintura, escultura e a dança. Destacam-se as últimas, nas quais a miúda brilhou, especialmente ao nível da pintura, com criações que decoram várias paredes lá de casa. Recomendo, sem qualquer favor ou interesse, o Museu Berardo, Dance Spot e Surf, em Carcavelos, mesmo com a logística que implica.

 Da mesma forma, também nunca penso na escola antes das aulas começarem, nesse eterno espírito rebelde de quem pode, eventualmente, mudar-se para uma ilha nas Caraíbas a qualquer momento. Nunca acontece e, em Setembro, lá vou eu à escola, envergonhada e cabisbaixa, depois de ler cinco vezes todos as mensagens de e-mail que a escola enviou para perguntar: o que é preciso. Estão a sorrir não é? Eu sei que há mais pessoas como eu, por isso, três dicas:

  1. Mesmo que os olhos se fechem, que pensem que as Caraíbas chamam por vocês, sejam realistas e leiam as indicações da escola até ao fim.

  2. Encomendem as fardas ou aproveitem os saldos para atestar o roupeiro com as peças de desgaste rápido e as que têm de ser mudadas todos os dias, criando 10 conjuntos que podem alternar nos dias de escola. Não é farda, não parece, mas vocês, as mães que têm de lavar e engomar, estão garantidas e (um bocadinho) mais libertas.

  3. Encomendem também, os livros. Pois. Os livros. Aqueles que deixamos para o fim (para pagar em Setembro) e, entretanto, desesperar à procura dos títulos que entretanto esgotaram. Descobri a escola ideal, que trata de tudo por nós por uma módica quantia que, na verdade, me faz pensar que preferia ter o trabalho e a preocupação em reservar livros e comprar cadernos... Como entretanto - e a vida acontece quando estamos a planear outra coisa - a #lovelyrita mudou hoje de escola, naquela secreta esperança que todas as mães têm de estar sempre a fazer o melhor para os seus filhos - e dei por mim a pensar que o melhor é acordar para a vida é descobrir o que fazer. Cadernos e cenas? Deixemos isso para Setembro porque, no entretanto, tenho mesmo é de perceber por onde começar...

A Lisboa moderna das casas bonitas e dos pequenos-almoços saudáveis

Aviso à navegação: gosto muito da cidade de Lisboa. Ponto final.

Contudo, esse amor tal não me impede de a observar objectivamente , elogiando-a e criticando-a, especialmente os seus disparates e, como numa relação de amor, sofrer a desilusão.

Lisboa está cada vez mais moderna, cosmopolita, cheia de vida e pessoas que circulam nas ruas, dando uma nova vida à baixa e outras zonas que, há pouco tempo, ameaçavam morte lenta. Isso deveria bastar para me deixar feliz. Ao contrário, deixa-me cada vez menos satisfeita por ser lisboeta e cá viver. A mudança foi rápida mas não aproximou a cidade dos que cá vivem e, menos ainda, a tornou mais característica. Somos exímios na arte de fazer parecer e numa outra, de criar castelos no ar. Lisboa está a tornar-se um imenso castelo no ar, sem as infra-estruturas necessárias ou, simplesmente, uma coerência que não deixe a ganância tomar conta disto tudo. A história dá-nos muito exemplos de como fomos confiantes na sorte sem criarmos as bases que permitem, no futuro, consolidar a estratégia que queremos desenvolver. De que falo? Desta urgência em mudar e remodelar para vender e arrendar, ganhar dinheiro sem perceber que isto do turismo também é de vagas e que, o que é verdade agora, pode não ser amanhã. Também é verdade que há cidades que são sempre referência e que conseguimos entrar para a liga dos campeões, ganhando prémios internacionais, atraindo eventos de grandes dimensões e recebendo cada vez mais visitantes. A que preço?

E se, repentinamente, Lisboa deixar de ser a the next big thing e os turistas se concentrarem, por exemplo, em Vilnius, essa cidade que, do nada, pode passar a ser a outra big thing, para o turismo e o investimento? O que faremos, então, a tantas tuk-tuk, como rentabilizamos as casas que antes eram de lisboetas, afastados à força para outras zonas  e, mesmo, para fora da cidade? 

Provavelmente não vai acontecer mas, como em tantos outros momentos da nossa história, ignoramos essa probabilidade.

Depois? Logo se vê.

A renovação dos edifícios não tem equivalente e a abertura de novas lojas mostra um dinamismo económico duvidoso. Sei, contudo,  que a cidade ameaça sobre-lotação, numa lógica que quer afastar os carros da cidade - e bem - mas sem criar as condições para que as pessoas abdiquem do automóvel. Ando muitas vezes a pé. Não me importo e aprecio a paisagem. Contudo, fico também mais consciente da poluição na cidade,  visual, do ar ou sonora porque ruído parece ser cada vez mais intenso.

Fui visitar o novo espaço Go Natural, a primeira loja de rua, no Chiado, e não consegui deixar de pensar nesta questão. Depois de provar as delicias saudáveis que a Go Natural propõe, dei por mim a pensar que ando preocupada com a alimentação e um estilo de vida saudável, optando por me deslocar a pé para a promoção da saúde e dar um contributo ao meio ambiente para, simultaneamente, estragar tudo com os gases poluentes que inalo durante o caminho.

Serei apenas eu a ficar incomodada com o som dos carros, as buzinas, os martelos pneumáticos, aviões - que nos dias nublados circulam literalmente por cima da nossa cabeça -, os materiais e as carrinhas da construção civil, autocarros e todo o ruído que está à nossa volta na cidade? Serei também apenas eu a sentir um certo ardor nos olhos que não tem outra explicação se não uma certa sensibilidade ao pó (das obras que estão em todo o lado) e o impacto dos gases poluentes na qualidade do ar? Também não consegui deixar de pensar que ando a cuidar-me por dentro para estragar tudo assim que saio à rua. Cuidados com a pele e o corpo, alimentação natural para, depois, sentir aquele cheiro que não é um cheiro mas não sei descrever de outra forma e que é, obviamente, o fumo dos carros, ou seja, monóxido de carbono e dióxido de azoto? De que me servem as opções saudáveis?

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Enquanto caminhava, esta manhã, no centro da cidade, pensava nisto, porque, efectivamente, Lisboa está entre as cidades que ultrapassam o limite de partículas finas inaláveis definido pela Organização Mundial de Saúde, com consequências graves para a nossa saúde. Não se vê, não tem cheiro mas tem impacto e raramente pensamos nisso. Sabem que tipo de doenças resultam da inalação de ar contaminado?... Serei, novamente, apenas eu, a sentir aquela espécie de bafo quente com um odor impronunciável, cada vez que um autocarro, carrinha ou camião passa por mim, na maior parte dos passeios exíguos desta cidade? 

Fala-se pouco nesta questão e ainda menos na implementação de medidas para banir os automóveis dos centros urbanos. Há muitos anos empurrámos as pessoas para caixotes nos subúrbios. Esquecemo-nos de que precisariam deslocar-se para a cidade. A área metropolitana de Lisboa é uma imensa extensão da cidade com acessos rodoviários e transportes, no mínimo, duvidosos. De volta ao centro da cidade, fiquei a pensar se adiantará evitar os automóveis e manter autocarros decrépitos, movidos a diesel, bem como as carrinhas de entregas e os restantes veículos pesados, mais os táxis cujo conta-quilómetros já deu a volta e uns quantos furgões que escapam à inspecção. Não tenho solução mas questiono-me sobre estas nossas opções bonitinhas que não vão ao cerne da questão. A dada altura do percurso, dei uma corrida para entrar num eléctrico cuja carreira regressou recentemente, para perceber que o bilhete me custaria tanto quanto uma ida de Uber, com a diferença que, no Uber, vou sozinha, mais confortável, com música e temperatura ambiente à minha escolha, até à porta de casa. O guarda-freio sorriu quando me disse o valor, intuindo a minha reacção:

- São 2,90€ menina...

- 2,90€? Vou a pé. Ou de Uber...

- Eu sei menina...

Segui a pé, pensando nisto tudo e na apresentação da Go Natural, com uma mesa cheia de coisas tão boas que apetecia comer todas. Gosto da marca desde sempre, desde que era a única opção saudável num Centro Comercial e o saudável era, por exemplo, um prato de rigatoni de trigo duro (massa normal, portanto) com salmão fumado e cebolinho. À época era um must, simultaneamente diferenciador, com sopas que levavam quase sempre um topping único, como amêndoa laminada ou queijo feta. Depois o Go Natural perdeu-se para, finalmente, se reencontrar, num processo simples de regresso às origens, actualizando a sua oferta em relação ao que hoje consideramos saudável.

A gigante Sonae compreendeu o capital da marca, optando por o promover a novos consumidores, consolidando-o junto dos fieis da marca, como eu. Dos novos pratos gosto particularmente do linguini preto com camarão, abacate e pimentos, que peço sempre sem sal e que, ao ncontrário do que acontece em outros locais de not so fast food, é respeitado. Hoje fiquei a conhecer novas opções que incluem bowls criadas em parceria com a Joana Limão e cujas receitas adoro. Destaco a smoothie bowl verde de laranja e gengibre com granola, morango e coco, em tudo semelhante às que faço em casa (e que podem seguir nos instastories urbanista) e o bolo de cenoura e laranja que é simplesmente delicioso. Os sumos são os que já se conhecem da marca e a melhor parte é que o brunch está disponível todo o dia, incluindo iogurte com granola e fruta, tosta de abacate e ovo e outras coisas que deixei de comer mas que eu sei, muitos do que lêem o urbanista gostam muito:  croissants e muffins

Talvez por isto, por ter passado uma parte do meu dia rodeada de produtos naturais, num ambiente em pleno coração da cidade que nos remete para a natureza e uma abordagem mais natural, não posso conformar-me com uma Lisboa que se descaracteriza de dia para dia, que se verga à lógica do que o capital, à ganância do dinheiro fácil e que, sobretudo, repete os erros do passado, investindo pouco numa estratégia que nos permita, a todos, sermos mais saudáveis e, sobretudo, felizes.

Lisboa, mudou a sua identidade, ignora a sua história e perde a sua alma e isso, não é bom.

 

 

#weekendmood todos os dias? Herdade da Matinha.

Todas as histórias começam com era uma vez mas, desta vez, não só não havia vez como não havia verbo. Aquela vez era única e, por isso, não era uma vez, era essa vez, fora do tempo porque, naquela que é apenas uma vez, o tempo parou. Sabia que era meio dia, ou hora de almoço, pelo sol a pique, a queimar a pele dos braços que arrastavam um saco de viagem demasiado pesado para um tempo fora do tempo. Tinha esse terrível hábito de precaver todas as impossibilidades e carregar o saco até ao limite do que o fecho permitia. Chegou e apaixonou-se. Olhou o horizonte e viu o verde sem fim. Caminhou até à entrada e sentiu que havia chagado a casa, naquela que não era a sua casa mas que adoptou imediatamente como sendo também, a sua casa. Assim é a Herdade da Matinha. 

Podia falar durante horas sobre a Herdade da Matinha sem me repetir porque a principal característica de locais como este é a forma como nos envolvem para nos fazerem apaixonar. Fui a convite da própria Herdade e estou pronta para regressar. Agora. Com ou sem bagagem.

