Entre o ser e o parecer: o que dirias ao teu eu de 20 anos?

Deixem-me contar-vos uma história…

Era uma vez uma miúda que adorava recortar imagens e frases de revistas, guardava-as em pequenos cadernos e colava-as nas capas dos cadernos, transformando-os em exemplares únicos naquela escola. As amigas faziam fila para terem a capa dos seus cadernos personalizada.

Era feliz.

Depois, cresceu, apaixonou-se pela música e a comunicação, deixou de ter tempo e paciência para ler jornais e revistas, chegou ao ponto de se abstrair de tudo o que, antes, a fazia feliz e concentrou-se no que, como se costuma dizer, tinha de ser.

Um dia acordou e a vida não voltou a ser a mesma.

Afinal, não tinha de ser.

Isto para perguntar que, se tivessem de dizer alguma coisa ao vosso eu de 20 anos, saberiam o que dizer?

Há uns tempos fizeram-me uma pergunta à qual não soube responder: tive muita vergonha de dizer a verdade, com medo de parecer arrogante. Contudo, tirando essa opção de resposta, não sabia o que dizer. A pergunta era simples: o que eu gostaria que os meus netos dissessem sobre mim quando eu morresse. Eu não sabia quem era ou onde estava, quanto mais o que poderia ser dito sobre mim daí a muitos anos…

Essa questão deixou-me a pensar na importância de nos auto-definirmos de forma concreta e o impacto que isso tem na nossa vida profissional. Se o eu não estiver alinhado com o que eu faço não consigo essa definição e, consequentemente, estar bem.

Aprendi, então, a ouvir a minha voz interior e a confiar incondicionalmente na minha intuição.

Nós já temos todas as respostas, só temos de ser capazes de nos ouvir. Eu não o sabia e desconfiava. Fui sempre uma daquelas pessoas que coloca as ideias em prática que concretiza sem pensar no porquê dessa concretização. Sobretudo, sem uma visão global das coisas, aceitando o que a vida me oferecia sem questionar. Odiava a pergunta: onde queres estar daqui a cinco anos? De uma só vez, questionei tudo.

Começou, então, o drama, o horror, aquela sensação de que está tudo mal, a ideia de que caímos num buraco sem fundo e que não temos como de lá sair quando, à vista dos outros, está tudo perfeito e não há nada que justifique esse mau estar. A culpa grita mais alto e sentimo-nos a pior das pessoas por não valorizar a vida maravilhosa que temos. É um drama pessoal que poucos entendem e que faz disparar o sistema de alerta que nos coloca naquele limbo entre o “quero fazer diferente” e o medo de falhar.

O caminho foi longo, duro e tortuoso, especialmente porque se faz sozinho, de nós para nós, à vista de todos, que assistem à mudança que vai, lentamente, acontecendo. O nosso auto-julgamento é o maior boicote neste processo e só quando nos libertamos é que conseguimos desenvolver uma nova filosofia de vida, com novos valores e princípios, totalmente alinhados com a pessoa que somos e não com a pessoa que a sociedade definiu para nós.

Se acreditarmos que somos capazes, então seremos, no matter what. 

Passei a autorizar-me a acreditar que poderia parar e recomeçar, regressando às origens, onde tinha sido imensamente feliz: a rádio. No entanto, já não me servia a rádio profissional e sofisticada dos tempos modernos, eu queria voltar a desbravar caminho, a fazer coisas novas, a desafiar-me todos os dias. Desenganen-se os que pensam que para mim era fácil e todas as portas da rádio se abriam à minha passagem. Não. Criei o urbanista e fiz um podcast. Depois de voltar a provar a mim própria do que sou capaz, foi a palavra rádio que voltou a abrir-me portas e a fazer-me feliz.

