A causa somos todos nós

Escrevo, todas as semanas, um texto de rajada para a newsletter urbanista. Sempre original e fruto do momento ou da semana, é feito sem grande reflexão, sem ponderar as implicações das minhas palavras ou a auto-censura que resulta dos comentários tontos que existem nas redes sociais e, sobretudo, nos sites de notícias nos quais também publico as minhas ideias. Ali, só está quem quer e desses, só abre, para ler, quem tem vontade. E fico sempre muito feliz quando vejo que a maioria carrega no botão para espreitar o que tenho eu para mostrar naquela semana. Já são muitas semanas e muitas partilhas, algumas com respostas maravilhosas de quem subscreve.

Obrigada por isso.

Hoje partilho, aqui os dois últimos textos porque estão relacionados e são uma espécie de continuação, muito embora não os tenha escrito com essa intuição. Na verdade, poderia passar horas a falar-vos sobre motivação e propósito de vida, acrescentar uns quantos jargões bonitos de mindfulness e terminar com o poder da meditação mas a verdade é que, na maior parte dos dias, a maior parte de nós acorda de manhã sem saber muito bem o que aqui anda a fazer. 

Eu também.

Um dia entrei numa espiral de desespero por não saber quem era, o que queria ou o que aqui andava a fazer. Estava tudo certo e eu queria colocar tudo fora do lugar. Talvez não estivesse assim tão certo. Percebi, entretanto, que estava mesmo tudo certo, estava era fora do lugar para eu arrumar. Confuso? 

O propósito de vida, de forma global era aquele, o veículo para lá chegar é que me estava a decepcionar. 
Muda-se o veículo e pronto. 
Novamente, não, porque é mais fácil falar do que fazer. Há muitos veículos, ou seja, muitas formas de lá chegar e a grande questão coloca-se exactamente a esse nível, porque muitos deles também estão certos mas, como no amor, há sempre um que está mais certo do que os outros. Pensamos na maior parte das vezes que temos de fazer uma grande introspecção (check!), de ir ao nosso eu mais profundo (check), de procurar ajuda (check), de experimentar (check) de... enfim, isto para dizer que não faltam opções, mais ou menos espirituais, mais ou menos esotéricas para nos ajudar a encontrar o tal propósito (cena macro da nossa vida) e o veículo para lá chegar (a cena micro, o que fazemos e como fazemos no dia-a-dia) mas at the end of the day (sorry mas esta expressão bate à légua a nossa, no final das contas) tudo se resume a estarmos felizes e, por vezes, procuramos incessante e insistentemente para, depois, percebermos que esteve sempre ali, à frente dos olhos ou que, não tendo estado mesmo à vista, temos de estar disponíveis para ouvir os outros e, através das suas reacções, perceber o nosso caminho.

Oiçam e observem, porque os que nos rodeiam - ou aplaudem nesse palco gigante chamado social media - mostram-nos muito mais do que, por vezes, estamos disponíveis para ver. 
Pensem nisso.

No entretanto, uma reflexão sobre o tema tempo, novamente para a Maria Granel, que leva a cabo uma campanha para promover uma vida mais sustentável e com menos desperdício. Juntei-me à causa, primeiro sobre o poder do não (não, obrigada), depois sobre as compras a granel e hoje, sobre DIY ou seja, fazermos coisas que poderíamos comprar. Escolhi falar do meu shampoo porque notei diferenças reais na cabeleira e porque outros notaram essa diferença mas, sobretudo porque num ano logisticamente desafiador, com viagens constantes entre o centro de Lisboa e a linha de Cascais, o maior desafio foram últimas 4 semanas, com a vida empacotada em malas e caixotes, dividindo-me entre uma casa que não estava pronta e outra que, sendo minha de coração, não é a minha casa. Nestas semanas, obviamente que o DIY shampoo não foi prioridade e sim, a diferença é notória quando uso um shampoo “normal”, de supermercado. Com embalagem. Com parabenos. Com tudo aquilo que nem sabemos o que é e que faz parte da nossa vida. Para o bem. E para o mal. 

Dormi esta noite na minha casa. 

Por isso, o tema é o caminho. Porque para chegarmos a algum lado na vida não temos um Google Maps actualizado ao segundo com a melhor opção de rota. Na vida vamos descobrindo o melhor caminho, o melhor shampoo, a melhor granola que parece difícil mas é tão fácil de fazer.

Por isso hoje, pensem no tempo que ocupam a fazer coisas que não precisam fazer e no tempo que vos pedem para roubar à vossa vida. 

Sempre fui uma pessoa de causas, tantas que nem sabia bem como as abraçar, porque sempre me interessei por muitas coisas, muito eclética e sempre gostei de ver, fazer, conhecer coisas diferentes. Isso, numa era moderna e caótica como a que vivemos, é um problema, porque nunca, como agora, precisámos tanto de nos encaixar para nos definirmos e deixar que nos definam. 
Hoje não chega ser (nunca chegou mas agora piorou) temos de o parecer, mostrando ao mundo quem somos e o que fazemos. 
Sempre assim foi, só mudou a escala dessa apresentação: nas redes não chega sermos aquilo que realmente somos porque na fluidez dos dias modernos sermos uma e muitas coisas cria a cacofonia de que se falava nos tempos da torre de Babel. 
A Maria é da cozinha sem glúten e a Joana é raw, a Francisca prática yoga e a Antónia mostra o seu macramé. O mundo já não tolera a Mónica que usa glúten e faz tudo em crú, pratica yoga e faz macramé nos seus tempos livres. Somos levados a escolher apenas uma coisa para comunicar, caso contrário não conseguimos que ninguém nos ouça. Nunca, como hoje, as tribos foram tão coesas e fechadas, logo agora que o mundo permite, de verdade, abrir portas ao mundo.

De volta às causas, tantas que gosto de abraçar e que escolhi comunicar, integrando-as numa ideia só: a de vivermos em paz connosco, escutando o mundo lá fora, com o filtro necessário para essa paz e tranquilidade que merecemos. Em consciência e conscientes do que viemos ao mundo fazer e que, tantas vezes, custa tanto a descobrir. 

Não sei se sabes o que aqui vieste fazer, que causas queres abraçar ou se as abraças a todas mas uma coisa é certa: a causa que abraças passam a definir, para o mundo, a pessoa que tu és. As minhas estão todas aqui, numa semana de urbanista na Nitfm que fala de surf e diversidade, de sustentabilidade, feminismo e ecologia, mesmo quando parece que estou a falar de tudo, menos a causa que abraço.

Os episódios das coisas, pessoas e músicas maravilhosas estão na NiTfm, todos os dias e os desta semana ficam, também aqui:


nitfm.pt/noticias/aruanas/

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nitfm.pt/noticias/casapaubrasil/

nitfm.pt/noticias/boundisurfsessions/