O trabalho: a maior das ironias da vida moderna e um exemplo contra a corrente

Ironia das ironias, a ironia maior do episódio urbanista desta semana está a passar ao lado da maior parte das pessoas que me escrevem, reconhecendo-o como um episódio cheio de graça porque, realmente, a Madalena Abecasis tem uma forma única de nos mostrar o mundo.

A ironia de que hoje vos falo também a mim passou despercebida até reparar num aparente pormenor deste episódio, sem o qual não haveria episódio: este é, afinal, sobre a ironia do trabalho moderno.  

Ficando em casa de baixa de maternidade e com pouco para se ocupar, deu largas à imaginação e em menos de nada estava na mira de Cristina Ferreira, que a levou para a sua nova casa, nas manhãs da SIC. No entretanto, já a pequena Júlia tinha nascido, já Madalena tinha voltado ao trabalho numa grande empresa e já o tinha abandonado em prol de uma causa maior: a sua paixão pela moda. Este é o primeiro aspecto que interessa, porque trocou aquilo que tantos ambicionam, um lugar estável numa grande empresa, por um trabalho multi-funções na sua área de experiência numa pequena empresa. Foi então que largou tudo isso para abraçar a sua outra paixão, dedicando-se à família e à sua capacidade única de comentar o quotidiano com um sarcasmo absolutamente maravilhoso. 

O que quer isto dizer?

De forma muito simples, quer dizer que somos, a maior parte de nós, umas grandes bestas quadradas, agarradas ao pouco que temos, sem coragem para dizer não e seguir um sonho.

Eu sei. 

Onde está o balão de oxigénio que paga as contas? 

Não está e não tem de estar, sabem porquê?

Porque enquanto pingar, por pouco que seja, por pior que possa ser, não temos disponibilidade (sobretudo mental) para darmos tudo pelo nosso sonhos. E sabem como e quando percebi isso? 

Quando o Fernando Esteves, que já esteve no urbanista, me contou que largou tudo, que tinha poupanças para viver durante 1 ano e que, depois disso, ou o seu projecto ganhava asas ou o pior dos cenários transformar-se-ia em realidade. Foi também isso que lhe deu a disponibilidade, a vontade e a tenacidade para dar tudo para o Polígrafo acontecer. Hoje, muito pouco tempo depois da nossa conversa, o Polígrafo já está, também, na SIC.  

O que aprendemos com o Fernando e a Madalena?

Fácil: os sonhos não podem ficar por realizar porque viver uma vida a trabalhar para (apenas) pagar contas deixa-nos infelizes e todos queremos sentir esse prazer que se chama satisfação pessoal. Para além disto, o ritmo da vida moderna está lentamente a matar-nos, seja pelo excesso de poluição à nossa volta e das suas consequências para a nossa saúde e bem estar, seja pelo facto do sistema social em que nos encontramos, que privilegia o sucesso material em detrimento da satisfação real.

O que quero dizer é que nada do que sentimos que resulte da relação que estabelecemos com bens materiais é real porque não se traduz num sentimento efectivamente forte e duradouro. A obsessão - que começou há muito tempo e hoje atinge proporções que nos prejudicam a saúde mental - por uma definição de sucesso medida em bens materiais tem vindo a destruir a nossa capacidade de abstracção. Nesta cultura do Eu, anónima e solitária, estamos demasiado preocupados com a forma como os outros nos percebem. Focamo-nos no irreal, definimos expectativas e metas inalcançáveis, ignorando o verdadeiro valor daquilo que se tornaram os pormenores da vida e que são, na verdade, aquilo que a vida tem de melhor. Essas abstracções filosóficas baseadas no sentir são a base da nossa noção de ser que o objectivo em ser o melhor, o mais famoso ou o mais rico tem destruído. Uma vez suprimidas as necessidades básicas, as necessidades de realização pessoal passam a assumir maior importância e como hoje não pensamos muito sobre o que de mais básico existe, concentramo-nos - erradamente - nessa realização pessoal sem antes percebermos o conceito de pessoa, ou seja, quem somos. Na ausência de definição de um propósito de vida, mantemos as aparências recorrendo ao que o dinheiro pode comprar para, novamente, sermos os melhores ou termos algo diferente dos outros. Ficamos esgotados. Simultaneamente, nas empresas, pouco importa se estamos bem ou mal, desde que estejamos, numa cultura desumana em que o bem estar financeiro das organizações se sobrepõe ao dos seus funcionários. A insegurança económica e laboral contribui para que estes funcionários aceitem ambientes tóxicos, más condições de trabalho e relações contratuais injustas, condicionados por uma oferta e procura de emprego muito desajustada, que deixa os profissionais das várias áreas numa situação submissa muito pouco digna. É aceitar. Ou aceitar, dar tudo sem questionar para, muitas vezes, acabar por perder tudo.

Como mudar?

Dizer não pode não ser solução pela tal necessidade económica de sobrevivência mas há muito que podemos fazer: dizer talvez, renegociar, renunciar, praticar o desapego para precisar de menos, organizar e gerir bem o tempo, definir prioridades e, se preciso, reinventar-se, como fez o Fernando e a Madalena.

Temos, principalmente, de reaprender a viver, abandonando essa necessidade de poder, fama, dinheiro ou reconhecimento para dar o salto, apesar da insegurança. O facto é que somos ensinados a sustentar a casa e a família, a termos independência financeira mas e quando para além de pagarmos contas, não há mais nada?