O que tem o fim do mundo a ver com o estado da nossa pele? Tudo.

Todos sabemos mas custa acreditar: o mundo está (mesmo) a atingir o limite da sua capacidade de auto-preservação e regeneração. Por vezes sinto-me uma espécie de paladino da desgraça em relação ao tema mas a verdade é que chega de empurrar com a barriga.

São muitas as notícias  dedicadas ao relatório da ONU sobre biodiversidade, baseado na pesquisa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que refere as espécies de animais e plantas em perigo de extinção. É um novo cartão vermelho ao nosso estilo de vida. A próxima espécie a extingir-se pode ser a nossa e levar garrafas para o vidrão já não chega.

Creio que a mensagem da sustentabilidade não passa, ou passa de forma deficiente, por uma razão muito simples: comunicamos quase sempre de forma abstracta, generalizando as consequências e o que, no futuro pode acontecer. Se pensamos numa perspectiva individual, o que tem o fim do mundo a ver com o estado da nossa pele? Tudo.

A pele é o orgão mais extenso do corpo humano, a nossa primeira barreira contra as agressões externas e o que, indirectamente, também contribui para manter o  equilíbrio do nosso organismo. Borbulhas, vermelhidão, pigmentação, pontos negros, pontos brancos, pele seca ou demasiado oleosa… os problemas não terminam. Ontem estive num evento em que se falava de alergias e da nossa pele e percebi que, apesar de existirem múltiplas afecções da pele relacionadas com questões hereditárias ou genéticas, o maior problema é o nosso estilo de vida.

À nossa alimentação, apressada e descuidada, junta-se a uma outra correria que nos leva de casa ao trabalho sem respirar no percurso, mas inspirando muita poluição e contraíndo grupos musculares que deveriam começar o dia relaxados. Depois, entramos num ambiente pseudo-asséptico, controlado por máquinas que não filtram ou renovam o ar. Absorvem-no, secam-no e podem colocar alergéneos em circulação.

Na maior parte das empresas, as janelas estão continuamente fechadas o que quer dizer que nem o ar do ar condicionado pode sair nem o ar exterior, que não sendo puro, pode entrar, traduzindo-se em elevados níveis de dióxido de carbono e um ar pouco saudável. Da mesma forma, a exposição diária da nossa pele e sistema respiratório a este tipo de ambiente provoca bloqueios no sistema de defesa natural do trato respiratório e das pestanas, deixando estas mucosas de actuar como filtro dos microorganismos. Acresce que a falta de manutenção dos sistemas de ar condicionado pode acrescentar a existência de pólen, ácaros, fungos e bactérias que entram em contacto com a nossa pele. Quando ontem  pessoas diferentes referiam problemas diferentes e demonstraram estar em ambientes semelhantes, a minha resposta mental foi apenas uma: sai daí, nem que tenhas de mudar de empregou ou profissão.

Contudo, não mudamos, seja por impossibilidade, falta de vontade ou necessidade do rendimento. Gostaria mas não tenho solução para quem gostaria de mudar de vida e menos ainda para os problemas do mundo mas sei que as radiações solares e a poluição afectam gravemente o estado em que se encontra a nossa pele e, consequentemente, o nosso organismo. Nós, mulheres, fazemos de tudo contra as borbulhas e imperfeições e, principalmente, maquilhamos o problema com as mais recentes inovações. Somos também nós quem tem maior capacidade para  mudar o mundo, sabiam?

Ao longo da história, o papel da social da mulher tem sido definido num segundo plano. Somos  biologicamente mais fortes e resilientes. Os números não mentem: estamos em maior número nas Universidades, vamos ganhando terreno no mercado de trabalho e em cargos de decisão. Em casa, continuamos a trabalhar mais do que eles mas também somos nós a tomar as principais decisões de consumo e a influenciar todas as outras.

