10k. Now what?

Gosto muito da ideia de viver e aprender e, sobre este número, há muito a dizer…

10k é muito mais do que 10 mil seguidores, é um ponto de chegada e partida, um objectivo que se cumpre e o desafio de continuar um caminho que se renova a cada dia. Cada dia é diferente e também eu vou mudando com o tempo.

O urbanista começou de forma interessada e interesseira, para explorar um nicho que estava, na verdade, saturado, e desenvolver um caminho que não era o meu mas que, na altura, eu queria que fosse:

Paula Cordeiro, versão (lifestyle) blogger.

A história recua a 2014, quando comecei a pensar nisto e decidi que aquele seria o primeiro dia do resto da minha vida. Na verdade, olhando as imagens, começa mais cedo, com uma fotografia de um cruzamento de linhas de eléctrico, esse ícone da cidade de Lisboa que me despertou para a necessidade de percebermos a linha que queremos seguir. Aquela imagem perseguiu-me durante semanas. Depois, cortei o cabelo, um corte assim-assim radical, bastante curto.

Todos sabemos o que significa uma mulher cortar o cabelo. Meses mais tarde decidi passar a deslocar-me de scooter porque Lisboa começava a tornar-se caótica, sempre quis andar de mota e porque sim. Tinha três funções diferentes, e muito exigentes, em três organizações e locais diferentes, que me obrigavam a, no mesmo dia, estar em três pontos diametralmente opostos da cidade. Era quase esquizofrénico e eu não o percebia, nem quando, apressadamente, ia dar um medicamento à minha filha e ela me pedia para tirar uma fotografia. Foi também nessa altura que assumidamente me re-apaixonei pela rádio e decidi que o mundo inteiro deveria sabê-lo. Vivi durante anos emprestada a um outro universo e a rádio chamava por mim. Era tempo de voltar. Em 2014, quando o urbanista começou, estava em força na Europa, qual embaixadora da rádio portuguesa, participando em grupos de trabalho e conferências, tornando-me importante quando cá dentro poucos sabiam quem eu era.

Depois de ter sido a primeira mulher e a mais jovem no cargo de provedora do ouvinte, fui também a primeira a ser reconduzida no cargo, o que me fez explodir de orgulho, adiando, uma vez mais, o meu projecto urbanista. Fui a Marrocos, vi cores que nunca tinha imaginado e percebi o que queria para mim, encontrei a imagem do sítio onde queremos estar, mas não sabia como lá chegar. Fiz quarenta anos e percebi que a vida me estava a dar uma segunda oportunidade para ser (verdadeiramente) feliz, para não me limitar ao que parece e me focar naquilo que realmente importa: o ser em vez de parecer. Sorri. Muito, como se fosse uma despedida e nunca pensei que o caminho fosse tão duro. Queria estalar os dedos mas o som não se ouvia. Viajei demasiado, quase sempre sozinha, para depois ser capaz de voltar a casa. Foram momentos determinantes, de introspecção e percepção que aqui, no nosso dia-a-dia é impossível conseguir. Há quem vá para Índia encontrar-se. Eu andei pelos céus da Europa durante vários anos, mais intensamente neste período, transformei-me numa viajante irritantemente metódica, que analisa a fila na segurança antes de escolher onde vai depositar as suas cangalhadas, tirar o cinto, os sapatos e o casaco para depois seguir viagem. Trabalhei muito (demais) e percebi, à força, o significado da palavra limite. Era provedora e outras coisas, tiraram-me fotografias lindas e aconteceram coisas maravilhosas mas não era eu.

Também era mas, não.

O que mais desejava resumia-se a uma imagem entre tantas, na qual me fixava sempre que me sentia a perder o rumo. Perdi-o, muitas vezes. Editei mais um livro e senti que precisava saber quem era. Procurava-me, abusando do meu corpo, experimentava muitas coisas e acabava sempre por voltar onde já tinha sido feliz sem perceber o caminho. Fiquei doente muitas vezes, recuperei outras tantas, li livros e falei com pessoas. Continuava sem saber dizer não, mesmo quando já sabia o que não queria. Quase me deixei convencer por uma certa burguesia empedernida, aquela com a qual gozava na adolescência e para a qual olhava de lado na idade adulta. Poderia transformar-me naquilo que criticava? Olhava para algumas fotografias que ia tirando e não me reconhecia, num misto entre a pessoa que já não era e a que não queria ser, rodeava-me de palavras, ideias e imagens, para me inspirar. Tornei-me peça de museu e via constantemente onde queria estar sem saber como lá chegar.

