Breve história do colibri hipócrita que teimava em tentar mudar o mundo: 5 verbos que fazem a diferença na nossa vida

Escrever é sempre uma catarse e, por muito que qualquer escritor afirme que nada daquilo é sobre a si, quem escreve tem sempre a mesma história nas suas infinitas abordagens, ângulos e pormenores. Mesmo quando pensa que não. 

Escrever também é um acto de coragem, a dos introvertidos que usam a palavra escrita para fazer passar a sua mensagem. Vocês não sabem mas há muito de Brené Brown em mim, que estudei a rádio e a este meio me dediquei, da mesma forma que a Brené se dedicou a estudar e trabalhar a vulnerabilidade: pela sua própria fragilidade e timidez.

Talvez por isso estou sempre a escrever, mesmo quando não estou. Faço longos romances e artigos que nunca chegam a ver a luz do dia porque ainda não inventaram forma de registar o nosso pensamento de forma automática. E é por isso que vos escrevo, porque nesta jornada de tomada de consciência em relação a uma vida mais natural, livre de plástico e de químicos, há muitos momentos em que estou a escrever apenas na minha cabeça, quando me sinto hipócrita por defender uma coisa e acabar trazendo mais uma embalagem para casa. Há dias, no supermercado, não consegui ignorar este diálogo interior, fruto desta tentativa de viver melhor, deixando uma marca menor da minha presença que, depois, se traduz em muito pouco.

- a sério?!... vais mesmo levar isso?... 

Tanta coisa com a alimentação e a pegada ecológica e agora vais comprar uma papaia que veio do Brasil por via aérea?...  Não sabes que se deixarmos de comprar deixam de exportar?... não te preocupas com o ambiente?... Estás a ser egoísta, a ceder a um impulso...  Estás a esquecer-te que isso deve estar cheio de antibióticos?...


- eu sei. É só hoje...

- isso diz quem usa palhinhas... 

 

- Tenho tantas saudades... Já não compro uma papaia desde Agosto, isso deve significar alguma coisa, não? 

 

- não. 

 

A consciência é f*dida.

Sai da loja com uma papaia que demorei a comer. O objectivo era retirar-lhe parte do interior, rechear com iogurte e beterraba, granola e kiwi. Porque sim.

A cada vez que abria a porta do frigorífico, olhava para a papaia, lembrava-me disto tudo ao mesmo tempo que tentava repetir em silêncio que, mais do que ter uma pessoa a fazer uma vida perfeita sem lixo é preferível ter mil pessoas a dar o seu melhor para produzir menos lixo. Será?

Tento todos os dias e falho muitas vezes, mesmo comprando de forma mais consciente, pegando em roupa nas lojas que não chega a sair do saco para ser devolvida porque é fast fashion, pedindo ajuda a quem sabe, experimentando novo produtos ou receitas, mudando hábitos e esperando que um dia o mundo acorde para a calamidade em que nos encontramos, mascarada de mudança climática. Da chuva gelada ao sol de trinta graus vão dois dias e isso deveria ser suficiente para percebermos que algo está errado. Na Antártida uma comunidade de Pinguim Imperador desapareceu. Nos Pirinéus o aparente granizo é plástico e contamina o ar e a água. A deflorestação na Amazónia cresceu 54% desde que Bolsonaro chegou ao poder e em Moçambique as chuvas estão a abrandar mas não há precedentes para o impacto do ciclone da mesma forma que Montreal, no Canadá, está em estado de emergência devido a inundações. Continuamos a confiar na sorte porque só acontece aos outros, até ao dia em que nos vai bater à porta.