À chegada, senti que parei no tempo, que entrei numa outra dimensão. Aqueles três quilómetros que separam a Herdade da estrada principal fazem a diferença, cortando a ligação ao mundo urbano, apressado e disfuncional ao qual pertencemos. Na Herdade o tempo é outro, mais lento, como se o aqui e o agora se fundissem num só para criar um tempo fora do tempo. Tudo é mais calmo e devagar na Matinha. Essa, é a sua maior vantagem, obrigando-nos a esquecer o ritmo rápido que caracteriza a vida urbana. O objectivo é esse, mesmo quando o serviço se atrasa ou o consideramos vagaroso. Não é. Há uma diferença em relação ao mundo real que se chama vagar. Não tem preço. Somos nós que estamos demasiado acelerados, como se o amanhã teimasse em não chegar, sem tempo para apreciar o presente. Isto é tão verdade quanto quase me ter entediado num pachorrento e demorado passeio a cavalo, até perceber que o melhor desse momento foi exactamente a oportunidade de não olhar para o relógio, deixando-me ir, ao ritmo da passada compassada do cavalo que me transportava. O cenário era simples e o objectivo ainda mais: cavalgar descontraidamente pela natureza que circunda a Herdade da Matinha.

Perdi o Norte, entre árvores e veredas, confiante no treino dos cavalos que nos levariam de regresso à Herdade, pelos trilhos que percorrem diariamente. O sol ainda estava alto, mas já não se escutavam as cigarras ao calor. Não se escutava nada, na verdade e, essa, foi a minha primeira percepção: para além dos cascos dos cavalos no terreno, nada mais, apenas nós e o imenso silêncio da natureza. Durante o tempo na Matinha, não ouvia o som dos carros e autocarros, ao longe, dos aviões a passarem em direcção ao aeroporto ou os ruídos que estão constantemente presentes na cidade. Entre o silêncio e o silêncio profundo, só os sons naturais do meio ambiente, à nossa volta. 

É este o princípio da Herdade: tempo, paz e espaço. A implantação da Herdade no terreno simula a evolução, crescendo ao longo dos anos, com área diferentes entre si, muito bem delimitadas. Os quartos organizam-se em diferentes grupos, separados entre si, dando a sensação de que existem várias herdades dentro da mesma Herdade. Grande, sem ser enorme, sem nos perdermos ou caminharmos sem fim como nos resorts de pulseirinha, nos quais muitas vezes nos perdemos nos percursos mais simples. Na Matinha há uma zona principal, como se fosse a casa de uns amigos, áreas distintas de quartos, um bar que serve a piscina, a piscina, agricultura e animais, cavalariças e, crème de la  crème, o espaço de yoga e massagem.

As refeições, ao ar livre, são um momento inigualável. O tempo ajudou, aquele calor suave, sem brisa que nos faz procurar uma sombra para sentir a temperatura primaveril perfeita, sem mosca sou mosquitos e com o azul do céu a acompanhar.

Para desfrutar de tudo isto precisamos de tempo. Experimentei um pouco de tudo, num ritmo que não é o da Herdade, para aproveitar cada um deles intensamente. O melhor estaria reservado para o fim, para ler um livro ao fim do dia, depois de um pôr do sol incrível (é este o adjectivo da moda, não é?) no alpendre do quarto, virado para o espaço natural à volta da Herdade que se estende até onde a vista alcança. 

Na Matinha, descansar é a palavra de ordem mas, acredito, o melhor será o que conseguimos aprender nessa aparente obrigação porque, à distância daquele que é o nosso dia-a-dia, há uma forte probabilidade de questionarmos o que andamos a fazer, em cidades sobrelotadas, ruidosas e poluídas, cumprindo objectivos que nos impõem e sobre os quais raramente reflectimos, procurando cumprir para, depois, nos autorizarmos um momento para repousar. Já pensaram na razão pela qual sentem, tantas vezes, essa urgência em descansar, desligar e reiniciar?...

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Herdade da Matinha | Características 

A Herdade da Matinha é um hotel de charme, localizado em plena Costa Alentejana, na Aldeia do Cercal, que ocupa mais de 100ha de montado e um total de 22 quartos. Neste refúgio é possível montar a cavalo, ter aulas de yoga, ajudar na horta, fazer massagens, praticar surf, fazer caminhadas ou picnics em família. 

Os almoços (sopa, prato principal e sobremesa) são servidos entre as 13h e as 15h (19€). Os jantares (jantar completo inclui entradas, prato peixe, prato carne, sobremesa – 32€) são servidos às 19h30 e às 21h

Valores quartos: Quarto duplo a partir de 85€ em época baixa ou 200€ em época alta (variável mediante época do ano e disponibilidade).

Reservas - reservas@herdadedamatinha.com

 

Primeiro entranha-se e depois estranha-se: o preconceito

Aviso à navegação: somos todos preconceituosos. Em relação aos grandes, e aos pequenos temas da vida, há sempre uma pequena fracção do nosso pensamento baseado num julgamento prévio, muitas vezes irracional, completamente incontrolável e subliminar.

Várias pesquisas científicas revelam que são as emoções que controlam a nossa percepção em relação ao outro e a certos grupos sociais, reforçando estereótipos. Um desses estudos explica que não está errado ter um pensamento negativo ou, mesmo, um sentimento preconceituoso porque, o que importa, são os comportamentos. Concordo. São os comportamentos de devemos melhorar e, quem sabe, mudar.

Do ponto de vista social, tendemos a apreciar as pessoas pelo seu aspecto catalogando-as imediatamente. A chamada primeira impressão é muito mais do que isso... Fazemos o mesmo com a música, criando associações entre a música que ouvimos, e gostamos, e o tipo de pessoa que podemos ser.

Preconceito #1: diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és

#QuemNunca? Também eu já fui vítima desta percepção quase certa de que a música nos define. Pode definir mas não chega para dizer quem somos. Por outro lado, assumo o meu próprio preconceito em relação à música e suas associações. Também assumo que esse mesmo preconceito foi posto em causa, no fim de semana que passou, no show de Anitta, no Rock in Rio.

Preconceito #2: nem tudo o que parece é.

O rock in rio não é um festival de música mas isso não quer dizer que não nos surpreenda. Parece uma festa mas é um festival. Quer ser um festival mas é, na verdade, uma festa multi-marca. Será?

Preconceito#3: no Rock in Rio as pessoas vêm ver-se. E ser vistas.

Porque não vão pela música, a importância dada às fotografias, a quantidade de fotografias por hashtag e as poses por metro quadrado provam que, se calhar, esta afirmação não corresponde a nenhum preconceito... Ou será o maior dos preconceitos, julgar o outro por aquilo que lhe apetece fazer?

Todos sabemos - e aceitamos - uma certa definição resultante da roupa que usamos, os amigos que escolhemos e a música que escutamos. Contudo, uma pesquisa da Universidade de Cambridge revela que há diferenças entre julgar um livro pela sua capa ou um indivíduo pela sua biblioteca musical, demonstrando que boa parte dos estereótipos associados aos estilos musicais não são, necessariamente, verdadeiros, ainda que sejam uma afirmação da personalidade e identidade pessoal. Talvez por isso queiramos, muitas vezes, estar associados a géneros e estilos musicais mais eruditos ou alternativos, rejeitando os mais popularuchos, as músicas pop que tocam incessantemente na rádio e cuja métrica do refrão existe para martelar no ouvido. Mas, depois, soltamos a franga e cantamos esse mesmo refrão em uníssono num concerto. Estranho? Não. É um misto da força do colectivo e do nosso, afinal, pseudo- preconceito.

Há quem adopte uma forma mais refinada de preconceito, de quem não quer, sequer, conhecer uma música ou artista, porque considera que a sua imagem, e os poucos acordes que conhece, não encaixam nos seus padrões de exigência, numa postura e atitude contra os sucessos que tornam a maior parte das canções uma mera repetição umas das outras, estilos musicais importados que fazem sucessos temporários, transformando kizomba ou reggaeton em cenas de um determinado momento.

Confesso: foi assim que começou a minha relação com Anitta, repudiando-a por achar tratar-se de mais um exemplo de música a metro, esquecendo-me que, também a música a metro, pode ter uma mensagem. Para além do que ouvia na rádio, não conhecia mais nada. Nem me interessava.

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Fui ao Rock in Rio 2018 um pouco contrariada. O evento é, para mim, excessivo. Milhares de pessoas em simultâneo num encontro que se assume mais como uma festa do que um festival de música, juntando nomes altamente improváveis no mesmo cartaz e piscando o olho às famílias, com artistas muito child friendly. Nada contra mas prefiro não ir. No entanto, por ser #childfriendly, lá fui, acompanhada da minha #lovelyrita para me surpreender com o espectáculo altamente profissional de Anitta. Musicalmente falando, gostei mais da performance da batida contagiante nos intervalos para mudança de roupa do que da própria Anitta (fui só eu a notar ou houve mesmo lip sync?...) mas tenho de reconhecer que foi diva, em bom, conquistando-me quando cantou o refrão da nossa Blaya. Ficou-lhe bem. Para além disso, trouxe ao RiR um espectáculo de alto nível, e uma mensagem de integração e diversidade. As bailarinas plus size entraram, rebolaram e dividiram as atenções em palco, provando que, apesar de ser altamente sexualizada, a música desta cantora tem algo mais, usando essa sexualização como um atractivo para nos fazer perceber que somos preconceituosos e que não aceitamos, verdadeiramente, a diversidade.

Anitta tem pinta e tudo no sítio, sem ser uma Barbie plastificada, fazendo-se acompanhar de uma equipa maravilhosa de pessoas que nos representam a todos.

Um - Zero.

Ganhou Anitta e o Rock in Rio porque, afinal, uma festarola com música pelo meio também pode colocar o dedo na ferida e mostrar que há mais na música do que simplesmente um rebolar. Só o preconceito número 3, do excesso de pseudo qualquer coisa se mantém, numa tentativa falhada de imitar o Coachella, com muitas raparigas produzidas ao estilo boho chic mas sem o chic que o deserto da Califórnia, apesar do pó, consegue ter. Coachella é conhecido pelo seu cartaz e, paralelamente, o glamour das superstars que desfilam, inspirando o comum dos mortais a um outfit mais elaborado, alternativo e, sobretudo, inventivo, já conhecido nos sites de redes sociais como #coachellastyle. O nosso estilo é giro mas não chega aos calcanhares de Coachella porque somos naturalmente tímidos e reservados, com looks pouco arrojados, mesmo quando pegamos nas trends que têm passado por todas as redes sociais e que também não ficaram de fora do Rock in Rio: o brezzy white dress fica sempre bem, especialmente para quem se limita á zona VIP porque, fora dela, o white misturado com a poeira não resulta. Gosto dos calções com botins e não consigo entender as sandálias com tiras, especialmente as que deixam os dedos todos - mesmo todos - de fora. No final da festa aquilo só pode ser um misto de sujidade e pisadelas. Caso para dizer #sonotcool. Também vi umas misturas entre as trends de Verão e o que sobrou do Inverno, com muito preto, redes e os smocked tops, em alguns casos combinados com os calções de ganga de cintura subida. Das #momjeans aos #momshorts só passou um Verão que intercalou o RiR. No final do dia a variedade de pessoas é tão grande que as giraças a fazerem-se à foto para o instagram destoam entre a multidão que foi para um show de poderosas que, por sua vez, deitou por terra qualquer ideia (errada) que eu ainda pudesse ter sobre o impacto que uma (muito) boa ideia pode ter. E Anitta, melhor do que ninguém, sabe conjugar as tendências sociais com velhas técnicas de marketing, embrulhando-as com um jogo de cintura que produz um espectáculo que a catapultou para o estrelato internacional. Chapeau!
 