Mudar é difícil. Queremos conforto e segurança, fugimos da mudança e instabilidade ao mesmo tempo que queremos, muito mudar. Mudar dá trabalho, faz-nos crescer. Crescer é um processo cheio de dúvidas, avanços e recuos que questiona, muitas vezes, o trabalho que temos ou a profissão que escolhemos, inclusivamente a pessoa que somos mas, na verdade, somos mais do que isso. Esquecemo-nos do quanto gostamos de brincar ou de um bom desafio. Preferimos o que é certo e imutável, mesmo que isso vai contra a ideia de felicidade que queremos alcançar porque, inevitavelmente, a felicidade é um estado de alma e nada mais. A sensação de estarmos limitados, quase parados, sem aprender coisas novas ou novos desafios destrói-nos por dentro e mata-nos enquanto profissionais. Torna-nos chatos e aborrecidos porque estamos aborrecidos connosco e a vida que temos, numa frustração que vai crescendo para se apoderar de nós, corrompendo a nossa auto-estima. Sabemos, principalmente,  que não estamos a ser autênticos. 

Acredito que, mais do que viver para trabalhar, ou trabalhar para (sobre)viver, o trabalho é parte integrante da nossa vida. Terá, portanto, de ser gratificante, corresponder às nossas expectativas, complementar-nos e fazer-nos crescer como pessoas. Sinto-me feliz se ajudar alguém a conseguir ser mais feliz todos os dias, porque também sinto que nos auto-limitamos constantemente: temos medo, pensamos que os que conseguem são melhores do que nós, fazem-nos acreditar que não podemos almejar mais para a nossa vida, que a vida, a nossa vida, é apenas aquilo. Na verdade, se tivesse agora vinte anos e a internet na palma das mãos, não me limitaria porque todos - todos - começaram do zero.

O que diria ao meu eu de 20 anos?

☆ Para ser autêntica, para sentir a magia que acontece quando ouvimos a nossa intuição e as palavras do coração, ignorando as frases feitas, preparadas à pressa para uma qualquer entrevista de emprego, sendo totalmente honesta comigo e o mundo.

☆ Para me concentrar no que me faz feliz, independentemente do que nos dizem que nos deverá fazer felizes, pensando sempre naquilo que me deixava contente quando era criança: as minhas brincadeiras, os meus sonhos e o meu faz de conta mas, também, as actividades às quais me dediquei por prazer para encontrar, neste prazer, uma forma de concretização profissional. Para criar o meu próprio emprego, focando-me no que é verdadeiramente importante para mim e que pode servir os outros, num contexto que respeita as minhas características enquanto pessoa.

☆ Para viajar muito, conhecer outras pessoas e culturas, perder tempo (para ganhar tempo) e não ter vergonha de afirmar que não sei, ainda, o que quero fazer para o resto da vida ou, pior, não ter medo de dizer que aquilo que quero fazer está num certo concílio dos Deuses ao qual nem todos chegam. Podemos lá chegar. Todos começam do zero.

Na altura ninguém falava disto mas eu diria ao meu eu de 20 anos para aprender a viver no momento, estar presente e deixar-me inspirar pelos pequenos pormenores do mundo e da vida.

☆ Para aceitar a minha vulnerabilidade porque não sou perfeita e não devo querer ser. Se aceitarmos a ideia de que somos imperfeitos, o processo de crescimento e aprendizagem constante fará mais sentido, da mesma forma que fará com que sejamos mais facilmente aceites pelo outro. Vivemos numa sociedade que esconde a vulnerabilidade ignorando-a quando, na verdade, os melhores momentos da nossa vida resultam da nossa vulnerabilidade (relações amorosas ou de amizade, por exemplo) e os maiores sucessos também (Adele, ring a bell?…)

☆ Para elevar as minhas competências aprendendo sempre, dedicando, também, atenção ao que entendemos como "jeito" ou seja, explorar aquelas actividades nas quais somos muito bons, mesmo que não sejam da nossa competência profissional (fotografar, cozinhar, pintar…) porque podem transformar-se numa actividade remunerada.

☆ Para nunca me esquecer do que faria durante todo o dia sem receber dinheiro por isso porque isso - isso - é o que nos faz muito felizes.

Em resumo, 6 palavras:

autenticidade

honestidade

alegria

curiosidade

lealdade

amor próprio


Agora vão, conversem com vosso eu de 20 anos e vejam o que (ainda) podem mudar…