Greta e Joacine: separadas à nascença?

O que têm em comum Greta Thunberg e Joacine Katar-Moreira? Aparentemente, muito pouco, ou quase nada. Na verdade, é mais do que isso.

O tema das ideologias, política, partidos políticos e políticos há muito que deixou de me interessar: as ideologias repetem-se, outras são vagas ou vazias e algumas bastante extremistas. Os partidos servem muito pouco a massa de filiados em cada um deles e regeneram-se lentamente. A política tem pouco respeito pelas pessoas, sobrevive à custa de politiquices e os políticos, com perdão das generalizações e da ausência de exactidão que lhes é característica, não se dão ao respeito portanto, como os respeitar? Da mesma forma, elites políticas criadas à nascença, sem história para contar são geralmente pouco coerentes e facilmente manipuláveis ou seja, tudo o que não queremos num político. Da mesma forma, ficamos na dúvida em relação ao padre que prega e não pratica ou o professor que nunca praticou o que ensina. Ao contrário de outras profissões que nos definem, também, enquanto pessoas, não se deve ser político mas, antes, estar na política, como se se tratasse de uma missão que nos interrompe - temporariamente - a vida de todos os dias, sem aspirações a cargos em grandes empresas públicas para fechar um ciclo.

Simultaneamente, ficar a conhecer uma candidata às legislativas sem ouvir falar sobre o seu currículo profissional, centrando a mensagem no facto de ser mulher, negra e, pasme-se, gaga, é no mínimo, irrelevante. Começar por apontar-lhe o dedo por usar essas características como trampolim para a causa pública e política é de quem, só quando se sentiu ameaçado, sugeriu que Greta Thunberg se calasse e voltasse à escola.

O que têm, afinal, Greta Thunberg e Joacine Katar-Moreira em comum? Para além de poderem fazer sombra a outros, de se afigurarem como uma espécie de ameaça aos poderes instituídos e quem neles se senta, fizeram o seu caminho sem dar nas vistas, sem precisarem usar as tais características que agora lhes apontam como ferramenta de ascensão ou, simplesmente, chamada de atenção.

Pensei bastante antes de enviar este artigo para publicação. As duas geram ódios e paixões e a incapacidade de muitas pessoas para ver além do preto e do branco vai colocar-me numa discussão da qual não quero fazer parte. Contudo, também não vou calar, perante a irresponsabilidade de quem é responsável por nos dar mais do que a espuma dos dias, o que gera cliques, o que dispensa explicações, o que motiva reacções: a intriga.

A vida moderna tem demasiadas ferramentas e dispositivos que nos dão acesso a um admirável mundo de conhecimento mas que é, também, um perigoso manancial de desinformação e ignorância. Ter acesso não significa que saibamos o que fazer com essas ferramentas, ou interpretar o que estas nos apresentam. O ridículo é quase sempre amplificado por outras vozes e, principalmente, por algoritmos criados para nos apresentar aquilo que, supostamente, são os nossos interesses. Uma câmara de eco perigosa que legitima Greta sem a questionar e que, simultaneamente, a questiona com base nos aspectos mais inapropriados, tal como faz com Joacine. Afinal, o que interessa é anular o efeito e a capacidade de mobilização que palavras apaixonadas podem ter no coração das pessoas, mesmo quando essas palavras, com ou sem agenda, nos recordam umas quantas verdades: seja para vivermos de forma mais consciente na nossa relação com a natureza, seja a dignidade social.

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