Potenciar a amizade....

Foto:  FotoGInica

Um dia ouvi falar sobre uma pessoa. Chamavam-lhe o Noronha, num tom que misturava o respeito, a admiração, a raiva e um certo receio... Normalmente ouvia-os dizer o "cabr** do Noronha", seguido de uma frase. Fiquei anos intrigada sobre esse tal Noronha. Um dia vi-o ao longe, ao fundo do corredor, a conversar com outros membros da minha equipa e pensei que aquele era, então, o tal Noronha. Sei que o prefixo estava associado ao facto desse fulano, o Noronha, não fazer as vontades a todas as pessoas e, menos ainda, satisfazer caprichos.

Decidi não me envolver.

Nunca sei muito bem o que pensar das pessoas que me aparecem associadas a prefixos ou sufixos. Eles são sempre filhos da m**. Nunca sabemos se por serem pessoas retorcidas ou aqueles fulaninhos prontos para nos saltarem para cima se pestanejarmos duas vezes seguidas.  Elas são sempre a Maria, uma filha da P***... Também ficamos sem saber se são apenas pessoas de feitio difícil ou se, realmente…

Anos mais tarde, conheci a Noronha que, por acaso, era irmã do "tal" Noronha. Fiquei encantada por conhecer um membro da família que não trazia prefiro ou sufixo associado, e que me poderia ajudar a perceber a razão do sufixo do outro. Tudo mudou quando ela me disse que o Noronha - esse Noronha - temido ou admirado, mas nunca ignorado - lia o meu blog. Os blogues estavam na berra e o meu era relevante para um determinado grupo de pessoas…

Se o Noronha seguia, lia e gostava do blog, então concordaria comigo em muitas das questões que eu abordava. Ou seria apenas para poder criticar? Há pessoas que o fazem, seria o Noronha assim? 

Um dia conheci-o. Não percebi o prefixo... Falámos do blog. Rimos. Conversámos sobre tantas coisas que nos aproximavam e, quando dei por isso, éramos amigos. Aquelas amizades boas, genuínas, a quem podemos mandar à fava sem que se acabe o mundo, ser muito gaja e ter conversas de gajo, ou falar de cenas de gaja, como ele gosta de afirmar. Como a Noronha, também o Noronha é como um irmão mais velho, daqueles a quem não precisamos telefonar todos os dias e que, quando nos ouvem pedir socorro, correm em nosso auxílio.

Há apenas um problema entre nós: a gastronomia.

O Noronha gosta de uma boa refeição. É um bom garfo, adora pratos condimentados o que, para mim, pode ser um problema…Com ele descobri a muamba em almoços pouco requintados, bem regados e extremamente divertidos. Uma vez por mês reunia amigos à mesa com dois elementos na ementa: muamba e boa conversa. Conheci pessoas fantásticas cujo rasto não perdi, embora os almoços tenham acabado. Foi também por almoços destes que experimentei coisas que, de outra forma, jamais... O Noronha é Goês, nascido em Angola, a viver em Portugal há 40 anos. A sua história tem resultados explosivos à mesa. Tudo natural para ele, transcendental para mim. Um dia, muito tempo depois da muamba, dos almoços em que quase desfaleci no Jesus é Goês, de me sentir alcoolizada com almoços ligeiros em restaurantes tailandeses, para acalmar a intensidade dos sabores, dei por mim a partilhar um frasco de Tabasco porque precisava potenciar o sabor da carne. O Noronha riu que nem um perdido!

Eu tinha sido convertida. 

De facto, não há como uma boa refeição parapotenciar uma amizade.