Mudei radicalmente a minha alimentação e foi então que mudei tudo. Pelo meio conheci os Açores e foi ali, numa sala velha de janela aberta para o mundo que percebi o meu caminho.

Há sempre um momento e o meu foi onde tudo começou: um estúdio de rádio à moda antiga, mais analógico do que digital que me permitiria comunicar de forma orgânica e autêntica, sem os subterfúgios que o digital permite, ou a superficialidade da sofisticação.

Em Junho de 2016 ensaiei a primeira postura de yoga, sem a consciência que tal exige. Novo caminho. Procurei tudo o que era orgânico e natural, cortei novamente o cabelo, fotografei-me de jeans e all star. Esta sou eu e esta é a profissional que vão ter. Comecei a ser mais eu e a não pedir desculpa por isso.

Dediquei-me ao pilates de corpo e alma, estava em forma mas não estava feliz e adiava o urbanista porque… RTP e a ideia de que a provedora - professora não pode ser blogger.

Na verdade, eu não queria.

Nesse Verão passei 4 horas num supermercado. Li todos os rótulos, escolhi ao pormenor, depois agarrei-me a uma prancha e fiz-me às ondas. Estes foram mesmo os primeiros dias do resto da minha vida. Agosto de 2016.

Cansada de estilo e estilo de vida, percebi que era, outra vez, tempo de mudar. Foi a primeira vez que juntei fruta e pão, que transformei legumes num smoothie, comecei a minha re-educação alimentar.

Queria paz. O treino que fazia já não me completava. Ensaiava, novamente, posturas de yoga, sem sucesso. Nada mais fazia sentido, só fazer o que me dava prazer. Precisei ir a Amsterdão para o perceber.

Voltei a Lisboa e fiquei doente. O corpo sabe sempre enviar-nos sinais, se estivermos disponíveis para os receber. Andei mais uns meses a deixar andar, a pensar no que me apetecia mesmo fazer, e a fazer o que me diziam para ser. Deixei de ser provedora, já não era nem pró-reitora nem coordenadora. Lentamente abandonava a consultoria internacional.

Agora é ia ser, porque não queria ser blogger mas sim podcaster, continuar a ensinar tudo o que aprendi da melhor forma que sei, inspirar e ser inspirada.

Todos os dias.

Conheci pessoas maravilhosas, razão pela qual o urbanista se transformou num programa de rádio sobre pessoas, coisas e músicas maravilhosas, numa rádio que pode tudo, até ser maravilhosa.

Depois de uma vida num contexto profissional masculino e masculinizado, aprendi que as mulheres podem (mesmo) ser as nossas melhores amigas: juntei-me a chicas #mara, conheci abraços únicos, outros grupos e tribos, juntou-nos a voz do coração. São muitas, hoje, provando que somos nós que vamos mudar o mundo. São amigas para a vida e outras que não fotografei, mais as de sempre que nunca me abandonam. Tornei-me mais segura e confiante, tolerante e paciente. Passei por todas as fases, incluindo a que não aceita m*rdas e a que manda o mundo dar uma volta. Fiz t-shirts e tive ideias improváveis, voltei a deixar crescer o cabelo para o cortar no meio termo. Abracei o yoga e um estilo de vida minimal, descobri cabelos brancos e fui a Cuba perceber que há muito de Hemingway em mim (contudo, com o mesmo homem ao meu lado para todos os livros que escrever) e foi ali, em isolamento total do mundo, rodeada de amor e da família, que o yoga mudou a minha vida. Abandonei preconceitos que me limitavam e abracei as minhas convicções, certa de que, se soubermos onde queremos chegar, encontraremos o caminho.

O resto já sabem, foi mesmo rumo aos 10k, com técnica, método e paciência.

Estou grata, não apenas pelo número e o que isso representa no instagram, para validação e notoriedade mas, principalmente, pelas muitas pessoas bonitas, e sem filtro que este percurso me trouxe, provando que, afinal, aquilo que supostamente sempre esteve errado e, diziam, me impedia de atingir os meus objectivos - a minha timidez e dissimulada introversão - era o caminho certo para lá chegar porque, se assim não fosse, eu não faria um podcast, não me esconderia atrás do microfone para me descobrir, descobrindo outras pessoas, nem usaria o mesmo microfone como ferramenta de auto-ajuda e crescimento pessoal que serve, também, para ajudar os outros. Obrigada.