Porque o mundo está (mesmo) a mudar e muito depressa, quero poder passar a comprar morangos a granel sem ouvir o comentário de que são muito frágeis ou sem ter de ir a um mercado de produtores bem longe do sítio onde moro. Poupo no plástico mas gasto combustível e aumento as emissões de dióxido de carbono e azoto. Nunca estamos bem, não há a opção certa e voltar à idade da pedra na verdadeira acepção da palavra é apenas uma ideia parva. Pensar que as grandes cadeias e marcas podem ser mais honestas e menos gananciosas para que, com o seu poder económico, em vez de esmagarem pequenos produtores e os tornarem dependentes para escoar a produção, obriguem outras marcas a eliminar as embalagens de plástico, da mesma forma podem contratar mais recursos humanos para garantir que frutos e legumes são cuidadosamente manuseados para serem entregues ao cliente, em vez de os protegerem, garantindo que o cliente se serve a si próprio sem interferência de um funcionário. Também gostava que a mercearia ao fundo da rua fizesse a diferença, que não fosse propriedade de uma dessa grandes cadeias de supermercados... Gostava, principalmente, que estivéssemos todos mais conscientes dos factos, para acreditarmos que, rejeitando algumas práticas comuns que nos prejudicam a todos e adoptando outras, podemos contribuir para a mudança. Porque sim, na sua hipocrisia, um colibri pode contribuir para a mudança.

Eis algumas medidas simples que podemos adoptar no nosso dia-a-dia, que servem tanto - verdade seja dita - para nos aliviar a consciência, como para dar um contributo para a mudança e a protecção do meio ambiente. 

Circular | Comprar | Aprender | Experimentar | Partilhar 

Circular: menos de automóvel, partilhar as viagens mais vezes e, sempre que tenhamos mesmo de conduzir, circular mais devagar, fazer menos acelerações à campeão. Todos somos campeões, não precisamos de o mostrar na estrada. 

Comprar: menos, procurar alternativas com o que já temos, tentar trocar coisas com os amigos e, nós adultos, podemos muito bem evitar o fast fashion. Para quem tem miúdos a crescer ao ritmo das ervas daninhas será difícil porque o ritmo de substituição das peças de roupa é muito intenso e o custo das mesmas elevado. Tentar trocar e doar a roupa, passar aos irmãos e aos amigos pode ser uma forma de amenizar o problema. 

Aprender: coisas novas porque na maior parte das vezes as nossas atitudes e comportamentos resultam de pura ignorância. Eu não sabia que o vinagre de cidra de maçã era um excelente amaciador de cabelo. Aprendi. Experimentei. Apaixonei. Também fui aprender a fazer shampoo em casa. Uma busca simples na web resolveu-me o problema e mostrou-me um admirável mundo novo de opções com o que já tinha na despensa. 

Experimentar: sem medo de falhar porque estamos juntos no processo. Aprender uma coisa nova supõe que a consigamos implementar no nosso dia-a-dia e só lá chegámos experimentando. O que é o pior que pode acontecer se o vosso shampoo caseiro não ficar perfeito? Deixar o cabelo mal lavado e terem de voltar ao shampoo normal. E o melhor? Nunca mais terem de comprar shampoo. Já pensaram na poupança, nas vantagens e no benefício? 

Poupamos dinheiro porque o shampoo não é barato. O investimento nos ingredientes  para fazer um shampoo é maior mas estes duram muito tempo. Poupamos o meio ambiente porque produzem menos espuma e a maior parte dos ingredientes usados é livre de químicos que poluem os oceanos. Deixamos de estar dependentes de grandes corporações cujo fim único é o lucro. Controlamos os ingredientes, alterando percentagens em função das características do nosso cabelo e temos o prazer de fazer algo por nós e para nós. Há lá melhor satisfação do que essa? 

Partilhar: o que fazemos e as dúvidas que temos porque do outro lado há respostas e ideias. Acreditem: senti-me parva ao perguntar onde poderia encontrar morangos e frutos vermelhos a granel, mas recebi várias dicas muito úteis. Da mesma forma sinto-me insegura ao escrever este texto e senti-me muito estúpida ao partilhar os vídeos sobre o shampoo que fiz, ao estilo “ninguém quer saber”, “ninguém te perguntou nada” e, pior, “deves achar-te muito por isso, quando há milhares de pessoas que o fazem há imenso tempo”. Enchi-me de Brenée Brown e c*guei no que os outros pensam porque eu comecei agora, posso ir atrasada mas não vou tarde porque ainda há esperança. Do outro lado do ecrã, pediram-me a receita.

Afinal, vale ou não a pena partilhar?

Agora critiquem-me à vontade por causa de uma papaia mas ficam a saber que não estou de consciência tranquila…

IMG_6776.PNG