Mulheres exaustas, sacos de pancada, sonham com a liberdade ou a diferença entre fazer e ajudar. Assim são (estão) algumas portuguesas.

Os números da violência não mentem e apesar de 13 mulheres já terem morrido desde o início do ano, só não somos todas no título porque, felizmente, nem todas levamos porrada. Contudo, a pressão a que estamos sujeitas, a par com uma certa violência psicológica e intelectual, fruto de um machismo enraizado e dos tectos de vidro que nos fazem (quase sempre) remar contra a corrente é outra forma de levar porrada. Deles e especialmente delas, conservadoras que acham que isto de ser feminista (até) pode manchar a reputação de uma mulher. Assim, por todas as mulheres e em nome de muitas mulheres, cansei*.

A personagem de Clarisse Falcão (Mulheres, Porta dos Fundos) cansou de receber o que desejava. Nós estamos cansadas de fazer por ter sempre a despensa recheada, o cabelo e as unhas arranjadas, enquanto mantemos as aparências de uma carreira de sucesso às custas de um esforço altamente desvalorizado. Chama-se carga mental e ninguém sabe muito bem o que significa.

isso da carga mental…

O mais recente estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos revela que precisaremos de cinco a seis gerações para chegarmos a uma distribuição equilibrada das tarefas domésticas. Este trabalho de que raramente se fala é um dos maiores factores de pressão da mulher moderna porque ultrapassa - em muito - quem faz o quê, concentrando-se na preocupação em garantir que aparece feito. Há sempre uma percentagem superior atribuída à mulher sobre “as coisas a fazer” ou seja, a gestão doméstica, para que todas as necessidades familiares sejam satisfeitas. E quando não são? Quando a (merecida) pausa de uns é a permanente ocupação de outros?

Cansei, porque afinal eles trabalham sempre mais do que nós e o esforço de ir buscar os filhos à escola é um sacrifício que põe em causa o seu trabalho. O deles, nunca o nosso. Cansei de ouvir que se acabou o leite, como se apenas eu, que sou mulher, tivesse a responsabilidade de (re)abastecer a despensa. Cansei de ouvir que é preciso lavar a loiça ou engomar. Cansei de arrumar e colocar as almofadas no seu lugar como se apenas eu me sentasse no sofá. Na verdade, raramente acontece, sentar-me no sofá. Cansei de pensar nas refeições, de imaginar pratos diferentes, de planear a lista das compras, de ir ao(s) supermercado(s) - porque nunca se resolve tudo no mesmo local - de escolher e ficar na fila para pagar, de carregar os sacos, de arrumar a despensa, cozinhar e ainda ouvir criticas em relação às opções ou ao sabor. Cansei. 

“porque não pedes ajuda?”

Porque não tenho - não temos - de a pedir. O verbo - o princípio - está equivocado.

Há uma diferença muito concreta entre fazer ou ajudar: fazer é realizar, executar, agir com determinados resultados enquanto ajudar significa contribuir para que outrem faça alguma coisa. Sabemos a que outrem o verbo se refere, verdade?

Os números são claros: o mesmo estudo da Fundação Manuel dos Santos, com uma amostra de 2428 mulheres entre os 18 e os 64 anos, residentes em Portugal, demonstra que a mulher  ocupa 5h48m do seu dia com tarefas domésticas. Contas feitas, se trabalhar 8h e perder 2h em deslocações... ainda lhe sobra muito tempo, não é? Não.

O mesmo estudo revela ainda que estamos infelizes com o trabalho e que o emprego ideal iria permitir a conciliação do tempo para nos dedicarmos à família mas, também, para termos tempo para nós porque esse tempo - o tempo para cuidar de nós (e não falo de vaidade feminina mas de algo tão simples como dormir horas suficientes) é ocupado a trabalhar e, por isso, estamos exaustas. Eles vão responder que estão na mesma, que a pressão para os resultados é enorme e que não podem dar-se ao luxo de se dedicarem mais à família ou aliviar essa carga mental que tanto pesa sobre as mulheres sob pena de serem prejudicados no emprego. Verdade. Sem dúvida que é verdade, o que agrava, ainda mais, a situação.

e quando eles não podem fazer, quanto mais, ajudar?