NiTfm: porque o futuro é online

Começar um novo artigo revelando a minha paixão pela rádio pode ser repetitivo e pouco interessante para quem habitualmente lê o urbanista. Contudo, a verdade é que é essa paixão que me move e que tem definido a minha vida profissional, envolvendo-me em tantos projectos e ensinar na Universidade, levando-me à RTP, à revista Briefing, aos podcasts, à MCR, à Renascença e, agora... à primeira rádio de lifestyle em Portugal, que assume o online como principal forma de distribuição [ler notícia]. 

Há dias, numa aula de mestrado, fiquei grata e orgulhosa perante o comentário de uma aluna que reconhecia a inovação da minha investigação em relação à rádio. Sem falsa modéstia, essa aluna argumentou que um artigo meu, publicado em 2005, revelava questões que ainda hoje estavam em discussão e apontava caminhos que, também ainda hoje, não estavam a ser implementados na rádio, pelo que, depois disto, me parece óbvia esta minha opção pela rádio online.

A NiTFM nasceu com esta vocação de cruzamento entre o áudio e o lado mais visual da web, numa lógica de consumo individual, de acordo com as necessidades e interesses de cada utilizador, que pode escolher o que vai ouvir, como e quando o vai fazer, com uma oferta musical eclética, inspirada no sucesso internacional das inúmeras Jack, Bob ou Dave FM norte-americanas, caracterizando-se por tocarem a música que lhes apetece ou a que mais gostam, com uma infindável lista de canções, contrariando a tendência de formatação e repetição dos canais comerciais mais populares. A NiTFM cruza (muita) música e (alguma) palavra com programas de autor, essa outra tendência que quase desapareceu da rádio e que tem, online, o seu expoente máximo. Bem vindos ao futuro que se chama presente: a NiTFM começou esta semana e, se quiserem visitar-me e à equipa, é só decorarem este URL: www.nitfm.pt 

Todas as Quintas, às dez da noite, o urbanista toma conta da NiTFM [ouvir].

O primeiro episódio é já amanhã e vai falar sobre... preconceito. Stay tuned

 

 

Danish Pastry Shop

Sou daquelas pessoas que nunca foi de copo meio cheio ou meio vazio. Ou está cheio ou está vazio. Meio termo é, simplesmente, assim assim. E o assim assim é, isso mesmo, assim assim... Por isso, quando me perguntam se gosto de rádio, raramente digo meh porque o meh, não faz muito sentido. Ou gostamos ou não gostamos. Ou está frio ou está calor. Ou chove ou não chove. Tudo o que fica nesse meio é, simplesmente, aborrecido e indefinido.

Talvez por isso goste tanto da Escandinávia que é, por definição, um local frio, de certa forma inóspito - em todos os sentidos da palavra - mesmo no ponto de vista social e cultural. Talvez, também por isso, seria tão enigmático e

Por outro lado, também gosto muito do calor africano e, principalmente, sul americano. Abaixo do Equador, para definir melhor.  Mar do Norte ou mares do sol. O que está no meio é... assim-assim. Uns dias quente, outros dias frio, difícil de definir. Outros dias é suposto estar quente e está só assim assim quente. Nós por cá somos muito isso: a terra do assim-assim... do vamos andando, vamos indo...

Também talvez por isso fiquei tão satisfeita quando ouvi o nome: Danish Pastry Shop. Os dinamarqueses raramente fazem por menos. Ou assim-assim. Como escandinavos que são, ou é ou não é. E, a pastelaria dinamarquesa, é: doce, ornamentada, rica e saborosa. Na verdade, não posso dizer que goste destas iguarias porque são bastante doces. Contudo, há algo na alimentação dinamarquesa e, em geral, na forma como se come no Norte da Europa que me agrada. Como em tudo na vida, também a alimentação é muito hygge e lagom, particularmente ao almoço, baseado em fatias de pão recheado com tudo o que possam imaginar. Os almoços fazem-se, normalmente, com sandes compostas às podemos também chamar sandes gigantes, não pelo tamanho mas pelo volume, por aquilo que se lá coloca dentro. E, uma sandes daquelas, é mais do que suficiente para deixar uma mulher satisfeita, acompanhada de um sumo natural e, eventualmente, quem sabe, de uma cookie e um chá, logo a a seguir.

Foi por isso que fiquei tão curiosa com a Danish Pastry Shop. Na apresentação deste novo espaço em Queijas, aprimoraram-se nos doces que nos apresentaram, iguarias maravilhosas de fotografar e saborear. O que me despertou verdadeiramente à atenção foram os croissants, que são feitos à verdadeira moda francesa, isto é, não sabem a manteiga nem se desmancham quando lhes tocamos. São folhados, são leves e estaladiços mas tem sabor de massa folhada e, sobretudo, têm sabor do chocolate que lá está dentro, um chocolate suíço escolhido pelo chef da Danish Pastry Shop com elevadíssima qualidade. O mesmo para o pão, tem vários tipos, com farinhas pouco refinadas, preparadas em moagem de pedra o que lhes dá uma textura bastante diferente da que conhecemos das farinhas utilizadas para fazer o pão. São também produzidas com uma levedura feita na própria Danish Pastry Shop, uma levedura natural o que intensifica o sabor do pão. Há, inclusivamente, um pão feito com levedura de cerveja que tem um sabor muito característico, único e que, seguramente, não será do agrado de todas as pessoas. Têm também pão de sementes, repleto (repleto mesmo, não aquela amostra por cima) de, adivinhem...  Sementes! 

Na Danish Pastry Shop também há brunch e há, sobre tudo um cuidado na selecção dos ingredientes, na preparação dos alimentos, na apresentação e na forma carinhosa como nos recebem, dando a sensação de estarmos em casa. Nota dez na cotação urbanista  

E se, amanhã desligassem a Internet? 5 vantagens em desligar...

Imaginem que amanhã acordavam e... nada. No telefone, aquela estranha mensagem, como quando estamos fora do país, sem roaming de dados, que nos diz para ligar os dados. Só que não há dados, porque o que não há rede. Internet. Despertador e lembretes funcionam, num aparelho que faz chamadas e envia mensagens. Apenas isso. Saindo para a rua, no carro, o caminho indicado no google maps sem actualização do estado do trânsito. Nos transportes, apenas os pensamentos por companhia ou a rádio, para quem ainda tem telefones que sintonizam a rádio em FM ou seja, quase ninguém. Zero notificações ou vibrações. Sem a agenda no google sincronizada com o e-mail a debitar compromissos. No trabalho, as mensagens recebidas são as do correio interno. Na escola, trocam-se papeis dobrados com pequenas frases  Ao almoço, nada para fazer, a não ser olhar os outros à nossa volta e o prato de comida que não é fotografado para publicar e mostrar ao mundo o que estamos a comer. Sem mensagens dos grupos no whatsapp, sem pop ups na web. Sem nada para além da vida real mas, também, sem acesso a serviços fundamentais que, nos últimos anos, se virtualizaram. Conseguem imaginar?

Eu consigo, não porque odeie a Internet mas porque aprendi que é importante saber usar a internet sem deixar que esta nos use a nós. Sem a Internet não podemos usar a web e os seus serviços, ou as aplicações móveis que dependem de IP (internet protocol) para funcionar. Diferenças? A Internet é a arquitectura da comunicação contemporânea, a web a estrutura que dá rosto às diferentes formas de comunicação e ferramentas que usamos diariamente. É mais complexo do que parece e é sobretudo, uma estrutura arquitectada para nos tornar dependentes porque, efectivamente, sem acesso a esta plataforma, ficamos cegos, surdos e mudos. 

O que fazer? Nada. Não adianta resistir, sob pena de ficarmos excluídos da sociedade e dos fenómenos de comunicação modernos. Mas importa termos noção dos limites que podemos estabelecer para uma relação saudável com o digital. Em França a interdição de telemóveis nas escolas públicas do ensino básico e secundário é oficial e um sinal de reconhecimento do impacto negativo destes aparelhos e, principalmente, do que estes permitem fazer e a dependência que também provocam. Um estudo recente revela que há um fenómeno chamado technoference, que descreve a interferência da tecnologia e dispositivos tecnológicos nas relações interpessoais, interrompendo-as no dia-a-dia. É alguém que não ignora o telefone durante o jantar, o estudante que navega aleatoriamente durante uma aula ou a aquele que joga enquanto o outro tenta manter uma conversa. Entre as aplicações que mais competem pela nossa atenção, sugando o nosso tempo, estão os media sociais e os jogos. Há vários casos de dependência mas há, também, exemplos de quem optou por abandonar os sites de redes sociais sem qualquer arrependimento. Excepção feita a quem os usa como ferramenta de trabalho, há todo um lado narcísico na forma como os usamos que, por sua vez, criou uma cultura de exposição e atenção que valida os indivíduos pelos likes e seguidores que têm. Quem não tem não vai a jogo ou, como li há tempos, é o miúdo que fica sempre para o fim e que ninguém quer ter na sua equipa. Perante o movimento absorvente que nos ocupa horas a actualizar os media sociais emerge outro, de abandono e regresso ao lado mais real da vida, com vantagens óbvias: mais tempo livre e sobretudo, maior liberdade em relação ao que os outros pensam porque nos livramos do seu escrutínio. É essa mesma liberdade que nos devolve o tempo que não tínhamos para nos dedicarmos ao que verdadeiramente importa, seja o trabalho, a leitura nos tempos livres ou o ginásio, aumentando, significativamente os nossos níveis de bem-estar porque, inconscientemente, deixamos de nos comparar com os outros que deixam, também, de interferir ou achar que sabem alguma coisa da nossa vida.

A proposta de hoje é simples: em vez de desligar a Internet podemos tentar aprender a utilizar as suas aplicações e ferramentas para vivermos melhor, beneficiando das suas vantagens sem ficarmos reféns do que nos proporcionam, especialmente ao nível da nossa auto-estima. 

Um detox digital temporário pode ser uma primeira solução para uma vida assoberbada de ecrãs e notificações, contrariando a nomofobia (o medo de estar incomunicável) e o que McLuhan dizia, provando que sabemos viver sem estes apêndices electrónicos e que o FOMO (fear of missing out) passa a ser um NOMO (need of missing out), reconhecendo a necessidade de estarmos desligados do contexto social digital.

 

Esta não é a primeira vez que abordo o tema porque, efectivamente, da mesma forma que é importante trazermos de regresso o silêncio à nossa vida, também podemos implementar digital free zones (em casa, por exemplo, deixando o smartphone fora do quarto ou desligando notificações e dados à chegada a casa) e offline days na nossa vida, para uma vida mais presente, que aprende a (re) apreciar os pormenores que ainda não foram digitalizados.

Podemos começar ao fim de semana, dedicando uma tarde, noite ou, mesmo, um dia a este detox para, depois, ir alargando a desconexão para se tornar um hábito integrado nas actividades de cada um de nós, de acordo com as nossas necessidades e motivações. No entretanto é preciso (re)encontrar as actividades alternativas. Ainda se lembram do que gostavam de fazer quando não existia internet, principalmente antes do boom dos sites de redes sociais? Pois façam.

Previsão?

Maior bem estar e tranquilidade

Menor ansiedade

Maior produtividade

Menor pressão (social, profissional...)