Fala-se de uma revolução silenciosa e do poder da energia feminina para recuperar o equilíbrio no mundo... Pensemos nas mais recentes protagonistas: são jovens mulheres prontas para assumir o seu papel no processo de transformação social, por força de uma mudança na orientação das nossas vidas e da forma como as vivemos, procurando um propósito relevante, a razão pela qual cá estamos e o que aqui andamos a fazer. Por isso, mulheres e raparigas, o tempo é nosso e seremos nós a implementar a mudança. Começando lá em casa, começando pelas decisões mais básicas. Cuidar melhor do mundo, para que não seja necessário cuidar da pele. São produzidas mais de 120 mil milhões de embalagens por ano para produtos de cosmética. Estamos a falar de embalagens de plástico que incluem muitas vezes uma caixa de papel e celofane para embrulhar, numa diversidade de plástico que não chega a ser reciclado por desconhecimento ou preguiça. No Wc temos muitas vezes um pequeno caixote no qual despejamos de tudo um pouco, lixo que acaba no aterro sem ser reciclado. Ring a bell?...

O que vamos fazer?

  1. se é a mulher a tomar as principais decisões de compra, pode decidir comprar menos e melhor, fazer escolhas de compra sustentáveis e estar atenta ao pormenor - e nós, mulheres, temos essa capacidade única de analisar os detalhes: local e métodos de produção, comunicação da marca e relações laborais, publicidade e o que esta pretende transmitir. Nada nos pode (continuar a) escapar.

  2. gerir melhor o tempo e colaborar - e nós, mulheres, somos verdadeiras malabaristas da gestão: do tempo, das responsabilidades e da vida, no geral. Deixemos para depois o que pode ser adiado e deleguemos para nos envolvermos mais e melhor em causas maiores, dando o nosso contributo para dar voz ao que precisa de ser alterado. Falemos. Alto, para que possamos ser ouvidas.

  3. Ter voz é adoptar uma posição - e nós, mulheres, somos peritas nisso. Chega de nos mantermos em silêncio e em segundo plano, vamos ser activistas, mesmo que no sofá, e passar a mensagem a quem nos rodeia, mais informadas sobre o que verdadeiramente importa porque informação é poder e, da mesma forma que conseguimos descobrir tudo sobre o mais recente thread de sobrancelhas, também podemos dedicar a nossa atenção ao que podemos fazer para tomarmos decisões mais  informadas, participar em grupos de voluntariado ou contribuir, directa, ou indirectamente, para a causa de protecção do ambiente.


Como o vamos fazer?

É de beleza que hoje se fala por isso, pensemos nas pequenas mudanças que podemos introduzir no nosso quotidiano, alterando, por exemplo, o sabonete líquido por um vegetal, como o castile soap, que é multifunções, ou optar por um sabonete em barra. O mesmo para o shampoo que podemos fazer em casa,  recorrer ao shampoo sólido e sem embalagem [um exemplo | outro exemplo], e escolher marcas que já usam uma embalagem que substitui apenas a parte que contém o produto (Rituals, Lush e Kiehls’ por exemplo), aplicando o princípio a outros produtos que podem ter embalagem de vidro ou alumínio (pode ser reciclado e reconvertido indefinidamente). Na impossibilidade, colocar as embalagens no caixote correcto e trocar o nosso caixote por um que nos permita separar o lixo no Wc. Para a higiene diária dos dentes existem opções biodegradáveis de fio dentário e escovas de dentes que podem transformar-se num outro objecto, como é o caso das que a The Bam and the Boo produz. Também não precisamos limpar diariamente os ouvidos e, quando o fazemos, podemos usar a ponta da toalha depois do duche, da mesma forma que podemos substituir as cotonetes para os pormenores da maquilhagem por outras, de papel ou bamboo, simplesmente, enrolar um pequeno tecido de algodão numa pequena peça de madeira ou bamboo (ou usar canto do dedo e da unha…). Para limpar o rosto há opções que dispensam discos de algodão. Para quem não os dispensa, há uma opção maravilhosa de algodão que podemos usar muitas vezes. São extremamente suaves, podem ser usadas dos dois lados e lavadas na máquina: os discos desmaquilhantes em algodão bio. Finalmente: olhar os rótulos e conhecer as marcas, dando prioridade às que têm políticas de produção sustentável, as que usam ingredientes de produção sustentável, as que sabem como poupar água e as que são quase 100% naturais, eliminando os químicos da sua composição. Como na roupa, está completamente nas nossas mãos, na informação que procuramos e nas escolhas que fazemos. O preço não pode ser tudo, até porque, em última análise, quem sofre é a nossa pele…