Onde está o teu Nokia 3310?

Comecei a escrever este texto há vários dias, sentada numa loja Ikea. Tinha muito pouca bateria no telefone, sem forma de o carregar. Agarrei no caderno que sempre me acompanha e comecei a escrever. Paradoxalmente, sobre o que mudou na tecnologia e no nosso estilo de vida nos últimos dez anos. Se o #10yearchallenge começou por ser um desafio inconsequente, assumiu-se, também, como uma forma de denunciar ou, pelo menos, chamar à atenção, de aspectos socialmente preocupantes, como as alterações climáticas.

Há dez anos não havia instagram e a ideia de smartphone era a de um telefone assim um bocadinho mais à frente do que aquilo a que estávamos habituados. Eu tinha um Nokia N70 e achava que tinha um Ferrari nas mãos, longe de imaginar que, hoje, esse aparelho me seguiria os passos ou escutaria as conversas. As fotos tinham grão, a ideia de fotografar com o telefone era um recurso para registar um momento, não eram encarnadas como fotos a sério porque a qualidade era sofrível, perfeitas para um instagram que, entretanto, entrou em modo retro, transformando fotografias em alta definição em imagens old school. São as blogging trends, coisa que, na altura, também não conhecíamos. 

Fazíamos selfies e, por vezes, um ficava pela metade ou o resultado final tinha mais paisagem do que pessoas. Há dez anos éramos todos muito diferentes e isso não quer dizer que estivéssemos melhor: éramos menos dependentes da tecnologia, é um facto, mas éramos, também, menos mente aberta, mais conservadores do que hoje mas, simultaneamente, menos politicamente correctos porque, simplesmente, éramos menos escrutinados. Gradualmente começámos a assumir quem somos e como somos, tornámo-nos mais conscientes de questões sociais como a homossexualidade ou as questões de igualdade de género, na política nacional e internacional mudaram os nomes e, fruto de um contexto difícil de explicar, emergiram alguns extremismos. Como diz a Peperan na entrevista urbanista [ouvir] desta semana, “a diferença é que hoje podes ser gay e não levas porrada por isso”. Há dez anos havia menos censura e auto-censura, estávamos a descobrir essa coisa chamada Facebook que nos ligava uns aos outros e, enquanto reencontrávamos colegas da escola, alguém recolhia e catalogava os nossos dados pessoais para, discretamente, fazer muito dinheiro com essa informação.

Continuamos a dizer que ninguém lê, que os livros não interessam mas a verdade é que me perguntam quando faço mais episódios do podcast de livros com a Helena Magalhães. Há ebooks e audiobooks que escutamos com earbuds, a nova cena cool no capítulo auscultadores. Na estrada a condução autónoma está quase a tornar-se realidade, o GPS perdeu a hype a favor do Google Maps que nos indica o caminho com informações de trânsito em tempo real. Está tudo online e dependemos cada vez mais dessa ligação constante, para chamar um Über, pedir um Glovo ou, simplesmente, saber o estado do tempo.

Há dez anos existiam as mesmas sementes e super alimentos mas nós não os conhecíamos e uma bowl era taça em inglês. Nós por cá era mesmo tigela de sopa às refeições. Comer bem sempre esteve na moda mas agora está mais um bocadinho porque nestes últimos anos percebemos que disso depende o nosso bem estar e saúde. Queremos estar bem, esbeltos e bonitos mas também em paz connosco.

E se há 10 anos estava longe de me imaginar entre sementes e super alimentos, estava ainda mais distante de imaginar que poderia reunir conhecidos e desconhecidos à mesa, juntando-os em torno de uma das minhas secretas paixões: cozinhar para os outros.

O The Therapist entrou na onda e a Shine Superfoods decidiu abraçar esta ideia, fornecendo alguns ingredientes para uma nova edição do Brunch Urbanista. Chama-se Urbanista Yoga & Brunch, junta uma aula de yoga na qual eu e a Carla Ferraz vos daremos umas dicas para integrarem a prática no vosso dia-a-dia (já esgotou, sorry!) e uma refeição que está ali entre um g’anda pequeno-almoço e um almoço saudável. Com sementes. Obviamente!

A evolução tão rápida do mundo, dos fenómenos e da tecnologia que os acelerou, tem o seu reverso nesta nova consciência que lentamente emerge, da necessidade de estarmos bem connosco, de reaprendermos a estar no escuro e em silêncio, sem notificações ou vibrações de um aparelho ubíquo, do qual nos tornámos dependentes e que está sempre connosco, onde quer que estejamos.

Saudades do Nokia 3310?

Há dez anos Donald Trump criou a sua conta no Twitter, no tempo dos 140 caracteres e, isso, explica muita coisa sobre o declínio da plataforma e do mundo, cada vez mais voltado para si e preocupado consigo mesmo, tornando um ovo no campeão mundial dos likes.

Onde estaremos em 2029?