Maior capacidade de concentração e produtividade

Menor cansaço intelectual e dores de cabeça

Maior sonolência e noites bem dormidas

Menos FOMO porque não fazemos ideia do que estamos a "perder"

Maior noção do momento presente

 

Experimentem. Mas voltem para ler o urbanista ♡

 

 

Os mitos, as fraudes e as emoções alimentares: o que comer?

Estava eu na minha noite de sábado, sossegada em casa, a beber chá de hortelã e a dizer mal à minha vida porque... Eu já deveria saber. Mas, nisto de comportamentos alimentares, somos uns eternos miúdos e, por vezes, ignoramos o que o corpo nos diz e seguimos o que o ego quer.

O que, por outras palavras, quer dizer que comi o que não devia.

Para contextualizar, vou contar-vos uma conversa que tive, há muitos anos, com uma amiga farmacêutica... Na loucura das noites de Sábado dos vintes, raramente ficava em casa. Na ressaca de Domingo, lembro-me de um dia afirmar que não poderia continuar a beber bebidas brancas (#quemnunca?...) porque, no dia seguinte, ficava muito indisposta (de ressaca, portanto!) e que algo semelhante me acontecia quando comia cebola ou pimentos. E que se bebesse um galão (outros tempos, não critiquem...) ficava horas sem conseguir comer mais nada.
Também me lembro do seu ar preocupado, afirmando, de forma veemente, que deveria ir ao médico para fazer uma endoscopia e que, muito provavelmente, teria algum problema no estômago... Ficou um pouco ofendida com a minha resposta e não voltámos ao tema porque a desacreditei liminarmente: não só é mais simples não beber álcool como posso viver, sem qualquer deficiência nutricional, sem pimentos. Ou cebola.

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Esta passou a ser uma espécie de abordagem pessoal à comida: se não me faz bem, não como. Foi então que comecei a eliminar alimentos, a mudar gradualmente a minha alimentação e a procurar mais informação. Passei também a ser a esquisitinha do grupo, a única que, por sinal, na altura já sabia cozinhar, e a única que, não sendo da área de ciências, se preocupava com as consequências das suas escolhas alimentares. Era também a única que, sofrendo de um problema de saúde crónico, rejeitava medicamentos até cair à cama e pedir... socorro.
Dois ou três anos depois eliminei o leite e derivados. A seguir decidi eliminar a proteína animal e fiz o trilho das pedras de quem se inicia nesta aventura de questionar o paradigma dos almoços e jantares em família. Já vivia sozinha e tomava as minhas decisões mas houve muitos dias em que desesperei por não saber o que comer. Fui pelo caminho do vegetarianismo sem perceber que, para além da carne e do peixe, há muito mais para conhecer sobre aquilo que comemos.

Photo by  Trent Erwin  on  Unsplash

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Nunca fui radical ou fundamentalista e, talvez por isso, quando engravidei cedi à pressão, da mesma forma que também lhe cedi depois, muito por causa das escolas e, sobretudo, da pressão em torno de quem é diferente. Há quatro anos disse para mim que era chegado o momento, porque sentia que precisava, mesmo, de mudar. E mudei. Sem dramas, para além do que se possa imaginar que acontece quando se coloca um copo de sumo verde à frente de uma criança dizendo-lhe que “hoje não há sopa, há sumo”.
Não é fácil mas, não é impossível.

Eliminei bolachas, enlatados, sumos e qualquer alimento embalado que acrescente à sua composição algo que não seja natural. Leguminosas em lata? Sim. As que não têm conservantes, aplicando-se o mesmo princípio a qualquer outra coisa. Bolachas e afins? Acabaram-se. Cereais? Adoro. Mas não me lembro da última vez que comprei ou comi cereais das grandes marcas da indústria alimentar. Repito: não sou especialista ou radical, procurei e compilei informação e tento encontrar produtos naturais e não processados industrialmente. No caso de produtos embalados, procuro os que têm a composição mais simples e próxima do original, com baixo teor de açúcar e sódio e, principalmente, pouca gordura, o que não quer dizer que seja light. Fujam disso e do produtos sem açúcar porque, para terem sabor, têm qualquer outra coisa. E, essa coisa, não pode ser boa...

Como já antes publiquei, o que é que eu como?

Como de tudo como as outras pessoas, com a diferença que não como nada (ou evito até ao limite do possível) qualquer alimento com as palavras processado, hidrogenado, adicionado e outras semelhantes. Como muita fruta e legumes, mudei o paradigma das refeições porque nos ensinaram que comemos carne e peixe ao almoço e ao jantar quando, na verdade, quando comemos carne estamos, efectivamente, a comer uma de duas coisas:
 

  • Farinha, no caso dos animais criados em explorações agro-pecuárias;

  • Erva, no caso dos animais que são criados ao ar livre e no seu ambiente natural.

Erva, dirão?

A verdade é que há uma certa ironia nisto de sermos carnívoros porque, de facto, a proteína animal resulta da decomposição das enzimas da proteína vegetal que alimenta alguns destes animais, herbívoros por natureza. Os restantes? Pois imaginem o que poderão estar a comer, considerando que, quanto mais depressa crescerem, mais depressa vão para o mercado e mais rapidamente dão rentabilidade ao negócio...

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Todos sabemos e fazemos por ignorar as pequenas grandes fraudes da indústria alimentar a qual, como qualquer indústria, tem por objectivo ganhar dinheiro. Os processos de transformação dos alimentos através de processos industriais permite que estejamos permanentemente a comer gato por lebre, sem conhecermos os verdadeiros ingredientes daquela que é a maior das fraudes: a fraude alimentar. Queijo que inclui fécula de batata, mel que leva açúcar, sumos de fruta que só têm a polpa da fruta e muita água...

A lista é interminável e, muito por isso, optei por esta opção mais próxima da natureza, baseando-me em legumes, frutos, cereais e sementes. E sim, sei que as terras estão contaminadas, as chuvas são ácidas, as pragas que infestam as culturas tratadas com químicos e outros aparentes pormenores que transformam a nossa alimentação num verdadeiro desafio. A adulteração de produtos alimentares tem consequência graves para a nossa saúde. Não nos apercebemos do mal que nos causa até detectarmos novas alergias e intolerâncias ou, mesmo, doenças auto-imunes sem sabermos, exactamente, a sua origem. 

Photo by  Adam Jaime  on  Unsplash

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Fomos ensinados a encher o prato com hidratos, proteína animal e vegetais. Mas e se mudarmos isto e tivermos um prato cheio de fibras (cereais), proteína vegetal (em vez de a comermos reciclada através da proteína animal) legumes e frutos? E se o meu jantar for uma tigela de cereais, fruta e sementes? Fará sentido ter lanchado legumes? E se trocarmos as voltas a isto tudo e comermos o que fizer mais sentido para nós, de acordo com as nossas necessidades, aporte calórico, saciedade e satisfação e menos de acordo com o “que têm de ser”? Porque, na verdade, não tem. Por muito que vos queiram convencer do contrário.

Para além dos mitos alimentares que ainda prevalecem, a nossa relação com a comida tem muito de social, imitação e emoção.

Socializamos comendo e esse é um dos momentos mais difíceis num processo destes porque damos por nós a sermos os únicos a comer coisas diferentes. E, depois, percebemos que o problema não somos nós mas os outros, que rejeitam a diferença, não aceitando acolhê-la ou integrá-la, são os espaços que frequentamos, pouco adaptados a estás modernices das bowls, sementes e afins. Quando damos por isso, comemos mais vezes em casa, temos amigos novos e frequentamos sítios diferentes. Porque o paradigma habitual deixa de fazer sentido.

A imitação é outro processo, porque tendemos a repetir o que vimos os nossos pais fazer, a cozinhar como nos ensinaram e a questionar tudo isto para mudar. Novamente, não temos de ser nós contra o mundo ou a família mas, simplesmente, seduzir os mais renitentes com o sabor de refeições preparadas com amor e ingredientes naturais.

Finalmente, a emoção. Temos uma relação altamente emocional com a comida e décadas de um palato educado a sabores tão aparentemente inocentes como o do pão com fiambre. Para muitos, a comida é recompensa ou escape, aspectos que nos deverão levar a pensar nas razões pelas quais nos recompensamos através da comida, nos refugiamos comendo ou acalentamos algum tipo de mau estar.

Mitos? Quantos querem? 

  • come a carninha toda: não lhe conheço a origem mas sei que a proteína animal foi, durante muito tempo, um luxo que a industrialização massificou para, as Grandes Guerras Mundiais, voltarem a tornar um bem escasso. Foi principalmente a Segunda Guerra Mundial a que marcou uma geração que cresceu para nos passar essa ideia de que a proteína animal tem de ser valorizada porque, durante muito tempo e por falta de recursos financeiros, este elemento era um luxo na nossa alimentação.

  • O pão engorda (e, mais recentemente, tem glúten, faz mal): o pão, em si, não engorda. O que engorda é a farinha altamente refinada com que o mesmo é produzido, que se transforma em açúcar no processo digestivo, acumulando-se no nosso organismo. Aquela carcaça que antigamente comíamos ao lanche? Essa engorda. Mas o pão do ainda mais antigamente não engorda porque as farinhas usadas eram moídas a pedra, fazendo prevalecer as fibras e os nutrientes do cereal usado. Da mesma forma, o pão escuro, que lá muito no antigamente era o pão dos pobres passou a ser trocado por um pão branco, de trigo altamente refinado, com um miolo semelhante a algodão. Felizmente a moda é um eterno retorno e o pão escuro (centeio e outros cereais) está de volta, da mesma forma que surgem padarias que controlam o processo desde a produção, moagem e fabricação do pão. Não é barato mas até os intolerantes ao glúten deixam de o ser... Onde? Que eu conheça, aqui e aqui.

  • O leite faz bem aos ossos: não é o leite, é o cálcio. E um punhado de brócolos tem mais cálcio do que um copo de leite, ao azeda no estômago e ainda fornece vitaminas e minerais que o leite não tem. Azeda? Como assim? É isso. Nunca se perguntaram a razão daquela halitose quase imediata depois de bebermos leite? É que o processo de digestão desta bebida passa exactamente por... azedar, resultado da interacção com os ácidos do estômago.

A comida é energia, serve para permitir que o nosso corpo funcione de forma harmoniosa. Da mesma forma que um automóvel não circula sem combustível, também podemos olhar para os alimentos dessa forma, usando-os para nos servirem da melhor forma possível sem nos tornarmos escravos do que podemos, ou não podemos, comer. A grande vantagem de uma alimentação baseada neste princípio do que é natural é que não têm restrições porque é rica em nutrientes e pobre em gorduras e açúcar. Ou seja, se comermos mais do que o organismo consegue queimar, engordamos como em qualquer outro regime alimentar a diferença é que a quantidade do que teríamos de comer para tal acontecer é absurdamente superior ao que somos capazes de fazer porque entre as fibras, minerais, vitaminas, proteínas e hidratos de decomposição lenta que estes alimentos nos dão e o açúcar, sal, proteínas vazias e hidratos que se transformam em açúcar quando os começamos a digerir vai uma grande diferença que não se conta em calorias porque, simplesmente, não é comparável.