Pouco adianta a cada mulher exigir maior equilíbrio ou instaurar uma pequena guerra doméstica para que ele assuma mais tarefas ou o seu planeamento, se ambos estiverem profissionalmente assoberbados para garantir que as contas são pagas. Há uma grande diferença entre o workaholic que se dedica por amor e o que trabalha disfarçado de workaholic porque tem um volume excessivo de tarefas ou acumula funções. E é, no fundo, isto que está errado.

Marcos Piangers diz, e com razão, que precisamos definir uma lista de prioridades e dizer não a tudo o que der para recusar porque, acrescenta, pode ser que a gente nunca fique rico mas tanta gente trabalha como condenado e também não fica. O problema é esta escravatura da camisa branca que não garante fortuna mas também não permite uma vida emocional, intelectual e espiritualmente digna. Nenhum tipo de escravidão, mesmo que (quase) voluntária, é digna.

Eles também estão cansados . O risco de burnout é cada vez maior. Se eu escrevesse o texto no masculino, também muitos deles estariam exaustos não apenas com o trabalho mas com a pressão da masculinidade perfeita ou do machismo que limita muitos homens em assumir frontalmente a defesa dos princípios feministas, especialmente no que à família diz respeito. Precisamos de colaboradores mais felizes em cada empresa e de empresas que respeitem a noção de tempo. Talvez a criação de incentivos fiscais para horários de trabalho adequados às necessidades dos indivíduos, considerando os ritmos familiares, possam incentivar à mudança, ao mesmo tempo que poderão contribuir  para melhorar a mobilidade na cidade. Horários diferenciados podem  ter consequências muito positivas para a vida de todos nós, da mesma forma que a criação de medidas que permitam mais formas de teletrabalho também possam ajudar.

Como mulher, cansei de ser quem marca consultas e leva os meninos ao médico quando estão doentes. Parece que a minha vida profissional pode ser colocada em suspenso porque o pai tem de trabalhar. Lamento. O pai tem de ser pai. 

Cansei, principalmente, de aguentar todas as bolas no ar, num desempenho profissional próximo do malabarismo e que, no final das contas, continua a ser mal pago, com um vínculo precário.

trabalho igual, salário igual?

Sobre a igualdade salarial, o mês de Fevereiro anunciava mudanças porque as empresas têm, agora, de demonstrar publicamente que os salários são definidos com base em critérios objectivos mas nós sabemos que, apesar das intenções, há muitas formas de manter o desequilíbrio enquanto as mentalidades não mudarem.

Cansei. Cansei mesmo de ser mulher e, por isso, de achar que consigo fazer isto tudo. Cansei, principalmente, de ouvir mães e avós dizerem-nos que afinal não temos de que nos queixar porque ele até ajuda em casa. Senhoras: se eles decidiram partilhar uma vida não têm de ajudar, têm simplesmente, de fazer pois se vivem aqui e sujam, devem limpar; se comem, têm de comprar, quem sabe até, cozinhar; se querem roupa nas gavetas e armários, pois têm de a lá colocar. Ajudar não chega.  O mundo mudou, nós e as nossas relações também. No trabalho exigem-nos o mesmo - normalmente um pouco mais - do que a eles, a remuneração que recebemos - muitas vezes inferior pelo mesmo trabalho - é fundamental para o equílibrio da economia doméstica pelo que não é tempo de ajudar mas sim de fazer. E se cada um fizer a sua parte, o mundo será um lugar melhor.

 

“homem não dá para confiar não! Cansei, não vou dar corda não…” é uma paródia com Clarice Falcão ao simbolismo do que tantas mulheres desejam: um conto de fadas no qual ele se apaixona, nos trata bem e pede em casamento…