Casa-trabalho, trabalho-casa: como se atrevem a dizer-nos que isto é vida?

Estamos sempre ocupados e criámos uma cultura na qual “não ter tempo” é sinal de sucesso. Na verdade, ocupamos parte desse tempo com o que não interessa a ninguém, deslocações e outras perversões que nos afastam daquilo que é verdadeiramente importante.

Digam o que disserem sobre Greta Thunberg, há em si algo que poucos têm e no seu mais recente discurso uma eloquência pragmática, emotiva e emocionalmente tão forte que dispensa o que a expressão do seu rosto poderia adicionar. Os detractores encontram-lhe falhas e os incrédulos limitam-se a recorrer ao argumento básico de quem não tem argumentos, usando o seu aspecto físico ou algum traço de personalidade para denegrir a sua imagem. Como recordava, há dias, uma amiga, sobre um dos grandes ensinamentos Jesuítas, se acreditamos na bondade do que fazemos e na bondade dos objectivos do que fazemos, então isso é bom. Gostemos ou não, com uma história pior ou melhor contada, com interesses nas renováveis provados ou por comprovar, nada em Greta é necessariamente mau, até porque, ao apelar à nossa consciência sobre a urgência ambiental, sugere apenas que alteremos comportamentos. Isso é mau?

Tocou-me bastante a parte em que questionava a audiência, perguntando-lhes como se atreviam. Na altura estava no carro, parada num semáforo, a caminho do centro da cidade, num dos piores horários para o fazermos, sem conseguir deixar de pensar que a vida não pode resumir-se a isto de acordar cedo, trabalhar e voltar a casa. Se ocupamos o pouco tempo livre que nos resta nesse prazer de estar no sofá a ver um filme corremos o risco de adormecer tarde, roubar horas de sono e passar o dia seguinte a bocejar. Se por um dia nos apetece fazer outra coisa naquele espaço de tempo (pequeno) que medeia o momento em que chegamos a casa e o que temos de ir dormir, é loiça que se acumula e roupa que fica por lavar, emails por responder e tantas outras coisas divertidas que não se coadunam com o ritmo de vida que definimos para nós quando, na verdade, tudo o que queríamos era trabalhar para poder ganhar dinheiro para o que nos diverte e faz sentir vivos. No entretanto, já não sabemos bem quais são, os hobbies ficam arrumados na gaveta e o desporto, para os que o praticam, assume-se como o único escape para tudo isto.

Na maior parte dos casos, passamos entre 9 a 12 horas fora de casa, aquela que escolhemos para nos acolher e fazer sentir bem. O dia divide-se entre os transportes colectivos com odores duvidosos, ou o carro, olhando outros condutores a falarem ao telefone, olhar perdido no horizonte. O dia é passado entre mil tarefas para uma função que poderia dividir-se entre dois - por vezes três funcionários. Fala-se da baixa produtividade mas não se fala disto.

Estamos sempre ocupados e criámos uma cultura na qual “não ter tempo” é sinal de sucesso. Na verdade, ocupamos parte desse tempo com o que não interessa a ninguém, deslocações e outras perversões que nos afastam daquilo que é verdadeiramente importante. Ocupamos tempo sorrindo, em conversas que não nos interessam, sem coragem para dizer o que pensamos, numa hipocrisia social que nos garante amizades e oportunidades; networking com pessoas que nos querem vender coisas que não queremos - ou precisamos -; momentos que nos obrigam a pensar três vezes no que íamos vestir ou calçar, quem sabe até ocupar ainda mais tempo a comprar mais coisas. Tudo por causa de códigos sociais com os quais pactuamos mas que, na verdade, detestamos.

A nossa vida já não é nossa porque não controlamos o nosso tempo, onde investimos o nosso dinheiro, os lugares onde vamos ou o que fazemos, numa ocupação do calendário contrária ao que desejamos e que, principalmente, demonstra que não vivemos: sobrevivemos. Queremos todos mudar o mundo mas esquecemo-nos de mudar o mais importante: o nosso mundo.

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Manhãs serenas, sem pressa, sem a tirania do relógio não acontecem todos os dias. Mas deveriam. Passo na rua, vejo carros e pessoas e crianças apressadas, sem tempo. Fecham-se os portões da escola. O mundo acalma?... Não. Segue em alta velocidade até o dia terminar. Há dias e coisas e pessoas que, sem sabermos, nos mudam a vida. A nossa vida, não aquela que a vida vive por nós. Durante muito tempo vivi a minha vida em piloto automático, uma vida que só por acaso parecia a minha mas que não era. Continuo a ter pressa, a lutar contra o relógio mas é diferente. Foi o yoga, mas não apenas o yoga, que me permitiu esse tempo apenas para mim e comigo, os meus medos e ansiedades, os meus receios e limitações. Pratiquei muito desporto e chorei muito, por despeito, frustração, prazer da conquista ou da vitória mas nunca, por me ouvir, ou por aquilo que não sabia, tinha para me dizer. É isso que esta prática nos dá. Abrindo-nos o coração, abre espaço à compaixão, empatia e perdão, para nós e para os outros. Nunca mais nada será igual e é por isso que dizem que nos pode mudar a vida. De todas as rotinas, esta é a melhor, mesmo quando não é assim, no exterior, de peito aberto para o mar e coração para amar o mundo 🖤 #openuptoautumn ... #enjoylife😊 #yogajourney #moodcollectors #slowliving #seekinspirecreate #yogavibes #lifeisbeautiful #yogapractice #yogalife #yogilifestyle #mindfulliving

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