O terraço mais bonito de Lisboa existe: chama-se Ferroviário

Podia começar por vos contar a história deste espaço, mas nada disso interessa quando o Ferroviário é tudo isso mas é muito mais do que história. É, muito provavelmente, o terraço mais bonito de Lisboa e arredores e é, seguramente, o espaço exterior que eu teria se eu tivesse uma casa com um espaço exterior, um terraço ou um jardim. Admito que fiquei com alguma inveja, aquela inveja(zinha) que apelidamos de 'inveja da boa', quando cheguei ao Ferroviário. A verdade é que sim, gostaria de ter um espaço exterior na minha casa com tanto verde como o Ferroviário tem; bambus como o Ferroviário tem e móveis de jardim em verga, que eu tanto gosto, e que o Ferroviário também tem. Porque no mundo ideal não chove nem faz frio e, mesmo quando faz, o cenário continua a ser bonito. Como no Ferroviário.

O Ferroviário não é apenas isto.

O Ferroviário é tropical, tem vista para o Tejo e é, ainda, um espaço fechado que pede festas e concertos intimistas durante os dias frios e escuros de Inverno. É o Ferroviário e, por isso, este espaço interior, que poderia ser igual ao de tantos outros bares, volta a ser diferente porque... é o Ferroviário e o Ferroviário é bonito, sofisticado, tem muito estilo e um quarto de banho que pede selfies.

Para além disto, o Ferroviário tem um cocktail  simplesmente divinal, digo eu que não bebo. Chama-se Santa Apolónia e tem a quantidade de álcool na medida certa, uma conjugação de sabores que se sente, aprecia e não se questiona, mesmo para quem, como eu, não bebe álcool. Tem bons vinhos e a carta promete.

O Ferroviário é um espaço simplesmente espetacular. Digo-o não porque o visitei em dia de festa de apresentação mas porque já estava apaixonada antes de lá chegar, com as fotografias que têm publicado na conta de instagram.

Este é o espaço ideal para namorar, levar aquela pessoa tão especial que queremos transformar em namorado (ou namorada), impressionar o friend with benefits, porque tem cantos e recantos nos quais é possível dar aquele beijinho na orelha provocador ou, simplesmente, falar ao ouvido. É ótimo para conversar, tem espaços ideais para um grupo de amigas e é muito bom  - ou mais do que perfeito - para um reunião de negócios ao fim da tarde, daquelas descomplexadas, despretenciosas e com tudo para correr bem. É ótimo para ficar a trabalhar e é, sobretudo, perfeito para escrever uma história de amor. É seguramente para lá que irei inspirar-me e escrever muitos dos textos que irão ler nos próximos tempos, aqui no urbanista. 

Nota-se muito que me apaixonei? Ainda bem que não faço notícias, não é?... ♡

3 estratégias, 5 verbos e 8 apps para trabalhar menos e fazer mais

Creio que nunca vos contei mas, na verdade, não gosto de trabalhar. Gosto de fazer as coisas de que gosto e para as quais raramente me pagam. A isso não se chama trabalhar porque o trabalho supõe uma remuneração. Sou muito boa, mesmo muito boa a fazer as coisas de que gosto e péssima a protelar algumas das coisas que me pagam para fazer. Shit happens, verdade?

Há tempos desenvolvi uma série de artigos sobre a regra das 5 horas, numa tentativa de me auto-motivar a trabalhar menos horas, fazendo mais. Resultou? Obviamente que sim, especialmente para fazer aquelas coisas para as quais ninguém me paga e que eu gosto de chamar trabalho mas que, na verdade, não é.

Como rentabilizar o tempo?

1. Começar a horas

Sempre que ficamos apenas mais 5 minutos na cama estamos a atrasar o dia inteiro, porque esses cinco minutos - que nunca são apenas cinco e se multiplicam por outros cinco - representam um mau pequeno-almoço, uma péssima escolha da roupa (para usar todo o dia, note-se..) e uma correria para tentar picar o ponto a horas. Péssima forma para começar... 

2. Não protelar ou procrastinar

Ao longo do dia, a lista de afazeres adensa-se sem que as tarefas sejam concluídas. O que é chato fica para depois, o que é difícil também e, no entretanto, já respondemos a todas as mensagens de correio electrónico que não eram urgentes, perdemos tempo a conversar com uma colega ou a trocar mensagens sobre o fim de semana que está para vir. É segunda-feira e estamos a fazer planos para, mentalmente, escaparmos ao que temos, de facto, de fazer.

3. Fazer (e respeitar) uma lista de prioridades

O correio electrónico pode esperar e devemos começar a ser capazes de educar as nossas chefias para a relevância de reuniões nas quais muito se fala e pouco se decide. O propósito de uma reunião, por definição, é o de juntar pessoas para discutir um tema ou realizar alguma actividade. O que acontece nas famosas reuniões "that could have been an email" é que há alguém que se ouve a si próprio, enquanto outros sonham acordados, usam os seus telefones e computadores como se tirassem muitas notas e estivessem muito atentos quando, na realidade, não ouviram nada. E perderam tempo. Acabemos com este péssimo hábito, por favor, por reuniões de trabalho objectivas, com duração definida e conclusivas. 

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Como resolver os detalhes que minam o dia-a-dia?

1. Dormir

Deitar cedo e cedo erguer é a utopia dos tempos modernos porque, mesmo que consigamos aterrar na cama a uma hora decente, ficamos só mais cinco minutos (os mesmos que depois servem para protelar o acordar..) no instagram, no facebook ou em qualquer aplicação que não tenha como função fazer-nos adormecer. É importante desligar o telefone (hello modo avião...) deixando-o na mesa de cabeceira para servir de despertador. Ou deixá-lo fora do quarto, aquela opção mais radical... O objectivo é desligar a mente para nos focarmos no que realmente interessa: descansar. Para este efeito sugiro a app Calm (iOS; Android) com histórias para adormecer e sons relaxantes, que vão desde o pôr do sol numa praia tropical à Tundra ou o crepitar de uma lareira. A vantagem? Funciona em modo avião e tem temporizador porque, na maior  parte das vezes, acabamos por adormecer sem a desligar. 

Supondo que adormecemos à hora certa - ou seja, aquela que nos garante tempo suficiente de sono e repouso, o ideal é ter o quarto a uma temperatura amena para não ficarmos mais tempo na cama porque está frio e custa muito levantar... Para além disso, há aplicações que também nos ajudam a saber quando acordar: são aplicações "sleep cycle" ou "sleep better" que registam o ritmo do nosso sono e garantem que acordamos no intervalo de tempo certo, entre ritmos circadianos, para não ficarmos com aquela sensação de cansaço o dia todo. Recomendo a Sleepytime (iOS; Androidsimples e fácil de usar.

2. Caminhar

Chegar ao trabalho a horas depende de organização mas, sobretudo, da colaboração do trânsito ou transportes públicos. Quanto a isto, sejamos realistas e não há aplicação que nos valha mas, a informação de trânsito do GoogleMaps ou da Waze podem facilitar-nos a vida, evitando alguns percursos. Sugestão radical? Fazermos a deslocação a pé, não só porque a caminhada favorece a liberdade de pensamentos, contribui para o meio ambiente e ainda tonifica pernas e glúteos. Experimentem caminhar acompanhados com a WalkTalk App (só iOS) que vos coloca em contacto com alguém que, algures no mundo, também está a fazer uma caminhada.

3. Adiar

Adiar, sim. As conversas inúteis. Assim que chegamos ao trabalho, o ideal é despachar - literalmente despachar - os colegas que gostam de se arrastar com uma caneca de café na mão enquanto mostram as fotografias do cão, do gato ou dos filhos, que são tão lindos, não são?... Também há os que ficam a falar mal da vida e a fazer-nos... perder tempo. Nada daquilo interessa. Não ali, não agora. Concentrem-se no que tem de ser feito para gozarem a vossa hora de almoço ou saírem, por uma vez que seja, a horas! Não conheço nenhuma aplicação para isto mas podem usar uma de chamadas falsas (Fake Call iOS; Android), definir uma hora para receberem o telefonema e fugir deste tempo perdido com a desculpa da chamada que têm (mesmo) de atender.

4. Concentrar

Se precisam de se concentrar ou aquecer os motores para começarem a trabalhar, pois que seja, mas encontrem uma estratégia que funcione de forma simples e rápida. Música ajuda e, se quiserem, podem ouvir a playlist urbanista no Spotify ou, para quem gosta de ouvir os outros a falar, os podcasts urbanista. Pessoalmente, uso muitas vezes o Coffeevity que me dá a sensação de estar num café, rodeada de pessoas a olharem para mim. E concentro-me no trabalho.

5. Gerir

Reservem horas específicas para o correio electrónico. Desliguem as notificações do serviço de correio que utilizam, não deixem que isso interfira com o vosso trabalho, mesmo que estejam à espera de uma mensagem para poderem continuar uma tarefa. Coloquem-na em suspenso e regressem a ela apenas quando terminarem a que entretanto começaram.

Uma lista de tarefas com prioridades definidas ajuda sempre desde que não nos limitemos a fazer lista após lista sem nos dedicarmos a nenhuma das tarefas definida nessa lista. Lembram-se daquele prato que vocês odiavam e que a mãe vos obrigava a comer? Deixavam o melhor, ou o pior para o fim? A regra deve ser a mesma, começando por aquilo que é mais difícil e demorado, sem interrupções para respirar um pouco ou espreitar o Facebook. Para este jogo de gato e do rato, recomendo a Flow Timer (iOS; Androiduma aplicação que define tempos de trabalho e que, como em qualquer jogo, queremos ganhar, terminando a tarefa antes do tempo acabar para, depois, podermos descansar alguns minutos.

Agora... bom trabalho ♡

 


Nota: as aplicações foram testadas em ambiente iOS e baseiam-se na minha experiência pessoal

Imagem de capa: Photo by Charles Koh on Unsplash

 

 

 

Eutanasiar o ponto

Numa semana recheada de temas quentes e outros que só servem para nos distrair dos mais quentes de todos, que podem pôr em causa muitas das instituições e estruturas que damos como certas, a eutanásia, tema controverso, algo abstracto na sua essência, pela forma como filosoficamente questiona a natureza humana, encheu a esfera pública numa discussão morta à nascença. Obrigou, portanto, a dar como estéril a questão que se levantou no início da semana, sobre a desigualdade salarial que ainda persiste na nossa sociedade. Não vou esgrimir os habituais argumentos feministas a favor da igualdade porque o tema me recordou outro, raramente discutido, que foi alvo de uma acessa discussão entre colegas de profissão e outras áreas relacionadas, pela forma, absolutamente igual e redutora, que o sistema de ponto impõe na maior parte das empresas.

Sobre o ponto é a pontualidade, a culpa é sempre dos recursos humanos porque, em última análise, a responsabilidade é sempre das pessoas. Especialmente as que gerem outras pessoas e que, por isso, têm uma responsabilidade acrescida. Pensei, demasiadas vezes, ser a carta fora do baralho, estar errada, fazer tudo ao contrário, ser aquela que não se consegue adaptar quando, na verdade, nada disso era verdade. A culpa disto é do departamento de recursos humanos porque, na maior parte dos casos, não consegue ver o mundo como ele é, na sua diversidade e amplitude, tentando confinar a criatividade aos limites administrativos da contabilidade. Confuso?

