Sem tempo e espaço, o que sobra para viver?

Setembro é o mês dos regressos, dos planos adiados, da recta final para concretizar as resoluções do novo ano. Quem nunca?

Tenho dado por mim a pensar na razão pela qual nos preocupamos tanto em estar aqui sem estarmos presentes na vida, a simularmos a presença e, por vezes, a vida, sem a vivermos intensamente.

O caso do instagram é gritante, repleto de publicações que são tudo menos a vida real, publicidade que metamorfoseia a noção de criação publicitária, frases feitas transformadas em livro, celebridades instantâneas que baseiam os seus feitos numa virtualização da experiência e um império que de pode destruir carregando num botão. Há, contudo, muito conteúdo interessante, movimentos que se exaltam através da rede e vidas que ganham sentido pelo sentido que a narrativa visual lhes pode dar.

Um admirável mundo novo, qual torre de Babel com strange days reflectidos num black mirror, if you know what I mean…

Secretamente, um dia, quis ser famosa. Nem para mim o admitia e foi um caminho conseguir reconhecê-lo, mais ainda conseguir afirmá-lo e publicá-lo. A fama nunca seria no sentido dos paparazzis, ou da vida escarrapachada nas revistas do social mas, admito, durante algum tempo queria essa ribalta sem nunca a admitir, fugindo-lhe, numa relação estranha entre o que se deseja e o que se faz para concretizar esse desejo. Ou seja, nada. 

Na verdade, entre o sonho de ser um nome que todos reconhecem e um rosto que não identificam, fica uma difícil relação. Talvez por isso nos últimos tempos tenho pensado cada vez na razão pela qual continuo a escrever e a publicar no instagram, contribuindo para essa ânsia de ver e ser visto em que mergulhámos, aceitando a pressão da presença na ausência, convencendo-me de que assim poderei dar o meu melhor para ajudar alguém e mudar o mundo. Ou não.

Agora que me sentei a fazer planos para a próxima temporada urbanista, vejo o caminho que fiz e que, curiosamente, começou quando me mudei para a casa que entretanto abandonei, naquilo a que gosto de chamar o meu regresso a casa. Sei que me afastei de quem sou durante muito tempo e a pessoa que sou hoje está muito distante daquela que se mudou para o centro da cidade, ansiosamente procurando respostas e a fórmula certa da mudança. Queria estalar os dedos mas, raramente a mudança acontece assim.

O processo que se iniciou lá atrás também não teve dia certo e representa-se por um conjunto de pequenas coisas que, juntas, culminam no dia de hoje. Olhar para o instagram é percorrer essa mudança e vocês estiveram desse lado a acompanhar as fases do processo, quase uma catarse. Parece que foi há muito tempo, um ciclo que agora se fecha para um novo se abrir, cada vez mais segura das opções e da razão pela qual esta pseudo-fama instagramável me diz cada vez menos, como se questionasse o que nos faz exibir tanto para conquistar tão pouco. Sei que não preciso disto mas não sei de que outra forma posso passar a mensagem, numa era dominada por aquilo a que chamam a economia da partilha: do que pensamos e sentimos, do que achamos relevante e mostramos aos amigos. Criámos um contexto que contraria as nossas noções de tempo e espaço, de público e privado que se misturam sem razão e sem propósito quando o maior propósito que podemos seguir é esse, tão simples, de viver.

Sem tempo e espaço, o que sobra para viver?