Gerir pessoas não é mesmo do que gerir outros recursos. Até aqui estaremos, certamente, de acordo: resmas de papel não se queixam, reclamam ou sofrem de absentismo. A gestão de pessoas supõe a sua agregação, aplicação em funções, recompensa, desenvolvimento e monotorização, em organizações que dependem de pessoas para, conjuntamente, alcançar determinados objectivos ou seja, pessoas motivadas em torno de uma ideia e identidade que as une. O gestor de recursos humanos tem a inglória tarefa de organizar essas pessoas em função do negócio da organização, gerindo os diferentes processos que lhe estão associados. O(s) problema(s) quando decidem implementar medidas que aglutinam sem diferenciar. Reconhecer a diferença de funções e tarefas é fundamental para conseguir que as equipas funcionem, se reconheçam e sintam motivadas.

Motivação é outra palavra que é, também, altamente desvalorizada neste contexto da gestão de recursos humanos, tratando as pessoas como recursos técnicos que não dependem de influencias várias. Não defendo que cada um faça o que quer no quadro do seu humor mas, a ignorância em relação às características do trabalho que cada pessoa desenvolve transforma este processo de gestão de recursos humanos numa gestão de processamento de fichas de colaborador e salários, sem valorização humana e, principalmente, sem retenção de talento. Acontece. No melhor pano cai a nódoa, especialmente nas organizações que dependem tanto de trabalho rotineiro e altamente burocrático como de trabalho criativo, o motor de arranque para que as restantes funções possam existir. Também conheço bem organizações que, não dependendo directamente de criatividade, baseiam-se no trabalho científico e/ou intelectual, tantas vezes organizado como se de outra qualquer tarefa se tratasse. Que fique claro que defendo que todas - sem excepção - as tarefas e funções são dignas e relevantes e, mesmo as que são muitas vezes menosprezadas devem ser valorizadas. Esquecemo-nos tantas vezes de quem chega, no final do dia, para garantir que o nosso espaço de trabalho está impecável na manhã seguinte, de quem organiza papeis para assegurar que a organização funciona ou de quem nos garante a abertura de portas.

A esses, independentemente do trabalho ser mais ou menos criativo, o meu apreço.

Contudo, não é sobre estas funções que escrevo, porque estas, como todas as outras administrativas, são passíveis de ser organizadas e controladas de uma só forma, com sistemas de ponto que controlam entradas e saídas. E os outros, cujas funções implicam, por vezes, trabalho fora de horas, eventos ao fim de semana ou alterações ao horário, começando mais cedo ou terminando mais tarde em benefício da empresa? Limitamo-los, também, ao sistema hieráriquico e funcional que desconta os atrasos e não remunera o trabalho extra? Obrigamo-los a acelerar na auto-estrada para que um minuto de atraso não seja descontado? E as ideias? Terão de ocorrer dentro de um horário pré-determinado ou deveremos deixar que as pessoas circulem livremente, dando-lhes responsabilidade para apresentarem os resultados esperados para que, quando falham, podermos cobrar?

As ideias não picam o ponto e para quem tem funções que dependem de criatividade, a excessiva burocracia e regras em demasia, num quadro sistémico organizado de forma administrativa, é um valente balde de água fria. As ideias surgem. Normalmente fora da caixa ou seja, num contexto de liberdade e responsabilidade que permite que o indivíduo não se auto-limite, censure e proteja para não ser questionado.

Que motivação para quem chega a horas, cumpre o que lhe é pedido sem que lhe seja permitido rasgo e exuberância? Nenhuma, garanto. Eu sei, porque estou a escrever este texto na cozinha enquanto o jantar está ao lume. As ideias e o pensamento fluem independentemente de nos obrigarmos a criar num determinado contexto. Imaginem o  ridículo de poder pensar e criar apenas num horário definido para o fazer….

Candy Crush: o museu dos doces em Lisboa

A novidade em Lisboa chama-se The SweetArtMuseum e pode ser uma história de felicidade em formato açucarado...  

Lisboa está na moda, é (dizem) um lugar feliz e, por isso, a partir de 31 de Maio recebe o The SweetArtMuseum (SAM),  uma espécie de Charlie da Fábrica de Chocolate, mas sem o ar maníaco de Willy Wonka.

Por muito surreal que possa parecer, o primeiro museu pop-up e digital da Europa, poderá deixar-nos água na boca, enquanto confundimos um mundo imaginário com a realidade.

No espaço do museu, em Marvila, vão poder nadar em marshmallows na SplashMallow Pool, babarem-se com os chupas gigantes (que rodam!) da CandyWash Room e ainda sentir um cheirinho a férias (com um “ligeiro” toque a açúcar) dos gelados da Ice Cream Land e pensar naquele -#throwback Verão. Já. 

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No The SweetArt Museu, a única regra é dizer sim à felicidade. Mas ser feliz deveria implicar também fazer os outros felizes, e foi exatamente nisso que os mentores do projeto, Carlos Santos e Hugo Silva, pensaram quando definiram que por cada entrada no museu seria doado 1 euro à Terra dos Sonhos. A culpa do açúcar a mais reverte a favor de uma causa de sonho.

Como se tudo isto não bastasse, vai haver ainda uma loja que vende merchandising oficial e um App gratuita na qual, para além de puderem comprar os bilhetes, também podem de visitar o museu através da realidade aumentada. 

O urbanista é pela vida e alimentação saudável, sem fundamentalismos e com direito a uma excepção mas, principalmente, diversão. Para os que ainda se rendem ao prazer do açúcar, nada temam: apesar de ser tudo em plástico também vamos poder comer. Os 20 euros do valor da entrada transforma-se em degustações de doces exclusivos ao longo da visita, a melhor definição de realismo no The SweetArtMuseum, que certamente, nos fará viajar no tempo para terminar o dia de forma mais doce...

(texto produzido em conjunto com Inês Queirós, estagiária urbanista) 

as velhas mais bonitonas do pedaço têm um velho entre elas

Em 2016 fui a uma conferência e conheci a Maria que me apresentou as velhas pelas quais me apaixonei. O seu projecto de pintura chama-se Velhas Bonitonas e retrata a força da velhice sem desculpas, subterfúgios e, principalmente, sem photoshop, porque há algo de belo e muito forte na história que as rugas destas velhas contam. Há uma velha à qual chamo velha urbanista por muitas razões mas, principalmente, porque me cruzei com ela no momento certo da minha vida, inspirando-me. Para além disso, gosto, principalmente, da ausência de preconceito em relação à palavra "velhas" e a descontracção da palavra "bonitonas".

A Maria Seruya está de volta ao Urbanista porque o seu trabalho cresce de dia para dia, sempre com coisas novas para contar e mostrar, e inaugurou esta semana a exposição Velhas Bonitonas, na antiga carpintaria do Museu da Carris.

Numa sociedade que valoriza desmesuradamente a beleza, um projecto como as Velhas Bonitonas é uma espécie de pedra no charco porque consegue retratar a velhice de uma forma muito moderna e bela. Não há uma única velha macambúzia, tristonha ou, simplesmente, velha, correspondendo ao estereótipo da velhice que tanto se esforçaram por mostrar. Na verdade, existem inúmeras actividades destinadas a uma população sénior crescente e, no domínio da saúde, estamos mais em modo de tratamento do que prevenção. O facto é que vamos todos para velhos. Envelhecemos diariamente e, mesmo para aqueles cuja ideia de velhice é longínqua e associada aos avós, crescer é envelhecer e envelhecer é mudar.

Todos os dias.

A ideia de preparar a nossa velhice não pode começar quando somos velhos nem estar apenas associada à reforma (para termos meios de subsistência), ao exercício e bem estar físico (para mantermos o corpo a funcionar), à saúde (para nos mantermos saudáveis, sem recurso a medicamentos) ou ao conhecimento, para evitar a degenerescência mental. Porque envelhecemos um bocadinho todos os dias é importante pensarmos onde e como queremos estar quando as rugas se instalarem. Eu sei que vou querer estar e ser como estas velhas, que se apresentam ao mundo divertidas, imunes ao preconceito associado à idade, sensuais (e sexuais), muito capazes, interventivas, bonitas e, principalmente, livres.

a venda do Velho Bonitão reverte a favor da  Associação Cabelos Brancos

a venda do Velho Bonitão reverte a favor da Associação Cabelos Brancos

A verdadeira beleza é a que se auto proclama em cada um de nós através da liberdade de nos assumirmos perante o mundo. Despidos de ideias feitas, inveja e ganância e vestidos como estas mulheres: de amor. Escutem a Maria Seruya que, apaixonadamente, fala do amor que coloca em cada uma das suas criações...

A inspiração é muito transpirante, profundamente dolorosa

A vida é feita de regressos, partidas e outros regressos. 

Demorei a escrever este texto, não por falta de vontade ou inspiração mas, porque, em cada palavra, há sempre uma parte da transpiração de que fala o título. Escrevê-lo foi regressar às minhas parcas memórias dos Açores e, por consequência, da Madeira, ilhas de que gosto genuinamente por razões muito diferentes. Como partilhei [aqui] na altura [aqui], os Açores têm em definitivo, algo de muito particular. Conversar com o Joel Neto transportou-me para as paisagens açorianas, o jardim da sua casa e o verde encantador no meio do Oceano.

Independentemente das modas, do protagonismo e do que se vê na televisão, o dia do Autor Português deveria ser todos os dias por uma simples razão: falam a nossa língua, conhecem-nos as entranhas e são parte de nós, contribuindo, cada um à sua maneira, para a nossa cultura. Entrevistei o Joel Neto, autor e cronista, na véspera do lançamento do seu novo livro, Meridiano 28. Poderia ter sido uma manhã igual a tantas outras mas enchia-a de palavras, influenciadas pela luz das janelas enormes e o ambiente acolhedor com cheiro de café e bolo quente. Encontrei-o num cenário único, em Lisboa, para conversarmos sobre o seu novo livro. Mais do que isso, esta é uma conversa sobre nós, as nossas ideias e perspectivas sobre o que pode ser a vida moderna, vista por dois quarentões que não perdem a inocência dos vintes que já lá vão.

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O Joel Neto, para além de excelente cronista e escritor é, também, meu amigo, daqueles com quem não falamos todos os dias, ou partilhamos pormenores do quotidiano, mas que fazem parte da nossa vida e que vamos acompanhando à distância. Conhecemo-nos num cubiclo rectangular, ao qual chamávamos estúdio, uma rádio cuja emissão chegava tão longe quanto os limites do pátio da faculdade que ambos frequentámos. Parecia-nos que a rádio não se esgotava naquela instituição e, mesmo com o som dos matraquilhos a abafar a potência da emissão, acreditávamos estar a falar para o mundo. Eu subia semanalmente ao estúdio porque sim, pelas mesmas razões que ainda hoje entro num estúdio profissional para amplificar cada palavra, ou improvisar com um smartphone em podcasts publicados na Internet. O Joel queria impressionar uma rapariga, impressionando a rapariga errada porque, ainda hoje, lhe tenho muito respeito intelectual. Na altura, pelos discos que trazia na mala. Hoje, pelas palavras que publica em cada um dos seus textos e, especialmente, pelas histórias dos livros que já publicou.

Meridiano 28 é uma história dentro da história que recupera a memória cruzando-a com a ficção. Se os anteriores foram um sucesso, não tenho dúvida de que este irá fazer render os que seguem o seu trabalho e cativar novos leitores. O cenário é o Faial no epicentro da Guerra, repleto de cenas bucólicas que são, simultaneamente, burguesas e hedonistas, recordando um cenário de paz entre rivais na Europa de Hitler, enquanto recria piqueniques ou concertos de jazz nos anos de 1940 do século XX. Há muito tempo, portanto. O que mudou, entretanto? Tudo.

Urbanista: Como é que chegámos ao dia de hoje? De estudante de Relações Internacionais, no ISCSP, a assinares crónicas e a dares entrevistas na rádio sobre o teu novo livro?

Joel Neto: Como qualquer escritor, sou de olhar para trás, porque a memória é a nossa principal matéria. Mas isso não me impede de dar o passo seguinte e, portanto, inibo-me de ter esse tipo de reflexão... estou é preocupado em saber como vou chegar ao ponto seguinte. E espero que essa ansiedade, esse impulso, se mantenha muito tempo. O mundo não vai acabar se falharmos. Sinto que algumas pessoas, da minha idade, sobretudo nos Açores, já pensam e falam sobre a reforma. Eu nunca penso nisso, espero não acabar nunca e quero estar sempre a pensar no passo a seguir para evitar a tentação do comprazimento ou da frustração. Acho que todas as pessoas que escrevem, compõem, pintam, estão a estender o braço na direção do outro e estão, ao mesmo tempo, num processo de auto-validação. No fundo estamos a gritar: “eu estou vivo”. E tens sempre a vaidade... É uma preocupação de todos os dias, não me deixar tolher pelas tentações dessa vaidade... Mas de qualquer maneira, outra das preocupações que tenho é pensar no livro seguinte, já ter selecionado, se possível, o coração do próximo livro. 

aquilo que distingue a literatura da não literatura, ou ficção pura e simples, é que ela se completa no leitor num um ponto em que, leitores diferentes que leiam o mesmo livro, o interpretem de forma diferente, e o leitor que lê o mesmo livro em diferentes momentos da vida, desenvolve significados diferentes.
— Joel Neto

U: Quando a obra é pública, está morta? 

JN: Não, não... Pelo contrário. O livro só se completa no leitor. É o leitor que definirá se existe ou não literatura. Do meu ponto de vista, aquilo que distingue a literatura da não literatura, ou ficção pura e simples, é que ela se completa no leitor num ponto em que, leitores diferentes que leiam o mesmo livro, o interpretem de forma diferente, e o leitor que lê o mesmo livro em diferentes momentos da vida, desenvolve significados diferentes. O que comprovará que o livro tem mais a dizer do que aquilo que, efectivamente, diz.

U: Como é que escolhes os temas para os teus livros?

JN: Acho que escolho primeiro os assuntos e esses levam-me a um tema. O meu primeiro filtro é o filtro da história. Há uns tempos tive uma conversa com o Luis Represas - e nem nos conhecíamos, gerou-se uma cumplicidade momentânea - para concluirmos que tínhamos a mesma ferramenta para detectar uma possibilidade. Por exemplo: antes desta entrevista, vinha no metro, junto à porta, e reparei num rapaz negro, com um aspeto mauzão. Eu estava com o telemóvel na mão e meti-o no bolso, num instinto de autoproteção. Esse rapaz foi a única pessoa naquela carruagem que deu uma esmola a um cego que passou e, isso, iriçou-me o pêlo. Essa é a ferramenta para detectar a possibilidade por isso, anotei a ideia e é provável que o tema apareça numa crónica ou, quem sabe, num romance. Não tive propriamente medo daquele homem mas, de alguma forma, senti que me tinha de proteger, guardando o telemóvel no bolso, porque há sempre a ideia dos roubos, mesmo por esticão... E, no entanto, foi o único que deu uma esmola.


U: Não achas que isso é um excelente exemplo do preconceito que existe em todos nós?

JN: Óbvio! Nós somos feitos de preconceitos. A literatura é, muitas vezes, o confronto com esses preconceitos, uma tentativa para procurar um caminho. O meu primeiro impulso é o impulso emocional. Eu encontro um homem que deu uma esmola e a seguir fez um atentado terrorista e quero contar a história desse homem. Não sei que filtro é esse, se é o do cronista, se o do jornalista. Acho que é o filtro do homem que eu sou e tento transportar isso para os livros.

o romance é tudo o que escapa a esse trabalho de planeamento
— Joel Neto

U: Todos os artistas dizem que o trabalho artístico é 99% transpiração e 1% inspiração. Concordas? Como é que transformas a tua inspiração em transpiração?...

JN: Bom, eu transpiro muito... Eu realmente trabalho muito. Há diferentes tipos de literatura, diferentes escolas e, mesmo na própria escrita novelesca, há diferentes escolas, tendências e tradições. Da mesma forma, há diferentes métodos pessoais. O meu método é o mais trabalhoso que conheço, os meus livros começam por ser uma folha de excel que se transforma num ficheiro com várias folhas e acabo por ter, por exemplo, dois ficheiros excel com oito folhas cada um. Cada uma destas folhas corresponde à descrição das personagens. Uma biografia que chega a ter cartão de segurança social... Eu sei que nunca o vou usar mas é isso que lhes dá contornos definidos para as tornar verosímeis. Trabalho no sentido de as tornar cada mais verdadeiras, recorro a fotografias de amigos ou outras, que retiro da web, com o aspecto que quero dar às minhas personagens. Ou então, são pessoas reais que inspiram determinada personagem e que, por isso, quero ter aquele rosto presente. Para além disso, crio uma grelha do meu capítulo num ficheiro word e acaba o meu trabalho. Porque o romance é tudo o que escapa a esse trabalho de planeamento. Esse trabalho não é um plano B, é uma espécie de pauta musical. Contudo, o romance é a variação que nós fazemos sobre um princípio matemático. 

U: Como um guião que ganha forma e que permite ser recriado?

JN: É menos que um guião....  será um guião em alguns aspetos. Uma espécie de road map.

U:Se eu pegasse nas tuas folhas de excel, seguramente escreveria uma coisa diferente...

JN: Espero que sim em tua defesa e das folhas de excel! O romance é tudo o que escapa a isso. E então é que começa a parte mais difícil, a inspiração muito transpirante. É profundamente dolorosa. Às vezes perguntam-me se eu gosto de escrever e já disse isto muitas vezes, escrever é horrível. Ninguém gosta de escrever, nós gostamos é de ter escrito. De ter escalado a montanha. Não é de escalar a montanha, não é de correr 20 quilómetros que nós gostamos... É de ter chegado ao fim. E escrever é um pouco isso, para mim. A escrita vai evoluindo, vai sendo coisas diferentes, correspondendo às nossas fases na vida... 

Ninguém gosta de escrever, nós gostamos é de ter escrito. É de ter escalado a montanha. Não é de escalar a montanha, não é de correr 20 quilómetros que nós gostamos.
É de ter chegado ao fim...
— Joel Neto

U: É sinal de que evoluímos... 

JN: É sinal que evoluímos e que não caímos naquele que é o defeito mais paralisante da sociedade contemporânea, a necessidade de nos tribalizarmos, a necessidade de dizermos, e mostrarmos, “eu sou isto”...

U: Necessidade de pertença...

JN: É exatamente isso, pertencer, fazer parte de um grupo maior do que nós. Ter uma identidade, um cartão...

U: Citando Giddens sobre o desencaixe dos sistemas sociais... Há um desencaixe social tão grande que provoca exatamente o que tu estavas a dizer, esta necessidade de pertencermos.

JN: O que está em causa é um vácuo emocional que pode ser explorado de diferentes maneiras... 

U: Sobre o desencaixe há um outro aspeto que gostava de explorar, porque, a determinada altura da tua vida, decidiste regressar aos Açores. Quantos anos viveste em Lisboa?

JN: 20 anos.

U: E porque é que decidiste deixar a vida na grande cidade e voltar para a Terceira? Tens saudades de Lisboa?

Joel: De Lisboa sim mas da vida aqui não. Eu amo esta cidade e só viveria em 3 sítios no mundo: Nova Iorque, Lisboa ou na Terra Chã (gargalhada cúmplice de quem admite que Brooklyn, em Nova Iorque seria um perfeito cliché). Gosto de viver assim, 80% do meu tempo na ilha e 20% na cidade... 

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U: O que é que a ilha te traz?

JN: Em termos estritos eu queria uma vida mais livre, mais barata e mais inteligente. O facto da vida ser mais barata dá-me outra liberdade, não preciso de estar a fazer tanta coisa em termos profissionais. Ou seja, não preciso de estar a fazer tantas coisas para me sustentar e posso dedicar mais tempo à escrita. 

U: Em termos de percentagem, quão mais barata é a vida na Terceira?

JN: Depende da vida que tu fizeres. Mas eu creio que a vida custará cerca de 60 ou 70 por cento menos do que custava na altura que vivia em Lisboa. Actualmente talvez  40% menos em relação a Lisboa, porque Lisboa está uma cidade muito cara. Tanto eu e a minha mulher trabalhávamos em indústrias falidas, os livros e os jornais. Portanto, vivíamos com alguma apreensão...

U: Viviam para pagar as contas?

JN: Ainda tínhamos alguma qualidade de vida que não queríamos perder. Até hoje tive sempre esse privilégio. Como começei a trabalhar muito cedo, nunca vivi a contar tostões, no sentido propriamente dito da expressão. E não queria começar, até porque não ter vivido assim foi o que me impediu de começar uma carreira literária mais cedo. Paguei caro para ter esse conforto. Teve um custo muito alto que foi o ter esperado muito tempo para começar a construir uma carreira literária com o mínimo de coerência. E, portanto eu queria proteger esse conforto mínimo de classe média. Viver nos Açores permitiu isso pois tenho um jardim, um pomar, tenho cães, tenho um pedaço de terra grande, uma casa cheia de luz e, de vez em quando, não chove (para perpetuar o mito de que chove diariamente nos Açores!)

U: Esse contexto (e conforto) inspira-te?

JN: Na verdade fui para os Açores para escrever o Arquipélago, em 2015, e correu bem...

U: A escrita, principalmente ficção e romance, são sempre resultado de experiências pessoais? Mesmo que não tenham qualquer registo autobiográfico...

JN: Sempre. Ou uma especulação a partir delas, o que também é resultado da experiência. Sempre. De uma especulação, ou de um sonho, uma obsessão, uma arrelia ou um medo, mas isso também é experiência, é algo que foi experimentado. Creio que sim. Foi experimentado ou a sua possibilidade. Creio que estamos sempre a escrever sobre nós mesmos e, mesmo quando escreves sobre uma mulher membro da tribo Masai no Quénia, estás a escrever sobre ti. Se calhar estamos sempre a escrever variações do mesmo livro, como dizia a Agustina Bessa-Luis. 

Há muitos romances hoje em dia que não imprimem, sequer, 1200 exemplares, quanto mais venderem esse número de livros a nível nacional.
— Joel Neto
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U: Os portugueses não lêem muito e não compram muitos livros. O que achas que poderia ser feito para mudar isso? O que achas de se venderem livros nos supermercados?

JN: Acho muito bem! 

U: Quanto mais disponível, maior a probabilidade de as pessoas o lerem?

JN: Por mim até se podem vender nas bombas de gasolina. Creio que não minto se disser que o meu vendedor número 1 é uma tabacaria na Ilha Terceira, o sítio onde trabalhei quando era adolescente, passava lá os Verões, nem ia à praia. Era obcecado por jornais, entrava às 9 da manhã e saía às 10 da noite, 7 dias por semana, porque queria. Vender jornais e estar no meio de jornais a cheirar jornais. Trabalhei nessa tabacaria e depois, ao longo da minha vida, fiquei muito amigo dos donos e essa tabacaria sempre acarinhou muitos os meus livros. Sou do arquipélago dos Açores, da Ilha Terceira, onde vivem 50 mil pessoas. Creio que a tabacaria vendeu mais de 1200 exemplares. Há muitos romances hoje em dia que não imprimem, sequer, 1200 exemplares, quanto mais venderem esse número de livros a nível nacional. Sobre pontos de venda, o meu princípio é este: importa-me saber (onde se venderam) para lhes agradecer, mas se alguém quiser vender os meus livros numa roulotte pode fazê-lo à vontade. O que me interessa é que eles cheguem às pessoas, na esperança de que as pessoas os comprem. 

lê-se internet: comentários no facebook, máximas escritas em quadrinhos no facebook... Isso é deplorável mas, se calhar, ainda pode piorar e, portanto, nós temos a missão de o evitar.
— Joel Neto

U: Sabes que há um certo preconceito em relação aos autores que estão à venda no Pingo Doce e outros supermercados...

JN: Esse preconceito é cultivado por autores que querem que os livros lá estejam. A SONAE é a cadeia que mais livros vende em Portugal e, portanto, a não ser que nós não queiramos que os livros cheguem às pessoas... Lamento que não se leia mas não diabolizo a má literatura ou os livros de auto-ajuda e outras coisas tontas. Não os leio mas, apesar de tudo, existe da parte desses leitores a valorização do objecto livro. É, pelo menos, uma coisa que se faz a favor dos livros. A outra é que esses autores sustentam uma indústria que permite que os autores que não vendem nada sobrevivam. Nem estou a falar de mim porque eu vendo, não tanto como eles, mas os meus livros vendem-se. Contudo, há pessoas que não vendem nada, são geniais e não fosse este contexto, não seriam publicadas a não ser nestas casas de fotocópias caras que se autointitulam “casas de auto-publicação“. Eu tento ver isto tudo de uma maneira positiva. Contudo, é negativo o facto de se ler tanto em Portugal, mas não se lerem livros ou jornais. Lê-se internet: comentários no facebook, máximas escritas em quadrinhos no facebook... Isso é deplorável mas, se calhar, ainda pode piorar e, portanto, nós temos a missão de o evitar. Já no século XIX lamentávamos os poucos leitores que existiam e, realmente, no século XIX, os índices de analfabetismo eram muito elevados. No século XX existiam mais leitores e nós continuámo-nos a queixar da falta de leitores. Agora não há - mesmo - leitores e nós continuamos a dizer que há poucos leitores. É provável que hoje tenhamos mais leitores do que os que teremos daqui a 10 anos... 

U: A Feira do Livro está cheia todos os dias. Há autores que mobilizam realmente muitas pessoas para apresentação do livro, para sessões de autógrafos... E não se lê? Será que isto tem a ver com outro fenómeno que é o da popularidade? 

JN: A notoriedade, neste momento, domina muito mais coisas em Portugal - e no mundo Ocidental -,  provavelmente no mundo todo, do que aquilo que deveria dominar. A notoriedade pode ser usada com algum cuidado e bom gosto para levar as pessoas aos bons livros também. Mas estamos sempre a falar de um compromisso entre cuidado, bom-gosto, preocupação formativa... como a máxima cristã: tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. Não vale a pena sermos fundamentalistas, não vale a pena dizermos “livros em supermercados não!”, não vale a pena dizer “eu, escritor, nunca pentearei um cabelo para uma fotografia porque não importa se o escritor é bonito ou feio, está penteado ou não está”... Não! Nós penteamo-nos, como as outras pessoas, normalmente penteamo-nos e, quando não o fazemos, há uma personagem que queremos construir. E, portanto, mentirá aquele que disser que a sua imagem nunca foi um instrumento para chegar ao leitor. Nós recorremos sempre àquilo que temos para chegar ao leitor. Lê-se pouco e compram-se poucos livros, a indústria literária está em dificuldades e esse facto faz com que, nós, os próprios autores, tenhamos de ter iniciativas que ultrapassam a escrita, usando os veículos de comunicação que temos ao nosso dispor para chegar aos leitores, partilhando com a editora essa responsabilidade de promoção. Não vale a pena virmos com princípios absolutos de que não criamos personagens, de que não estendemos o braço em direção ao leitor porque isso é mentira. É quase sempre mentira. 

não vale a pena virmos com princípios absolutos de que não criamos personagens, de que não estendemos o braço em direção ao leitor porque isso é mentira. É quase sempre mentira.
— Joel Neto

U: O que é que terá de fazer um candidato a escritor?

JN: Tenho um amigo escritor que esteve 9 anos a enviar propostas de livros para editoras e a ser recusado. A escrita é uma coisa profundamente envaidecedora. Eu creio que não há nada que envaideça mais um português do que ter um livro na estante com o seu nome impresso. Há muitas pessoas que canalizam para esse desidrato uma série de ansiedades que trazem de outras demandas que empreenderam ao longo da vida e que, por alguma razão, não conseguiram concretizar. O que eu quero dizer com isto é que, em Portugal, escrevem-se mais livros do que aqueles que, no meu ponto de vista, justificam uma publicação profissional. E, portanto, as editoras não conseguiram, nunca, dar vazão a isto. Quer dizer, há pessoas a publicarem livros com as suas indignações de Facebook e pagam para as publicar. Compram a legitimação de que estão à procura, compram essa concretização. Tem todo o direito, têm mesmo todo o direito, mas…

U: Vou aproveitar para esclarecer uma coisa. Eu tenho um livro publicado pela Chiado Editora, mas foi a convite da editora, eu não paguei. É que eu já fui alvo da pergunta... “como é que fizeste para publicar?” Não fiz, convidaram-me para o publicar. Fica a nota. 

JN: Vou dizer-te sem constrangimentos: aquilo que eu acho que um candidato a escritor não deve fazer é a auto-publicação. Nunca, porque é um atalho. Não é o teu caso porque foste convidada mas, neste momento, uma editora de auto publicação é uma casa de fotocópias caríssimas, auto intitulada editora de auto publicação. Recebem o teu manuscrito com, por exemplo, os bilhetes que deixas à tua empregada, porque todos os dias lhe deixas bilhetes, que alguém um dia te disse que eram engraçados. E publicas, depois de enviares os bilhetes à tua empregada para uma dessas editoras e te ligar uma menina com uma voz maravilhosa que diz assim: “você não imagina, eu quase chorei a ler os seus bilhetes à sua empregada. Mas teve uma sorte, foi uma coincidência, hoje mesmo estava reunido o nosso conselho editorial e eles adoraram os seus bilhetes e, portanto, tenho o prazer de anunciar que vamos publicar o seu livro".

U: “Só custa…”

JN: “Só tem que comprar X exemplares” ou “só tem que mobilizar N pessoas para o lançamento”. Isso é um atalho, e é um atalho que tem limites a vários níveis: 1) enche-nos de uma vaidade precoce que nos tolhe quando é suposto darmos o passo seguinte; 2) dá-nos uma má imagem, infelizmente, junto da inteligência literária; 3) É mentira, não aconteceu. É fogo-fátuo, não é uma publicação. Quando hoje em dia me perguntam o que é que um candidato a escritor deve fazer digo que deve escrever e rasgar, escrever e rasgar, escrever e rasgar, algo que eu não fiz. Publiquei o meu primeiro romance mais cedo do que devia e, se calhar, por isso é que fiquei 10 anos sem publicar ficção. Talvez por isso é que hoje olho para os meus primeiros dois livros e penso “oxalá não sejam reeditados”. Como aconteceu? A Margarida Rebelo Pinto, algures em 1999, publicou um livro chamado “Sei Lá”. Em 2000 escrevi um livro, o meu primeiro livro. Nunca tinha escrito um livro mas tinha a certeza absoluta de que iria ser escritor. Enviei-o a sete editoras. Não conhecia ninguém na indústria editorial e, ao fim de meia dúzia de dias, recebi um telefonema da Presença, que era uma grande editora, a dizer “vamos publicar o seu livro”. Foi o dia mais feliz da minha vida. Não posso dizer isto à frente de nenhuma das mulheres com que casei, mas na verdade, foi um dia muito feliz. Na altura não existiam estas editoras de auto-publicação mas existia outro fenómeno, porque, naquela altura, todas as editoras nacionais estavam à procura de escritores portugueses. Nem era propriamente a nova voz que estavam à procura, estavam à procura de fenómenos. 

U: Queres contar a história deste novo livro?

JN: Esta é a história de um informático lisboeta, que é fundador de um portal de citações. É um técnico com uma inclinação artística, para procurar a beleza. É visitado por um homem, que faz lembrar o Morgan Freeman - que podia ser o Morgan Freeman (mas que não é) - e que lhe devolve um convite de que foi alvo 20 anos antes, em Nova Iorque, para onde foi levado durante uma semana, com tudo pago, para escrever a biografia do seu tio, um luso-alemão da ilha do Faial. Nos anos de 1940 existiam duas realidades em território português: havia Portugal e havia o Faial. O Faial, nessa altura, era um pedaço do mundo, muito importante e financeiramente interessante, resultado da distribuição mundial da telegrafia. Os cabos submarinos tinham como base avançada no Atlântico Norte a ilha do Faial. Ao mesmo tempo, a baía da Horta era a base de escala dos clippers, os Boeing 314, da Pan American, os primeiros aviões (chamados “palácios dos ares”) a atravessar o Atlântico no domínio da aviação comercial. Eram voos que eram apenas ocupados por magnatas, milionários, famosos, estrelas de Hollywood, campeões de box, estadistas. Ao mesmo tempo, decorriam, ao largo, alguns combates integrados na batalha do Atlântico, a fase da 2ª Guerra Mundial em que Hitler esteve mais perto de ganhar a guerra e em que Churchill o chegou a temer. E nós temos neste cenário uma elite, que envolve várias nacionalidades mas, sobretudo, ingleses e alemães, que vivem em paz e harmonia e, mesmo, em folia uns com os outros, ao longo de mais de metade da guerra. A paz entre estas pessoas só acaba em 1943, quando Salazar percebe que a guerra se vai inclinar para o lado do aliado e acaba com aquela sua neutralidade germanófila, evacuando os  alemães. Mas até os alemães serem evacuados, no período de pré-instalação da base naval americana aliada, estas pessoas vivem em paz, em harmonia e em felicidade. Fazem piqueniques juntas. As suas famílias estão a matar-se um pouco por toda a Europa e elas fazem piqueniques, vão à praia, jogam ténis e dançam jazz freneticamente. O número de orquestra de jazz que atua pela cidade da Horta nessa altura é absolutamente fascinante. Portanto, temos ali um microcosmos, uma cápsula de delírio composta por pessoas que estão completamente à parte do seu tempo, vivendo um glamour com conforto financeiro. É um tempo formidável da história dos Açores que só tem paralelo, talvez, nos séculos XVI/XVII. 

"és mesmo gay ou é só porque está na moda?"

"és mesmo gay ou é só porque está na moda?"

O que é ser homem ou mulher nos dias de hoje, independentemente do binómio que a biologia define ou da orientação sexual? Os papeis sexuais foram substituídos por identidades de género, independentes do nosso sexo ou orientação sexual, razão pela qual tem crescido o número de pessoas que questiona essa dualidade, afirmando-se sem género, contestando restrições sexuais e, principalmente, o conservadorismo biblíco de alguma ciência.